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Vida de São Francisco Xavier e São Lúcio da Bretanha (3 de dezembro)





“Retrato de São Francisco Xavier”, por Joaquín Sorolla y Bastida.
“Retrato de São Francisco Xavier”, por Joaquín Sorolla y Bastida.

Cristo confiou a seus Apóstolos a missão de ir pregar a todas as nações. Em todas as épocas, Deus suscitou e encheu de seu Espírito divino homens dispostos a continuar essa árdua missão. Enviados com a autoridade e em nome de Cristo pelos sucessores dos apóstolos no governo da Igreja, esses homens conduziram ao redil de Cristo todas as nações, com o propósito de completar o número dos santos. Entre os missionários que mais êxito tiveram nessa tarefa, conta-se o ilustre São Francisco Xavier, a quem Pio X nomeou Patrono Oficial das Missões Estrangeiras e de Todas as Obras Relacionadas com a Propagação da Fé. Francisco Xavier foi, sem dúvida, um dos maiores missionários que já existiram. A esse propósito, vale a pena citar, entre outros, o surpreendente testemunho de Sir Walter Scott: “O protestante mais rígido e o filósofo mais indiferente não podem negar que soube reunir o valor e a paciência de um mártir com o bom senso, a decisão, a agilidade mental e a habilidade do melhor negociador que jamais tenha ido em qualquer embaixada.” Francisco nasceu em Navarra, perto de Pamplona, no castelo de Xavier, em 1506. Sua língua materna era, portanto, o basco. O futuro santo era o caçula da família. Aos dezoito anos, foi estudar na Universidade de Paris, no colégio de Santa Bárbara, onde, em 1528, obteve o grau de licenciado. Aí conheceu Inácio de Loyola, à cuja influência resistiu a princípio. Contudo, foi um dos sete primeiros jesuítas que se consagraram ao serviço de Deus em Montmartre, em 1534. Juntamente com eles recebeu a ordenação sacerdotal em Veneza, três anos mais tarde, e com eles compartilhou as vicissitudes da nascente Companhia. Em 1540, Santo Inácio enviou Francisco Xavier e Simão Rodrigues à Índia. Essa foi a primeira expedição missionária da Companhia de Jesus.


Francisco Xavier chegou a Lisboa no fim de junho. Imediatamente, foi reunir-se com o Pe. Rodrigues, que morava em um hospital onde se ocupava de assistir e instruir os enfermos. Xavier hospedou-se também ali e ambos costumavam sair para instruir e catequizar na cidade. Passavam os domingos ouvindo confissões na corte, pois o rei João III os tinha em grande estima. Essa foi a razão pela qual o Pe. Rodrigues teve de permanecer em Lisboa. Também São Francisco Xavier se viu obrigado a ficar ali oito meses e foi então que escreveu a Santo Inácio: “O rei ainda não está decidido a enviar-nos à Índia, porque pensa que aqui poderemos servir ao Senhor tão eficazmente quanto lá.” Antes da partida de Xavier, que teve lugar no dia 7 de abril de 1541, data de seu trigésimo quinto aniversário, o rei lhe entregou um breve pelo qual o Papa o nomeava núncio apostólico no Oriente. O monarca não conseguiu que ele aceitasse como presente mais do que algumas roupas e alguns livros. Tampouco quis Xavier levar consigo algum criado, alegando que “a melhor maneira de alcançar a verdadeira dignidade é lavar as próprias roupas sem que ninguém o saiba.” Com ele partiram para a Índia o Pe. Paulo de Camerino, que era italiano, e Francisco Mansilhas, um português que ainda não havia recebido as ordens sagradas. Em uma afetuosa carta de despedida que o santo escreveu a Santo Inácio, dizia-lhe, a propósito deste último, que possuía “uma bagagem de zelo, virtude e simplicidade, mais do que de ciência extraordinária”.


Retrato japonês de São Francisco Xavier da primeira metade do século XVII, Museu Municipal de Kobe
Retrato japonês de São Francisco Xavier da primeira metade do século XVII, Museu Municipal de Kobe

Francisco Xavier partiu no navio que transportava o governador da Índia, Dom Martim Afonso de Sousa. Outros quatro navios completavam a frota. Na nave do almirante, além da tripulação, havia passageiros, soldados, escravos e condenados. Francisco encarregou-se de catequizar a todos. Aos domingos pregava ao pé do mastro principal do navio. Além disso, transformou seu camarote em enfermaria e dedicou-se a cuidar de todos os doentes, apesar de que, no início da viagem, os enjôos também lhe causaram grande sofrimento. Entre a tripulação e os passageiros havia pessoas de toda espécie, de modo que Xavier teve de intervir em brigas, combater a blasfêmia, o jogo e outras desordens. Logo se desencadeou a bordo uma epidemia de escorbuto, e apenas os três missionários se encarregavam do cuidado dos doentes. A expedição navegou cinco meses para dobrar o Cabo da Boa Esperança e chegar a Moçambique, onde se deteve durante o inverno; depois seguiu pela costa oriental da África e fez escala em Malindi e em Socotorá. Por fim, dois meses depois de ter partido deste último porto, a expedição chegou a Goa, em 6 de maio de 1542, ao fim de três meses de viagem (isto é, o dobro do tempo normal). São Francisco Xavier estabeleceu-se no hospital até a chegada de seus companheiros, cujo navio havia se atrasado.


Goa era colônia portuguesa desde 1510. Havia ali um número considerável de cristãos, e a organização eclesiástica era composta por um bispo, o clero secular e regular, e várias igrejas. Desgraçadamente, muitos dos portugueses haviam-se deixado arrastar pela ambição, pela avareza, pela usura e pelos vícios, a ponto de esquecer completamente que eram cristãos. Os sacramentos haviam caído em desuso; fora de Goa havia, no máximo, quatro pregadores, e nenhum deles era sacerdote; os portugueses usavam o rosário para contar o número de açoites que mandavam dar a seus escravos. A conduta escandalosa dos cristãos, que viviam em aberta oposição à fé que professavam e assim afastavam da fé os infiéis, foi uma espécie de desafio para São Francisco Xavier.


“A Visão de São Francisco Xavier”, por Erasmus Quellinus, o Jovem.
“A Visão de São Francisco Xavier”, por Erasmus Quellinus, o Jovem.

O missionário começou por instruir os portugueses nos princípios da religião e formar os jovens na prática da virtude. Depois de passar a manhã assistindo e consolando os doentes e os presos, em hospitais e prisões miseráveis, percorria as ruas tocando uma pequena campainha para chamar as crianças e os escravos ao catecismo. Estes acorriam em grande número, e o santo lhes ensinava o Credo, as orações e a maneira de praticar a vida cristã. Todos os domingos celebrava a Missa para os leprosos, pregava aos cristãos e aos hindus e visitava as casas. Sua amabilidade e sua caridade para com o próximo lhe granjearam muitas almas. Um dos excessos mais comuns era o concubinato dos portugueses de todas as classes sociais com as mulheres do país, visto haver em Goa pouquíssimas cristãs portuguesas. Tursellini, autor da primeira biografia de São Francisco Xavier, publicada em 1594, descreve com viveza os métodos que o santo empregou contra esse abuso. Por eles, pode-se ver o tato com que soube Xavier pregar a moral cristã, demonstrando que ela não contraria nem o senso comum nem os instintos verdadeiramente humanos. Para instruir os pequenos e os ignorantes, o santo costumava adaptar as verdades do cristianismo à música popular, método que obteve tal êxito que, pouco depois, as canções por ele compostas eram cantadas tanto nas ruas quanto nas casas, nos campos como nas oficinas.


Cinco meses mais tarde, Xavier soube que nas costas da Pescaria, que se estendem em frente ao Ceilão desde o Cabo Comorim até a ilha de Manar, habitava a tribo dos paravas. Estes haviam aceitado o batismo para obter a proteção dos portugueses contra os árabes e outros inimigos; mas, por falta de instrução, conservavam ainda as superstições do paganismo e praticavam seus erros.[a] Xavier partiu em auxílio dessa tribo que “apenas sabia que era cristã e nada mais”. O santo fez treze vezes aquela viagem tão perigosa, sob o tórrido calor do sul da Ásia. Apesar das dificuldades, pôs-se a aprender o idioma nativo e a instruir e confirmar os já batizados. Atenção especial dedicou ao ensino do catecismo às crianças. Os paravas, que até então não conheciam sequer o nome de Cristo, receberam o batismo em grandes multidões. A esse respeito, Xavier informava a seus irmãos da Europa que, algumas vezes, tinha os braços tão fatigados de administrar o batismo que mal podia movê-los. Os generosos paravas, que eram de casta baixa, dispensaram a São Francisco Xavier uma acolhida calorosa, enquanto os brâmanes, de classe elevada, receberam o santo com grande frieza, sendo tão pequeno seu êxito com eles que, ao cabo de doze meses, apenas lograra converter um brâmane. Ao que parece, nessa época Deus operou várias curas milagrosas por meio de Xavier.


“Os milagres de São Francisco Xavier”, por Peter Paul Rubens.
“Os milagres de São Francisco Xavier”, por Peter Paul Rubens.

Por sua parte, Xavier adaptava-se plenamente ao povo com o qual vivia. Assim como os pobres, comia arroz, bebia água e dormia no chão de uma pobre cabana. Deus lhe concedeu maravilhosas consolações interiores. Com frequência, dizia Xavier de si mesmo: “Ouço exclamar este pobre homem que trabalha na vinha de Deus: ‘Senhor, não me deis tantos consolos nesta vida; mas, se a vossa misericórdia decidiu concedê-los, levai-me então por inteiro a gozar plenamente de Vós’”. Xavier regressou a Goa em busca de outros missionários e voltou à terra dos paravas com dois sacerdotes e um catequista indígena, além de Francisco Mansilhas, a quem deixou em diferentes pontos do país. O santo escreveu a Mansilhas uma série de cartas que constituem um dos documentos mais importantes para compreender o espírito de Xavier e conhecer as dificuldades que enfrentou. O sofrimento dos nativos nas mãos dos pagãos e dos portugueses tornou-se para ele aquilo que descrevia como “um espinho que levo constantemente no coração”. Em certa ocasião, um escravo indiano foi raptado e o santo escreveu: “Gostariam os portugueses que um dos índios levasse à força um português para o interior do país? Os índios têm os mesmos sentimentos que os portugueses”. Pouco tempo depois, São Francisco Xavier estendeu suas atividades a Travancore. Alguns autores exageraram o êxito que ali obteve, mas é certo que foi acolhido com grande alegria em todas as povoações e que batizou muitos dos habitantes. Em seguida, escreveu ao Pe. Mansilhas para que fosse organizar a Igreja entre os novos convertidos. Em sua obra, o santo costumava valer-se das crianças, a quem certamente divertia muito repetir aos outros aquilo que acabavam de aprender da boca do missionário. Os badagas do norte caíram sobre os cristãos de Comoirim e Tuticorim, devastaram as povoações, assassinaram alguns e levaram muitos outros como escravos. Isso entravou a obra missionária do santo. Segundo se conta, em certa ocasião Xavier saiu sozinho ao encontro do inimigo, com o crucifixo na mão, e obrigou-o a deter-se. Por outro lado, também os portugueses dificultavam a evangelização; assim, por exemplo, o comandante da região mantinha negociações secretas com os badagas. Apesar disso, quando o próprio comandante teve de fugir, perseguido pelos badagas, São Francisco Xavier escreveu imediatamente ao Pe. Mansilhas: “Suplico-vos, pelo amor de Deus, que vades socorrê-lo sem demora”. Se não fossem os esforços infatigáveis do santo, o inimigo teria exterminado os paravas. E deve-se dizer, em honra dessa tribo, que sua firmeza na fé católica resistiu a todos os ataques.


Afresco do milagre do caranguejo na Chiesa del Gesù, em Roma.
Afresco do milagre do caranguejo na Chiesa del Gesù, em Roma.

O pequeno rei de Jafná (Ceilão do norte), ao saber dos progressos que o cristianismo havia feito em Manar, mandou assassinar ali 600 cristãos. O governador, Martim de Sousa, organizou uma expedição punitiva que deveria partir de Negatapam. São Francisco Javier dirigiu-se a esse lugar; mas a expedição não chegou a partir, de modo que o santo decidiu empreender uma peregrinação, a pé, ao santuário de São Tomé em Mylapur, onde havia uma pequena colônia portuguesa à qual podia prestar os seus serviços. Contam-se muitas maravilhas das viagens de São Francisco Xavier. Além da conversão de numerosos pecadores públicos europeus, aos quais conquistava com a sua exímia cortesia, atribuem-se-lhe também outros milagres. Em 1545, o santo escreveu de Cochim uma longa carta muito franca ao rei, na qual lhe dava conta do estado da missão. Nela fala do perigo em que estavam os neófitos de voltar ao paganismo, “escandalizados e desanimados pelas injustiças e vexações que lhes impõem os próprios oficiais de Vossa Majestade... Quando Nosso Senhor chamar Vossa Majestade a juízo, talvez Vossa Majestade ouça as palavras iradas do Senhor: ‘Por que não castigaste aqueles dos teus súditos sobre os quais tinhas autoridade e que me fizeram guerra na Índia?’”. O santo fala de modo muito elogioso do vigário-geral nas Índias, Dom Miguel Vaz, e pede ao rei que o envie novamente com plenos poderes, uma vez que este tenha apresentado o seu relatório em Lisboa. “Como espero morrer nestas partes da terra e não tornarei a ver Vossa Majestade neste mundo, rogo-lhe que me ajude com as suas orações para que nos encontremos no outro, onde certamente estaremos mais descansados do que neste.” São Francisco Xavier repete os seus louvores ao vigário-geral numa carta ao Pe. Simão Rodrigues, na qual fala ainda com maior franqueza a respeito dos europeus: “Não hesitam em fazer o mal, porque pensam que não pode ser mau aquilo que se faz sem dificuldade e para o próprio proveito. Estou aterrorizado com o número de novas flexões que aqui se dão à conjugação do verbo ‘enganar’.”


Na primavera de 1545, São Francisco Xavier partiu para Malaca, onde permaneceu quatro meses. Malaca era então uma cidade grande e próspera. Albuquerque a conquistara para a coroa portuguesa em 1511 e, desde então, tornara-se um centro de costumes licenciosos. Antecipando uma moda que só seria introduzida vários séculos mais tarde, as jovens passeavam-se de calças, sem sequer a desculpa de trabalharem como os homens. O santo foi recebido na cidade com grande reverência e cordialidade e obteve algum êxito em seus esforços de reforma. Nos dezoito meses seguintes, é difícil seguir-lhe os passos.


Embora tenha sofrido muito nessa missão, escreveu a Santo Inácio:


Os perigos a que me encontro exposto e os trabalhos que empreendo por Deus são primaveras de alegria espiritual. Estes são os lugares do mundo em que o homem mais facilmente pode perder a vista de tanto chorar; mas tratam-se de lágrimas de alegria. Não me recordo de jamais ter experimentado tantas delícias interiores, e os consolos não me deixam sentir o efeito das duras condições materiais nem dos obstáculos que me opõem os inimigos declarados e os amigos aparentes.”

De volta a Malaca, o santo passou ali mais quatro meses, pregando àqueles cristãos tão pouco generosos. Antes de partir para a Índia, ouviu falar do Japão por mercadores portugueses e conheceu pessoalmente um fugitivo japonês chamado Anjiro. Xavier desembarcou novamente na Índia em janeiro de 1548.


“O milagre de São Francisco Xavier e o caranguejo”, por Francesco Solimena.
“O milagre de São Francisco Xavier e o caranguejo”, por Francesco Solimena.

Passou os quinze meses seguintes viajando sem descanso entre Goa, Ceilão e o Cabo Comorim, para consolidar a sua obra (sobretudo o “Colégio Internacional de São Paulo” de Goa) e preparar a sua partida para o misterioso Japão, onde até então nenhum europeu havia penetrado. Então, escreveu a última carta ao rei João III, a propósito de um bispo armênio e de um frade franciscano. Nela dizia: “A experiência ensinou-me que Vossa Majestade tem poder para arrancar às Índias as suas riquezas e desfrutá-las, mas não o tem para difundir a fé cristã.” Em abril de 1549, partiu da Índia acompanhado por outro sacerdote da Companhia de Jesus e um irmão coadjutor, por Anjiro (que adotara o nome de Paulo) e por mais dois japoneses convertidos ao cristianismo. No dia da Festa da Assunção do mesmo ano, desembarcaram em Kagoshima, em terra japonesa.


Em Kagoshima, os habitantes deixaram-nos em paz. São Francisco Xavier dedicou-se a aprender o japonês. Longe de possuir o dom de línguas que alguns lhe atribuem, o santo tinha antes dificuldade em aprender os idiomas. Traduziu para o japonês uma exposição muito simples da doutrina cristã, que repetia a todos quantos se mostravam dispostos a ouvi-lo. Ao cabo de um ano de trabalho, havia conseguido cerca de cem conversões. Isso despertou as suspeitas das autoridades, que lhe proibiram continuar a pregar. Então, o santo decidiu transferir-se para outro lugar com os seus companheiros, deixando Paulo aos cuidados dos neófitos. Antes de partir de Kagoshima, foi visitar a fortaleza de Ichiku; ali converteu a esposa do chefe da fortaleza, o criado desta, algumas outras pessoas e deixou a nova cristandade sob a responsabilidade do criado. Dez anos mais tarde, Luís de Almeida, médico e irmão coadjutor da Companhia de Jesus, encontrou essa cristandade isolada em pleno fervor. São Francisco Xavier transferiu-se para Hirado, ao norte de Nagasaki. O governador da cidade acolheu bem os missionários, de modo que em poucas semanas puderam fazer mais do que havia sido feito em Kagoshima em um ano. O santo deixou essa cristandade aos cuidados do Pe. de Torres e partiu com o irmão Fernandes e um japonês para Yamaguchi, em Honshu. Ali pregou nas ruas e diante do governador; mas não obteve êxito algum, e os habitantes da região zombaram dele.


São Francisco Xavier pregando em Goa (1610) - André Reinoso (Museu de São Roque)
São Francisco Xavier pregando em Goa (1610) - André Reinoso (Museu de São Roque)

Xavier queria ir a Miyako (Quioto), que era então a principal cidade do Japão. Depois de trabalhar um mês em Yamaguchi, onde mal colheu algo além de afrontas, prosseguiu a viagem com os seus dois companheiros. Como o mês de dezembro já estava muito adiantado, as chuvas torrenciais, a neve e os caminhos abruptos tornaram a viagem muito penosa. Em fevereiro, os missionários chegaram a Miyako. Ali, o santo soube que, para obter uma entrevista com o mikado (cujo poder era puramente aparente), precisava pagar uma soma muito maior do que a que possuía. Por outro lado, como a guerra civil devastava a cidade, São Francisco Xavier compreendeu que, por ora, não podia fazer ali nenhum bem; por isso, voltou a Yamaguchi quinze dias depois. Vendo que a pobreza evangélica não produzia no Japão o mesmo efeito que na Índia, o santo mudou de método. Vestido decentemente e escoltado pelos seus companheiros, apresentou-se ao governador como embaixador de Portugal, entregou-lhe as cartas que lhe tinham sido dadas para esse fim pelas autoridades da Índia e ofereceu-lhe uma caixa de música, um relógio e uns óculos, entre outras coisas. O governador ficou encantado com esses presentes, concedeu ao santo permissão para pregar e cedeu-lhe um antigo templo budista para que se hospedasse enquanto ali estivesse. Tendo assim obtido a proteção oficial, São Francisco Xavier pregou com grande sucesso e batizou muitas pessoas.


Inteirado de que um navio português havia ancorado em Funai (Oita), em Kyushu, o santo partiu para lá. Um dos membros da expedição era o viajante Fernão Mendes Pinto, que deixou uma descrição muito completa e divertida da procissão que os portugueses organizaram para acompanhar cerimoniosamente o seu admirado Xavier na visita ao governador da cidade. Infelizmente, Mendes Pinto era um escritor muito imaginativo, de modo que não se pode dar crédito ao que nos conta acerca das atividades e peripécias do santo em Funai. Francisco Xavier decidiu partir nesse navio português para visitar as suas cristandades da Índia antes de empreender a desejada viagem à China. Os cristãos do Japão, que já eram cerca de 2000 e constituíam a semente de tantos mártires futuros, ficaram aos cuidados do Pe. Cosme de Torres e do irmão Fernandes. Apesar dos fracassos que havia sofrido no Japão, São Francisco Xavier opinava que “não há entre os infiéis povo algum tão bem dotado quanto o japonês”.


O Papa Paulo III recebe São Francisco Xavier (c. 1619), por André Reinoso.
O Papa Paulo III recebe São Francisco Xavier (c. 1619), por André Reinoso.

A cristandade havia prosperado na Índia durante a ausência de Xavier; mas também se haviam multiplicado as dificuldades e os abusos, tanto entre os missionários como entre as autoridades portuguesas, e tudo isso exigia urgentemente a atenção do santo. Francisco Xavier empreendeu a tarefa com tanta caridade quanto firmeza. Quatro meses depois, em 25 de abril de 1552, embarcou novamente, levando como companheiros um sacerdote e um estudante jesuítas, um criado indiano e um jovem chinês que teria sido o seu intérprete se não tivesse esquecido a sua língua natal. Em Malaca, o santo foi recebido por Diogo Pereira, a quem o vice-rei da Índia havia nomeado embaixador junto à corte da China.


São Francisco teve de tratar em Malaca dessa embaixada com Dom Álvaro de Ataíde, filho de Vasco da Gama, que era o chefe da marinha da região. Como Álvaro de Ataíde era inimigo pessoal de Diogo Pereira, recusou-se a deixá-lo partir, tanto na qualidade de embaixador como de comerciante. Ataíde não se deixou convencer pelos argumentos de Francisco Javier, nem sequer quando este lhe mostrou o breve de Paulo III pelo qual havia sido nomeado núncio apostólico. Ao opor obstáculos a um núncio pontifício, Ataíde incorria na excomunhão. Infelizmente, o santo havia deixado em Goa o original do breve pontifício. Por fim, Ataíde permitiu que Francisco Xavier partisse para a China no navio de Pereira, mas não deixou que este último embarcasse. Pereira teve a nobreza de aceitar o acordo. Como o objetivo da embaixada tivesse fracassado, o santo enviou ao Japão o outro sacerdote jesuíta e conservou junto de si apenas o jovem chinês, chamado António. Com a ajuda dele, esperava poder introduzir-se furtivamente na China, que até então fora inacessível aos estrangeiros. No fim de agosto de 1552, a expedição chegou à ilha deserta de Sanchão (Shang-Chawan), que dista cerca de vinte quilómetros da costa e está situada a cem quilómetros ao sul de Hong Kong.


Por meio de um dos navios, Francisco Xavier escreveu dali várias cartas. Uma delas foi dirigida a Pereira, a quem o santo dizia: “Se há alguém que mereça que Deus o recompense nesta empresa, sois vós. E a vós se deverá o seu êxito.” Em seguida, descrevia as medidas que havia tomado: com muita dificuldade e pagando generosamente, conseguira que um mercador chinês se comprometesse a desembarcá-lo à noite em Cantão, exigindo-lhe, contudo, que jurasse não revelar o seu nome a ninguém. Enquanto aguardava a ocasião de realizar o projeto, Xavier caiu doente. Como restava apenas um dos navios portugueses, o santo encontrou-se em extrema miséria. Na sua última carta escreveu: “Há muito tempo não tinha tão pouca vontade de viver como agora.” O mercador chinês não voltou a aparecer. Em 21 de novembro, o santo foi acometido por uma febre e refugiou-se no navio. Mas o movimento do mar lhe fez mal, de sorte que no dia seguinte pediu que o transportassem novamente para terra. No navio predominavam os homens de Dom Álvaro de Ataíde, os quais, temendo ofendê-lo, deixaram Xavier na praia, exposto ao terrível vento do norte. Um compassivo comerciante português conduziu-o à sua cabana, tão arruinada que o vento entrava pelas fendas. Ali ficou Francisco Xavier deitado, consumido pela febre. Os amigos fizeram-lhe algumas sangrias, sem qualquer êxito. Entre os espasmos do delírio, o santo rezava incessantemente. Pouco a pouco, foi-se enfraquecendo. No sábado, 3 de dezembro, segundo escreveu António, “vendo-o à beira da morte, pus-lhe na mão uma vela acesa. Pouco depois, entregou a alma ao seu Criador e Senhor com grande paz e serenidade, pronunciando o nome de Jesus”. São Francisco Xvier tinha então quarenta e seis anos e havia passado onze no Oriente. Foi sepultado no domingo à tarde. Assistiram ao enterro António, um português e dois escravos.[b]


Um dos tripulantes do navio havia aconselhado que se enchesse de barro o féretro para poder trasladar mais tarde os restos. Dez semanas depois, procedeu-se à abertura da tumba. Ao retirar o barro do rosto, os presentes descobriram que se conservava perfeitamente fresco e que não havia perdido a cor; também o restante do corpo estava incorrupto e apenas cheirava a barro. O corpo foi trasladado para Malaca, onde todos saíram a recebê-lo com grande alegria, exceto Dom Álvaro de Ataíde. No final do ano, foi trasladado para Goa, onde os médicos comprovaram que se encontrava incorrupto. Ali repousa ainda hoje, na igreja do Bom Jesus. Francisco Xavier foi canonizado em 1622, ao mesmo tempo que Inácio de Loyola, Teresa de Ávila, Filipe Néri e Isidro Lavrador.


A morte de São Francisco Xavier
A morte de São Francisco Xavier

Durante muito tempo, acreditou-se que as cartas e documentos biográficos reunidos em dois volumosos tomos intitulados Monumenta Xaveriana (1899-1912) haviam esgotado a matéria. Indubitavelmente, tais documentos, dos quais se fez uma edição crítica em Monumenta Historica Societatis Jesu (Madri), são importantíssimos; constituem o texto mais autorizado das cartas do santo e transmitem fielmente as deposições das testemunhas no processo de beatificação, além de outros materiais de grande valor. Mas o Pe. Jorge Schurhammer, trabalhando nos arquivos de Lisboa e utilizando certas fontes japonesas de Tóquio, que até então não haviam sido estudadas, conseguiu reunir muitos outros dados, que completam e até corrigem os que se possuíam até então. O Pe. Schurhammer publicou, em colaboração com o Pe. J. Wicki, a edição definitiva das preciosas cartas do santo (2 vols., 1943-1944). Também publicou uma biografia curta, intitulada Der heilige Franz Xaver (1925), que foi traduzida para o inglês nos Estados Unidos, e completou essa obra com uma série de artigos e estudos monográficos sobre diferentes aspectos da extraordinária vida missionária de Francisco Xavier. A maior parte desses estudos pode ser vista em Analecta Bollandiana, particularmente vol. XL (1922), pp. 171-178, vol. XLIV (1926), pp. 445-446, vol. XLVI (1928), pp. 455-546, vol. XLVIII (1930), pp. 441-445, vol. L (1932), pp. 453-454, vol. LV (1936), pp. 247-249, e vol. LXIX (1951), pp. 438-441. No primeiro desses artigos encontra-se um estudo sobre as relíquias do santo; no quarto, um resumo do folheto do Pe. Schurhammer, intitulado Das Kirchliche Sprachproblem, sustenta-se que carece de fundamento a afirmação de que o santo fosse capaz de conversar e discutir em japonês. Tal lenda deve-se à imaginação e ignorância de duas testemunhas no processo de beatificação. O Pe. Astrain, em Historia de la Compañía de Jesús, foi um dos primeiros a fazer notar que se deve considerar como lendários muitos dos milagres que se atribuíam ao santo em suas primeiras biografias. Por isso, não se pode dar muito crédito às biografias de O. Tursellini e Bouhours; o poeta John Dryden traduziu esta última para o inglês. O Pe. L. J. M. Cros reuniu muitos materiais críticos sobre a família de Xavier, etc., antes da publicação de Monumenta Xaveriana, em Documents nouveaux (1894) e S. François Xavier, sa vie et ses lettres (2 vols., 1900). A biografia francesa mais confiável é a do Pe. A. Brou (2 vols., 1912). O Pe. H. J. Coleridge publicou em inglês uma biografia muito sentida (2 vols., 1886); mas, infelizmente, esse autor não conheceu a edição crítica das cartas do santo. Por isso, é preferível, do ponto de vista da exatidão, a obra curta da Sra. Yeo (1933). Segundo o Pe. James Brodrick, a obra de Edith A. Stewart, Life of St Francis Xavier (1917), “excetuando-se certas explosões de sentimento protestante, é mais crítica e satisfatória do que todas as outras biografias católicas do santo”. Isso podia ser verdade em 1940, mas a biografia inglesa definitiva foi a que escreveu o próprio Pe. Brodrick, St Francis Xavier (1952). O Pe. Thurston estudou a obra missionária de São Francisco Xavier no Japão e na Índia (The Month, fev. e mar. de 1905, dez. de 1912). Acerca do espírito de São Francisco Xavier, veja-se o esboço do Pe. C. C. Martindale, em God's Army, vol. 1 (1915); sobre os milagres do santo, cf. Analecta Bollandiana, vol. XVI (1897), pp. 52-63.1




São Lúcio
São Lúcio

Na primeira parte do Liber Pontificalis, que foi escrita por volta do ano 530, diz-se a propósito do Papa São Eleutério (c. 174–189): “O monarca inglês, Lúcio, escreveu-lhe dizendo que poderia tornar-se cristão por ordem sua”, isto é, pedindo-lhe que enviasse missionários. O Venerável Beda transcreve esse texto quase com as mesmas palavras e escreve em sua História Eclesiástica:


“No ano 156 depois da Encarnação do Senhor, Marco Antônio Vero (isto é, Marco Aurélio), o décimo quarto depois de Augusto, foi coroado imperador, juntamente com seu irmão Aurélio Cômodo (isto é, Lúcio Vero). Nessa época, quando São Eleutério ocupava a cátedra romana, Lúcio, rei dos bretões, escreveu-lhe uma carta para manifestar-lhe que, por sua mediação, desejava tornar-se cristão. Logo viu satisfeito seu desejo religioso. Os bretões conservaram a fé em toda a sua pureza e plenitude, tal como a haviam recebido, e entre eles reinaram a paz e a tranquilidade até o tempo do imperador Diocleciano”.


Beda faz uma terceira alusão à conversão de Lúcio, perto do fim de sua História Eclesiástica, na recapitulação. O único ponto incorreto é a cronologia, apesar dos esforços de Beda para corrigi-la.


Com o decorrer do tempo, a lenda ampliou e embelezou o fato original. Nênio a relata com muitos acréscimos, no século IX. Chama Lúcio pelo nome céltico de Lleufer Mawr, isto é, “Grande Esplendor”, e dá ao Papa o nome de “Eucaristo”. Seu Liber Landavensis afirma que os enviados de Lúcio a Roma se chamavam Elvino e Meduino (este último editor da obra de Guilherme de Malmesbury), e acrescenta que o Pontífice enviou os missionários Fagano e Deruviano. Godofredo de Monmouth acrescenta, por sua parte, que, logo que toda a região se converteu à fé, Lúcio a dividiu em províncias e dioceses. Diz que morreu e foi sepultado em Gloucester. John Stow, em sua história de Londres no século XVI, escreve a propósito de São Pedro de Cornhill: “Nesta igreja há uma mesa sobre a qual alguém escreveu em tempos remotos, embora eu não saiba por ordem de quem, que o rei Lúcio fez daquela cidade a sede metropolitana de um arcebispo e a constituiu como principal diocese do reino, o que ocorreu durante quatro séculos, até a chegada do monge Agostinho”. Em outro lugar, o mesmo autor cita, tomando-os de Jocelin de Furness, os nomes dos catorze arcebispos apócrifos que governaram essa igreja até o ano 587. O autor observa: “Isto é o que Jocelin diz sobre os arcebispos. Deixo aos eruditos a tarefa de determinar o crédito que merece tal testemunho”.


São Lúcio da Bretanha
São Lúcio da Bretanha

O importante é determinar se a afirmação do Liber Pontificalis, que Beda reproduz, tem ou não fundamento histórico. Durante muito tempo ninguém duvidou disso, mas nos tempos de Alban Butler já começava a discutir-se a questão, embora o autor não julgasse que valesse a pena levar em conta as discussões.


A questão da origem da lenda é diferente. Disse-se que foi inventada deliberadamente, durante as controvérsias entre a antiga e a nova Igreja da Inglaterra, para demonstrar a origem romana da cristandade britânica e a submissão dos ingleses à Santa Sé. Mas a lenda já existia em Roma antes que tais dissensões estourassem e, quando Beda a repetiu na Inglaterra, a tempestade já havia passado. Em suma, não existe prova alguma de que a história de Lúcio tenha sido usada como argumento a favor de Roma senão depois da Reforma, e é lamentável que os apologistas tenham recorrido a ela. Harnack formulou uma hipótese plausível e interessante, embora não comprovada. Com efeito, esse autor observa que o rei Abgar IX de Edessa chamava-se Lúcio Élio Septímio Megas Abgar, e que provavelmente se converteu ao cristianismo nos tempos do Papa Eleutério. Por outro lado, nos documentos antigos, o nome de Birtha (isto é, a fortaleza de Edessa) foi latinizado como “Britium Edessenorum”. Algum copista, ao transcrever o relato da conversão de Lúcio Abgar (“Hic accepit epistulam a Lucio, in Britio rege…”), pode ter-se enganado e escrito: “a Lucio, Brittanio rege”.


São Lúcio da Bretanha e mais dois reis, talvez Rei Aurélio Ambrósio e São Edmundo, o Mártir
São Lúcio da Bretanha e mais dois reis, talvez Rei Aurélio Ambrósio e São Edmundo, o Mártir

Vários autores estudaram com certo detalhe a lenda de Lúcio e do Papa Eleutério: Duchesne, Liber Pontificalis, pp. ccxxii ss.; Haddan e Stubbs, Councils, vol. 1, pp. 25–26; C. Plummer, em sua edição da Ecclesiastical History de Beda, vol. II, p. 14; J. P. Kirsch, em Catholic Encyclopedia, vol. V, p. 379; A. Harnack, em Sitzungsberichte da Academia de Berlim (1904), pp. 906–916 (cf. English Historical Review, vol. XXI, pp. 767–770); e H. Leclercq, em DAC., vol. IX, cc. 2661–2663. Nenhum desses autores se inclina a considerar que a lenda tenha fundamento histórico. Sobre Deruviano e Fagano, veja-se J. Armitage Robinson, Two Glastonbury Legends (1926). Cf. V. Berther, em Zeitschrift für Schweizerische Kirchegeschichte, vol. XXXII (1938), pp. 20–38, 103–124.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 470-478.

2. Ibid. pp. 478-479.



a. O Pe. Coleridge, S. J., escreve com razão: “Provavelmente todos os missionários que foram a regiões nas quais seus compatriotas já se encontravam estabelecidos... encontraram neles os piores inimigos de sua obra de evangelização. Nesse sentido, as nações católicas são tão culpadas quanto as protestantes. Espanha, França e Portugal são tão culpadas quanto Inglaterra e Holanda”.


b. O fiel Antônio descreveu os últimos dias do santo, numa carta a Manuel Teixeira, o qual a publicou em sua biografia de São Francisco Xavier.



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a sociedade

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A castidade
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São Domingos

O sofrimento de Jesus na Cruz nos ensina a suportar com paciência
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- Santo Afonso MARIA
de Ligório

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