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Vida de São Francisco de Sales e São Sabiano, Mártir (29 de janeiro)

  • 28 de jan.
  • 16 min de leitura




São Francisco de Sales
São Francisco de Sales

São Francisco nasceu no castelo de Sales, em Sabóia, no dia 21 de agosto de 1567. No dia seguinte, foi batizado na igreja paroquial de Thorens, com o nome de Francisco Boaventura. São Francisco de Assis haveria de ser seu patrono durante toda a vida. O quarto em que nasceu São Francisco de Sales chamava-se “o quarto de São Francisco, porque nele havia uma imagem do “Poverello” pregando aos pássaros e aos peixes. Francisco de Sales foi muito frágil e delicado em seus primeiros anos, devido ao seu nascimento prematuro; mas, graças ao cuidado que teve com sua saúde, foi se fortalecendo com os anos, de modo que, embora nunca tenha sido robusto, pôde desenvolver uma enérgica atividade durante sua vida. A mãe do santo encarregou-se de sua educação, auxiliada pelo Pe. Déage, que foi tutor de Francisco e o acompanhou em todas as viagens de seus primeiros anos. Durante sua infância distinguiu-se por sua obediência e senso de responsabilidade, e parece ter sido muito amante da leitura. Aos oito anos entrou no colégio de Annecy, onde fez sua primeira comunhão. Na igreja de São Domingos (atualmente São Maurício), recebeu a confirmação e, um ano mais tarde, a tonsura. Um grande desejo de consagrar-se a Deus consumia o jovem, que havia colocado nisso a realização de seu ideal; mas seu pai (que ao casar-se havia tomado o nome de Boisy) tinha destinado seu primogênito a uma carreira secular, sem se preocupar com suas inclinações. Aos quatorze anos, Francisco foi estudar na Universidade de Paris que, com seus cinquenta e quatro colégios, era um dos grandes centros de ensino da época. Seu pai o havia enviado ao Colégio de Navarra, para onde iam os filhos das famílias nobres de Sabóia; mas Francisco, que temia por sua vocação, conseguiu que consentisse em deixá-lo ir ao Colégio de Clermont, dirigido pelos jesuítas e conhecido pela piedade e pelo amor à ciência que nele reinavam. Acompanhado pelo Pe. Déage, Francisco instalou-se no Hotel da Rosa Branca, na rua de St. Jacques, a poucos passos do Colégio de Clermont.


Logo se distinguiu na retórica e na filosofia; depois entregou-se apaixonadamente ao estudo da teologia. Para agradar ao pai, tomou também lições de equitação, dança e esgrima, mas sem nelas pôr grande empenho. A cada dia estava mais decidido a consagrar-se a Deus e acabou por fazer voto de castidade perpétua, colocando-se sob a proteção da Santíssima Virgem. Mas nem por isso lhe faltaram as provas. Por volta dos dezoito anos foi assaltado por uma angustiante tentação de desespero. O amor de Deus havia sido sempre o mais importante para ele, e tinha a impressão de ter perdido a graça divina e de estar destinado a odiar eternamente a Deus junto com os condenados. Essa obsessão o perseguia dia e noite, e sua saúde começou a ressentir-se. Finalmente, um ato heroico de amor a Deus o salvou da tentação:


“Senhor, —gritou o santo— fazei com que jamais eu blasfeme o Vosso nome, ainda que não esteja predestinado a ver-Vos no Céu! E se não devo amar-Vos no outro mundo, porque no inferno os condenados não Vos louvam, concedei-me que, ao menos nesta vida, eu Vos ame com todas as minhas forças!”


Igreja de Santa Maria da Paz, altar de São Francisco de Sales, Brescia.
Igreja de Santa Maria da Paz, altar de São Francisco de Sales, Brescia.

Imediatamente depois, quando ainda se encontrava ajoelhado diante de sua imagem predileta de Nossa Senhora, na igreja de St. Etienne des Grés, recitando humildemente o “Lembrai-Vos”, o temor e o desespero se dissiparam e uma grande paz invadiu sua alma. Esta prova lhe ensinou a compreender e a tratar com bondade aqueles que sofriam tentações e dificuldades espirituais.


Aos vinte e quatro anos, Francisco obteve o doutorado em leis em Pádua, e foi reunir-se com sua família no castelo de Thuille, às margens do lago de Annecy. Ali levou durante dezoito meses, pelo menos em aparência, a vida ordinária de um jovem da nobreza. O pai de Francisco tinha grande desejo de que seu filho se casasse o quanto antes e havia escolhido para ele uma encantadora moça, herdeira de uma das famílias do lugar. No entanto, o trato cortês, porém distante, de Francisco fez logo compreender à jovem que ele não estava disposto a secundar os desejos de seu pai. O santo recusou, pela mesma razão, a dignidade de membro do senado que lhe havia sido proposta, apesar de sua juventude. Até então Francisco só havia confiado à sua mãe, ao seu primo Luís de Sales e a alguns amigos íntimos, seu desejo de consagrar-se ao serviço de Deus. Mas havia chegado o momento de falar disso com seu pai. O Sr. de Boisy lamentava que seu filho se recusasse a aceitar o posto no senado e que não tivesse querido casar-se, mas isso não lhe havia feito suspeitar, nem por um momento, que Francisco pensasse em tornar-se sacerdote. A morte do deão do capítulo de Genebra fez o cônego Luís de Sales pensar na possibilidade de nomear Francisco para substituí-lo, o que tornaria menos duro o golpe para o pai do santo. Com a ajuda de Cláudio de Granier, bispo de Genebra, mas sem consultar nenhum membro da família, o cônego explicou o assunto ao Papa, a quem cabia fazer a nomeação e, pelo correio de retorno, chegou a resposta do Sumo Pontífice que concedia a Francisco o cargo. Este ficou muito surpreendido diante da dignidade com que o Papa o distinguia, mas resignou-se a aceitar essa honra que não havia buscado, com a esperança de que seu pai assim consentiria mais facilmente em sua ordenação. Mas o Sr. de Boisy era um homem muito decidido, com o princípio de que seus filhos deviam uma obediência absoluta aos seus desejos, e Francisco teve de recorrer a toda a sua respeitosa paciência e ao seu poder de persuasão para convencê-lo de que deveria ceder. Por fim vestiu a batina no mesmo dia em que obteve o consentimento de seu pai, e foi ordenado sacerdote seis meses depois, em 18 de dezembro de 1593. A partir desse momento, entregou-se ao cumprimento de seus novos deveres com um zelo que nunca diminuiu. Exercia os ministérios sacerdotais entre os pobres, com especial carinho; seus penitentes prediletos eram os de origem humilde. Sua pregação não se limitou apenas a Annecy, mas a muitas outras cidades. Falava com palavras tão simples que os ouvintes o escutavam encantados, pois não havia em seus sermões todo aquele ornato de citações gregas e latinas tão comum naqueles tempos, apesar de Francisco ser doutor. Mas Deus tinha destinado o santo a empreender, em breve, um trabalho muito mais difícil.


Gravura colorida de São Francisco de Sales
Gravura colorida de São Francisco de Sales

As condições religiosas dos habitantes do Chablais, na costa sul do lago de Genebra, eram deploráveis devido aos constantes ataques dos exércitos protestantes, e o duque de Sabóia rogou ao bispo Cláudio de Granier que enviasse alguns missionários para evangelizar novamente a região. O bispo enviou um sacerdote a Thonon, capital do Chablais; mas suas tentativas fracassaram. O enviado teve de retirar-se muito em breve. Então o bispo apresentou o assunto à consideração de seu capítulo, sem ocultar suas dificuldades e perigos. De todos os presentes, o deão foi quem melhor compreendeu a gravidade do problema, e ofereceu-se para desempenhar esse duro trabalho, dizendo simplesmente: “Senhor, se julgais que eu possa ser útil nessa missão, dai-me a ordem de ir, pois estou pronto a obedecer e me considerarei feliz por ter sido escolhido para ela”. O bispo aceitou imediatamente, com grande alegria de Francisco. Mas o senhor de Boisy via as coisas de maneira diferente, e dirigiu-se a Annecy para impedir o que ele chamava de “uma espécie de loucura”. Segundo ele, a missão equivalia a enviar seu filho à morte. Ajoelhando-se aos pés do bispo, disse-lhe: “Senhor, eu permiti que meu primogênito, a esperança de minha casa, de minha avançada idade e de minha vida, se consagrasse ao serviço da Igreja; mas eu quero que seja um confessor e não um mártir”. Quando o bispo, impressionado pela dor e pelas súplicas de seu amigo, se dispunha a ceder, o próprio Francisco lhe rogou que se mantivesse firme: “Vais tornar-me indigno do Reino dos Céus?” —perguntou— “Eu já pus a mão no arado, não me façais voltar atrás”.


O bispo empregou todos os argumentos possíveis para dissuadir o Sr. de Boisy, mas este despediu-se com as seguintes palavras: “Não quero opor-me à vontade de Deus, mas tampouco quero ser o assassino de meu filho, permitindo sua participação nessa empresa descabelada. Que Deus faça o que Sua Providência lhe ditar, mas eu jamais autorizarei esta missão”.


Francisco teve de empreender a viagem, sem a bênção de seu pai, no dia 14 de setembro de 1594, dia da Santa Cruz. Partiu a pé, acompanhado somente por seu primo, o cônego Luís de Sales, para a reconquista do Chablais.


O governador da província havia se fortificado com um destacamento de soldados no castelo de Allinges, onde os dois missionários se arranjavam para passar as noites a fim de evitar surpresas desagradáveis. Em Thonon restavam apenas cerca de vinte católicos, a quem o medo impedia de professar abertamente suas crenças. Francisco entrou em contato com eles e exortou-os a perseverar com valentia. Os missionários pregavam todos os dias em Thonon e, pouco a pouco, foram estendendo sua ação às regiões circunvizinhas. O caminho até o castelo de Allinges, que eram obrigados a percorrer, oferecia muitas dificuldades e, particularmente no inverno, tornava-se perigoso. Certa noite, Francisco foi atacado por lobos e teve de subir numa árvore e permanecer ali em vigília para escapar com vida. Na manhã seguinte, alguns camponeses o encontraram em estado tão lastimoso que, se não o tivessem levado para sua casa para lhe dar de comer e aquecê-lo, o santo teria certamente morrido. Os bons camponeses eram calvinistas. Francisco lhes agradeceu em termos tão cheios de caridade que se tornou amigo deles e muito em breve os converteu ao catolicismo. No mês de janeiro de 1595, um grupo de assassinos pôs-se à espreita de Francisco em duas ocasiões, mas o céu preservou a vida do santo de maneira quase milagrosa.


“São Francisco de Sales entrega a Santa Joana de Chantal a regra da Ordem da Visitação”, por Noël Hallé.
“São Francisco de Sales entrega a Santa Joana de Chantal a regra da Ordem da Visitação”, por Noël Hallé.

O tempo passava e o fruto do trabalho dos missionários era muito escasso. Por outro lado, o Sr. de Boisy enviava constantemente cartas a seu filho, rogando-lhe e ordenando-lhe que abandonasse aquela missão desesperada. Francisco respondia sempre que, se seu bispo não lhe desse uma ordem formal para voltar, não abandonaria seu posto. O santo escrevia a um amigo de Évian nestes termos: “Estamos apenas no começo. Estou decidido a seguir adiante com coragem, e minha esperança contra toda esperança está posta em Deus. São Francisco fazia todos os esforços para tocar os corações e as mentes do povo. Com esse objetivo, começou a escrever uma série de panfletos nos quais expunha a doutrina da Igreja e refutava a dos calvinistas. Aqueles escritos, redigidos em plena batalha, que o santo mandava copiar à mão pelos fiéis para distribuí-los, formariam mais tarde o volume das “Controvérsias”. Os originais conservam-se ainda no convento da Visitação de Annecy. Assim começou a carreira de escritor de São Francisco de Sales, que a esse trabalho acrescentava o cuidado espiritual dos soldados da guarnição do castelo de Allinges, que eram católicos apenas de nome e formavam uma tropa ignorante e dissoluta. No verão de 1595, quando São Francisco se dirigia ao monte Voiron para restaurar um oratório de Nossa Senhora, destruído pelos habitantes de Berna, uma multidão lançou-se sobre ele, depois de insultá-lo, e o maltratou. Pouco a pouco o auditório de seus sermões em Thonon tornou-se mais numeroso, ao mesmo tempo em que os panfletos faziam efeito no povo. Por outro lado, aquelas gentes simples admiravam a paciência do santo nas dificuldades e perseguições, e lhe concediam suas simpatias. O número de conversões começou a aumentar e chegou a formar-se uma corrente contínua de apóstatas que voltavam a reconciliar-se com a Igreja.


Quando o bispo Granier foi visitar a missão, três ou quatro anos mais tarde, os frutos da abnegação e do zelo de São Francisco de Sales eram visíveis. Muitos católicos saíram a receber o bispo, que pôde administrar uma boa quantidade de confirmações e até presidir a adoração das quarenta horas, o que teria sido inconcebível alguns anos antes, em Thonon. São Francisco havia restabelecido a fé católica na província e merecia, com justiça, o título de “Apóstolo do Chablais”. Mário Besson, posterior bispo de Genebra, resumiu a obra apostólica de seu predecessor numa frase do próprio São Francisco de Sales a Santa Joana de Chantal:


“Eu tenho repetido com frequência que a melhor maneira de pregar contra os hereges é o amor, mesmo sem dizer uma só palavra de refutação contra suas doutrinas”.

São Francisco de Sales diante do papa Clemente VIII
São Francisco de Sales diante do papa Clemente VIII

O mesmo bispo, Mons. Besson, cita o cardeal du Perron: “Estou convencido de que, com a ajuda divina, a ciência que Deus me deu é suficiente para demonstrar que os hereges estão no erro; mas se o que quereis é convertê-los, levai-os ao bispo de Genebra, porque Deus lhe deu a graça de converter todos os que se aproximam dele”.


Mons. de Granier, que sempre havia visto em Francisco um possível coadjutor e sucessor, pensou que havia chegado o momento de pôr em prática seus projetos. O santo recusou aceitar, a princípio, mas finalmente rendeu-se às súplicas de seu bispo, submetendo-se ao que considerava uma manifestação da vontade de Deus. Pouco tempo depois, foi acometido por uma grave enfermidade que o colocou entre a vida e a morte. Ao restabelecer-se, foi a Roma, onde o Papa Clemente VIII, que havia ouvido muitos elogios sobre a virtude e as qualidades do jovem deão, pediu que ele se submetesse a um exame em sua presença. No dia marcado reuniram-se muitos teólogos e sábios. O próprio Sumo Pontífice, assim como Barônio, Belarmino (o santo), o cardeal Frederico Borromeo (primo de São Carlos) e outros, interrogaram o santo sobre trinta e cinco pontos difíceis de teologia. São Francisco respondeu com simplicidade e modéstia, mas sem ocultar sua ciência. O Papa confirmou sua nomeação como coadjutor de Genebra, e Francisco voltou à sua diocese para trabalhar com mais afinco e energia do que nunca. Em 1602 foi a Paris, onde o convidaram a pregar na capela real, que logo se tornou pequena para a multidão que acorria para ouvir a palavra do santo, tão simples, tão comovente e tão valente. Henrique IV concebeu grande estima pelo coadjutor de Genebra e tentou em vão retê-lo na França. Anos mais tarde, quando São Francisco de Sales foi novamente a Paris, o rei redobrou suas instâncias; mas o jovem bispo recusou-se a trocar sua diocese da montanha, sua “pobre esposa”, como ele a chamava, pela importante diocese —a “esposa rica”— que o rei lhe oferecia. Henrique IV exclamou: “O bispo de Genebra tem todas as virtudes, sem um único defeito”.


Com a morte de Cláudio de Granier, ocorrida no outono de 1602, Francisco sucedeu-lhe no governo da diocese. Fixou sua residência em Annecy, onde organizou sua casa com a mais estrita economia, e consagrou-se a seus deveres pastorais com enorme generosidade e devoção. Além do trabalho administrativo, que levava até nos menores detalhes do governo de sua diocese, o santo encontrava ainda tempo para pregar e confessar com infatigável zelo. Organizou o ensino do catecismo; ele mesmo se encarregava da instrução em Annecy, e o fazia de forma tão interessante e fervorosa, que as gentes do lugar recordavam ainda, muitos anos depois de sua morte, “o catecismo do bispo”. A generosidade e a caridade, a humildade e a clemência do santo eram inesgotáveis. Em seu trato com as almas foi sempre bondoso, sem cair na fraqueza; mas sabia empregar a firmeza quando a bondade não bastava. Em seu maravilhoso “tratado do amor de Deus”, escreveu: “A medida do amor é amar sem medida”, e soube viver suas palavras. Com sua abundante correspondência alentou e guiou inúmeras pessoas que necessitavam de sua ajuda. Entre os que dirigia espiritualmente, Santa Joana Francisca de Chantal ocupa um lugar especial. São Francisco a conheceu em 1604, quando pregava um sermão de quaresma em Dijon. A fundação da Congregação da Visitação, em 1610, foi o resultado do encontro dos dois santos. A “Introdução à Vida Devota” nasceu das notas que o santo conservava das instruções e conselhos enviados à sua prima política, a Sra. de Chamoisy, que se havia confiado à sua direção. São Francisco decidiu-se, em 1608, a publicar tais notas, com algumas adições. O livro foi recebido como uma das obras-primas da ascética e logo foi traduzido para muitos idiomas. Em 1610, Francisco de Sales teve a dor de perder sua mãe (seu pai havia morrido nove anos antes). O santo escreveu mais tarde a Santa Joana de Chantal: “Meu coração estava dilacerado e chorei por minha boa mãe como nunca havia chorado desde que sou sacerdote”. São Francisco haveria de sobreviver nove anos à sua mãe, nove anos de trabalho inesgotável.


São Francisco de Sales (escola portuguesa, séc. XVIII)
São Francisco de Sales (escola portuguesa, séc. XVIII)

Em 1622, o duque de Sabóia, que ia ver Luís XIII em Avignon, convidou o santo a reunir-se com eles naquela cidade. Movido pelo desejo de conseguir certos privilégios para a parte francesa de sua diocese, o bispo aceitou imediatamente o convite, embora arriscasse sua débil saúde numa viagem tão longa, em pleno inverno. Mas parece que o santo pressentia que seu fim se aproximava. Antes de partir de Annecy, colocou em ordem todos os assuntos e empreendeu a viagem como se não tivesse esperança de voltar a ver seu rebanho. Em Avignon fez todo o possível para levar sua habitual vida de austeridade; mas as multidões se acotovelavam para vê-lo, e todas as comunidades religiosas queriam que o santo bispo lhes pregasse. Na viagem de regresso, São Francisco deteve-se em Lyon, hospedando-se na pequena casa do jardineiro do convento da Visitação. Embora estivesse muito fatigado, passou um mês inteiro atendendo às religiosas. Uma delas lhe pediu que lhe dissesse qual virtude devia praticar especialmente; o santo escreveu numa folha de papel, com grandes letras: “Humildade”. Durante o Advento e o Natal, sob os rigores de um inverno rigoroso, prosseguiu sua viagem, pregando e administrando os sacramentos a todos os que lhos pediam. No dia de São João sobreveio-lhe uma paralisia; mas recuperou a fala e o pleno conhecimento. Com admirável paciência, suportou os penosos tratamentos que lhe foram administrados com a intenção de prolongar-lhe a vida, mas que não fizeram senão abreviá-la. Em seu leito repetia: Exspectans exspectavi Dominum et intendit mihi, et exaudivit preces meas, et eduxit me de lacu miseriae et de luto faecis: “Esperei confiantemente no Senhor, e Ele me ouviu e escutou minhas súplicas e me tirou do fosso da miséria e do lodo da iniquidade”. No último momento, apertando a mão de um dos que o assistiam solícitos, murmurou: “Advesperascit et inclinata est jam dies”: “Começa a anoitecer e o dia já declina”. Sua última palavra foi o nome de Jesus. Enquanto os circunstantes recitavam de joelhos as ladainhas dos agonizantes, São Francisco expirou docemente, aos cinquenta e seis anos de idade.


A beatificação de São Francisco de Sales foi a primeira realizada com solenidade [na basílica de] São Pedro em Roma. A canonização teve lugar na mesma basílica, três anos depois. A festa do santo celebra-se no dia 29 de janeiro, dia da trasladação de seus restos ao convento da Visitação de Annecy. Em 1877 foi declarado Doutor da Igreja, e o Papa Pio XI o nomeou patrono dos jornalistas. Quando São Francisco morreu, um sacerdote chamado Vicente de Paulo vivia em Paris. O santo bispo lhe havia confiado o cuidado do primeiro convento da Visitação. São Vicente disse de São Francisco:


“O servo de Deus conformava-se de tal modo ao molde que Deus lhe havia fixado, que muitas vezes me perguntei, admirado, como uma criatura podia alcançar tão alto grau de perfeição, dada a fragilidade de nossa natureza... Meditando suas palavras, senti-me tão cheio de admiração que creio que Francisco de Sales é o homem que mais fielmente reproduziu na terra o amor do Filho de Deus”.


Algumas pessoas, considerando que o santo era demasiado indulgente com os pecadores, disseram-lho francamente certa vez. O bispo respondeu:


“Se existisse uma virtude mais alta que a bondade, Deus no-la teria ensinado. Pois bem, a nada nos exortou tanto Jesus Cristo quanto a sermos mansos e humildes de coração. Por que vos opondes a que eu obedeça ao mandamento de meu Senhor? Quem melhor que Deus pode indicar-nos o caminho neste ponto?”


Retrato de São Francisco de Sales
Retrato de São Francisco de Sales

A ternura de São Francisco manifestava-se especialmente para com os apóstatas e os pecadores. Quando esses pródigos voltavam à casa paterna, o santo os acolhia com a bondade de um pai, dizendo-lhes: “Deus e eu estamos dispostos a ajudar-vos. Tudo o que vos peço é que não desespereis; do resto eu me encarrego”. Sua solicitude por eles estendia-se também às suas dificuldades materiais, e ele lhes abria a bolsa tão amplamente quanto o coração. Como alguns murmurassem que isso alentava os pecadores em seus maus hábitos, o santo respondeu:


“Não fazem eles acaso parte de meu rebanho? Ou acaso o Senhor não derramou seu sangue por eles? Esses lobos se transformarão em mansos cordeiros e um dia valerão mais, aos olhos de Deus, do que todos nós. Se Deus não tivesse usado de misericórdia com Saulo, São Paulo não existiria”.


Existe um material imenso sobre a vida de São Francisco de Sales. No século XVII apareceram numerosas biografias, duas delas apenas alguns anos após a morte do santo. Suas próprias obras, especialmente suas cartas, constituem uma mina inesgotável de informações. Ver a grande edição de Annecy, preparada pelas religiosas da Visitação, sob a direção do beneditino inglês Dom Mackey, e mais tarde sob a direção do Pe. Navatel e outros. L’esprit de St. François de Sales, de Mons. Camus, alcançou imensa popularidade desde a primeira edição em 1641, e foi traduzido para muitos idiomas; ver também St. Francis de Sales (1937), de M. Mueller. As biografias modernas mais completas são a do Pe. Hamon e a de Mons. W. G. Trochu. Existe um estudo em francês sobre São Francisco de Sales, Mestre da Perfeição, do cônego J. Leclercq (1948). Entre as obras de leitura fácil contam-se a de M. M. Maxwell Scott, St. Francis de Sales and his friends, e a Vida de Margerie. Dois escritores anglicanos escreveram sobre o santo: H. L. Farrer (Mrs. Lear), Life (1872), e E. K. Sanders (1928).1




São Sabiano, Mártir
São Sabiano, Mártir

O Martirológio Romano comemora São Sabiniano neste dia, e a diocese de Troyes o venera como primeiro apóstolo e mártir da cidade de mesmo nome. Existem três “atas” de São Sabiniano e de seu martírio, nenhuma das quais possui valor histórico. Conta-se que Sabiniano nasceu na ilha de Samos; que se converteu ao cristianismo lendo a Bíblia; que foi pregar o Evangelho na Gália antes de ser batizado; que recebeu o batismo diretamente do céu (já que uma voz sobrenatural pronunciou as palavras sacramentais); que foi feito prisioneiro por ter efetuado numerosas conversões, e que compareceu valorosamente diante do imperador Aureliano. Após uma série de incidentes milagrosos, como, por exemplo, o fato de o fogo não o consumir e as flechas não o atravessarem, foi finalmente decapitado pela espada. Não parece haver nenhuma tradição primitiva em apoio de seu culto, de modo que a única coisa que podemos afirmar é que um mártir chamado Sabiniano morreu provavelmente em Troyes, vítima de uma das primeiras perseguições.


Ver Acta Sanctorum, 29 de janeiro; E. Defer, Vie des saints du diocèses de Troyes, pp. 27-36; Analecta Bollandiana, vol. IV (1885), pp. 139-156.2


No livro "The Lives of the Saints" do Rev. S. Baring-Gould, podemos ver a seguinte história sobre o mesmo santo e sua irmã:


SS. Sabiniano e Sabina eram irmão e irmã, naturais de Samos. Tendo a alma de Sabiniano sido tocada pelo ensinamento cristão, deixou sua ilha natal e, chegando à Gália, alcançou Troyes, onde encontrou cristãos e ali foi batizado no rio Sena. Diz-se que o seu bordão, que ele havia fincado na margem quando desceu à água, ao retornar lançou folhas e floresceu.


No reinado de Aureliano, foi levado à presença do imperador, então em Vienne, na Gália, e foi cruelmente atormentado, sendo sentado sobre um banco de ferro aquecido, e colocado sobre sua cabeça um capacete em brasa. Depois disso, foi executado pela espada. Sua irmã Sabina, que o havia seguido, chegou a Troyes após o seu martírio. Ali foi batizada, levou uma vida santa e morreu virgem.3



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 198-204.

2. Ibid. pp. 204-205.

3. Rev. S. Baring-Gould, The Lives of the Saints, "SS. SABINIAN, M., AND SABINA, V." vol. , p. 440.



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