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Vida do Papa São Gregório Magno e São Maximiliano de Tébessa (12 de março)

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São Gregório Magno, por Jusepe de Ribera e atribuído a Carlo Saraceni
São Gregório Magno, por Jusepe de Ribera e atribuído a Carlo Saraceni

O Papa Gregório I, com mais justiça chamado “Magno”, o primeiro Papa que foi monge, ascendeu à cátedra apostólica quando a Itália se encontrava em uma condição deplorável, como consequência das lutas entre os ostrogodos e o imperador Justiniano, que terminaram com a derrota e morte de Totila, no ano 562. Roma era a que mais havia sofrido: em século e meio foi saqueada quatro vezes e conquistada outras tantas em vinte anos, sem que ninguém se tivesse ocupado em restaurar os danos ocasionados pelo saque, pelo fogo e pelos terremotos. São Gregório escreveu sobre essa situação, por volta do ano 593:


“Nós vemos no que se tornou aquela que antes foi senhora do mundo. Abatida pelas imensas e múltiplas desgraças que sofreu... ruínas sobre ruínas por toda parte... Onde está o Senado? ... Onde está o povo? ... Nós, os poucos que restamos, estamos ameaçados todos os dias pela espada e por incontáveis provações... Roma deserta está em chamas...”


A família que já havia dado à Igreja dois Papas, Agapito I e Félix III, bisavô de Gregório, era uma das poucas famílias patrícias que ainda restavam em Roma. Pouco se sabe de Gordiano, o pai de Gregório, além de que possuía extensas propriedades na Sicília, assim como uma casa na colina Célio; sua esposa Sílvia é reconhecida como santa no Martirológio Romano. Gregório parece ter recebido a melhor educação daquele tempo e ter escolhido a carreira de funcionário público. No ano 568, uma nova calamidade caiu sobre a Itália: a primeira invasão lombarda. Três anos depois, as hordas bárbaras aproximaram-se de Roma e espalhou-se o alarme. Gregório, aos trinta anos de idade e com muita da prudência e energia que o caracterizariam, exerceu o mais elevado cargo civil: o de prefeito da cidade, um posto no qual conquistou o respeito e a estima dos romanos, desenvolvendo seu apreço pela ordem na administração dos negócios. Embora Gregório cumprisse fiel e honradamente suas funções, havia muito tempo se sentia chamado a uma vocação superior, até que finalmente resolveu afastar-se do mundo e consagrar-se ao serviço de Deus. Era um dos homens mais ricos de Roma, mas deixou tudo para recolher-se em sua casa no distrito de Clivius Scauri, transformando-a em mosteiro sob o patrocínio de Santo André e colocando-a aos cuidados de um monge chamado Valêncio, a quem Gregório qualificou em seus escritos como “o superior do meu mosteiro e de mim mesmo”. Os poucos anos que o santo passou em seu retiro foram os mais felizes de sua vida, embora o excesso de seus jejuns lhe trouxesse complicações gástricas, que originaram a doença que o atormentou pelo resto de sua vida.


São Gregório Magno, Papa, por Francisco Goya
São Gregório Magno, Papa, por Francisco Goya

Não era possível que um homem com o prestígio e o talento de São Gregório permanecesse na obscuridade em tempos tão agitados, e não tardaram em ordená-lo sétimo diácono da Igreja Romana para enviá-lo como “apocrisiário” papal ou embaixador à corte bizantina. O contraste entre a magnificência de Constantinopla e a condição miserável de Roma não podia deixar de impressionar o santo; mas ele achava fatigante a etiqueta da corte e repugnantes as intrigas. Tinha a grande desvantagem de não saber grego e cada vez mais se entregou a uma vida de retiro juntamente com vários monges de Santo André que o acompanhavam. Em Constantinopla conheceu São Leandro, bispo de Sevilha, com quem travou uma amizade para toda a vida e, a pedido de quem começou um comentário sobre o Livro de Jó, que mais tarde terminou em Roma e que geralmente é conhecido como seu “Moralia”. A maioria das datas na vida de São Gregório é incerta, mas provavelmente foi no início do ano 586 quando Pelágio II o chamou a Roma. Reinstalou-se imediatamente em seu posto de diácono em seu mosteiro de Santo André, do qual logo se tornou abade; parece que esse período é aquele a que se refere a famosa história contada pelo Venerável Beda, baseada em uma antiga tradição inglesa.


São Gregório caminhava um dia pelo mercado quando percebeu três meninos de cabelos loiros e pele branca que estavam expostos para serem vendidos como escravos. O santo interessou-se por sua nacionalidade. “São anglos (ou angli)” foi a resposta. “Seu nome é apropriado”, disse o santo, “porque têm rostos de anjo e é preciso ser assim para gozar da companhia dos anjos no Céu”. Quando soube que eram pagãos, perguntou de que província vinham. “Deira”, responderam — “De ira!” exclamou São Gregório. “Sim; certamente foram salvos da ira de Deus e chamados à misericórdia de Cristo. Como se chama o rei desse país?”“Aella”“Então o aleluia deve ser cantado na terra de Aella”. Ficou tão profundamente impressionado pela beleza das criaturas e tão comovido por sua ignorância de Cristo, que resolveu pregar o Evangelho na Bretanha e partiu imediatamente com vários de seus monges. Entretanto, quando o povo romano soube de sua partida, levantou tais protestos que o Papa Pelágio mandou emissários para fazê-lo regressar.


São Gregório Magno. Não anglos, mas anjos, se forem cristãos (Non Angli sed Angeli si Christiani), na Catedral de Westminster, Londres
São Gregório Magno. Não anglos, mas anjos, se forem cristãos (Non Angli sed Angeli si Christiani), na Catedral de Westminster, Londres

Todo o episódio foi declarado apócrifo pelos historiadores modernos, pois não se comprovou sua evidência. Assinalam que Gregório nunca mencionou o incidente e, além disso, que mesmo em seus escritos mais triviais não demonstra gosto por jogos de palavras. Contudo, a primeira parte da história — a cena no mercado — pode ser verdadeira; as pessoas às vezes fazem jogos de palavras em conversas familiares, abstendo-se disso quando escrevem e, parece lógica a admiração de São Gregório pela pele branca e pelos cabelos loiros das crianças inglesas. No que não pode haver discussão é no fato de que Gregório se interessou profundamente pela missão de Santo Agostinho na Inglaterra.


As Missas Gregorianas pelos defuntos têm sua origem neste período. Justo, um dos monges que estava doente, confessou ter guardado três coroas de ouro e o abade proibiu severamente aos irmãos ter contato com ele e visitá-lo em seu leito de morte. Quando morreu, foi excluído do cemitério dos monges e enterrado em um monturo junto com as peças de ouro. Contudo, como morreu arrependido, o abade ordenou que se oferecessem missas durante trinta dias pelo repouso de sua alma e temos o próprio testemunho de São Gregório de que, ao término desse período, a alma do falecido apareceu a Copioso, seu irmão natural, assegurando-lhe que havia estado atormentada, mas que agora se encontrava livre.


Enquanto isso, em Roma sucediam-se as calamidades: às frequentes inundações causadas pelo transbordamento do Tibre seguiu-se uma terrível epidemia de peste que dizimou a população e, no ano 590, tirou a vida do Papa Pelágio. O povo escolheu Gregório como novo Pontífice e o santo, como primeira medida para acabar com a peste, organizou uma grandiosa procissão litúrgica pelas ruas de Roma. De sete igrejas da cidade saíram as pessoas para reunir-se em Santa Maria Maior. São Gregório de Tours, baseando-se nos relatos de uma testemunha, descreveu assim a procissão:


“Havia sido organizada para durar na quarta-feira, mas prolongou-se durante três dias sucessivos: as colunas caminhavam pelas ruas cantando o ‘Kyrie eleison’, enquanto a peste ainda estava em seu auge; enquanto o povo caminhava, havia alguns que iam morrendo. Gregório lhes infundia coragem, falando-lhes sem cessar para pedir-lhes que não deixassem de rezar”.


A Missa de São Gregório Magno, por Adriaen Isenbrandt
A Missa de São Gregório Magno, por Adriaen Isenbrandt

A fé da população foi recompensada, porque depois daquele ato a peste diminuiu rapidamente até desaparecer. Assim nos informam os escritores contemporâneos, mas nenhum historiador menciona a aparição do Arcanjo Miguel brandindo sua espada no topo do mausoléu de Adriano enquanto passava a procissão, como afirma a lenda. Contudo, essa fábula foi ganhando força crescente e o povo acabou aceitando o fato como real, a ponto de que, para comemorá-lo, ergueram sobre o mausoléu de Adriano a estátua do arcanjo que, até hoje, coroa a torre do castelo de Sant’Angelo, chamado assim em honra de São Miguel desde o século X.


Embora Gregório desde então se dedicasse a assistir seus concidadãos, suas inclinações seguiam na direção de uma vida de contemplação e não tinha nenhuma intenção de ser Papa, se pudesse evitá-lo: escreveu ao imperador Maurício pedindo-lhe que não confirmasse a eleição; mas, segundo nos conta São Gregório de Tours: “Enquanto se preparava para fugir e esconder-se, foi detido e levado à Basílica de São Pedro e ali foi consagrado para o cargo pontifício; foi apresentado como Papa ao público que o aclamava”. Isso ocorreu em 3 de setembro de 590.


A correspondência trocada com João, arcebispo de Ravena, que modestamente o censurou por tentar evitar o cargo, levou Gregório a escrever a Regula Pastoralis, um livro sobre as funções episcopais. Nele reconhece o bispo como o primeiro e principal médico das almas, cujas obrigações primordiais são catequizar e fazer cumprir a disciplina. A obra obteve sucesso imediato e o imperador Maurício mandou que fosse traduzida para o grego por Anastácio, patriarca de Antioquia. Mais tarde, Santo Agostinho levou-a à Inglaterra, onde 300 anos depois foi traduzida pelo rei Alfredo; nos concílios convocados por Carlos Magno, o estudo do livro tornou-se obrigatório para todos os bispos, que recebiam um exemplar ao serem consagrados. Os ideais de Gregório tornaram-se, desde então, os do clero do Ocidente e continuaram a ser inculcados aos bispos nos tempos modernos.


Desde o momento em que assumiu o cargo de Papa, impôs a si mesmo o duplo dever de catequizar e manter a disciplina. Rapidamente destituiu o arquidiácono Laurêncio, o eclesiástico mais importante de Roma, “cujo orgulho e mau comportamento seria melhor manter em silêncio”, como diz a antiga crônica. Em seu lugar, designou um “vice dominus” para vigiar os assuntos seculares da casa papal, ordenou que apenas clérigos fossem designados para o serviço do Papa, proibiu a cobrança injusta de taxas por enterros em igrejas, por ordenações ou por conferir o pálio e não permitiu aos diáconos dirigir a parte cantada da Missa, a menos que fossem escolhidos mais por suas vozes do que por seu caráter. Também como pregador destacou-se São Gregório. Gostava de pregar durante a Missa, escolhendo de preferência temas do Evangelho do dia e, até nós, chegaram algumas de suas homilias, cheias de eloquência e bom senso, terminadas com um ensinamento moral que podia adaptar-se a cada caso.


São Gregório Magno com Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier, por Guercino
São Gregório Magno com Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier, por Guercino

Nas instruções a seu vigário na Sicília e aos supervisores de seu patrimônio, Gregório insistia constantemente em um tratamento mais generoso para com seus vassalos e camponeses; aconselhava que se facilitasse dinheiro àqueles que estivessem em dificuldades. De fato foi um excelente administrador da Sé Pontifícia: todos os súditos estavam satisfeitos com o que lhes cabia na distribuição de bens e ainda entrava dinheiro no tesouro. Depois de sua morte, acusaram-no de ter deixado os cofres vazios a seus sucessores, mas suas generosas caridades — que chegaram a tomar a forma de uma assistência estatal — salvaram talvez da fome milhares naquele período de tanta pobreza. Utilizou grandes somas para resgatar prisioneiros dos lombardos; elogiou a atitude do bispo de Fano que arrancou as lâminas de ouro dos altares para vendê-las e obter dinheiro para os resgates e recomendou aos demais prelados que fizessem o mesmo. Diante da ameaça de escassez de trigo, encheu os celeiros de Roma e manteve uma lista regular dos pobres aos quais se distribuía periodicamente o grão. Às “damas em decadência” dispensava uma consideração especial. Seu senso de justiça manifestou-se em seu trato suave para com os judeus, a quem protegia contra ataques pessoais ou contra suas sinagogas. Declarou que não se devia obrigá-los, mas conquistá-los pela humildade e pela caridade. Quando os hebreus de Cagliari, na Sardenha, se queixaram de que sua sinagoga havia sido ocupada por um judeu convertido que a transformara em igreja, São Gregório ordenou que fosse restituída a seus legítimos proprietários.


Desde o início de seu pontificado, o santo teve de enfrentar as agressões dos lombardos, que desde Pavia, Espoleto e Benevento faziam incursões em diversas partes da Itália. Não se podia obter ajuda alguma de Constantinopla ou do exarca de Ravena e coube a Gregório, o homem forte, não apenas organizar a defesa de Roma, mas também prestar ajuda a outras cidades. Quando em 593 Agilulfo apareceu diante dos muros de Roma com um exército lombardo, provocando pânico geral, não saiu para encontrar-se com o rei lombardo apenas o prefeito civil ou o chefe militar, mas também o Vigário de Cristo. Tanto por sua personalidade e prestígio quanto pela promessa de pagar um tributo anual, Gregório levou o rei lombardo a retirar seu exército e deixar a cidade em paz. Durante nove anos lutou em vão para chegar a um acordo entre o imperador bizantino e os lombardos; Gregório então procedeu por conta própria a negociar um tratado com o rei Agilulfo e obteve um armistício especial para Roma e seus distritos vizinhos. Mas somente os últimos dias da vida de São Gregório foram alegrados pelas notícias do restabelecimento da paz. Sem dúvida foi um alívio para o santo poder afastar seu pensamento do mundo agitado para concentrá-lo em seus escritos. Por volta do fim de 593 publicou seus célebres Diálogos, um dos livros mais lidos na Idade Média. Trata-se de uma coleção de relatos, profecias e milagres extraídos da tradição e expostos de tal maneira que mostram os esforços dos fiéis italianos para alcançar a santidade. As histórias eram transmitidas de boca em boca por pessoas que, em muitos casos, tinham sido testemunhas dos fatos. Os métodos de São Gregório não são críticos e o leitor atual frequentemente se sente desiludido quanto à credibilidade dos relatos. Os escritores modernos perguntaram-se se os Diálogos poderiam ser obra de uma pessoa tão equilibrada como São Gregório, mas as evidências a favor de sua autoria parecem conclusivas; além disso, devemos recordar que aquela era uma época de credulidade e que qualquer coisa extraordinária era imediatamente elevada ao nível do sobrenatural.


De toda a sua obra religiosa no Ocidente, a que estava mais próxima de seu coração era a conversão da Inglaterra e o êxito que coroou seus esforços nessa direção foi, para ele — como necessariamente é para os ingleses — o maior triunfo de sua vida. Qualquer que seja a verdade sobre os anglos e sua história, parece mais provável que a primeira tentativa de enviar uma missão tenha partido da própria Inglaterra. Isso se deduz de duas cartas de São Gregório que ainda se conservam. Ao escrever aos reis francos Thierry e Teodeberto, disse:


“Temos notícias de que a nação dos anglos deseja ardentemente ser convertida à fé; mas os bispos das regiões vizinhas não fazem caso (de seu desejo piedoso) e se recusam a atendê-lo enviando sacerdotes”.


Gravura de São Gregório Magno, por I.A. Marlinet
Gravura de São Gregório Magno, por I.A. Marlinet

A Brunilda escreveu quase nos mesmos termos. Os bispos mencionados eram provavelmente os do norte da França e não os ingleses galeses ou escoceses. Em relação a esse problema, a primeira medida do Papa foi ordenar a compra de vários escravos ingleses, sobretudo jovens de 17 ou 18 anos, com o objetivo de educá-los cristãmente para o serviço de Deus. Mesmo assim, não eram eles a quem queria confiar inicialmente a obra de conversão. De seu próprio mosteiro de Santo André selecionou um grupo de quarenta missionários, aos quais colocou sob as ordens de Santo Agostinho. Não é necessário voltar a relatar a história dessa missão, pois ela será tratada em 26 de maio. Podemos dizer, com o Venerável Beda: “Se Gregório não é apóstolo dos demais, é-o para nós, pois somos o selo de seu apostolado diante do Senhor”.


Durante quase todo o seu pontificado, São Gregório esteve em conflito com Constantinopla, às vezes com o imperador, outras com o patriarca e ocasionalmente com ambos. Protestou sempre contra os tributos injustos dos funcionários bizantinos, cujas impiedosas extorsões reduziram os camponeses italianos à miséria; protestou também diante do imperador por um édito que proibia aos soldados abraçar a vida religiosa. Com João, o Jejuador, patriarca de Constantinopla, manteve uma correspondência mordaz sobre o título de ecumênico ou universal que o hierarca havia assumido. Significava apenas uma autoridade geral ou superior de um arcebispo sobre muitos, mas o uso do título “Patriarca Ecumênico” parecia dar lugar à arrogância e Gregório o ressentia. Por sua parte, embora fosse um dos mais ativos defensores da dignidade papal, preferia atribuir a si mesmo o orgulhosamente humilde título de “Servus Servorum Dei” (Servo dos servos de Deus, título que seus sucessores ainda conservam). Em 602, o imperador Maurício foi deposto por uma revolta militar chefiada por Focas, que assassinou o idoso imperador e sua família. Ter escrito uma carta, em termos diplomáticos, a esse cruel usurpador foi o único ato que expôs o Papa a críticas hostis.


A carta fala principalmente da esperança de que a paz fosse assegurada. Pelo interesse de seu povo indefeso, não convinha a Gregório lançar acusações. Em seus treze anos de pontificado, Gregório realizou o trabalho de toda uma vida. Seu diácono, Pedro, assegurou que ele nunca descansava e, de fato, não se poupava, embora sofresse de uma gastrite crônica que lhe causava muito sofrimento e o deixou reduzido aos ossos; mas o Papa não se concedia repouso e, apesar de seus males, continuou ditando cartas e atendendo aos assuntos da Igreja até o fim. Uma de suas últimas ações foi enviar uma grossa coberta a um bispo pobre que sofria de um resfriado. São Gregório foi enterrado em São Pedro e o epitáfio em sua tumba diz assim: “Depois de ter realizado suas obras conforme às suas doutrinas, o grande cônsul de Deus foi gozar de seus triunfos eternos”.


Os Quatro Doutores da Igreja Ocidental. São Gregório Magno, por Gerard Seghers
Os Quatro Doutores da Igreja Ocidental. São Gregório Magno, por Gerard Seghers

A São Gregório atribui-se a compilação do Antifonário, a revisão e reorganização do sistema de música sacra, a fundação da famosa Schola cantorum de Roma e a composição de vários hinos muito conhecidos. Embora esses méritos lhe tenham sido discutidos, certamente exerceu grande influência na liturgia romana. Mas sua verdadeira obra projeta-se em outras direções. É venerado como o quarto Doutor da Igreja Latina por ter dado expressão clara a certas doutrinas religiosas que ainda não haviam sido bem definidas. Durante vários séculos, sua palavra foi considerada a última em teologia, embora fosse mais pregador popular, catequista e moralista do que teólogo. Talvez sua maior obra tenha sido o fortalecimento da Sé Romana. Como escreve o anglicano Milman em sua History of Latin Christianity: É impossível conceber qual seria a confusão, a falta de leis e o estado caótico da Idade Média sem o papado daquela época e, deste, o verdadeiro pai é Gregório Magno”. Não sem razão a Igreja lhe concedeu o título, raramente atribuído, de Magnus, “Magno/Grande”.


Como já foi dito, o rei Alfredo, o Grande, fez uma tradução da Regula Pastoralis e deu um exemplar a cada um de seus bispos; acrescentou-lhe um prefácio e um epílogo escritos por ele, assim como alguns versos anglo-saxões dos quais se pode ter uma ideia com a seguinte tradução em prosa:


Esta mensagem foi trazida por Agostinho através do mar salgado, desde o sul até as ilhas, conforme o Papa de Roma, o Campeão do Senhor, havia decretado previamente. O sábio Gregório era versado em muitas doutrinas verdadeiras, pela sabedoria de sua mente e pelo tesouro de suas contínuas meditações. Porque se destacou entre os homens até alcançar o guardião do Céu (São Pedro); foi o melhor dos romanos, o mais sábio de todos, o mais gloriosamente famoso. Posteriormente, o rei Alfredo traduziu cada palavra para o inglês e enviou-me aos seus amanuenses do sul e do norte, e ordenou que fossem feitos ainda mais exemplares, além do primeiro, para enviá-los aos seus bispos, pois muitos que sabiam pouco latim precisavam dele.


As próprias cartas e escritos de São Gregório são as fontes de informação mais fidedignas para a história de sua vida, mas também possuímos uma breve biografia em latim de um monge de Whitby, que provavelmente data do início do século VIII; outra do diácono Paulo, do final do mesmo século; e uma terceira do diácono João, escrita entre 872 e 882. Temos também notícias valiosas em Gregório de Tours, Beda e outros historiadores, especialmente no Liber Pontificalis. Para as cartas de São Gregório deve-se consultar a edição do P. Ewald e L. M. Hartmann em MGH. Uma biografia moderna e valiosa, dentro de uma pequena coleção, é a de Mons. Batiffol na série Les Saints. Ver também o Acta Sanctorum, março, vol. II; Lives of the Popes, vol. I, de Mann; Life of St. Gregory the Great, de Snow; Histoire de l’Église, vol. V (1938), de Fliche e Martin; e, entre os escritores anglicanos, o cuidadoso trabalho do Dr. J. H. Dudden, St. Gregory the Great (1905). A literatura sobre o assunto é muito vasta. Ver bibliografias em DAC e DTC.1




São Maximiliano de Tébessa
São Maximiliano de Tébessa

A paixão de São Maximiliano é um dos mais valiosos documentos de uma pequena coleção. É o relato autêntico de um contemporâneo, sem adornos retóricos, do julgamento e morte de um dos primeiros mártires. Desenvolve-se como segue:


“Durante o consulado de Tuscus e Anulinus, em 12 de março, em Teveste, Numídia, (1) compareceram diante do tribunal Fábio Víctor e Maximiliano. O juiz, Pompeiano, abriu o caso com estas palavras: “Fábio Víctor está diante do comissário do César, Valeriano Quintiano. Exijo que Maximiliano, filho de Víctor, conscrito apropriado para o serviço, seja medido”.


O procônsul Dion perguntou ao jovem por seu nome e ele respondeu: “Que sentido tem responder? Não posso ser inscrito nas listas, pois sou cristão”. O procônsul não lhe deu atenção e ordenou que medissem sua estatura. Mas o jovem insistiu: “Não posso servir; não posso fazer mal a ninguém. Sou cristão”. O procônsul repetiu a ordem e o oficial informou que Maximiliano media 1,75 m. Então o procônsul disse que se lhe deveria dar o emblema militar, mas Maximiliano persistia: “Nunca! Não posso ser soldado”.


Dion: Deves servir ou morrer.


Maximiliano: Nunca servirei. Podem decapitar-me, mas não serei um soldado deste mundo, pois sou um soldado de Cristo. (2)


Dion: De onde tiraste essas ideias?


Maximiliano: Da minha consciência e d’Aquele que me chamou.


Dion: (A Fábio Víctor): Corrige teu filho.


Víctor: Ele tem suas ideias e não mudará.


Dion: (A Maximiliano): Sê um soldado e aceita o emblema do imperador. (3)


Maximiliano: Nunca. Já levo comigo a marca de Cristo, meu Senhor.


Dion: Enviar-te-ei a teu Cristo imediatamente.


Maximiliano: Não posso pedir nada melhor. Faze-o logo, pois lá está a minha glória.


Dion (ao oficial de recrutas): Dai-lhe o emblema.


Maximiliano: Não o aceitarei. Se tu insistes, tirarei dele a efígie do imperador. Sou cristão e não me é permitido portar no pescoço esse emblema, pois já levo o sagrado sinal de Cristo, o Filho do Deus vivo, a quem tu não conheces, o Cristo que sofreu por nossa salvação e a quem Deus nos entregou para que morresse por nossos pecados. É a Ele que todos nós, cristãos, servimos, é a Ele que seguiremos, pois Ele é o Senhor da Vida e o Autor da nossa salvação.


Dion: Junta-te ao serviço e aceita o emblema, ou então perecerás miseravelmente.


Maximiliano: Não perecerei: meu nome já está desde agora diante de Deus. Recuso-me a servir.


Dion: És um homem jovem e a profissão das armas convém à tua idade. Sê um soldado.


Maximiliano: Meu exército é o de Deus e não posso lutar por este mundo; como te digo, sou cristão.


Dion: Há soldados cristãos a serviço de nossos soberanos Diocleciano e Maximiano, Constantino e Galério.


Maximiliano: Isso é problema deles. Eu também sou cristão e não posso servir.


Dion: Mas que mal podem fazer os soldados?


Maximiliano: Tu o sabes muito bem.


Dion: Se não fizeres teu serviço, condeno-te à morte por desacato ao exército.


Maximiliano: Não morrerei. Se partir deste mundo, minha alma irá com Cristo, meu Senhor.


Dion: Anotem seu nome... Tua rebeldia faz com que recuses o serviço militar e serás castigado por isso para exemplo dos demais. Procedeu então a ler a sentença:


Dion: Maximiliano recusou o juramento militar por rebeldia. Deverá ser decapitado.


Maximiliano: Louvado seja Deus!


Maximiliano tinha vinte e um anos, três meses e dezoito dias de idade. A caminho do lugar da execução, falou aos cristãos: “Amados irmãos, apressai-vos em alcançar a visão de Deus e merecer uma coroa como a minha, com todas as vossas forças e com o mais profundo desejo”. Estava radiante. Depois dirigiu-se a seu pai: “A túnica que me tinhas preparado para quando eu fosse soldado, dá-a ao lictor. O fruto desta boa obra será multiplicado cem vezes. Deixa-me que te receba no Céu e glorifique a Deus contigo!”


Ao primeiro golpe foi decapitado.


Uma matrona chamada Pompeia obteve o corpo de Maximiliano e o levou em sua liteira a Cartago, onde o sepultou perto do de São Cipriano, não longe do palácio.


Víctor voltou para sua casa regozijando-se, agradecendo ao Senhor por lhe permitir enviar tal presente ao Céu. Não demorou muito em seguir seu filho. Amém.”


O texto da “paixão” está no Acta Sanctorum, março, vol. II, e Acta Sincera, de Ruinart. Veja-se Histoire des Persécutions, de Allard, vol. IV; Les Passions des martyrs, de Delehaye, pp. 104–110. No século III, o exército romano era formado principalmente por voluntários, mas os filhos dos veteranos tinham a obrigação de servir. A recusa de São Maximiliano a essa obrigação ocasionou controvérsias entre certos escritores (por exemplo Paul Allard); os pontos de vista da Igreja primitiva sobre o serviço militar podem ser examinados convenientemente (sem que seja necessário aceitar todas as suas conclusões) na obra do escolástico protestante Dr. C. J. Cadoux, The Early Christian Attitude to War. Cf. São Victrício (7 de agosto) e São Martinho de Tours (11 de novembro). No Martirológio Romano, São Maximiliano é chamado Maximilianus e, erroneamente, considera-se Roma como o lugar de seu martírio.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 53l-537.

2. Ibid. pp. 537-539.



Notas:


(1) Hoje Tebessa, na Argélia. Crê-se que isso seja um erro de cópia e que o martírio tenha ocorrido em algum lugar perto de Cartago. Cf. o penúltimo parágrafo.


(2) Foi a insistência dos primeiros cristãos em serem soldados de Cristo que deu origem à palavra “pagão”: paganus — civil. Cf. Shorter Oxford Dictionary, edição de 1936. Originalmente, paganus significava “civil”, isto é, alguém que não pertence ao exército (miles). Como os cristãos se viam como membros do “exército de Cristo, o termo passou gradualmente a designar aqueles que não pertenciam à comunidade cristã, adquirindo o sentido de “pagão” ou não cristão.


(3) Um selo de chumbo (bulla) que se levava ao redor do pescoço. Cf. o atual documento de identidade.



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- Santo Afonso MARIA
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