Vida de São Gregório de Tours e São Gregório Taumaturgo (17 de novembro)
- Sacra Traditio

- 17 de nov.
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Teodoro, que mais tarde mudou seu nome para Gregório e recebeu o sobrenome de “o Taumaturgo” por seus milagres, nasceu em Neoceareia do Ponto. Seus pais pertenciam à nobreza e eram pagãos. Quando Gregório tinha catorze anos, seu pai morreu. O jovem continuou sua carreira em leis. A irmã de Gregório fez uma viagem a Cesareia da Palestina para se reunir com seu esposo, que exercia ali um cargo oficial. Nessa viagem acompanharam-na Gregório e seu irmão Atenodoro, que mais tarde foi bispo e sofreu muito por causa da fé. Pouco antes, Orígenes, estabelecido em Cesareia, havia ali aberto uma escola. Desde a primeira entrevista que teve com Gregório e com seu irmão, Orígenes percebeu que ambos possuíam boas aptidões para os estudos e inclinações para a virtude, e por isso sentiu-se impulsionado a infundir-lhes o amor pela verdade e o desejo de alcançar o soberano bem do homem. Fascinados pelas palavras de Orígenes, os jovens renunciaram ao projeto de prosseguir seus estudos de leis na escola de Beirute e ingressaram na escola de Orígenes. Gregório faz justiça a seu mestre, pois afirma que ele os guiava pelo caminho da virtude, não só com suas palavras, mas também com seu exemplo. Afirma também que lhes inculcou a ideia de que em todas as coisas o importante é conhecer a primeira causa, com o que os orientou para a teologia. Orígenes fê-los ler tudo quanto os filósofos e os poetas haviam escrito sobre Deus, fazendo-os perceber o que havia de falso e de verdadeiro em cada um, e enfatizando-lhes a impotência da mente humana para alcançar a plenitude da verdade no terreno mais importante, que é o da religião. Os dois irmãos acabaram por se converter plenamente ao cristianismo e prosseguiram seus estudos sob a direção de tão excelente mestre durante vários anos. No ano 238 regressaram à sua pátria. Antes de separar-se de Orígenes, Gregório agradeceu-lhe num discurso pronunciado ante um numeroso auditório, no qual louvou os métodos do mestre e a prudência com que os havia guiado nos estudos, além de dar detalhes muito interessantes sobre a pedagogia de Orígenes. Conserva-se também uma carta de Orígenes a seu discípulo, na qual chama Gregório de seu “respeitado filho” e o exorta a empregar em serviço da religião os talentos que havia recebido de Deus; aconselha-o também a aproveitar todos os elementos da filosofia pagã que pudessem servir para esse fim, como os judeus aproveitaram os despojos dos egípcios para construir o tabernáculo do verdadeiro Deus.
Gregório tinha a intenção de exercer a advocacia em sua pátria; mas pouco depois de sua chegada foi eleito bispo de Neoceareia, embora na cidade houvesse então apenas dezessete cristãos. Sabemos muito pouco sobre o longo episcopado do santo. É certo que São Gregório de Nissa, no panegírico de seu homônimo, dá muitos dados sobre os milagres que lhe valeram o sobrenome de “o Taumaturgo”, mas está comprovado que a maioria é lendária. Seja como for, Neoceareia era então uma cidade rica e populosa, na qual reinavam a idolatria e o vício. São Gregório, consumido pelo zelo e pela caridade, entregou-se energicamente ao cumprimento de seus deveres pastorais, e Deus lhe concedeu um dom extraordinário de milagres. São Basílio diz que,
“com a ajuda do Espírito Santo, tinha um poder formidável sobre os maus espíritos. Em certa ocasião, secou um lago que era causa de disputas entre dois irmãos. Sua capacidade de predizer o futuro elevava-o à altura dos profetas. Os milagres que realizava eram tão notáveis que amigos e inimigos o consideravam como um novo Moisés.”

Pouco depois de tomar posse da sede, São Gregório foi alojar-se na casa de Musônio, um personagem importante da cidade, que o havia convidado a viver com ele. Nesse mesmo dia, o santo começou a pregar e, antes de cair a noite, já havia convertido um número suficiente de pessoas para formar uma pequena igreja. No dia seguinte, muitos enfermos comprimiam-se diante da porta da casa de Musônio, aos quais Gregório devolveu a saúde e converteu ao cristianismo. Logo os cristãos tornaram-se tão numerosos que Gregório pôde construir uma igreja, pois todos colaboraram para a obra com suas esmolas e seu trabalho. Em nosso artigo de 11 de agosto referimos como conseguiu São Gregório que Alexandre, o Carvoeiro, fosse eleito bispo de Comana. A prudência e o tato de São Gregório moviam as pessoas a consultá-lo sobre questões civis e religiosas e, nesse sentido, foram muito úteis ao santo seus estudos de leis. São Gregório de Nissa e seu irmão São Basílio souberam por sua avó, Santa Macrina, o que se dizia do Taumaturgo, já que a santa havia vivido, quando pequena, em Cesareia, mais ou menos na época da morte de São Gregório.
São Basílio afirma que a vida do Taumaturgo refletia a sublimidade do fervor evangélico. Em suas práticas de devoção mostrava grande reverência e recolhimento, e jamais orava com a cabeça coberta. Amava a simplicidade e a modéstia nas palavras: o “sim” e o “não” constituíam a medula de suas conversas. Aborrecia a mentira e a falsidade; em suas palavras, assim como em sua conduta, jamais havia a menor sombra de cólera ou de amargura.
Quando estalou a perseguição de Décio, no ano 250, São Gregório aconselhou os cristãos a esconderem-se para não se exporem ao perigo de perder a fé. Ele retirou-se ao deserto, acompanhado por um antigo sacerdote pagão, que havia convertido e feito seu diácono. Os perseguidores souberam que ele se havia refugiado em certa montanha e enviaram um pelotão de soldados para buscá-lo, mas estes retornaram sem a presa e disseram que só haviam encontrado árvores. Então, o homem que havia indicado o lugar onde São Gregório estava escondido dirigiu-se ao bosque e encontrou o santo com seu companheiro, entregues à oração. Ao ver aqueles homens santos, compreendeu que Deus devia protegê-los e que Ele fizera com que os soldados os confundissem com as árvores. Assim, aquele que havia denunciado os cristãos converteu-se ao cristianismo.
À perseguição seguiu-se uma epidemia, e à epidemia uma invasão dos godos, de modo que não é de se estranhar que São Gregório tenha tido pouco tempo para escrever se, em tais circunstâncias, devia dedicar-se às suas tarefas pastorais. Ele mesmo descreve as dificuldades de seu ministério na “Carta Canônica”, que escreveu por ocasião dos problemas suscitados pela invasão dos bárbaros. Conta-se que o santo organizava divertimentos nos dias das Festas dos mártires e que isso contribuiu para atrair os pagãos e popularizar as reuniões religiosas entre os cristãos. Além disso, certamente o santo estava convencido de que também as diversões sadias, além das práticas religiosas, constituíam uma forma de venerar os mártires.
De qualquer modo, São Gregório é, pelo que sabemos, o único missionário que empregou os mencionados métodos nos três primeiros séculos, e deve-se notar que era um grego muito culto.

Pouco antes de sua morte, São Gregório fez investigações para saber quantos infiéis restavam ainda na cidade e, ao saber que só havia dezessete, exclamou cheio de alegria: “Graças sejam dadas a Deus! Quando cheguei a esta cidade, não havia mais que dezessete cristãos.” Depois de orar pela conversão dos infiéis e pela santificação dos que já criam no verdadeiro Deus, pediu a seus amigos que não o sepultassem em um lugar distinto, pois havia vivido no mundo como peregrino sem buscar a si mesmo e queria também compartilhar da sorte das pessoas comuns depois da morte. Segundo se diz, as relíquias do santo foram trasladadas a um mosteiro bizantino da Calábria. De qualquer modo, no sul da Itália e na Sicília ele é venerado especialmente e invocado contra terremotos e inundações, em lembrança da forma milagrosa como deteve as águas transbordadas do rio Lico.
Os dados que possuímos sobre o santo são muito pouco satisfatórios, se excluirmos o que o próprio Gregório conta de suas relações com Orígenes e as alusões ocasionais que se encontram nos escritos de São Basílio, São Jerônimo e Eusébio. São Gregório de Nissa, em seu panegírico, relata muitos milagres, mas fala muito pouco da vida do santo. Por outro lado, a biografia grega (cujo melhor texto é o de Acta Martyrum de Bedjan, vol. VI, 1896, pp. 83-106) é ainda menos fidedigna. Existem além disso uma biografia armênia e uma latina, ambas de pouco valor. Veja-se Ryssel, Gregorius Thaumaturgus, sein Leben und seine Schriften (1880); Funk, em Theologische Quartalschrift (1898), pp. 81 ss.; Journal of Theological Studies (1930), pp. 142-155. Há um artigo valioso de M. Jugie sobre os sermões atribuídos a São Gregório em Analecta Bollandiana, vol. XI (1925), pp. 86-95; o autor prova claramente que muitas das atribuições carecem de fundamento, mas inclina-se a aceitar a autenticidade dos sermões que se conservam em armênio, embora rejeite o que F. C. Conybare traduziu para o inglês em Expositor (1896), parte 1, pp. 161-173. Contudo, os críticos admitem geralmente a autenticidade do panegírico de Orígenes, do tratado sobre o Credo, da epístola canônica e do estudo dedicado a Teopompo; este último só se conserva em siríaco. A maior parte dos escritos publicados em Migne, PG., vol. X, é certamente espúria, ou ao menos suspeita. Veja-se Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Literatur, vol. II, pp. 315-332.1

O mais conhecido dos bispos da antiga diocese de Tours, depois de São Martinho, foi Jorge Florêncio, que mais tarde tomou o nome de Gregório. Nasceu no ano 538, em Clermont-Ferrand. Pertencia a uma distinta família da Auvérnia, pois era bisneto de São Gregório de Langres e sobrinho de São Galo de Clermont, ao cuidado de quem foi confiado quando ficou órfão de pai. Galo morreu quando Gregório tinha dezessete anos. O jovem escapou de uma perigosa enfermidade e decidiu consagrar-se ao serviço de Deus. Desde então, começou a estudar a Sagrada Escritura sob a direção de São Avito II, em Clermont, onde recebeu a ordenação sacerdotal. No ano 573, por desejo do rei Sigeberto I e de todo o povo de Tours, foi eleito para suceder no governo da sede a São Eufrônio.
Era aquela uma época muito turbulenta em toda a Gália e particularmente em Tours. Ao cabo de três anos de guerra, a partir da eleição de São Gregório, a cidade caiu nas mãos do rei Quilperico, que não tinha nenhuma simpatia pelo bispo, de modo que este teve de enfrentar um inimigo poderoso. Em aberta oposição ao mandato da madrasta de Meroveu, filho de Quilperico, São Gregório lhe deu asilo no santuário e, além disso, teve a coragem de apoiar São Pretextato de Ruão, a quem Quilperico convocou a julgamento por haver abençoado o matrimônio de Meroveu com Brunilda, sua tia política. Pouco depois, Gregório interveio na confiscação das terras do condado de Tours, que estavam em posse de um homem indigno chamado Leudástio. Este o acusou de deslealdade política diante do rei e de haver caluniado a rainha Fredegunda.

São Gregório compareceu diante de um concílio, mas a sinceridade com que jurou ser inocente e a dignidade de sua conduta levaram os bispos a pô-lo em liberdade e a castigar Leudástio por seu falso testemunho. Quilperico, como tantos outros monarcas de seu tempo, se considerava teólogo. Nesse ponto, São Gregório teve também conflitos com ele, porque não podia dissimular que Quilperico era um mau teólogo e que a forma como expressava suas ideias era ainda pior. Quilperico morreu no ano 584. Tours caiu primeiro nas mãos de Guntramo da Borgonha e depois nas de Childeberto II; ambos soberanos trataram Gregório amigavelmente, e ele pôde dedicar-se tranquilamente a escrever e administrar sua diocese.
Sob o governo de São Gregório, a fé e as boas obras aumentaram em Tours. O santo reconstruiu sua catedral, assim como outras igrejas, e soube atrair à fé e à unidade muitos hereges, apesar de não ser um grande teólogo. São Odão de Cluny louva sua humildade, seu zelo pela religião e sua caridade para com todos, especialmente para com seus inimigos. Atribuíram-se-lhe em vida vários milagres, que ele atribuía, por sua vez, à intercessão de São Martinho e outros santos, cujas relíquias levava sempre consigo.
Embora São Gregório tenha sido um dos bispos merovíngios mais ativos, atualmente é lembrado sobretudo como historiador e hagiógrafo. Sua “História dos francos” é uma das fontes principais da história primitiva da monarquia francesa, que nos fornece muitos dados sobre seu autor. Menos valiosas do ponto de vista histórico são outras obras suas, como os tratados “Sobre a glória dos mártires” e sobre outros santos, “Sobre a glória dos confessores” e “Sobre as vidas dos Padres.” Segundo o costume de seu tempo, o santo narra extensamente os milagres e outros fatos maravilhosos e, só de vez em quando, deixa ver seu espírito crítico. Nesse sentido, o juízo de Alban Butler é muito moderado: “Em suas nutridas coleções de milagres”, diz Butler, “parece dar crédito às lendas populares com demasiada frequência.”

O que sabemos sobre a vida de São Gregório de Tours deriva principalmente de suas obras. Venâncio Fortunato e certas crônicas da época fornecem alguns dados suplementares. Existe uma biografia de São Gregório (Migne, PL., vol. LXXXI, cc. 115-128), mas data do século X e tem pouco valor por si mesma. Muito se tem escrito sobre Gregório de Tours, mas menos do ponto de vista hagiográfico do que do literário. Uma das obras mais notáveis nesse aspecto é a de G. Kurth, Histoire poétique des Mérovingiens (1893). Veja-se também Études Franques (1919) do mesmo autor; L. Halphen, em Mélanges Lot (1925), pp. 235-244; B. Krusch, em Mitheilungen Inst. Oester. Geschichte (1931), pp. 486-490; DAC., vol. VI, cc. 1711-1753; e Delehaye, Les Recueils des Miracles des Saints, em Analecta Bollandiana, vol. XLIII (1925), pp. 305-325. A melhor edição das obras de Gregório é a de Krusch e Levison, em MGH., Scriptores Merov., vol. I, parte 1 (1937-51). Há um interessante artigo de Harman Grisewood em Saints and Ourselves (1953), pp. 25-40.2
Referência:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 359-361.
2. Ibid. pp. 365-366.


























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