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Vida de Santa Mônica e São Gotardo de Hildesheim (4 de maio)

  • 4 de mai.
  • 10 min de leitura



Santa Mônica e Santo Agostinho de Rafa de santiago
Santa Mônica e Santo Agostinho de Rafa de santiago

A Igreja venera Santa Mônica, santa esposa e santa viúva, que não só deu a vida corporal ao famosíssimo doutor Santo Agostinho, mas também foi o principal instrumento de que Deus se valeu para lhe dar a vida da graça. Mônica nasceu no Norte da África, provavelmente em Tagaste, a cem quilômetros de Cartago, no ano 332. Seus pais, que eram cristãos, confiaram a educação da menina a uma preceptora que sabia formar suas alunas, embora as tratasse com certa rudeza. Um dos costumes que lhes inculcava era o de nunca beber entre as refeições. “Agora quereis água — dizia-lhes —; mas quando fordes donas de casa e tiverdes a adega à vossa disposição, desejareis vinho; por isso, deveis acostumar-vos desde já.” Porém, quando Mônica já tinha idade suficiente para que lhe confiassem trazer o vinho da adega, esqueceu os excelentes conselhos da preceptora; começou por beber alguns goles às escondidas e acabou por beber copos inteiros. Mas certo dia um escravo que a havia visto beber e com quem Mônica teve uma discussão chamou-a de “bêbada”. A jovem sentiu tal vergonha que nunca mais voltou a ceder à tentação. Ao que parece, desde o dia de seu batismo, que ocorreu pouco depois desse incidente, levou uma vida exemplar em todos os sentidos.


Quando chegou à idade de contrair matrimônio, seus pais a casaram com um cidadão de Tagaste chamado Patrício. Este era pagão, não carecia de qualidades, mas era de temperamento muito violento e de vida dissoluta. Mônica teve de perdoar-lhe muitas coisas, mas tudo suportou com a paciência de um caráter forte e bem disciplinado. Por sua parte, Patrício, embora criticasse a piedade de sua esposa e sua liberalidade para com os pobres, sempre a respeitou muito e, nem mesmo em seus piores acessos de cólera, levantou a mão contra ela. Quando outras mulheres casadas se queixavam a Mônica da conduta de seus maridos e lhe mostravam as marcas dos golpes que haviam recebido, a santa não hesitava em dizer-lhes que muito provavelmente o haviam merecido por terem a língua tão solta.


Santa Mônica e Santo Agostinho de Giuseppe Riva
Santa Mônica e Santo Agostinho de Giuseppe Riva

Com o tempo, Mônica, com seu exemplo e orações, converteu ao cristianismo não só o seu esposo, mas também sua sogra, mulher de caráter difícil, cuja presença constante na casa do filho tornava ainda mais difícil a vida de Mônica. Patrício morreu santamente em 371, no ano seguinte ao seu batismo. Três de seus filhos haviam sobrevivido, dois homens e uma mulher. As ambições de Patrício e Mônica concentravam-se no primogênito, Agostinho, que era extraordinariamente inteligente, razão pela qual decidiram dar-lhe a melhor educação possível. Porém, o caráter caprichoso, egoísta e indolente do jovem fez sofrer muito sua mãe.


Agostinho havia sido catecúmeno na adolescência e, durante uma doença que o levou às portas da morte, esteve prestes a receber o batismo; mas, ao recuperar rapidamente a saúde, adiou o cumprimento de seus bons propósitos. Quando seu pai morreu, Agostinho tinha dezessete anos e estudava retórica em Cartago. Dois anos depois, Mônica teve a enorme dor de saber que seu filho levava uma vida dissoluta e havia abraçado a heresia maniqueísta. Quando Agostinho voltou a Tagaste, Mônica fechou-lhe as portas de casa durante algum tempo, para não ouvir as blasfêmias do jovem. Mas uma consoladora visão que teve levou-a a tratar o filho com menos severidade. Sonhou, com efeito, que se encontrava num bosque, chorando a queda de Agostinho, quando se aproximou dela uma figura resplandecente que lhe perguntou a causa de sua dor. Depois de ouvi-la, disse-lhe que enxugasse as lágrimas e acrescentou: “Teu filho está contigo.” Mônica voltou os olhos para o lugar indicado e viu Agostinho ao seu lado. Quando contou o sonho ao filho, o jovem respondeu com desenvoltura que Mônica nada tinha a fazer senão renunciar ao cristianismo para estar com ele; mas a santa respondeu prontamente: “Não me foi dito que eu estava contigo, mas que tu estavas comigo.”


Essa resposta impressionou profundamente Agostinho, que mais tarde a consideraria uma inspiração do Céu. A cena que acabamos de narrar ocorreu por volta do fim do ano 337, isto é, quase nove anos antes da conversão de Agostinho. Durante todo esse tempo, Mônica não deixou de rezar e chorar por seu filho, de jejuar e vigiar, de pedir aos membros do clero que discutissem com ele, embora estes lhe assegurassem que era inútil, dadas as disposições de Agostinho. Um bispo, que havia sido maniqueu, respondeu sabiamente aos pedidos de Mônica: “Vosso filho está atualmente obstinado no erro, mas chegará a hora de Deus. Como Mônica continuasse a insistir, o bispo pronunciou as famosas palavras:


Vai-te em paz, mulher, e continua a viver assim, porque é possível que pereça o filho de tantas lágrimas(Conf. III 12).

A resposta do bispo e a lembrança da visão eram o único consolo de Mônica, pois Agostinho não dava o menor sinal de arrependimento.


Santa Mônica, por Piero della Francesca (1415–1492)
Santa Mônica, por Piero della Francesca (1415–1492)

Quando tinha vinte e nove anos, o jovem decidiu ir a Roma ensinar retórica. Embora Mônica se opusesse ao plano, pois temia que isso apenas retardasse a conversão do filho, estava disposta a acompanhá-lo, se necessário. Foi com ele ao porto de onde partiria; mas Agostinho, decidido a viajar sozinho, recorreu a uma estratégia desleal. Fingindo que ia apenas despedir-se de um amigo, deixou sua mãe rezando na igreja de São Cipriano e embarcou sem ela. Mais tarde, escreveu nas “Confissões”: “Ousei enganá-la justamente quando ela chorava e rezava por mim.” Muito aflita com a atitude do filho, Mônica não deixou por isso de embarcar para Roma; mas, ao chegar, soube que Agostinho já havia partido para Milão. Em Milão, Agostinho conheceu o grande bispo Santo Ambrósio. Quando Mônica chegou a Milão, teve o indizível consolo de ouvir do próprio filho que havia abandonado o maniqueísmo, embora ainda não tivesse abraçado o cristianismo. A santa, cheia de confiança, pensou que ele o faria, sem dúvida, antes de sua morte.


Em Santo Ambrósio, por quem sentia a gratidão que se pode imaginar, Mônica encontrou um verdadeiro pai. Seguiu fielmente seus conselhos e abandonou algumas práticas às quais estava habituada, como a de levar vinho, legumes e pão aos túmulos dos mártires; havia começado a fazê-lo em Milão, como fazia antes na África; mas, assim que soube que Santo Ambrósi o havia proibido porque dava lugar a certos excessos e recordava as “parentalia” pagãs, renunciou ao costume. Santo Agostinho observa que talvez não tivesse cedido tão facilmente se não se tratasse de Santo Ambrósio. Em Tagaste, Mônica observava o jejum do sábado, como era costume na África e em Roma. Vendo que a prática de Milão era diferente, pediu a Agostinho que perguntasse a Santo Ambrósio o que deveria fazer. A resposta do santo foi incorporada ao direito canônico:


“Quando estou aqui, não jejuo aos sábados; em contrapartida, jejuo aos sábados quando estou em Roma. Faz o mesmo e segue sempre o costume da Igreja do lugar onde te encontrares.”

Santa Mônica e Santo Agostinho, por Ary Scheffer (1795–1858)
Santa Mônica e Santo Agostinho, por Ary Scheffer (1795–1858)

Por sua vez, Santo Ambrósio tinha Mônica em grande estima e não se cansava de elogiá-la diante de seu filho. Tanto em Milão quanto em Tagaste, Mônica contava-se entre as mais devotas cristãs; quando a rainha-mãe Justina começou a perseguir Santo Ambrósio, Mônica foi uma das que fizeram longas vigílias pela paz do bispo e mostrou-se pronta a morrer por ele.


Finalmente, em agosto do ano 386, chegou o tão esperado momento em que Agostinho anunciou sua completa conversão ao catolicismo. Desde algum tempo antes, Mônica havia tentado arranjar-lhe um casamento conveniente, mas Agostinho declarou que pretendia permanecer celibatário por toda a vida. Durante as férias da época da colheita, retirou-se com sua mãe e alguns amigos para a casa de campo de um deles, chamado Verecundo, em Cassicíaco. O santo deixou registradas nas suas “Confissões” algumas das conversas espirituais e filosóficas com que passaram o tempo de preparação para o batismo. Mônica participava dessas conversas, nas quais demonstrava extraordinária penetração e bom senso, além de um conhecimento pouco comum da Sagrada Escritura. Na Páscoa do ano 387, Santo Ambrósio batizou Santo Agostinho e vários de seus amigos. O grupo decidiu partir para a África e, com esse propósito, os catecúmenos foram para Óstia, a fim de esperar um navio. Mas ali permaneceram, porque a vida de Mônica chegava ao fim, embora só ela o soubesse. Pouco antes de sua última enfermidade, havia dito a Agostinho:


“Filho, nada mais deste mundo me agrada. Já não sei qual é minha missão na terra nem por que Deus me deixa viver, pois todas as minhas esperanças foram realizadas. Meu único desejo era viver até ver-te católico e filho de Deus. Deus concedeu-me mais do que eu lhe havia pedido, agora que renunciaste à felicidade terrena e te consagraste ao seu serviço.”


O anjo aparece a Santa Mônica, de Pietro Maggi (1714)
O anjo aparece a Santa Mônica, de Pietro Maggi (1714)

Mônica havia desejado ser enterrada junto de seu esposo. Por isso, certo dia, ao falar com entusiasmo da felicidade de se aproximar da morte, alguém lhe perguntou se não lhe causava tristeza pensar que seria sepultada tão longe de sua pátria. A santa respondeu: “Não há lugar que esteja longe de Deus, de modo que não tenho por que temer que Deus não encontre o meu corpo para ressuscitá-lo.” Cinco dias depois, caiu gravemente enferma. Após nove dias de sofrimento, foi receber a recompensa celeste, aos cinquenta e cinco anos de idade. Agostinho fechou-lhe os olhos e conteve as lágrimas, assim como as de seu filho Adeodato, pois considerava uma ofensa chorar por alguém que havia morrido tão santamente. Mas, quando se encontrou sozinho e refletiu sobre o amor de sua mãe, chorou amargamente. O santo escreveu: “Se alguém me censura por ter chorado menos de uma hora por minha mãe, que chorou tantos anos para que eu me consagrasse a Ti, Senhor, não permitas que zombem de mim; e, se for um homem caridoso, faze que me ajude a chorar meus pecados na tua presença.” Nas “Confissões”, Agostinho pede aos leitores que rezem por Mônica e Patrício. Mas, na realidade, são os fiéis que, há muitos séculos, se encomendam às orações de Mônica, padroeira das mulheres casadas e modelo das mães cristãs.


Pouco sabemos de Santa Mônica além do que Santo Agostinho relata em seus escritos, particularmente no livro IX das Confissões. Certamente não é autêntica a carta na qual se afirma que Santo Agostinho descreveu a sua irmã Perpétua os últimos momentos de sua mãe. O texto dessa carta pode ser visto em Acta Sanctorum, maio, vol. 1. No seu artigo sobre Mônica em DAC, vol. XI, cc. 2332-2356, Dom H. Leclercq apresenta muitos dados sobre Tagaste (atualmente Souk Ahras) e sobre os restos da basílica de Cartago, recentemente descobertos. No entanto, é preciso reconhecer que tudo isso tem pouca relação com Santa Mônica, a não ser pelo fato de, nos tempos modernos, ter sido dedicada à santa uma capela na cidade. Convém notar também que praticamente não há vestígios do culto a Santa Mônica antes da transferência de suas relíquias, de Óstia para Roma, em 1430, segundo se diz. Crê-se que as relíquias da santa se conservam na igreja de Santo Agostinho. Entre as numerosas biografias modernas de Santa Mônica, recomenda-se especialmente a de Mons. Bougaud. Citam-se também as de F. A. M. Forbes (1915) e E. Procter (1931), sem falar das biografias em francês, alemão e italiano.1




São Gotardo de Hildesheim, de Wolfgang Sauber
São Gotardo de Hildesheim, de Wolfgang Sauber

São Gotardo nasceu no pequeno povoado bávaro de Reichesdorf. Seu pai estava a serviço dos cônegos que viviam na antiga abadia beneditina de Nieder-Altaich. Os cônegos encarregaram-se da educação do menino. Gotardo deu provas de um talento tão precoce que chamou a atenção dos bispos de Passau e Regensburg e conquistou o favor do arcebispo Frederico de Salzburgo. Este último levou-o consigo a Roma e o nomeou superior dos cônegos aos dezenove anos. Graças aos esforços desses três prelados, a regra beneditina foi restabelecida em Nieder-Altaich, em 990. Gotardo, que já era sacerdote, tomou o hábito monástico junto com outros cônegos. Quando foi eleito abade, São Henrique, então duque da Baviera e que tinha grande estima por Gotardo, assistiu à sua consagração. A imperatriz Cunegunda teceu para o santo um cíngulo que foi conservado por muito tempo como relíquia. O êxito com que Gotardo governou sua abadia levou São Henrique a enviá-lo para reformar os mosteiros de Tegernsee, em Freising, Herfeld, na Turíngia, e Kremsmünster, em Passau. O santo desempenhou essa missão com grande acerto, sem abandonar a direção de Nieder-Altaich, onde deixava um vice-superior quando se ausentava. Em vinte e cinco anos, São Gotardo formou nove abades para diversos mosteiros.


Deus o chamou então a uma vida muito diferente. São Bernwaldo (Bernardo), bispo de Hildesheim, morreu no ano 1022. Imediatamente, São Henrique decidiu nomear Gotardo para sucedê-lo. Em vão o abade alegou sua idade avançada e sua falta de qualidades; por fim teve de ceder aos desejos do monarca, apoiado por todo o clero da região. Embora já tivesse sessenta anos, iniciou as atividades episcopais com o vigor e a energia de um jovem. Construiu e restaurou várias igrejas; promoveu amplamente a educação, sobretudo na escola catedralícia; estabeleceu tal disciplina em seu capítulo que este parecia um mosteiro; por fim, em um terreno pantanoso que obteve das autoridades, nos arredores de Hildesheim, construiu um hospital para pobres e enfermos. São Gotardo tinha especial predileção pelos pobres; ao contrário, via com maus olhos os vagabundos profissionais, a quem chamava de “peripatéticos”, e não lhes permitia permanecer mais de dois ou três dias no hospital. O santo bispo morreu em 1038 e foi canonizado em 1131. Os autores concordam, em geral, que o célebre Passo de São Gotardo recebeu esse nome de uma capela que os duques da Baviera construíram no cume em honra do grande prelado de Hildesheim.


A fundação da igreja por São Gotardo, de Wolfgang Sauber
A fundação da igreja por São Gotardo, de Wolfgang Sauber

Existe uma biografia muito completa e digna de crédito, escrita por Wolfher, fiel discípulo de São Gotardo. Na realidade, esse autor escreveu duas biografias: uma antes da morte do santo e outra cerca de trinta anos depois. Ambas podem ser lidas em Pertz, MGH., Scriptores, vol. XI, pp. 167-218. Também chegou até nós parte da correspondência de São Gotardo (MGH., Epistolae Selectae, vol. III, pp. 59-70 e 105-110). São Gotardo é uma das figuras mais importantes do terceiro volume da Kirchengeschichte Deutschlands, de Hauck. Entre as biografias modernas, citam-se as de F. K. Sulzbeck (1863) e O. J. Blecher (1931). Ver também Acta Sanctorum, maio, vol. 1; e E. Tomek, Studien zur Reform der deutschen Klöster, vol. 1 (1910), pp. 23 ss.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, pp. 211-214.

2. Ibid. pp. 216-217.



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