Vida de Santa Francisca Romana, São Gregório de Nissa e São Domingos Sávio (9 de março)
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Santa Francisca Romana, famosa em todo o mundo, possuía em grau extraordinário o dom de conquistar o amor e a admiração de todos os que a tratavam. Seu encanto não terminou com sua morte, pois inúmeros peregrinos acorrem ainda ao seu túmulo, em Santa Maria Nuova. Durante a oitava e a festa da santa, a multidão se aglomera para visitar a “Tor de Specchi” e a “Casa degli Escercizi Pii” (antigo palácio Ponziano), cujas portas se abrem ao público, nessa ocasião, para mostrar todas as relíquias da santa.
Francisca nasceu em Roma, no bairro de Transtévere, em 1384, precisamente quando começava o Cisma do Ocidente, que havia de afligir tanto a santa e resultar tão catastrófico para sua família. Francisca não viveu o suficiente para ver restabelecida a harmonia. Seus pais, Pablo Busso e Jacobella dei Roffredeschi, eram nobres abastados e a menina viveu em meio ao luxo, mas recebeu uma educação muito cristã. Francisca, que era muito precoce, pediu a seus pais permissão para entrar no convento aos doze anos, mas recebeu uma negativa categórica. Com efeito, seus pais, que eram excelentes cristãos e a amavam muito, tinham planos muito diferentes para ela. No ano seguinte, anunciaram à filha que haviam decidido prometê-la em casamento ao jovem Lorenzo Ponziano, cuja posição, caráter e riqueza faziam dele um excelente partido. Francisca cedeu depois de algum tempo e o matrimônio foi celebrado quando a jovem tinha apenas treze anos. No princípio, a santa achou muito difícil suportar seu novo estado; esforçava-se em vão por agradar a seu marido e aos pais deste. Vanozza, esposa do irmão mais velho de Lorenzo, surpreendeu um dia Francisca chorando e ambas trocaram confidências; a santa confessou-lhe que teria querido ser religiosa e descobriu que sua cunhada também teria preferido uma vida de retiro e oração. Tal foi o começo de uma amizade que durou toda a vida. As duas jovens começaram a praticar a virtude sob uma regra comum. Vestidas modestamente, iam visitar os pobres de Roma e faziam tudo o que podiam por eles. Seus esposos, que as amavam ternamente, não opuseram nenhuma objeção às suas austeridades e obras de caridade. Uma grave e misteriosa doença que atingiu Francisca interrompeu esse modo de vida durante algum tempo e seus parentes recorreram à magia para tentar curá-la, sem consegui-lo.

Conta-se que então Santo Aleixo apareceu à santa e lhe perguntou se estava disposta a morrer ou se preferia sarar. Francisca respondeu que seu único desejo era que se fizesse a vontade de Deus. Então Santo Aleixo disse-lhe que a vontade de Deus era que ela se curasse e trabalhasse para Sua glória. Em seguida, o santo estendeu sua capa sobre Francisca e desapareceu. A doença também desapareceu instantaneamente.
Francisca e sua cunhada retomaram, com maior fervor que antes, sua vida de austeridade. Iam diariamente ao hospital do Espírito Santo de Sassia para assistir os pacientes, particularmente os que sofriam das doenças mais repugnantes. Dona Cecília, sua sogra, temendo que ela se contagiasse e que sua ausência das festas e banquetes fosse mal interpretada pela sociedade, aconselhou seus filhos a obrigá-las a mudar de vida, mas estes se recusaram a intervir. Em 1400, Francisca teve um filho e durante algum tempo viu-se obrigada a modificar seu modo de vida para cuidar do pequeno João Batista. No ano seguinte, morreu Dona Cecília e o sogro de Francisca lhe pediu que tomasse a direção da casa. Em vão alegou Francisca que Vanozza era a esposa do irmão mais velho; Dom André e Vanozza disseram que ela tinha maiores aptidões e Francisca não teve outro remédio senão aceitar. A santa conduziu-se com grande graça e habilidade em sua nova posição; tratava seus criados como irmãos e os exortava a cuidar de sua salvação.
Nos quarenta anos em que Francisca viveu com seu esposo, não houve entre eles a menor discussão. Se seu marido a chamava quando ela estava em oração, Francisca acudía imediatamente, pois, como costumava dizer,
“é magnífica a devoção em uma mulher casada, contanto que nunca esqueça que seu principal dever é ser dona de casa; muitas vezes terá de deixar Deus no altar para encontrá-lo no trabalho doméstico.”

Seus biógrafos contam que certa vez, quando estava recitando o ofício de Nossa Senhora, um pajem foi anunciar-lhe: “Senhora, meu amo manda chamar-vos.” A santa deixou imediatamente o livro e foi ao lado de seu esposo. A interrupção repetiu-se outras três vezes; mas, quando Francisca abriu pela quinta vez o livro do ofício, encontrou a antífona escrita em letras de ouro. Além de João Batista, Francisca teve outros dois filhos: João Evangelista e Inês. A santa não quis deixar a outras mãos o cuidado de sua educação durante a infância.
Francisca, como tantas outras almas verdadeiramente interiores, viu-se atacada por violentas tentações, que consistiam principalmente em imagens muito atraentes ou muito repulsivas e, em alguns casos, chegaram a ser quase ataques físicos do demônio. Durante alguns anos, reinou em sua família a maior prosperidade. Os primeiros sinais dos maus tempos foram a fome e a peste, provocadas sobretudo pelas guerras civis em que se encontrava envolvida a Itália. As pessoas morriam nas ruas e a peste dizimou Roma. Francisca fez tudo o que pôde para assistir os enfermos que encontrava em seu caminho, sempre ajudada por Vanozza. Por fim, esgotaram-se as provisões do Palazzo Ponziani e as duas santas mulheres tiveram de pedir esmola, de porta em porta, para os pobres, apesar dos insultos e das caras feias. Nesses dias difíceis, Francisca obteve de seu sogro a permissão para vender suas joias e, daí em diante, suprimiu todos os adornos de sua vestimenta.
Em 1408, as tropas de Ladislau de Nápoles, aliado do antipapa, haviam tomado Roma. O governo da cidade foi confiado ao conde Troja, um grande proprietário de terras. A família Ponziani havia apoiado sempre o Papa legítimo. Em um dos frequentes combates, Lorenzo foi apunhalado, mas sarou graças aos cuidados que lhe prestou sua santa esposa. O conde Troja decidiu abandonar a cidade depois de se vingar dos principais partidários do Papa, entre os quais estavam os Ponziani. O conde mandou prender Paluzzo, o esposo de Vanozza, e tomar como refém o pequeno João Batista. Felizmente, o menino foi libertado de maneira aparentemente milagrosa, enquanto sua mãe rezava na igreja de Ara Coeli. Em 1410, quando os cardeais se reuniram em conclave em Bolonha, Ladislau tomou novamente a cidade de Roma. Lorenzo Ponziani, cuja vida corria perigo, pois era um dos chefes do partido papal, conseguiu escapar; mas sua família não pôde segui-lo. Seu palácio foi saqueado e as tropas levaram prisioneiro João Batista. Mais tarde o deixaram em liberdade e o jovem pôde ir reunir-se com seu pai. As possessões da família na Campânia foram destruídas, as propriedades devastadas e incendiadas; os agricultores assassinados e os rebanhos dizimados. Francisca habitava em um canto de seu palácio arruinado, com João Evangelista, Inês e Vanozza, cujo marido continuava preso. As duas mulheres consagraram-se ao cuidado das crianças e a assistir os pobres e enfermos, tanto quanto era possível naquelas difíceis circunstâncias. João Evangelista morreu três anos depois, durante outra epidemia. Então Francisca transformou uma parte de sua casa em hospital e Deus recompensou suas orações e trabalhos, concedendo-lhe o dom de curar os enfermos.

Um dia em que Francisca rezava, transcorrido um ano desde a morte de João Evangelista, o quarto encheu-se de luz e o jovem apareceu à sua mãe, acompanhado por um arcanjo. Falou-lhe da felicidade de que gozava no Céu e anunciou-lhe a próxima morte de Inês. Para consolar sua mãe, João Evangelista prometeu-lhe que o arcanjo guiaria daí em diante seus passos; assim aconteceu durante vinte e três anos, ao cabo dos quais um arcanjo de dignidade ainda mais elevada substituiu o primeiro. A saúde de Inês começou logo a enfraquecer e a jovem morreu aos dezesseis anos de idade. A partir desse momento, segundo havia predito João Evangelista, Santa Francisca viu o arcanjo na forma de um menino de oito anos ao seu lado, embora fosse invisível aos olhos dos outros. Somente quando a santa caía em alguma falta o arcanjo desaparecia, mas voltava assim que Francisca se arrependia e se confessava. Enfraquecida por tantas adversidades, Francisca foi vítima da epidemia. Quando os médicos já desesperavam de salvá-la, a doença desapareceu subitamente e a santa começou a recuperar as forças. Por essa época teve uma visão tão terrível do inferno que não podia falar dela sem que lhe corressem lágrimas dos olhos.
Depois de muitas demoras, o Papa João XXII convocou o Concílio de Constança, destinado a acabar com o Cisma do Ocidente. No mesmo ano de 1414, os Ponziani voltaram do exílio e recuperaram suas propriedades. Lorenzo estava muito fraco e vivia muito afastado dos assuntos mundanos, assistido com ternura por sua fiel esposa. Seu grande desejo era casar seu filho João Batista antes de morrer, e havia escolhido para ele uma bela jovem chamada Mobilia, que resultou ter um caráter muito irascível e violento. Mobilia concebeu grande desprezo por Santa Francisca, queixando-se dela a seu marido e a seu sogro e ridicularizando-a em público. Certa vez, quando estava falando mal da santa, foi acometida por uma grave doença, mas sua sogra assistiu-a com grande carinho; isso mudou o coração de Mobilia e, dali em diante, as duas mulheres viveram em estreita intimidade. Já então a fama dos milagres e virtudes de Santa Francisca havia se difundido em Roma, e de toda parte a chamavam para que curasse os enfermos e resolvesse disputas. Lorenzo, cujo respeito e amor por sua esposa cresceram com o tempo, mostrou-se disposto a libertá-la de todas as obrigações matrimoniais, com a condição de que continuasse vivendo em sua casa.

Assim pôde a santa realizar o projeto, concebido desde muito tempo antes, de formar uma congregação de mulheres que vivessem no mundo, sem outros votos além da obrigação de se consagrarem interiormente a Deus e ao serviço dos pobres. O confessor da santa, Dom Antônio, aprovou os planos e obteve a filiação da congregação à ordem das beneditinas do Monte Oliveto, à qual ele próprio pertencia. O povo mudou o nome original de Oblatas de Maria para Oblatas de Tor de Specchi. Quando a congregação já levava sete anos fundada, julgou-se conveniente comprar para a comunidade o edifício conhecido com o nome de Tor de Specchi. Santa Francisca passava ali todo o tempo que suas obrigações domésticas lhe deixavam livre e partilhava a vida e os deveres de suas oblatas. Jamais permitiu que a chamassem fundadora da congregação e insistia para que todas obedecessem a Inês de Lelis, que havia sido escolhida superiora. Três anos depois morreu Lorenzo e foi sepultado junto de seus filhos, João Evangelista e Inês. Santa Francisca anunciou sua intenção de retirar-se para Tor de Specchi e, no dia de São Bento, suplicou humildemente ser admitida na congregação, onde foi recebida com grande júbilo. Inês de Lelis insistiu em seu desejo de renunciar ao cargo de superiora e Santa Francisca não teve outro remédio senão aceitar.
Daí em diante sua vida esteve mais unida do que nunca a Deus. O que a santa já não podia aumentar eram suas austeridades, porque havia muito tempo não vivia senão de pão, água e um pouco de verduras, acrescentando aos jejuns severas disciplinas com agudos cilícios de metal. Suas visões e êxtases começaram a multiplicar-se e frequentemente passava a noite inteira em oração. Na primavera de 1440, embora se sentisse muito mal, insistiu certa noite em ir visitar João Batista e Mobilia. No caminho encontrou seu diretor espiritual, João Matteotti, que, ao vê-la tão enferma, ordenou-lhe que voltasse imediatamente à casa de seu filho. A agonia durou uma semana. Ao entardecer de 9 de março, seu rosto começou a brilhar com uma luz estranha e a santa pronunciou suas últimas palavras: “O anjo terminou sua tarefa e manda-me que o siga”. Assim que correu a notícia de sua morte, o palácio Ponziani foi invadido por uma multidão que ia chorar a falecida e levava enfermos para que fossem curados. O corpo de Francisca foi trasladado para Santa Maria Nuova, onde a multidão aumentou ainda mais, pois se havia divulgado a notícia de novos milagres. Santa Francisca foi enterrada na capela dessa igreja reservada às oblatas. Atualmente, as oblatas continuam em Tor de Specchi seu trabalho educacional; seu hábito continua sendo o vestido das mulheres nobres da época. Santa Francisca Romana foi canonizada em 1608 e a igreja de Santa Maria Nuova passou a ser conhecida com o nome da santa.
A mais importante das fontes sobre Santa Francisca Romana é a coleção de suas visões, milagres e dados biográficos que compilou em italiano o Pe. Matteotti. O mesmo autor traduziu sua obra para o latim, com algumas mudanças. O Pe. Matteotti havia sido confessor de Santa Francisca durante os últimos dez anos de sua vida, mas não existe prova de que a tivesse conhecido antes. A biografia publicada no século XVII por Maria Madalena Anguillaria, superiora de Tor de Specchi, acrescenta poucos detalhes à obra do Pe. Matteotti, exceto talvez alguns fatos registrados no processo de canonização. Em Acta Sanctorum, março, vol. II, encontra-se uma tradução latina de todos esses documentos. Em inglês existe uma biografia breve, mas muito sentida, escrita por Lady Georgiana Fullerton (1885). Em francês podem ler-se as biografias de Rabory (1884) e Rambuteau (1900); a da Sra. Berthem-Bontoux (1931) é uma obra sólida, mas bastante extensa. O texto italiano de Matteotti foi publicado por Armellini; mas veja-se também M. Peláez, em Archivio Soc. Romana di Storia Patria, vols. XIV e XV (1891-1892).1

São Gregório de Nissa, a quem o sétimo Concílio ecumênico e segundo de Niceia chamaram “Pai dos Pais”, era irmão dos Santos Basílio, o Grande, Pedro de Sebaste e de Macrina, e filho dos Santos Basílio e Emélia; esta última era, por sua vez, filha de um mártir. Gregório nasceu em Cesareia da Capadócia. Provavelmente ficou órfão muito cedo, pois seus irmãos mais velhos, Basílio e Macrina, encarregaram-se de sua educação. Em uma carta a seu irmão mais novo, Pedro, São Gregório chama Basílio de “nosso irmão e mestre”. A veneração que tinha por ele durou toda a vida. Terminada sua excelente preparação nas letras sagradas e profanas, Gregório tomou o ofício de retórico e casou-se com uma jovem chamada Teosebeia. Quando já era leitor na Igreja, aceitou o cargo de professor de retórica, disciplina na qual era muito versado. Gregório não encontrou o cargo muito de seu agrado, pois seus alunos se interessavam mais pelas glórias militares do que pelas acadêmicas. São Gregório de Nazianzo escreveu-lhe uma dura carta, na qual o exortava a renunciar a “essa infame honra”. A carta teve o efeito desejado. Gregório voltou ao serviço da Igreja e foi ordenado sacerdote. Alguns autores chegam a dizer que deixou de viver com sua esposa, mas essa afirmação carece de fundamento. Naquela época, o celibato sacerdotal não era obrigatório nem mesmo na Igreja do Ocidente; em todo caso, não sabemos com certeza se Teosebeia continuou vivendo com São Gregório ou se entrou no convento de Santa Macrina. São Gregório de Nazianzo, que professava grande respeito por Teosebeia, chamava-a de sua “santa e bendita irmã” e, no panegírico que pronunciou por ocasião de sua morte, qualificou-a como glória da Igreja e bênção de nossa geração.
Segundo parece, São Gregório passou seus primeiros anos de sacerdócio em retiro, talvez em Íris do Ponto. Enquanto isso, seu irmão São Basílio, que era bispo de Cesareia, tinha de enfrentar a heresia e a oposição; entre seus inimigos contava-se seu próprio tio, Gregório, bispo do Ponto. Essa divisão no seio da família escandalizou profundamente o jovem Gregório, o qual, com a intenção de fazer a paz, falsificou uma carta de reconciliação de seu tio para seu irmão. Naturalmente a fraude foi logo descoberta; São Basílio repreendeu seu irmão, embora o incidente não deixasse de diverti-lo um pouco.

Parece que foi São Basílio quem sugeriu o nome de seu irmão para ocupar a sede de Nissa em 372, pois sua política consistia em fazer nomear prelados ortodoxos nas regiões próximas de sua diocese para combater eficazmente a heresia. Assim, o próprio São Basílio consagrou seu irmão, muito contra a vontade deste, como bispo da sede situada nos confins da Baixa Armênia. As dificuldades começaram a surgir quando São Gregório chegou a Nissa. A cidade estava cheia de arianos e um dos membros da corte do imperador havia tentado fazer com que fosse nomeado bispo da diocese um amigo seu. Apesar de toda a sua boa vontade, São Gregório carecia de tato e não tinha a menor noção de como se governava uma diocese. Com a intenção de ajudar seu irmão Basílio, convocou um sínodo de bispos da província de Ancira; mas, como Gregório não soube conduzir os delegados, o sínodo fez mais mal do que bem a seu irmão. Nada tem, pois, de estranho que Basílio se tenha oposto à nomeação de São Gregório como delegado junto ao Papa São Dâmaso, dizendo que ele carecia de experiência nos assuntos eclesiásticos e era muito mau diplomata.
Apoiados pelos arianos, Demóstenes, governador do Ponto, convocou uma reunião na qual um tal Filocarres acusou São Gregório de abuso das propriedades da Igreja e de irregularidade em sua eleição episcopal. Este deixou-se prender pelos soldados, sem oferecer resistência, mas depois conseguiu escapar da brutalidade de seus carcereiros e refugiar-se em lugar seguro. Seus inimigos alegaram que sua fuga era sinal de culpa; mas São Basílio escreveu uma violenta carta para fazer notar que o tesoureiro da Igreja havia declarado Gregório inocente. Apesar disso, um sínodo de bispos da Galácia e do Ponto depôs São Gregório, que andou errante até o ano de 378, quando o imperador Graciano expulsou da sede o usurpador e chamou de volta o exilado. O povo recebeu-o com grande júbilo, que pouco depois foi obscurecido pela morte de São Basílio e pela de Santa Macrina. São Gregório pressentiu a morte de sua irmã e, na véspera, teve com ela uma longa conversa que mais tarde relatou em seus escritos.

Após a morte de São Basílio, a influência de São Gregório começou a aumentar, assim como sua atividade; assistiu ao Concílio de Antioquia, convocado contra os erros dos melecianos; os bispos ali reunidos enviaram-no à Palestina e à Arábia com a missão de pôr fim às desordens que a heresia meleciana havia provocado. Para facilitar seu trabalho, o imperador concedeu-lhe o livre uso dos cavalos e carruagens do correio imperial. São Gregório ocupou lugar muito destacado no Concílio ecumênico de Constantinopla, no ano de 381. Era considerado como “a coluna da Igreja”; estar ao seu lado era estar com a ortodoxia. O Concílio, que havia sido convocado pelo imperador Teodósio, manifestou sua conformidade com o credo de Niceia e combateu o arianismo. A assembleia confiou a São Gregório uma espécie de autoridade inquisitorial sobre o Ponto. Perto do fim de sua vida, o santo visitou novamente a Palestina; os abusos dos peregrinos e o ambiente herético que encontrou ali levaram-no à conclusão de que, nessas condições, as peregrinações não constituíam uma devoção recomendável. Em uma carta ou tratado sobre as peregrinações a Jerusalém observa que elas não constituem um preceito evangélico e acrescenta que ele pessoalmente não havia tirado nenhum proveito da visita aos Lugares Santos.
O imperador designou três dioceses supremas no Oriente: a de Gregório de Nissa, a de Heládio de Cesareia e a de Otreio de Mitilene. Essa honra atraiu sobre São Gregório a inveja e a má vontade de Heládio, que se considerava bispo metropolitano e levou a mal que outro prelado fosse seu igual. Em uma de suas cartas, o santo descreve a falta de cortesia com que Heládio o havia tratado. Em Constantinopla, porém, era muito honrado e consultado. Ali pregou as orações fúnebres de São Melécio de Antioquia, da princesa Pulquéria e da imperatriz Flacila, assim como um sermão por ocasião da entronização de São Gregório de Nazianzo. Mais tarde pregou também o sermão da dedicação da grande igreja que o prefeito Rufino havia erguido perto de Calcedônia. É certo que São Gregório viveu até idade muito avançada, mas ignoramos a data exata de sua morte.
A veneração de que São Gregório foi objeto durante sua vida e depois de sua morte não encontra eco entre os escritores eclesiásticos modernos, que veem nele menos o inimigo do arianismo do que o principal responsável pelas cláusulas que o Concílio de Constantinopla inseriu no Credo de Niceia. Em todo caso, devemos reconhecer que São Gregório exerceu grande influência sobre o segundo Concílio ecumênico e que sua ortodoxia é indiscutível. Mas é preciso admitir também que se inclinava à doutrina universalista, segundo a qual todas as coisas serão restauradas em Cristo no fim do mundo. Os escritos do santo demonstram que ele conhecia profundamente os filósofos pagãos. São Gregório utilizou Platão da mesma maneira que os escolásticos utilizaram Aristóteles. A influência de Orígenes faz-se sentir em seus escritos, pois adotou em grande parte as interpretações alegóricas da Sagrada Escritura daquele autor. Suas obras literárias, admiráveis pela elegância da linguagem, oferecem uma síntese exata da fé cristã e são particularmente interessantes pela mistura de ideias comuns com especulações místicas e poéticas muito complexas. Entre as numerosas obras do santo destacam-se o “Discurso Catequético” ou instrução sobre a fé, dois livros contra Eunômio e Apolinário, que constituem uma fonte muito importante para o estudo das doutrinas desses dois hereges, e muitos comentários sobre a Sagrada Escritura. Entre as obras ascéticas, deve-se mencionar o livro sobre a virgindade, muitos sermões sobre a vida e a conduta do cristão, assim como numerosos panegíricos. Um deles narra a vida e a morte de Santa Macrina; outro, a de três damas de Jerusalém; e um terceiro descreve de maneira muito moderna as belezas de uma “villa” na Galácia onde esteve São Gregório. Tanto São Gregório como São Basílio possuíam um senso das belezas naturais que se encontra muito raramente entre os escritores dos primeiros séculos.

Existem várias fontes sobre a vida de São Gregório. A principal delas é a correspondência de seus amigos. Ver Acta Sanctorum, março, vol. II; Bardenhewer, Patrology (trad. inglesa), pp. 195–206. Ver também a obra mais extensa de Bardenhewer sobre os Padres, traduzida do alemão para o francês; e DTC., vol. VI, col. 1847–1852, etc. Há também um excelente artigo sobre São Gregório em DCB., vol. II, pp. 761–768. Entre as obras mais recentes sobre o santo devem-se mencionar a de H. Urs von Balthasar, Présence et Pensée (1942), e a de J. Daniélou, Platonisme et théologie mystique (1944).2

Em 1950, foi canonizada a jovenzinha Maria Goretti, mártir da castidade. No mesmo ano ocorreu a beatificação de Domingos Sávio, confessor, de quinze anos de idade. A Igreja elevou aos altares muitas crianças mártires, mas o caso de São Domingos Sávio é único. Sua canonização ocorreu em 1954.
Domingos nasceu em Riva do Piemonte em 1842. Era filho de um camponês e desde criança manifestou o desejo de ser sacerdote. Quando São João Bosco começou a preparar alguns jovens para o sacerdócio, com o objetivo de que o ajudassem em seu trabalho em favor das crianças abandonadas de Turim, o pároco de Domingos recomendou o rapaz. São João Bosco, no primeiro encontro que tiveram os dois, ficou muito impressionado pela evidente santidade de Domingos, que ingressou em outubro de 1854 no Oratório de São Francisco de Sales de Turim, aos doze anos de idade.
Uma das lembranças inesquecíveis que Domingos deixou no Oratório foi o grupo que organizou nele. Chamava-se a Companhia de Maria Imaculada. Além dos exercícios de piedade, o grupo ajudou Dom Bosco em trabalhos tão necessários como a limpeza dos pisos e o cuidado das crianças difíceis. Em 1859, quando Dom Bosco decidiu fundar a Congregação dos Salesianos, organizou uma reunião; entre os vinte e dois presentes encontravam-se todos os iniciadores da Companhia da Imaculada Conceição, exceto Domingos Sávio, que havia voado ao Céu dois anos antes.
Pouco depois de sua chegada ao Oratório, Domingos teve a oportunidade de impedir que dois rapazes brigassem a pedradas. Mostrando-lhes seu pequeno crucifixo, disse:
“Antes de começar, olhai para Cristo e dizei: ‘Jesus Cristo, que era inocente, morreu perdoando seus algozes; eu sou um pecador e vou ofender a Cristo tentando vingar-me deliberadamente’. Depois podeis começar atirando a primeira pedra contra mim”.
Os dois briguentos ficaram envergonhados. Domingos observava escrupulosamente o regulamento; naturalmente, alguns de seus companheiros levavam a mal que o santo quisesse que eles também observassem o regulamento da mesma forma.

Chamavam-no de fofoqueiro e lhe diziam: “Corre para nos acusar a Dom Bosco”; com isso não faziam senão mostrar quão pouco conheciam o fundador do Oratório, que não suportava fofoqueiros. Muito provavelmente São Domingos ria de boa vontade nessas ocasiões, pois tinha um espírito muito alegre, coisa que às vezes lhe criava dificuldades. Se Domingos não tinha nada de fofoqueiro, era, em compensação, muito habilidoso para contar histórias; isso lhe dava grande ascendência sobre seus companheiros, sobretudo os mais jovens.
Foi realmente uma feliz providência de Deus que Domingos caísse sob a direção de um diretor tão experiente como Dom Bosco, pois de outro modo teria se tornado facilmente um pequeno fanático. Dom Bosco encorajava sua alegria, seu estrito cumprimento do dever de cada dia e o impulsionava a participar dos jogos das outras crianças. Assim, São Domingos podia dizer com verdade:
“Não posso fazer grandes coisas. O que quero é fazer até as coisas mais pequenas para a maior glória de Deus.”
“A religião deve ser como o ar que respiramos; não se deve cansar as crianças com regras e exercícios de devoção em excesso” — costumava dizer Dom Bosco —. Fiel aos seus princípios, proibiu Domingos de fazer mortificações corporais sem permissão expressa, dizendo-lhe:
“A penitência que Deus quer é a obediência. Todos os dias se apresentam mil oportunidades de sacrificar-se alegremente: o calor, o frio, a doença, o mau caráter dos outros. A vida escolar constitui mortificação suficiente para uma criança”.

Certa noite Dom Bosco encontrou Domingos tremendo de frio na cama, sem outro cobertor que um lençol. “Ficou louco? — perguntou-lhe —. Vai pegar uma pneumonia.” Domingos respondeu: “Não creio. Nosso Senhor não pegou pneumonia no estábulo de Belém.”
A fonte mais importante sobre a curta vida de São Domingos Sávio é o relato que o próprio Dom Bosco escreveu. O santo esforçou-se para não dizer nada que não pudesse afirmar sob juramento, particularmente no que se refere às experiências espirituais de Domingos, como o conhecimento sobrenatural do estado espiritual do próximo, de suas necessidades e do futuro. Certa ocasião, Domingos desapareceu durante toda a manhã até depois do almoço. Dom Bosco o encontrou na igreja, arrebatado em oração, em uma postura muito pouco confortável; embora tivesse passado seis horas naquele lugar, Domingos acreditava que ainda não havia terminado a primeira Missa da manhã. O jovem santo chamava essas horas de oração intensa de “minhas distrações”: “Sinto como se o Céu se abrisse sobre minha cabeça. Tenho que fazer ou dizer algo que faça os outros rirem.”
São João Bosco relata que as necessidades da Inglaterra ocupavam um lugar muito especial nas orações de Domingos e conta que, em “uma violenta distração”, Domingos viu sobre uma planície coberta de névoa uma multidão que avançava às apalpadelas; então se aproximou um homem coberto com uma capa pontifícia e levando na mão uma tocha que iluminou toda a planície, enquanto uma voz dizia: “Esta tocha é a fé católica, que iluminará a Inglaterra.” A pedido de Domingos, Dom Bosco relatou o incidente ao Papa Pio IX, que declarou que isso o confirmava em sua resolução de prestar especial atenção à Inglaterra.

A delicada saúde de Domingos começou a enfraquecer e, em 1857, foi enviado a Mondonio para mudar de ares. Os médicos diagnosticaram que ele sofria de uma inflamação nos pulmões e decidiram sangrá-lo, conforme se costumava naquela época. O tratamento apenas precipitou o desfecho. Domingos recebeu os últimos sacramentos e, ao anoitecer do dia 9 de março, pediu a seu pai que recitasse as orações pelos agonizantes. Já perto do fim, tentou erguer-se e murmurou: “Adeus, papai... O padre me disse uma coisa... mas não consigo lembrá-la...” Subitamente seu rosto se transfigurou com um sorriso de alegria, e exclamou: “Estou vendo coisas maravilhosas!” Essas foram suas últimas palavras.
A causa de beatificação de Domingos foi introduzida em 1914. No início despertou certa oposição, por causa da pouca idade do santo. Mas o Papa São Pio X considerou, ao contrário, que isso constituía um argumento em seu favor, e seu ponto de vista prevaleceu. No entanto, a beatificação só se realizou em 1950, dezesseis anos depois da de Dom Bosco.
O texto definitivo da biografia escrita por Dom Bosco foi publicado em Turim em 1950 pelo P. E. Ceria. Em inglês existe a tradução de uma edição anterior (1931). Outras biografias em italiano são as do cardeal Salotti (1921) e de Dom Cojazzi (1950). Entre as biografias em francês citaremos apenas a de A. Auffray, Um santo de quinze anos. A curta biografia escrita pelo P. Juan Sexton (Salesian Press, Londres, 1950) é excelente.3
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 501-504.
2. Ibid. pp. 505-508.
3. Ibid. pp. 511-513.






















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