Vida de Santo Ambrósio, Doutor da Igreja e Santa Josefa Rossello (7 de dezembro)
- Sacra Traditio

- 7 de dez. de 2025
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O valor e a constância para resistir ao mal fazem parte das virtudes essenciais de um bispo. Nesse sentido, Santo Ambrósio foi um dos maiores pastores da Igreja de Deus desde o tempo dos Apóstolos. Por outra parte, sua ciência faz dele um dos quatro grandes doutores da Igreja do Ocidente. O santo nasceu em Tréveris, provavelmente no ano 340. Seu pai, que também se chamava Ambrósio, era então prefeito da Gália. O prefeito morreu quando seu filho ainda era jovem, e sua esposa voltou com a família para Roma. A mãe de Santo Ambrósio deu aos filhos uma educação esmerada, e pode-se dizer que o futuro santo deveu muito a sua mãe e à sua irmã Santa Marcelina. O jovem aprendeu o grego, tornou-se bom poeta e orador e dedicou-se à advocacia. No exercício de sua carreira chamou a atenção de Ânicio Probo e de Símaco. Este último, que era prefeito de Roma, permanecia no paganismo. O outro era prefeito pretoriano da Itália. Ambrósio defendeu diante deste várias causas com tanto êxito que Probo o nomeou seu assessor. Mais tarde, o imperador Valentiniano nomeou o jovem advogado governador da Ligúria e da Emília, com residência em Milão. Quando Ambrósio se separou de seu protetor Probo, este lhe recomendou: “Governa mais como bispo do que como juiz.” O cargo que fora confiado a Ambrósio era de categoria consular e constituía um dos postos de maior importância e responsabilidade no Império do Ocidente. Ambrósio, que ainda não tinha completado quarenta anos, soube exercer seu ofício com extraordinária habilidade, como se verá pelo que segue.
Auxêncio, um ariano que havia governado a diocese de Milão durante quase vinte anos, morreu no ano 374. A cidade dividiu-se em dois partidos, pois uns queriam um bispo católico e outros um ariano. Para evitar, tanto quanto possível, que a divisão degenerasse em conflito, Santo Ambrósio foi à igreja onde se realizaria a eleição e exortou o povo a proceder à escolha pacífica e sem tumultos. Enquanto o santo falava, alguém gritou: “Ambrosius episcopus!” Todos os presentes repetiram unanimemente esse grito, e católicos e arianos elegeram o santo para o cargo. Ambrósio ficou desconcertado, tanto mais porque, embora fosse cristão, ainda não estava batizado. Mas os bispos presentes ratificaram sua nomeação por aclamação. Ambrósio alegou ironicamente que “a emoção pesara mais do que o direito canônico” e tentou fugir de Milão. O imperador recebeu um relatório sobre o ocorrido. Por sua parte, Ambrósio também lhe escreveu, rogando que lhe permitisse renunciar. Valentiniano respondeu que se sentia muito satisfeito por saber que havia escolhido um governador digno de ser bispo, e enviou ordem ao vigário da província para tomar as medidas necessárias para consagrar Ambrósio. Este tentou escapar mais uma vez e escondeu-se na casa do senador Leôncio. Mas, quando Leôncio soube da decisão do imperador, entregou o santo, e este não teve outro remédio senão aceitar. Assim, recebeu o batismo e, uma semana mais tarde, em 7 de dezembro de 374, foi-lhe conferida a consagração episcopal. Tinha então cerca de trinta e cinco anos.

Consciente de que já não pertencia ao mundo, o santo decidiu romper todos os laços que o uniam a ele. Com efeito, repartiu entre os pobres seus bens móveis e cedeu à Igreja todas as suas terras e posses; o único que conservou foi uma renda para sua irmã Santa Marcelina. Por outra parte, confiou a seu irmão Santo Sátiro a administração temporal de sua diocese para poder consagrar-se exclusivamente ao ministério espiritual. Pouco depois de sua ordenação, escreveu a Valentiniano queixando-se com amargura dos abusos de certos magistrados imperiais. O imperador respondeu-lhe: “Há muito tempo estou acostumado à tua liberdade de palavra e não por isso deixei de aceitar tua eleição. Não deixes de continuar aplicando às nossas faltas os remédios que a lei divina prescreve.” São Basílio escreveu a Ambrósio para felicitá-lo, ou melhor, para felicitar a Igreja por sua eleição e para exortá-lo a combater vigorosamente os arianos. Santo Ambrósio que se julgava muito ignorante nas questões teológicas, entregou-se ao estudo da Sagrada Escritura e das obras dos autores eclesiásticos, particularmente de Orígenes e São Basílio. Em seus estudos dirigiu-o São Simpliciano, um sábio sacerdote romano, a quem amava como amigo, honrava como pai e reverenciava como mestre.
Santo Ambrósio combateu com tanto êxito o arianismo que, dez anos mais tarde, não havia em Milão um só cidadão contaminado pela heresia, fora alguns godos que pertenciam à corte imperial. O santo vivia com grande simplicidade e trabalhava infatigavelmente. Só ceava aos domingos, nos dias da Festa de alguns mártires famosos e aos sábados. Com efeito, em Milão nunca se jejuava no sábado; mas quando Ambrósio estava em Roma, jejuava também aos sábados. O santo jamais assistia a banquetes e recebia em sua casa com suma frugalidade. Todos os dias celebrava a missa por seu povo e vivia consagrado inteiramente ao serviço de sua grei; todos os fiéis podiam falar com ele sempre que o desejavam, e o amavam e admiravam enormemente. O santo tinha por norma nunca se meter a arranjar matrimônios, não aconselhar a ninguém que ingressasse no exército e não recomendar ninguém para os postos da corte. Os visitantes invadiam a casa do bispo, que estava sempre ocupadíssimo, a tal ponto que Santo Agostinho foi vê-lo várias vezes e entrou e saiu da habitação de Santo Ambrósio sem que este percebesse sua presença. Em seus sermões, Santo Ambrósio louvava frequentemente o estado e a virtude da virgindade por amor de Deus, e dirigia pessoalmente muitas virgens consagradas. A pedido de Santa Marcelina, o santo reuniu seus sermões sobre o tema; tal foi a origem de um de seus tratados mais famosos. As mães impediam que suas filhas fossem ouvir Santo Ambrósio pregar, e chegou-se até a acusá-lo de querer despovoar o Império. O santo respondia: “Quisera que me citassem o caso de um homem que tenha querido casar-se e não tenha encontrado esposa”, e sustentava que nos lugares onde a virgindade é tida em alta estima a população é maior. Segundo ele, a guerra, e não a virgindade, era o grande inimigo da raça humana.

Como os godos tivessem invadido certos territórios romanos do oriente, o imperador Graciano decidiu acudir com seu exército em socorro de seu tio Valente. Entretanto, para se preservar do arianismo, do qual Valente era grande protetor, Graciano pediu a Santo Ambrósio que o instruísse sobre tal heresia. Com esse objetivo, o santo escreveu no ano 377 uma obra intitulada “A Graciano acerca da Fé” e, mais tarde, ampliou-a. Os godos haviam causado estragos desde a Trácia até a Ilíria. Santo Ambrósio, não contente com reunir todo o dinheiro possível para resgatar os prisioneiros, mandou fundir os vasos sagrados. Os arianos consideraram essa medida um sacrilégio e lançaram-lha em rosto. O santo respondeu que lhe parecia mais útil salvar vidas humanas do que conservar o ouro: “Se a Igreja tem ouro, não é para guardá-lo, mas para empregá-lo em favor dos necessitados.” Depois do assassinato de Graciano em 383, a imperatriz Justina rogou a Santo Ambrósio que negociasse com o usurpador Máximo para evitar que este atacasse seu filho, Valentiniano II. Santo Ambrósio foi entrevistar-se com Máximo em Tréveris e conseguiu convencê-lo a contentar-se com a Gália, Espanha e as Ilhas Britânicas. Diz-se que foi essa a primeira vez em que um ministro do Evangelho interveio nos assuntos da alta política. O objetivo de tal intervenção foi precisamente defender o direito e a ordem contra um usurpador armado.
Nessa época, certos senadores trataram de restabelecer em Roma o culto da deusa Vitória. O grupo estava chefiado por Quinto Aurélio Símaco, filho e sucessor do prefeito romano que havia protegido Santo Ambrósio em sua juventude e fora um admirável erudito, estadista e orador. Quinto Aurélio Símaco pediu a Valentiniano que reconstruísse o altar da Vitória no senado, pois atribuía à deusa os triunfos e a prosperidade da antiga Roma. Símaco redigiu habilmente sua petição, apelando à emoção e empregando argumentos que ainda hoje se ouvem dos lábios dos não católicos: “Que importa o caminho pelo qual cada um busca a verdade? Existem muitos caminhos para chegar ao grande mistério.” A petição era um ataque velado contra Santo Ambrosio. Quando o santo soube privadamente da existência do documento, escreveu ao imperador pedindo que lhe enviasse uma cópia e repreendendo-o por não o ter consultado imediatamente em assunto que dizia respeito à religião. Pouco depois, escreveu uma resposta que sobrepujava em eloquência a petição de Símaco e a demol ia ponto por ponto. Após ridicularizar a ideia de que os êxitos alcançados pelo valor dos soldados se prediziam nas entranhas das vítimas sacrificadas, o santo, elevando-se às alturas da mais alta retórica, falava pela boca de Roma, dizendo que a cidade lamentava seus erros passados e não se envergonhava de mudar, já que o mundo havia mudado também. Em seguida, Ambrósio exortava Símaco e seus companheiros a interpretar os mistérios da natureza através do Deus que os havia criado e a pedir a Deus que concedesse paz aos imperadores, em vez de pedirem aos imperadores que os deixassem adorar seus deuses em paz. A resposta do santo terminava com uma parábola sobre o progresso e o desenvolvimento do mundo. “Por meio da justiça, a verdade paira sobre as ruínas das opiniões que outrora governavam o mundo.” Tanto o escrito de Símaco como o de Santo Ambrosio foram lidos diante do imperador e de seu conselho. Não houve discussão de qualquer espécie. Valentiniano disse aos presentes: “Meu pai não destruiu os altares, e ninguém lhe pediu também que os reconstruísse. Eu seguirei seu exemplo e não modificarei o estado das coisas.”

A imperatriz Justina não se atreveu a apoiar abertamente os arianos enquanto viveram seu esposo e Graciano; mas, assim que a paz que Santo Ambrósio negociou entre Máximo e o filho de Justina lhe deu oportunidade de se opor ao bispo, esqueceu-se de tudo o que lhe devia. Ao aproximar-se a Páscoa do ano 385, Justina induziu Valentiniano a reclamar a basílica Pórcia (atualmente chamada de São Vítor), situada nos arredores de Milão, para cedê-la aos arianos, entre os quais se contavam ela e muitos personagens da corte. Santo Ambrósio respondeu que jamais entregaria um templo de Deus. Então, Valentiniano enviou alguns mensageiros para pedir a nova basílica dos Apóstolos. Mas o santo bispo não cedeu. O imperador mandou seus cortesãos apoderar-se da basílica. Os milaneses, enfurecidos ao ver isso, tomaram prisioneiro um sacerdote ariano. Ao saber do ocorrido, Santo Ambrósio pediu a Deus que não permitisse que o sangue corresse e enviou vários sacerdotes e diáconos para resgatar o prisioneiro. Embora o santo tivesse a seu favor a multidão e até o exército, guardou-se de fazer ou dizer qualquer coisa que pudesse desencadear a violência e pôr em perigo o imperador e sua mãe. Certo que se negou a entregar as igrejas, mas absteve-se de oficiar nelas para não inflamar os ânimos. Seus adversários, que o chamavam de “o Tirano”, fizeram todo o possível para provocá-lo. Santo Ambrósio perguntou a seus inimigos: “Por que me chamais tirano? Quando soube que a igreja estava cercada de soldados, disse que não a entregaria, mas que tampouco me lançaria à luta. Máximo não afirma que tiranizei Valentiniano, apesar de que a ele eu impeça de marchar sobre a Itália.” No momento em que o santo explicava ao povo uma passagem do livro de Jó, irrompeu na capela um pelotão de soldados aos quais se havia dado ordem de atacar; mas eles se negaram a obedecer e entraram para orar com os católicos. Poucos momentos depois, todo o povo dirigiu-se à basílica contígua, arrancou as decorações que haviam sido colocadas para receber o imperador e as deu às crianças para brincarem. Contudo, Santo Ambrósio não aproveitou esse triunfo e não entrou na basílica senão no dia de Páscoa, quando Valentiniano retirou dali os soldados. O povo celebrou com grande júbilo essa vitória. Santo Ambrósio escreveu um relato dos fatos a Santa Marcelina, que estava então em Roma, e acrescentou que previa desordens ainda maiores: “O eunuco Calígono, que é camareiro imperial, disse-me: ‘Tu desprezas o imperador, de modo que vou mandar decapitar-te.’ Eu respondi: ‘Deus o queira! Assim sofreria eu como corresponde a um bispo, e tu agires como gente da tua laia.’”
Em janeiro do ano seguinte, Justina convenceu seu filho a promulgar uma lei para autorizar os arianos a celebrar reuniões e proibí-las aos católicos. Tal lei ameaçava com pena de morte quem tratasse de impedir as reuniões dos arianos. Ninguém tinha direito de se opor legalmente a que as igrejas fossem cedidas aos arianos, sem se expor ao desterro pelo próprio fato. Santo Ambrósio não deu ouvidos à lei e recusou-se a entregar uma só igreja. Entretanto, ninguém se atreveu a tocá-lo. “Eu já disse o que um bispo tinha de dizer. Que o imperador proceda agora como corresponde a um imperador. Nabot recusou entregar a herança de seus antepassados. Como vou eu entregar as igrejas de Jesus Cristo?” No Domingo de Ramos, o santo pregou sobre sua decisão de não entregá-las. Então, o povo, temeroso da vingança do imperador, encerrou-se com seu pastor na basílica. As tropas imperiais a sitiaram com vistas a vencer o povo pela fome; mas oito dias depois, o povo seguia ali. Para ocupar as gentes, Santo Ambrósio dedicou-se a ensiná-las hinos e salmos que ele mesmo havia composto. Todos cantavam em coros alternados. O imperador enviou o tribuno Dalmácio para conferenciar com o santo. Propunha que Ambrósio e o bispo ariano, Auxêncio, escolhessem conjuntamente um grupo de juízes para decidir a questão. Se Santo Ambrósio não aceitasse essa proposição, deveria retirar-se e deixar a diocese nas mãos de Auxêncio. Ambrósio respondeu por escrito ao imperador, fazendo-lhe notar que os leigos (pois Valentiniano havia proposto que se escolhessem juízes leigos) não tinham direito de julgar os bispos nem de ditar leis eclesiásticas. Em seguida, o santo subiu ao púlpito e expôs ao povo o desenrolar dos acontecimentos no último ano. Em uma única frase resumiu esplendidamente o fundo da disputa: “O imperador está na Igreja, não acima da Igreja.”

Entre tanto, chegou a notícia de que Máximo, com o pretexto da perseguição de que eram objeto os católicos, assim como certas questões de fronteiras, estava preparando-se para invadir a Itália. Valentiniano e Justina, tomados de pânico, rogaram então a Santo Ambrósio que partisse novamente para impedir a invasão do usurpador. Esquecendo todas as injúrias públicas e privadas de que havia sido objeto, o santo empreendeu a viagem. Máximo, que estava em Tréveris, recusou-se a conceder-lhe uma audiência privada, apesar de que Ambrósio era bispo e embaixador imperial, e propôs recebê-lo em um consistório público. Quando Ambrósio foi introduzido à presença de Máximo e este levantou-se do trono para lhe dar o beijo de paz, o santo permaneceu imóvel e recusou-se a aproximar-se para receber o ósculo. Em seguida, demonstrou publicamente a Máximo que a invasão que projetava era injustificável e constituía uma deslealdade, e terminou pedindo-lhe que enviasse a Valentiniano os restos de seu irmão Graciano como penhor de paz. Desde sua chegada a Tréveris, o santo havia recusado manter a comunhão com os prelados da corte que haviam participado na execução do herege Prisciliano, e até mesmo com o próprio Máximo. Por isso, foi-lhe ordenado no dia seguinte que abandonasse Tréveris. O santo regressou a Milão, não sem antes escrever a Valentiniano para relatar-lhe o ocorrido e aconselhá-lo a não se deixar enganar por Máximo, pois o considerava um inimigo velado que prometia paz, mas buscava a guerra. Com efeito, Máximo invadiu subitamente a Itália, onde não encontrou oposição alguma. Justina e Valentiniano deixaram em Milão Santo Ambrósio para que enfrentasse a tempestade e fugiram para a Grécia, em busca do amparo do imperador do oriente, Teodósio, em cujas mãos se entregaram. Teodósio declarou guerra a Máximo, derrotou-o e executou-o na Panônia, e devolveu a Valentiniano seus territórios e os que o usurpador lhe havia arrebatado. Mas, na realidade, Teodósio foi quem governou o império desde então.
O imperador do oriente permaneceu algum tempo em Milão e induziu Valentiniano a abandonar o arianismo e a tratar Santo Ambrósio com o respeito que merecia um bispo verdadeiramente católico. Entretanto, não deixaram de surgir conflitos entre Teodósio e Santo Ambrósio, como era de esperar, e deve-se reconhecer que, no primeiro desses conflitos, não faltava razão a Teodósio. Com efeito, certos cristãos de Kallinikum, na Mesopotâmia, haviam demolido a sinagoga dos judeus. Quando Teodósio soube, ordenou que o bispo do lugar, acusado de estar envolvido no caso, encarregasse-se de reconstruir a sinagoga. O bispo apelou a Santo Ambrósio, que escreveu uma carta de protesto a Teodósio; mas, em vez de alegar que não se conheciam com certeza as circunstâncias do caso, o santo baseou sua protesta na tese exagerada de que nenhum bispo cristão tinha direito de pagar a construção de um templo de uma religião falsa. Como Teodósio tivesse ignorado esse protesto, Santo Ambrósio pregou contra ele em sua presença, o que deu lugar a uma discussão na igreja. O santo não cantou a Missa até arrancar de Teodósio a promessa de que revogaria a ordem que havia dado.

No ano 390, chegou a Milão a notícia de uma horrível matança ocorrida em Tessalônica. Butérico, o governador, havia encarcerado um auriga que seduzira uma serva do palácio, e recusou-se a libertá-lo por mais que o povo desejasse vê-lo correr no circo. A multidão enfureceu-se tanto ante a negativa que apedrejou vários oficiais e assassinou Butérico; Teodósio ordenou que se tomassem represálias incrivelmente cruéis. Os soldados cercaram o circo quando todo o povo se encontrava reunido ali e lançaram-se contra a multidão. A carnificina durou quatro horas. Os soldados mataram 7.000 pessoas, sem distinção de idade, sexo ou grau de culpabilidade. O mundo inteiro ficou aterrorizado e voltou os olhos para Santo Ambrósio, que reuniu os bispos para consultá-los sobre o caso. Em seguida, escreveu a Teodósio uma carta muito digna, na qual o exortava a aceitar a penitência eclesiástica e declarava que não podia nem estava disposto a receber sua oferta e celebrar diante dele os divinos mistérios até que tivesse cumprido essa obrigação.
“Os acontecimentos de Tessalônica não têm precedentes... Sois humano e vos deixastes vencer pela tentação. Aconselho-vos, rogo-vos e suplico-vos que façais penitência. Vós, que em tantas ocasiões vos mostrastes misericordioso e perdoastes os culpados, mandastes matar muitos inocentes. O demônio queria sem dúvida arrancar-vos a coroa de piedade que era o vosso maior timbre de glória. Lançai-o longe de vós agora que o podeis fazer... Escrevo-vos isto de minha própria mão para que o leiais em particular”.
Infelizmente, o efeito que produziu essa carta em um homem que sem dúvida estava devorado pelos remorsos foi desvirtuado por uma lenda pitoresca e melodramática, segundo a qual, como Teodósio se negasse a aceitar a penitência eclesiástica, Santo Ambrósio saiu à porta da igreja para impedir-lhe a entrada quando se aproximava com toda sua corte para ouvir a Missa. O bispo o repreendeu publicamente e recusou-se a admiti-lo. O imperador esteve excomungado durante oito meses, ao cabo dos quais submeteu-se sem condições. O P. Van Ortroy, S. J., demoliu essa lenda. Por outro lado, a “religiosa humildade” que Santo Agostinho, batizado apenas três anos antes por Santo Ambrósio, atribui a Teodósio, resume perfeitamente tudo o que precisamos saber. “Tendo incorrido nas penas eclesiásticas, fez penitência com extraordinário fervor, e aqueles que haviam acudido para interceder por ele estremeciam de compaixão ao ver tão grande rebaixamento da dignidade imperial, mais do que teriam tremido diante de sua cólera se tivessem cometido alguma falta em sua presença”. No sermão fúnebre de Teodósio, disse Santo Ambrósio simplesmente: “Despôs-se de todas as insígnias da dignidade régia e chorou publicamente seu pecado na igreja. Ele, que era imperador, não se envergonhou de fazer penitência pública, enquanto muitos outros menores que ele recusam fazê-la. Não cessou de chorar seu pecado até o fim de sua vida.” Esse triunfo da graça em Teodósio e do dever pastoral em Ambrósio demonstrou ao mundo que a Igreja não faz distinção de pessoas e que as leis morais obrigam a todos igualmente. O próprio Teodósio deu testemunho da influência decisiva de Santo Ambrósio naquelas circunstâncias, ao assinalá-lo como o único bispo digno desse nome que ele havia conhecido.

Teodoreto menciona outro exemplo da humildade e religiosidade que Teodósio demonstrou. Um dia de Festa, durante a Missa na catedral de Milão, Teodósio aproximou-se do altar para depositar sua oferta e permaneceu no presbitério. Santo Ambrósio lhe perguntou se desejava algo. O imperador disse que queria assistir à Missa e comungar. Então Santo Ambrósio mandou o diácono dizer-lhe: “Senhor, durante a celebração da issa ninguém pode permanecer no presbitério. Peço que vos retireis para onde estão os demais. A púrpura vos faz príncipe, mas não sacerdote.” Teodósio desculpou-se e disse que acreditava que em Milão existia o mesmo costume que em Constantinopla, onde o assento do imperador se encontrava no presbitério. Em seguida, agradeceu ao bispo por tê-lo instruído e retirou-se para o lugar onde estavam os leigos.
No ano 393, ocorreu a morte patética do jovem Valentiniano, que foi assassinado nas Gálias por Arbogastes quando se encontrava sozinho entre seus inimigos. Santo Ambrósio, que havia partido para auxiliá-lo, encontrou o cortejo fúnebre antes de cruzar os Alpes. Arbogastes, a quem haviam dito que Santo Ambrósio era “um homem que diz ao sol: ‘Detém-te!’, e o sol se detém”, manobrou para conseguir que o santo bispo apoiasse suas ambições. Mas Ambrósio, sem nomear pessoalmente Arbogastes, manifestou claramente na oração fúnebre de Valentiniano que sabia a que se ater sobre sua morte. Por outra parte, saiu de Milão antes da chegada de Eugênio, o enviado de Arbogastes, de modo que este último começou a ameaçar perseguir os cristãos. Enquanto isso, Santo Ambrósio foi de cidade em cidade, exortando o povo a opor-se aos invasores. Depois regressou a Milão, onde recebeu a carta na qual Teodósio lhe anunciava que havia vencido Arbogastes em Aquileia. Essa vitória foi o golpe de morte ao paganismo no império. Poucos meses depois, Teodósio morreu nos braços de Santo Ambrósio. Na oração fúnebre do imperador, o santo falou com grande eloquência do amor que tinha pelo defunto e da grande responsabilidade que pesava sobre seus dois filhos, aos quais cabia governar um império cujo laço de união era o cristianismo. Os dois filhos de Teodósio eram os fracos Arcádio e Honório. É possível que um jovem godo, oficial de cavalaria do exército imperial, tenha estado presente na igreja. Seu nome era Alarico.
Santo Ambrósio sobreviveu apenas dois anos a Teodósio, o Grande. Uma das últimas obras que escreveu foi o tratado sobre “A bondade da morte”. As obras homiléticas, exegéticas, teológicas, ascéticas e poéticas do santo são numerosíssimas. Enquanto o Império Romano começava a decair no Ocidente, Santo Ambrósio dava nova vida ao seu idioma e enriquecia a Igreja com seus escritos. Quando o santo caiu enfermo, predisse que morreria depois da Páscoa, mas continuou seus estudos habituais e escreveu uma explicação ao salmo 43. Enquanto Santo Ambrósio ditava, Paulino, que era seu secretário e mais tarde foi seu biógrafo, viu uma chama em forma de escudo pousar sobre sua cabeça e descer gradualmente até sua boca, enquanto seu rosto se tornava branco como a neve. A esse propósito escreveu Paulino: “Eu estava tão assustado que permaneci imóvel, incapaz de escrever. E, a partir desse dia, ele deixou de escrever e de ditar-me, de modo que não terminou a explicação do salmo.” De fato, o escrito sobre o salmo se interrompe no versículo vinte e quatro. Depois de ordenar o novo bispo de Pavia, Santo Ambrósio teve de guardar cama. Quando o conde Estilicão, tutor de Honório, soube da notícia, disse publicamente: “No dia em que esse homem morrer, a ruína pairará sobre a Itália.” Imediatamente, o conde enviou ao santo alguns mensageiros para pedir-lhe que rogasse a Deus que lhe prolongasse a vida. O santo respondeu: “Tenho vivido de tal forma que não me envergonharia de viver mais tempo. Mas também não tenho medo de morrer, pois meu Senhor é bom.” No dia de sua morte, Ambrósio permaneceu várias horas deitado com os braços em cruz, orando constantemente. São Honorato de Vercelli, que descansava em outra sala, ouviu uma voz que lhe dizia três vezes: “Levanta-te depressa, que ele está morrendo!” Imediatamente desceu e deu o viático a Santo Ambrósio, que morreu poucos momentos depois. Era Sexta-Feira Santa, 4 de abril de 397. O santo tinha aproximadamente cinquenta e sete anos. Foi sepultado no dia de Páscoa. Suas relíquias repousam sob o altar-mor de sua basílica, para onde foram trasladadas no ano 835. Sua Festa é celebrada no dia do aniversário de sua consagração episcopal, tanto no Oriente como no Ocidente. Seu nome figura no cânon da Missa do rito de Milão.

Duas obras muito importantes sobre a vida e escritos de Santo Ambrósio são a de J. R. Palanque, Saint Ambroise et l’Empire Romain (1934), sobre a qual se pode ver o juízo do P. Halkin em Analecta Bollandiana, vol. ln (1934), pp. 395-401, e a biografia do cônego anglicano F. Homes Dudden, The Life and Times of St Ambrose (1935), 2 vols. Ambos autores estudam a vida do santo desde muitos pontos de vista, com amplo conhecimento das fontes e da bibliografia moderna sobre o tema. As principais fontes são os escritos do santo e a biografia de Paulino; mas, naturalmente, encontram-se muitos dados dispersos nas obras de Santo Agostinho e outros contemporâneos, assim como nos documentos que o P. Van Ortroy chama “as biografias gregas de Santo Ambrósio”. O importante estudo deste último autor faz parte de uma valiosa coleção de ensaios publicados em 1897 por ocasião do décimo quinto centenário da morte do santo. Nesse volume, intitulado Ambrosiana, escreveram o Dr. Achille Ratti (Pio XI), Marucchi, Savio, Schenkl, Mocquereau, etc. Veja-se também R. Wirtz, Ambrosius und seine Zeit (1924); M. R. McGuire, na Catholic Historical Review, vol. xx (1936), pp. 304-318; W. Wilbrand, em Historisches Jahrbuch, vol. xli (1921), pp. 1-19; L. T. Lefort, em Le Muséon, vol. xlviii (1935), pp. 55-73; Fliche et Martin, Histoire de l’Église, vol. 1 (1936), etc. A Vie de S. Ambroise publicada pelo duque de Broglie na coleção Les Saints dá uma boa visão sobre o santo e sua época, embora não esteja atualizada em todos os pontos. Mais completas são as biografias de Palanque e de Dudden, assim como a que se encontra na última edição de Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Literatur, vol. II. F. R. Hoare traduziu a biografia escrita pelo diácono Paulino em The Western Fathers (1954).1

Com frequência se disse dos santos taumaturgos que o maior de seus milagres foi a própria vida. O Dr. P. D. Sessa, ao escrever sobre Maria Josefa Rossello, observa que ela não se distinguiu por visões e vozes celestiais e outras maravilhas, mas que três das primeiras religiosas de sua congregação viveram mais de cem anos, e que, durante a vida da santa, a pequena semente da primeira fundação produziu sessenta e oito conventos.
Josefa nasceu em 1811, em Albisola Marina, delicioso povoado costeiro na Ligúria. Foi a quarta dos nove filhos de Bartolomeu Rossello e Maria Dedone. Bartolomeu era oleiro. A menina recebeu no batismo o nome de Benita (Benedetta), que prenunciava sua futura santidade. Benita era vivaz e inteligente. O Dr. Sessa a chama de “piccola condottiera” (“a pequena chefe”). Mas a palavra “condottiere” também significou na história “soldado aventureiro”, e o espírito aventureiro também fazia parte do caráter de Benita. Um incidente de sua infância constitui excelente exemplo do que acabamos de dizer. Os habitantes de Albisola organizaram uma peregrinação ao santuário de Nossa Senhora das Mercês de Savona. Por causa da distância, todas as crianças ficaram no povoado. Enquanto os adultos estavam ausentes, Benita organizou outra peregrinação entre seus companheiros e companheiras de jogo. Empunhando uma bandeira feita com um avental, a menina guiou a procissão ao santuário de Nossa Senhora das Mercês que havia no povoado. Ao ouvir as crianças cantarem hinos, o sacristão julgou que se tratava dos peregrinos que voltavam de Savona e mandou tocar os sinos festivamente. Assim terminou triunfalmente a cruzada das crianças. Ao que parece, Benita tinha então uns nove anos.

Sempre foi muito sensível à beleza das coisas criadas, particularmente à beleza do mar. Em certos momentos do dia, a beleza do mundo fazia-a exclamar de alegria. Naturalmente, tinha particular devoção a São Francisco de Assis. Aos dezesseis anos, foi recebida na terceira ordem de São Francisco e tomou como diretor espiritual o capuchinho Ângelo de Savona. Durante algum tempo, Benita pensou em tornar-se anacoreta; mas seu diretor a dissuadiu disso. Aos dezenove anos, a jovem entrou para servir na casa da família Monleone, em Savona. A respeito disso, costumava repetir: “As mãos são feitas para o trabalho e o coração para Deus.” Durante sete anos, Benita assistiu o sr. Monleone, que era inválido. Todo o dinheiro que ganhava enviava para casa, pois sua família passava por dificuldades econômicas. Benita poderia ter permanecido toda a vida na casa dos Monleone; mas, após a morte do inválido, sentiu-se chamada a deixar o mundo.
Dom Agostinho de Mari era então bispo de Savona. Angustiado pelos perigos que ameaçavam as jovens na cidade, desejava fundar uma obra para cuidar delas. Benita já fora recusada em um convento por falta de dote. Assim, quando soube do projeto do bispo, apresentou-se para oferecer seus serviços. Dom de Mari ficou muito impressionado com a atitude e os modos da jovem e aceitou seu oferecimento. Em 10 de agosto de 1837, Benita, suas primas Ângela e Dominga Pescio, e Paulina Barla estabeleceram residência numa casa arruinada de Savona, chamada “La Commenda”. As novas religiosas chamaram-se a si mesmas “Filhas de Nossa Senhora das Mercês”, e Benita tomou o nome de Maria Josefa. Tudo o que possuíam resumia-se a alguns móveis, quatro colchões de palha no chão, um saco de batatas e algumas moedas; também tinham um crucifixo e uma imagem da Santíssima Virgem. A finalidade da congregação consistia em instruir as meninas pobres, especialmente espiritualmente, e fundar hospedarias, escolas, hospitais e toda espécie de obras de misericórdia, conforme o ditame da inspiração divina.

A congregação foi canonicamente constituída em outubro desse mesmo ano. A primeira superiora foi a madre Ângela. A irmã Josefa ficou como mestra de noviças e esmoleira. Em 1840, foi por sua vez eleita superiora e ocupou esse cargo até sua morte. A primeira casa logo se tornou pequena demais. A comunidade alugou então outra casa, ao redor da qual cresceu o maciço conjunto de edifícios que hoje circundam a casa-mãe de Savona. Uma das primeiras provações que a madre Josefa teve de suportar foi a morte do bondoso e esplêndido Dom de Mari, sobretudo levando em conta que o vigário capitular não via com bons olhos a nova congregação. Mas o bispo que sucedeu Dom de Mari, após um longo período de sede vacante, tinha ideias semelhantes às de seu predecessor. Foi ele quem aprovou as constituições em 1846, quando a congregação já tinha trinta e cinco religiosas. Para então, já haviam partido da casa-mãe os primeiros membros da comunidade para tomar conta do hospital de Varazze e ensinar nas escolas do município. As fundações multiplicaram-se no norte da Itália, não sem dificuldades. Em algumas cidades, as religiosas encontraram oposição; além disso, a madre Josefa passou por um período de má saúde e o bispo insistiu para que descansasse. A tudo isso somavam-se dificuldades econômicas. Estas se resolveram em parte graças a dois legados, um dos quais, totalmente inesperado, provinha da sra. Monleone, amiga e antiga patroa da santa.
Mons. de Mari sempre sonhara que as religiosas fundassem casas de refúgio para jovens arrependidas. A madre Josefa não o havia esquecido. Embora a primeira tentativa feita em Gênova tivesse sido um fracasso, a santa conseguiu fundar três casas de refúgio, às quais chamava Casas da Divina Providência. Uma dessas instituições, a de Albisola, ocupava a casa do franciscano Fernando Isola, a quem os turcos haviam matado por ódio à fé em 1648, em Escútari. Disse-se da madre Josefa que, assim que tinha um pouco de dinheiro, pensava numa nova fundação. Entre suas obras conta-se a Casa do Clero, cuja finalidade era fomentar as vocações sacerdotais e ajudar os seminaristas. O dinamismo e a visão da santa provocaram a oposição de muitos membros do clero contra essa inovação. Mas ela conseguiu conquistar a boa vontade do bispo, Mons. Cerruti, que defendeu a Casa do Clero. Seu sucessor, Mons. Boraggini, apoiou positivamente a fundação. Em 1875, fundou-se na América a primeira casa das Filhas de Nossa Senhora das Mercês, já que as religiosas se estabeleceram em Buenos Aires; São João Bosco as havia recomendado e abençoado a empresa. Logo começaram a multiplicar-se no Novo Mundo as escolas, hospitais, casas de refúgio e outras obras de beneficência.
Num retrato tirado em seus últimos anos, a santa aparece com um rosto firmemente delineado e cheio de energia, sereno e com um toque de obstinação. É uma anciã típica do início do século passado. A madre Josefa foi uma daquelas pessoas que escondem a santidade sob as aparências mais simples. Aquela mulher que havia fundado tantos conventos e obras de beneficência nunca se parecia tanto consigo mesma como quando esfregava os pisos, limpava mesas ou lavava roupa. Aos sessenta e quatro anos, Santa Josefa começou a sentir os efeitos das ininterruptas atividades de sua vida. O coração começou a falhar e a santa não tardou em perder o uso das pernas, de modo que se viu obrigada a contentar-se em supervisionar o trabalho de suas irmãs, sem poder tomar parte nele. Isso a fez sofrer muito e costumava repetir: “Sou um peso inútil; não faço mais que atrapalhar.” A essa provação somou-se a da “noite escura da alma”, quando a madre Josefa foi presa de terríveis escrúpulos e se sentia condenada ao inferno. Mas sua fé esteve à altura daquele aparente abandono de Deus, e a santa dizia com frequência a suas filhas: “Apegai-vos a Jesus. Só contam Deus, a alma e a eternidade. O resto não vale nada.” Em 7 de dezembro de 1880, Maria Josefa Rossello, cheia de paz e humilde confiança, foi receber o prêmio de seus trabalhos. Tinha então sessenta e nove anos. Sua canonização teve lugar em 1949.
Existe uma edição particular da vida de Santa Josefa, escrita por Katherine Burton. Francisco Martinengo, colaborador da santa, publicou uma biografia em italiano. O Dr. Piero Delfino Sessa escreveu um útil esboço biográfico, publicado em Turim em 1938. Santa Josefa figura entre os santos franciscanos, já que pertenceu à terceira ordem.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 504-512.
2. Ibid. pp. 512-514.


























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