Festa da Cátedra de São Pedro e a Vida de São Papias e Santa Margarida de Cortona (22 de fevereiro)
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Com frequência se ouve falar das prerrogativas da “coroa”, do herdeiro, do “trono”, etc. Nessas expressões a insígnia régia simboliza o ofício. Exatamente a mesma metonímia se emprega em matéria eclesiástica: “Sede” significa “cátedra”, de modo que “Santa Sé” quer dizer “Santa cátedra”. A palavra cátedra é de origem grega e significa exatamente o lugar ocupado por um mestre autorizado para o ensino. Assim, quando se fala de uma decisão “ex cathedra” do Papa, trata-se de uma decisão na qual o Sumo Pontífice fala como mestre universal da Igreja. Discutiu-se muito se a origem da comemoração da “cátedra de São Pedro” provém da veneração que se tributava na Igreja primitiva à cátedra material na qual se sentava o Apóstolo ou se, desde o princípio, tratava-se de uma glorificação do ofício pontifício conferido a São Pedro e a seus sucessores pela consagração. No artigo de 18 de janeiro fizemos menção da antiga cadeira gestatória ou “cátedra de São Pedro”, que se encontra na abside da basílica de Roma. De Rossi sustenta que a festa de 22 de fevereiro tinha como fim específico a veneração dessa relíquia; contudo, o mesmo autor assinala a expressão de São Gregório Magno: “o óleo da cátedra que São Pedro ocupava em Roma”, que parece referir-se ao azeite das lâmpadas que se acendiam diante de um trono de pedra no cemitério Ostriano, onde São Pedro costumava batizar. De Rossi relaciona essa relíquia com a festa de 18 de janeiro. Não é impossível que as duas festas se originem realmente nessa tradição, mas atualmente quase todos os autores negam que a celebração da cátedra de São Pedro tenha algo a ver com um objeto material, baseando-se nos vigorosos argumentos de Mons. Duchesne, de Marucchi e outros. Como observa Duchesne, por antigo que seja o trono que se encontra no Vaticano, a primeira menção que se faz dele data de 1217. “Pedro Malio, que descreveu a basílica de São Pedro (1159-1181), não diz uma palavra sobre ele; e, dado que tende a estender-se sobre todas as relíquias da basílica, seu silêncio prova que não se venerava então a cátedra material do Apóstolo”. Por outro lado, as coletas e leituras antigas da celebração litúrgica deixam ver que o objeto principal da festa era a glorificação do ofício de São Pedro.
No artigo de 18 de janeiro explicamos que, originalmente, não existia senão uma festa, a de 22 de fevereiro, e que não se referia a Antioquia, mas mais provavelmente ao início do pontificado de São Pedro em Roma. O certo é que o calendário filocaliano, onde aparece uma lista das festas litúrgicas que se celebravam em Roma no ano 354, ou talvez desde o ano 336, menciona a festividade do “natale Petri de cathedra”, isto é, da cátedra de São Pedro, já que naquela época a palavra latina “natale” havia passado a significar “aniversário”. Assim, é absolutamente certo que em meados do século IV, poucos anos depois da morte do imperador Constantino, a Igreja de Roma celebrava uma festa relacionada com a consagração e o ofício pastoral de São Pedro. O que é discutível é que essa festa tivesse algo a ver com Antioquia, pois o calendário de São Wilibrordo (c. 704 d.C.), que fala da “Cathedra Petri in Antiochia”, é muito posterior. Além disso, no “Hieronymianum” de Auxerre, que data do século VI, a “Cathedra Petri in Roma” parece relacionar-se com 18 de janeiro; mas as liturgias galicanas, ou pelo menos a maioria delas, preferem 22 de fevereiro, embora sem mencionar Antioquia.

Um dos elementos mais importantes da questão é o fato de que os pagãos celebravam, em 22 de fevereiro, a comemoração dos mortos. Essa celebração chamava-se “Feralia” ou “Parentalia” devido ao costume de levar pão às tumbas dos parentes falecidos. Contudo, é difícil determinar plenamente a data da celebração e, embora Ovídio fale das Feralia de 18 de fevereiro, a expressão que usa (“parentales dies”) significa que a celebração durava vários dias. Por outro lado, alguns documentos antigos falam antes de 21 de fevereiro. Como indica Kellner, durante as Parentalia “não se celebravam matrimônios, os templos permaneciam fechados, e os magistrados se despojavam das insígnias de seu cargo.” À comemoração dos mortos seguia-se, em 22 de fevereiro, a festa dos parentes vivos, chamada “Charistia” ou “Cara Cognatio”. Esta última celebração não fazia parte da liturgia oficial..., “mas era extremamente popular e mais enraizada nos costumes do que qualquer outra das festas”. Isso nos leva a supor que a instituição da festa da cátedra de São Pedro teve originalmente a finalidade de substituir os ritos pagãos (cf. o artigo de 1º de janeiro, em relação com a celebração do Ano Novo, e a festa da Purificação, que substituiu as Robigalia e as Lupercalia). Não faltam documentos que confirmam essa hipótese. Por exemplo, o calendário de Polemio Silvio, compilado na Gália por volta do ano 448, diz em 22 de fevereiro:
“A deposição dos Santos Pedro e Paulo; outrora se fazia menção da ‘cara cognatio’ ou queridos parentes, porque no momento em que se celebra os mortos, devem-se esquecer todas as diferenças que podem existir entre parentes”.
Essa frase parece indicar claramente que a festa de São Pedro e São Paulo que se celebrava nesse dia havia sido introduzida para substituir a celebração pagã da Charistia. Provavelmente a celebração litúrgica variava pouco, ainda que em algumas partes fosse conhecida com o nome de “a cátedra de São Pedro em Roma” e em outras com o nome de “a deposição dos Santos Pedro e Paulo”; em ambos os casos tratava-se da glorificação das prerrogativas da Santa Sé.
Uma demonstração surpreendente da vitalidade das superstições pagãs é o fato de que, em meados do século XII, a festa de 22 de fevereiro era ainda chamada “o dia do banquete de São Pedro”.
“O liturgista Beleth, a quem devemos essa informação, parece ter sido inglês, embora tenha passado grande parte de sua vida na França e se refira provavelmente a esse país. Depois de explicar que as duas festas da cátedra de São Pedro caem perto da septuagésima, Beleth nos informa que a celebração da cátedra de Antioquia, isto é, a de fevereiro, era a mais solene e se conhecia vulgarmente com o nome de ‘festum Petri epularum’ ou ‘banquete de São Pedro’. Porque, continua o autor, ‘os pagãos da antiguidade costumavam levar grande quantidade de alimentos às tumbas de seus parentes num dia do mês de fevereiro; os demônios faziam desaparecer esses alimentos durante a noite, embora os pagãos acreditassem firmemente no absurdo de que essas viandas aproveitavam às almas dos mortos que vagueavam entre as sepulturas. Foi muito difícil arrancar essas superstições quando os pagãos se converteram ao cristianismo. Vendo isso, alguns homens de Deus instituíram as festas da cátedra de São Pedro em Roma e em Antioquia, coincidindo com as datas em que se celebravam essas abominações pagãs, a fim de acabar completamente com essa prática odiosa. Em memória dos ricos manjares que outrora se levavam aos mortos, a festa começou a chamar-se “o dia do banquete de São Pedro’.”

É evidente, portanto, que as alusões aos costumes funerários dos pagãos estão relacionadas com a festa de 22 de fevereiro. O que é mais difícil de explicar é a duplicação da festa. Várias hipóteses foram apresentadas a esse respeito: a mais plausível é a de Mons. Duchesne: como a celebração de 22 de fevereiro caía frequentemente dentro da Quaresma, não era possível observá-la com grande pompa. Assim, “nas regiões do rito galicano, onde se considerava a Quaresma incompatível com a veneração dos santos, resolveu-se a dificuldade transferindo a festa para uma data anterior”. Provavelmente escolheu-se o 18 de janeiro, por ser o primeiro dia em que pode cair o domingo da Septuagésima; evidentemente, se se tivesse escolhido o 17 de janeiro, ter-se-ia evitado que a celebração da cátedra de São Pedro coincidisse ainda com a Septuagésima, mas não é difícil que tenha havido um pequeno erro de cálculo, pois, embora a Septuagésima possa cair em 18 de janeiro, isso é raríssimo. A última vez que ocorreu foi em 1818 e não voltará a acontecer senão no ano 2285. Por outro lado, o “Hieronymianum” parece ter transferido para 18 de janeiro uma festa de Nossa Senhora, pela mesma razão. Tudo isso nos leva a supor que a festa da conversão de São Pedro era originalmente uma espécie de oitava da celebração da cátedra de São Pedro. Não esqueçamos que Polemio Silvio chama esta última de “Depositio SS. Petri et Pauli”, o que indica que estava relacionada com os dois Apóstolos.
O que desconcerta é constatar que, embora a festa da cátedra de São Pedro tenha começado a ser celebrada em Roma desde muito cedo, durante um período desapareceu do calendário romano. Nos sacramentários gregoriano e gelasiano e no antifonário romano não se faz menção dela. As Igrejas da África e do Oriente nunca a adotaram. Em Monte Cassino e em Nápoles não existem indícios de que se tenha celebrado essa festa. Talvez as festividades pagãs das Parentalia e da Charistia tenham desaparecido em Roma antes do século VI, embora continuassem a ser celebradas na Gália. Nesse caso, como a festa da cátedra de São Pedro já havia cumprido sua finalidade e como, por outro lado, podia interferir com a nova organização das estações quaresmais, não é impossível que tenha sido suprimida em Roma. O certo é que não foi suprimida na Gália e que, embora em alguns lugares tenha sido transferida para 18 de janeiro, a maioria dos calendários conservou a data primitiva de 22 de fevereiro. Para explicar a duplicação da festa, alguém apresentou a hipótese de que a celebração de 18 de janeiro comemorava o início do pontificado de São Pedro em Roma, enquanto a de 22 de fevereiro se referia a Antioquia, já que nos séculos IV e V a tradição insistia particularmente na relação entre São Pedro e essa cidade. A Gália acolheu com entusiasmo a duplicação da festa e Roma deve tê-la adotado mais tarde. Seria um caso paralelo ao das Rogativas, que se originaram na Gália e depois foram adotadas em Roma, e ao de tantas outras práticas litúrgicas.
Ver Cabrol, em DAC., vol. III, pp. 76-90; Duchesne, Origines du culte chrétien, pp. 279-280; Kellner, Heortology (1908), pp. 301-308; De Rossi, em Bullettino di archeologia cristiana, 1867, p. 38. Ver igualmente Belethus, Rationale div. off., em Migne, PL., vol. CCII, cc. 9 ss.; pseudo-Agostinho, em Migne, PL., vol. XXXIX, c. 2102; G. Morin, em Revue Bénédictine, vol. XI, pp. 343-346; GMH., p. 109.1

Não se sabe muito sobre a vida de Papias. Os detalhes que apresenta Eusébio (Hist. eccl., vol. III, c. XXXX) deixam o leitor um pouco perplexo pela falta de precisão e por algumas apreciações contraditórias.
Era originário da Frígia e nasceu poucos anos antes de Policarpo (por volta de 69). Segundo o testemunho de Santo Irineu, foi discípulo de São João e amigo de Policarpo. No entanto, no prefácio de sua obra, Papias diz que não viu nem ouviu os Apóstolos. Diz, isso sim, que recebeu os ensinamentos da fé daqueles que os haviam conhecido. Eusébio afirma que o santo escreveu as seguintes frases:
“Para ti, leitor, não hesitarei em acrescentar o que aprendi dos presbíteros, cuja lembrança conservei fielmente, para confirmar a verdade de minhas explicações. Eu não me agradava dos que falavam belamente, mas dos que ensinavam a verdade. Não amava os que traziam mandamentos estranhos, mas os que transmitiam os preceitos impostos pelo Senhor à nossa fé, nascidos da própria verdade. Quando me encontrava com algum dos que haviam vivido em companhia dos presbíteros, procurava saber o que eles haviam dito, o que disseram André, ou Pedro, ou Filipe, ou Tomé, ou Tiago, ou João, ou Mateus, ou algum outro dos discípulos do Senhor. Não acreditava encontrar no que está nos livros algo que me fosse tão proveitoso quanto as coisas expressas por uma palavra que permanecia viva”.
É bom notar, acrescenta Eusébio, que Papias menciona dois personagens chamados João: coloca em primeiro lugar um João junto com os nomes de Pedro, Tiago, Mateus e o restante dos Apóstolos: trata-se do evangelista, a quem indica com toda clareza. Em seguida introduz uma distinção e coloca o segundo João entre outro grupo que não é o apostólico. Coloca-o depois de Aristion e positivamente lhe dá o nome de presbítero, homem da geração que o precedia. Assim, ficaria confirmada a afirmação dos que defendem a existência de dois homens chamados João na Ásia, e de que existem em Éfeso dois túmulos que ainda levam esse nome.
Papias reconhece ter recebido a doutrina dos Apóstolos por meio daqueles que conviveram com eles. Por outra parte, diz que foi ouvinte direto de Aristion e de João, o presbítero. Estas são as fontes de onde tomou o que nos deixou em seus escritos: mistura elementos provenientes — segundo diz — de uma tradição oral, parábolas estrangeiras, narrativas completamente fabulosas, por exemplo, a propósito do milenarismo. É muito provável, escreveu Dom J. Chapman, que Papias possuísse um Novo Testamento com os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as principais epístolas de São Paulo, o Apocalipse, as epístolas de São João e a primeira epístola de São Pedro.
Ignora-se como morreu Papias. Alguns, baseando-se no que diz a Crônica Pascal, acreditaram que sofreu o martírio em Pérgamo, em 163. Mas essa data parece ser muito posterior à que geralmente lhe é atribuída. Além disso, a passagem de Eusébio (Hist. eccl., vol. IV, c. XV, n. 46) não se aplica a Papias.
As opiniões equivocadas de Papias não impediram que fosse comumente reconhecido como santo. Assim o qualifica São Jerônimo; contudo, os martirológios não mencionam seu nome senão a partir do século IX: é citado por Adão e Usuardo. Alguns o situam no dia 17 de maio. O Martirológio Romano o menciona em 22 de fevereiro.
Além de Eusébio, já citado, consultar São Jerônimo, De scriptoribus ecclesiasticis.— Acta sanct., 22 de fevereiro, com um comentário histórico.— Tillemont, Mémoires pour servir..., vol. II, p. 296.— J. Chapman, Le temoignage de Jean le Presbyter em Rev. bénéd., vol. XXII, 1905, p. 357.2

A antifona do “Benedictus” no ofício de Santa Margarida de Cortona chama-a “a Madalena da Ordem Seráfica”. Em um de seus colóquios com a santa, o Senhor lhe diss: “Tu és a terceira luz que dei à ordem do meu amado Francisco. Ele foi a primeira, entre os frades; Clara foi a segunda, entre as religiosas; tu serás a terceira para dar exemplo de penitência”.
Margarida era filha de um modesto agricultor de Laviano, na Toscana. Teve a desgraça de perder a mãe aos sete anos de idade. A segunda esposa de seu pai (com quem ele se casou dois anos após ficar viúvo) era uma mulher dominadora que não suportava a vivacidade e as travessuras da enteada. Nada tem de estranho que Margarida, que era bela e necessitava sentir-se amada, tenha cedido com facilidade às propostas de um jovem cavaleiro que a convidou a fugir com ele para seu castelo, enganando-a com a promessa de um futuro de luxo e amor. O jovem prometeu casar-se com ela, mas não cumpriu sua palavra, e Margarida foi sua amante durante nove anos, com grande escândalo da população, especialmente quando a jovem passeava pelas ruas de Montepulciano em um soberbo cavalo, vestida como uma princesa. Contudo, Margarida não parece ter sido nunca a mulher abandonada a todos os vícios, como mais tarde se descreveu a si mesma. Foi fiel ao seu amante, de quem teve um filho e a quem exortava frequentemente a legitimar sua união. Apesar de sua aparente leviandade, Margarida às vezes se entristecia pela vida de pecado que levava. Um dia, seu amante saiu para visitar uma de suas propriedades e não regressou. Margarida o esperou angustiada toda a noite e, no dia seguinte, o cão que acompanhava o cavaleiro voltou sozinho. Margarida lançou uma capa sobre os ombros e seguiu o cão através do bosque até o pé de uma azinheira; ali o animal começou a escavar e Margarida descobriu, horrorizada, o corpo mutilado de seu amante, que havia sido assassinado, lançado em um poço e coberto com folhas.

Vendo nisso o dedo de Deus, Margarida arrependeu-se de sua vida de pecado. Depois de devolver aos parentes de seu amante todos os bens (exceto alguns objetos de adorno, que vendeu para repartir o valor entre os pobres), abandonou Montepulciano, vestida com uma túnica de penitência e levando pela mão seu filhinho. Assim apresentou-se em sua casa para pedir perdão; mas seu pai, mal aconselhado pela esposa, recusou-se a recebê-la. Margarida encontrava-se à beira do desespero quando teve a inspiração de ir pedir ajuda aos Frades Menores de Cortona, cuja bondade para com os pecadores havia ouvido mencionar. Ao chegar a Cortona, não sabia a quem se dirigir; seu aspecto triste chamou a atenção de duas damas, Marinana e Raneria, que lhe perguntaram se podiam ajudá-la. A santa contou-lhes sua história e explicou por que havia ido a Cortona. As duas damas conduziram-na com seu filho à própria casa e depois a colocaram em contato com os franciscanos, que a acolheram e se tornaram seus pais em Cristo. Margarida teve de lutar durante três anos contra a tentação, pois seu corpo ainda não estava submetido ao espírito. Nessa luta ajudaram-na muito dois franciscanos: João de Castiglione e Giunta Bevegnati. Este último era seu confessor habitual e mais tarde escreveu a “lenda” da santa. Os dois frades a dirigiram sabiamente em seus períodos de entusiasmo e abatimento, serenando-a nos primeiros e animando-a nos segundos. Nos primeiros tempos de sua conversão, Margarida foi, em um domingo, à Missa em Laviano, sua cidade natal, com uma corda amarrada ao pescoço e pediu publicamente perdão pelo escândalo que havia dado. Quis também atravessar as ruas de Montepulciano com aquele sinal de penitência, mas frei Giunta a proibiu, dizendo-lhe que isso não convinha a uma mulher e que seria para ela ocasião de orgulho espiritual. Contudo, mais tarde permitiu-lhe ir, em um domingo, pedir perdão por seus pecados. Frei Giunta proibiu igualmente que mutilasse o rosto, como pretendia fazer, e moderou as excessivas austeridades da santa. “Padre — disse-lhe Margarida certa vez —, não me peçais que faça pacto com meu corpo, porque é impossível. Meu corpo e eu estaremos em constante luta até o dia de minha morte”.

Margarida começara a ganhar a vida servindo na casa das damas da cidade; mas logo renunciou a isso para dedicar-se à oração e ao cuidado dos pobres. Deixando a casa das damas que a haviam acolhido, foi viver em uma pequena choupana de um bairro afastado, onde se sustentava com as esmolas das pessoas do lugar. Quando recebia algum prato melhor, dava-o aos pobres; para si e para seu filho guardava apenas as sobras. Essa aparente falta de ternura para com o filho em uma mulher tão bondosa com os outros pode parecer estranha, mas provavelmente constituía uma nova forma de mortificar a si mesma. Após três anos dessa vida, as tentações cessaram e a santa alcançou um nível mais alto de espiritualidade, quando começou a compreender, por experiência própria, o amor que Cristo tinha por sua alma. Margarida havia pedido admissão na Terceira Ordem de São Francisco; finalmente convencidos da sinceridade de sua conversão, os frades permitiram-lhe tomar o véu. Pouco depois, o filho de Margarida foi estudar na escola de Arezzo, onde permaneceu até ingressar na ordem franciscana. Desde o momento em que passou a pertencer à ordem, Margarida começou a progredir rapidamente na oração e chegou a uma comunhão muito íntima com Jesus Cristo. Os êxtases eram frequentes e o Salvador tornou-se o tema dominante de sua vida. Frei Giunta conservou-nos alguns dos colóquios da santa com o Senhor, bem como a descrição de algumas de suas visões; mas observa que a santa tinha repugnância em falar disso até mesmo com seu confessor e só o fazia quando Deus lhe ordenava ou quando temia ser vítima de alguma ilusão.
Nem todas as comunicações celestes que Margarida recebeu diziam respeito a ela mesma. Em certa ocasião recebeu a ordem de exortar o bispo Guilherme de Arezzo à conversão e a que deixasse de fazer guerra à diocese de Cortona. O bispo, que era turbulento e mundano, ficou, contudo, impressionado com o aviso da santa e pouco depois fez as pazes com Cortona. O povo atribuiu esse fato à mediação de Margarida. Em 1289, Margarida tentou novamente evitar a guerra entre o bispo e os guelfos, mas dessa vez não teve êxito. Guilherme de Arezzo morreu dez anos depois da batalha. Entretanto, antes de sua morte, o bispo havia feito um grande benefício a Margarida e à cidade de Cortona, pois em 1286 concedera à santa autorização escrita para organizar de modo permanente a assistência aos doentes e aos pobres. Ao que parece, Margarida os assistia a princípio em sua própria choupana; mas mais tarde algumas mulheres se uniram a ela, uma das quais, chamada Diabela, lhe doou uma casa para que a transformasse em hospital. Margarida conquistou o apoio do principal cidadão de Cortona, Uguccio Casali, e este persuadiu o Conselho da cidade a ajudar a santa a construir o hospital de Santa Maria da Misericórdia. As enfermeiras eram terciárias franciscanas, formadas por Margarida em uma congregação com estatutos especiais; o povo as chamava de “pobrezinhas”. Margarida fundou também a confraria de Nossa Senhora da Misericórdia, cujo objetivo era sustentar o hospital e procurar e assistir os doentes.

Com o passar dos anos, Margarida entregava-se cada vez mais à penitência. Passava quase toda a noite em oração e contemplação; dormia no chão; alimentava-se com um pouco de pão e verduras, e não bebia senão água; vestia uma camisa de crinas e aplicava a si mesma sangrentas disciplinas por seus próprios pecados e pelos alheios. Apesar das extraordinárias graças que Deus lhe concedeu, teve de suportar tremendas provas durante a vida. Uma delas chegou inesperadamente, oito anos antes da morte da santa. Desde o princípio, havia em Cortona algumas pessoas que duvidavam da sinceridade de Margarida, e todas as manifestações de fervor da santa não haviam bastado para convencê-las. Essas mesmas pessoas começaram a difundir calúnias sobre suas relações com os franciscanos, especialmente com frei Giunta, e conseguiram despertar tais suspeitas no povo, que a veneração que este lhe tinha transformou-se em desprezo, como se se tratasse de uma mulher louca e hipócrita. Os próprios frades se deixaram influenciar pelas calúnias; proibiu-se a frei Giunta que visitasse a santa e, em 1289, ele foi enviado por seus superiores a Siena. Os franciscanos haviam interpretado mal o fato de que a santa, procurando viver mais retirada por ordem divina, tivesse se mudado no ano anterior para uma choupana mais afastada do convento. Segundo conta frei Giunta, seus irmãos, vendo que a saúde de Margarida piorava cada vez mais, temiam que não lhes fossem confiadas as relíquias da santa após sua morte. Margarida suportou com serenidade e mansidão todas essas provas e consagrou-se, com maior intensidade do que nunca, à oração. Desse modo Deus a conduzia à perfeição.

Algum tempo antes da morte da santa, o Senhor lhe disse: “É preciso que demonstres que te converteste realmente... As graças que derramei sobre ti não são apenas para ti”. Obediente à voz de Deus, Margarida dedicou-se com todas as forças a combater o vício e a converter os pecadores, e teve grande êxito nessa tarefa. Os tíbios voltavam a frequentar os sacramentos, os pecadores faziam penitência e as contendas entre cristãos desapareciam. Frei Giunta conta que a fama das conversões se espalhou rapidamente e que pecadores endurecidos acorriam a Cortona para ouvir as exortações da santa, não só de todas as partes da Itália, mas também da França e da Espanha. A intercessão da santa operou igualmente numerosas curas, e o povo de Cortona, que já havia esquecido suas antigas suspeitas, recorria a ela em todas as dificuldades. Por fim, as forças de Margarida começaram a enfraquecer rapidamente, e Deus lhe revelou a data e a hora de sua morte. Recebeu os últimos sacramentos das mãos de frei Giunta e morreu aos cinquenta anos de idade, depois de vinte anos de penitência. Foi aclamada como santa no próprio dia de sua morte e, naquele mesmo ano, os cidadãos de Cortona começaram a construir uma igreja em sua honra. Embora só tenha sido formalmente canonizada em 1728, a diocese de Cortona e a Ordem Seráfica já haviam obtido, dois séculos antes, permissão para celebrar sua festa. Da igreja original, construída por Nicolau e João Pisano, resta apenas uma janela. Na igreja atual, de estilo muito simples, encontra-se o corpo de Margarida sob o altar-mor, e uma estátua da santa com seu cão, obra de João Pisano.
A principal fonte histórica sobre a vida de Santa Margarida é a lenda de Frei Giunta Bevegnati. É provável que o manuscrito 61 do convento de Santa Margarida de Cortona tenha sido corrigido pelo próprio autor. Ver o texto em Acta Sanctorum, fevereiro, vol. II. Existem também edições mais recentes de Ludovico de Pélago (1793) e E. Cirvelli (1897). Ver igualmente Cuthbert, A Tuscan Penitent (1907); Leopold de Chérancé, Marguerite de Cortone (1927); M. Nuti, Margherita da Cortona: la sua legenda e la storia (1923); F. Mauriac, Margaret of Cortona (1948), e outra vida em francês, escrita por R. M. Pierazzi (1947).3
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 391-394.
2. Ibid. pp. 394-395.
3. Ibid. pp. 396-399.






















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