Vida de São Macário de Jerusalém e Os Quarenta Mártires de Sebaste (10 de março)
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O imperador Licínio, que durante algum tempo havia tolerado os cristãos, mudou de política depois de sua ruptura com seu cunhado Constantino, o Grande e começou a perseguir a Igreja. Na Capadócia publicou-se um decreto que condenava à morte todos os cristãos que não abandonassem sua religião. Quando o governador da Capadócia e da Armênia Menor fez ler o decreto ao exército, quarenta soldados de diferentes nacionalidades, estacionados em Sebaste, recusaram-se a oferecer sacrifícios aos ídolos. Ao que parece, os quarenta pertenciam à famosa “Legião do Trovão”. Entre eles encontrava-se um chamado Heráclio. Levados diante do juiz de Sebaste (atualmente Silvas, na Turquia), declararam que eram cristãos e que todos os tormentos do mundo não conseguiriam afastá-los de sua religião. O governador tentou a princípio fazê-los entrar em razão, falando-lhes do perigo a que se expunham se se negassem a obedecer ao decreto do imperador e prometendo-lhes um futuro glorioso, se cedessem. Como os mártires permanecessem inconmovíveis, o juiz mandou que lhes dessem tortura e depois os lançassem em um calabouço. Ali entoaram todos em uníssono o salmo 90: “Quem confia na proteção do Altíssimo viverá sob a proteção do Deus do céu.” A resposta divina não tardou, pois o próprio Cristo lhes apareceu e os encorajou a perseverar na fé.
O governador, furioso diante da obstinação dos mártires, submeteu-os a um suplício que ele mesmo havia inventado. Como se sabe, na Armênia faz muito frio, sobretudo durante o mês de março, época dos ventos do norte. Junto às muralhas da cidade havia um lago congelado. O governador Agrícola mandou que levassem ali os mártires, nus, e que preparassem junto ao lago um banho morno para aqueles que cedessem. Sem esperar que lhes tirassem as roupas, os mártires se despiram espontaneamente, encorajando-se uns aos outros com a ideia de que uma má noite lhes valeria a felicidade eterna. Ao mesmo tempo repetiram juntos a seguinte oração: “Senhor, Tu vês que somos quarenta os que vamos ao martírio; faze que os quarenta obtenhamos a coroa e que nenhum de nós rompa este número sagrado.” Os guardas repetiam constantemente que, se estavam dispostos a sacrificar aos deuses, seriam imediatamente conduzidos ao banho morno junto ao fogo. Mas tudo foi em vão. Gregório de Nissa assegura que os mártires agonizaram durante três dias e três noites. Apenas um dos quarenta renegou a fé; mas a reação que a água quente lhe causou depois do intenso frio custou-lhe a vida e assim perdeu o bem que havia tentado salvar e a coroa à qual havia renunciado. Sua deserção afligiu muito os outros, mas o Céu os consolou substituindo milagrosamente o apóstata.

Com efeito, um dos guardas, que estava de descanso, adormeceu junto ao fogo e teve um sonho muito estranho. Pareceu-lhe que estava junto ao lago, quando subitamente o céu se encheu de anjos, que desceram sobre os mártires, os vestiram com túnicas brancas e os coroaram. O soldado percebeu que havia apenas trinta e nove coroas. Aquele sonho e a deserção do apóstata converteram-no instantaneamente. Por inspiração divina, despiu-se e foi juntar-se aos mártires, proclamando-se cristão em voz alta. Seu martírio foi o que se chama “batismo de sangue” e com ele ganhou a coroa destinada ao desertor.[a] Deus havia escutado a oração dos soldados e havia respondido a ela de maneira inesperada.
Na manhã seguinte, quase todas as vítimas haviam morrido. Entre os poucos que ainda estavam vivos encontrava-se o mais jovem de todos, chamado Melitão. Agrícola ordenou aos soldados que quebrassem as pernas dos sobreviventes e os lançassem em um forno ardente. Os mártires cantaram com voz enfraquecida: “Nossa alma escapou do laço do caçador.” Os verdugos deixaram Melitão para o fim, pois tinham compaixão de sua juventude e esperavam que renegaria ao ver-se sozinho; mas sua mãe, que era uma pobre viúva, repreendeu os verdugos por sua falsa compaixão. Quando se aproximou de seu filho, ele a olhou tristemente e tentou sorrir-lhe, mas mal conseguiu mover ligeiramente a mão para mostrar-lhe que a reconhecia. Fortalecida pelo Espírito Santo, a mãe o animou a perseverar até o fim e ela mesma o colocou sobre o carro destinado às vítimas. Os corpos dos mártires foram queimados e suas cinzas lançadas ao rio; mas os cristãos conseguiram resgatar furtivamente algumas relíquias ou pagaram por elas aos soldados. Uma parte dessas relíquias ficou em Cesareia da Capadócia. Basílio de Cesareia dizia, referindo-se a elas: “São como as muralhas que nos defendem do inimigo.” E acrescentava que todos os cristãos imploravam o auxílio dos mártires, que levantavam os caídos, fortaleciam os fracos e aumentavam o fervor dos santos.
Basílio, o Velho e Emélia de Cesareia, pais de Basílio de Cesareia, Gregório de Nissa, Pedro de Sebaste e Macrina, a Jovem, obtiveram uma parte das relíquias e Santa Emélia deu algumas à igreja que construiu nas proximidades de Anesis. O entusiasmo com que o povo as recebeu foi extraordinário e Gregório de Nissa conta que operaram muitos milagres. O próprio santo acrescenta:
“Eu sepultei meus pais perto das relíquias dos mártires, a fim de que ressuscitem no dia do juízo com aqueles que os animaram na fé, pois estou convencido de que Deus lhes concedeu um grande poder, do qual vi provas indubitáveis e ouvi testemunhos convincentes.”
São Gaudêncio, bispo de Brescia, escreve em um de seus sermões sobre os mártires:
“Deus me concedeu uma parte de suas sagradas relíquias e permitiu-me construir uma igreja em sua honra.”

O mesmo santo acrescenta que as duas sobrinhas de Basílio de Cesareia lhe haviam dado as relíquias ao passarem por Cesareia a caminho de Jerusalém, e que a elas haviam sido dadas por seu tio. Procópio de Cesareia e Sozômeno contam que outra parte das relíquias se encontrava em Constantinopla.
Talvez o fato mais notável relacionado com a memória desses campeões da fé seja a preservação do documento conhecido pelo nome de “Testamento dos quarenta santos mártires de Cristo”. O texto grego foi publicado há mais de dois séculos, mas apenas muito recentemente se reconheceu sua autenticidade. Trata-se de uma relíquia única e perfeitamente genuína da época das perseguições. Embora seja impossível citar todo o documento, não será demais apresentar aqui o resumo feito pelo P. H. Delehaye:
“Melecio, Aedo e Eutíquio, prisioneiros de Cristo, saúdam os bispos, presbíteros, diáconos, confessores e clérigos de todo o mundo cristão e lhes comunicam sua última vontade sobre seus restos mortais depois de seu martírio. Desejam que todas as relíquias sejam entregues ao sacerdote Proido e a alguns outros para que as depositem juntas em Sareim, perto de Zela. Este exórdio deve-se à pena de Melecio, que escreve em nome de todos.
“Em seguida Aedo e Eutíquio, falando em nome de seus companheiros, pedem às famílias dos mártires que não lamentem excessivamente sua morte e que cumpram fielmente suas disposições sobre as relíquias. Que ninguém guarde um único fragmento dos restos dos mártires, mas que os entreguem todos às pessoas designadas. Os mártires esperam que aqueles que desobedecerem não obtenham nenhum favor do Céu por sua intercessão.
“Depois, os mártires manifestam sua preocupação por um deles, chamado Eunoico, a quem os perseguidores talvez excluíssem do martírio por ser muito jovem. Se Eunoico morrer com eles, que seja sepultado junto a eles. Se os perseguidores o perdoarem, que permaneça fiel à lei de Cristo, para que no dia da ressurreição participe da glória daqueles cujas penas compartilhou.
“Aqui, aparentemente, Melecio retoma a pena. Dirigindo-se a seus irmãos, Crispino e Gordião, exorta-os a se guardarem dos prazeres do mundo e a serem perfeitamente fiéis aos preceitos do Senhor. Também manifesta seu desejo de que todos os fiéis recebam essas exortações como se lhes fossem dirigidas pessoalmente.
“Em seguida vem uma lista de saudações: “Saudamos o sacerdote Felipe, a Procliano e Diógenes e a toda a igreja. Saudamos Procliano de Pidela, a toda a sua igreja e a todos os seus. Saudamos Máximo e sua igreja, Magno e sua igreja, Domno e sua igreja, Illes nosso pai, e Valente e sua igreja.” Novamente intervém Melecio: “E eu, Melecio, saúdo meus parentes Lutanio, Crispino e Gordião, etc.” Seguem outras saudações, gerais e particulares. O documento termina assim: “Nós, os quarenta prisioneiros de Cristo, assinamos pela mão de Melecio, que faz parte do grupo. Depois de escrito, confirmamos todos o documento e mostramos nosso acordo.”

É muito improvável que os quarenta mártires pudessem escrever por si mesmos; por isso Melecio se encarregou de assinar por todos. Deve-se notar que os nomes das “atas” coincidem exatamente com os do “Testamento”, o que leva a crer que as atas têm um fundamento histórico, fora alguns detalhes, como o de que as pedras lançadas contra os mártires se voltaram contra os que as arremessavam e o de que as relíquias foram recuperadas do mar.
A “passio” grega, que parece ser a fonte em que se baseiam todas as versões das atas, foi publicada pela primeira vez por R. Abicht em Archiv für Slavische Philologie (vol. xvii, p. 144 ss). A melhor edição atual é a de O. von Gebhardt, em Acta Martyrum Selecta, pp. 166-181, onde também se encontra o Testamento. As versões latina, armênia e eslava carecem de importância. Em contrapartida, os panegíricos de São Basílio, São Gregório de Nissa, São Efrém, São João Crisóstomo e São Gaudêncio de Brescia têm certa importância, porque demonstram a veneração que se tinha aos mártires no final do século IV. Acerca dessas homilias, ver Delehaye, Les Passions des Martyrs, pp. 184-235. Existem certas contradições entre os dados da “passio” e os dos panegíricos, sobretudo sobre o local do martírio, pois é difícil determinar se o lago congelado estava dentro ou fora das muralhas. Sobre este ponto, ver Pio Franchi de Cavalieri, em Studi e Testi, n. 22, fasc. 3, pp. 64-70; e Delehaye, em American Catholic Quarterly Review, 1899, pp. 161-171. Cf. também Bonwetsch, Studien zur Geschichte d. Theologie, vol. 1, pte. I, pp. 71-95; e BHG., nn. 1201-1208.1

Na História de Eusébio conserva-se o texto de uma carta de Constantino a Macário, bispo de Jerusalém, na qual o imperador lhe encarrega de construir uma igreja no lugar onde Santa Helena havia descoberto o sepulcro de Cristo, deixando ao santo plena liberdade no que se refere ao projeto, aos materiais e aos operários. São Macário teve a alegria de ver terminada sua obra.
Santo Atanásio diz que São Macário era um homem sincero e reto, cheio de espírito apostólico. Havia sucedido a Hermon no governo da sede no ano 314, precisamente na época em que a heresia ariana começava a constituir uma séria ameaça para a Igreja. Segundo o testemunho de Santo Atanásio, Macário foi um valente campeão contra a heresia. No Concílio de Niceia, seu nome encabeça a lista dos bispos da Palestina que assinam as atas.
A lenda conta que Macário estava presente no momento em que se descobriu a Santa Cruz e que, graças a ele, foi possível identificá-la. Com efeito, nas escavações haviam sido encontradas três cruzes e era difícil determinar qual havia sido a de Cristo. Ora, segundo conta Rufino em sua História Eclesiástica, “aconteceu que havia na cidade uma mulher agonizante. Macário era então o bispo dessa Igreja e disse à rainha e aos trabalhadores: “Trazei as três cruzes, porque Deus vai mostrar-nos qual é a de Cristo”. Entrando com a rainha e os operários na casa da enferma, ajoelhou-se e elevou ao Senhor a seguinte súplica:
“Ó Deus, que por meio de teu Filho unigênito inspiraste a teus servos o desejo de procurar a Cruz na qual fomos redimidos: rogamos-Te que nos mostres qual foi a Cruz de teu Filho para que possamos distingui-la daquelas que foram dos escravos. Concede-nos que, quando a verdadeira cruz tocar esta mulher agonizante, ela volte à vida desde as portas da morte.”
Macário tocou a mulher com uma das cruzes, mas nada aconteceu; o mesmo ocorreu com a segunda; mas, assim que a tocou com a terceira, a mulher abriu os olhos e pouco depois voltou plenamente a si e começou a louvar a Deus e a andar pela casa com mais agilidade do que antes da doença. A rainha, satisfeita com uma indicação tão clara, ergueu com magnificência real um templo maravilhoso no lugar onde havia sido descoberta a cruz.”

A grande basílica constantiniana foi consagrada em 13 de setembro de 335; acredita-se que Macário, responsável pela construção, morreu nesse mesmo ano.
Existem certas diferenças entre os relatos de Santo Ambrósio e os de outros historiadores da Igreja acerca do milagre da identificação da cruz. Mas disso falaremos extensamente em nosso artigo de 3 de maio. Ver Acta Sanctorum, março, vol. II; DCB., vol. III, p. 765; e F. J. Bacchus, na Catholic Encyclopedia, vol. IX, pp. 482-484.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 513-515.
2. Ibid. pp. 516-517.
Notas:
a. Como no caso de Santa Emerenciana, é possível que ambos tenham recebido o sacramento do Batismo antes da morte, embora esse fato não tenha sido registrado nas fontes que chegaram até nós. Nos relatos sobre os primeiros santos da Igreja, é relativamente comum encontrar tradições e versões diferentes dos mesmos acontecimentos, devido à antiguidade das fontes e à transmissão histórica desses testemunhos.






















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