Vida dos Sete Santos Fundadores da Ordem dos Servos de Maria e São Julião, o Hospitaleiro (12 de fevereiro)
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Em um período de dois anos, de 1225 a 1227, sete jovens florentinos associaram-se à Confraria da Santíssima Virgem — popularmente conhecidos como os “Laudesi” ou os louvadores —. Era a época em que a próspera cidade de Florença estava atormentada por tumultos políticos e perturbada pela heresia dos “Cátaros”. Também era um tempo de relaxamento moral generalizado, ainda que se conservassem práticas de devoção. Esses jovens, membros das famílias mais importantes da cidade, desde a infância haviam se ocupado mais de assuntos espirituais do que dos temporais e não haviam tomado parte nas contendas locais. Não está bem claro se já eram amigos antes de se associarem aos Laudesi, mas nessa confraria tornaram-se intimamente unidos. A cada dia, esses sete homens desapegavam-se mais do mundo e entregavam-se mais ao serviço da Santíssima Virgem. O mais velho de todos era Buonfiglio Monaldo, que se tornou seu chefe, e os outros eram Alexis Falconieri, Benedetto dell’Antella, Bartolomeo Amidei, Ricovero Uguccione, Gerardino Sostegni e Giovanni Buonagiunta. Tinham por diretor espiritual Tiago de Poggibonsi, que era capelão dos Laudesi, homem de grande santidade e discernimento espiritual. Todos eles seguiram o chamado a uma vida de renúncia e determinaram recorrer a Nossa Senhora em suas angústias. Na festa da Assunção, enquanto estavam absortos em oração, viram a Virgem em uma visão, e Ela lhes inspirou o desejo de afastar-se do mundo e viver em um lugar solitário somente para Deus. Houve dificuldades porque, embora três deles fossem celibatários, dois eram casados e dois eram viúvos, que tinham impedimentos. Era necessário prover convenientemente aqueles que deles dependiam; mas isso foi resolvido e, com a aprovação do bispo, afastaram-se do mundo. Foram para uma casa chamada La Camarzia, fora das portas de Florença, vinte e três dias depois de terem recebido o chamado. Seu desejo era levar uma vida de penitência e oração, mas logo os contínuos visitantes florentinos começaram a distraí-los e assim decidiram retirar-se para as encostas desertas e selvagens do Monte Senário, onde construíram uma simples igreja e uma ermida, na qual levavam uma vida de austeridades quase incríveis.
Apesar das dificuldades para encontrá-los, os visitantes não deixavam de ir até os eremitas e muitos desejavam unir-se a eles, mas eles se recusavam a aceitar recrutas. Assim continuaram vivendo por vários anos, até que foram visitá-los seu bispo, Ardingo, e o cardeal Castiglione, que havia ouvido falar muito acerca de sua santidade. Este ficou grandemente edificado, mas fez uma crítica desfavorável. “Vosso modo de viver”, disse, “assemelha-se demasiado ao das criaturas selvagens dos bosques, no que concerne ao cuidado do corpo. Tratais-vos de um modo que beira a barbárie: e pareceis desejar mais morrer no tempo do que viver para a eternidade. Tende cuidado; o inimigo das almas às vezes se esconde sob a aparência de um anjo de luz... Escutai os conselhos de vossos superiores”. Os sete ficaram profundamente impressionados com essas palavras e apressaram-se em pedir ao seu bispo uma regra de vida. Ele respondeu que o assunto exigia oração e rogou-lhes que não continuassem negando admissão aos que buscavam unir-se a eles. Mais uma vez os solitários puseram-se em oração para obter luz e, novamente, tiveram uma visão de Nossa Senhora, que levava na mão um hábito negro, enquanto um anjo sustentava um pergaminho com o título de Servos de Maria. A Virgem dirigiu-se a eles e disse que os havia escolhido para que fossem seus servos, que desejava que usassem o hábito e seguissem a regra de Santo Agostinho. Desde aquela data, 13 de abril de 1240, foram conhecidos como Servos de Maria, ou Servitas. Ao aceitar essa regra, os Sete Fundadores tiveram que adotar um modo de vida diferente, o que deu grande satisfação ao seu antigo amigo, o bispo de Florença. Tiago de Poggibonsi, que os havia seguido, resolveu unir-se a eles. Receberam o hábito das mãos do próprio bispo e elegeram Buonfiglio como superior. De acordo com o costume, escolheram seus nomes religiosos, pelos quais seriam conhecidos daí em diante. Esses nomes foram: irmãos Bonfílio, Aleixo, Amadeu, Hugo, Sóstenes, Maneto e Buonayunta.

Por desejo do bispo, todos, exceto Santo Aleixo, que em sua humildade pediu dispensa, prepararam-se para receber as sagradas ordens e, a seu devido tempo, professaram e foram ordenados sacerdotes. A nova ordem, cuja forma era mais semelhante à dos frades mendicantes do que à das ordens monásticas, cresceu surpreendentemente e logo foi necessário fundar novas casas. Os primeiros lugares escolhidos foram Siena, Pistoia e Arezzo, e depois estabeleceram-se casas em Cafaggio, o convento e igreja da Santíssima Annunziata em Florença, e o convento em Lucca. Embora os Servitas tivessem a aprovação de seus superiores imediatos, não haviam sido reconhecidos pela Santa Sé. Repetidas vezes fizeram-se esforços para obter o reconhecimento, mas os que desejavam ver abolida a nova ordem ou absorvida por outra levantavam dificuldades. O Concílio de Latrão havia declarado que não deveriam ser fundadas novas ordens, e posteriormente o Concílio de Lyon acrescentou ainda mais limitações. Cada vez que o pedido dos Servitas chegava ao Papa, era deixado de lado ou não era considerado. Somente em 1259 a ordem ficou praticamente reconhecida por Alexandre IV, e apenas em 1304, mais de sessenta anos depois de sua fundação, recebeu a aprovação explícita e formal do Beato Bento XI.
São Bonfílio permaneceu como prior geral até 1256, quando pediu para ser dispensado devido à sua idade avançada. Teve uma morte muito bela, no meio de todos os seus irmãos, na noite do ano-novo de 1261.
São Buonayunta, o mais jovem dos sete, foi o segundo prior geral, mas expirou na capela pouco depois de sua eleição, enquanto se lia o Evangelho da Paixão.
São Amadeu governou o importante convento de Cafaggio, mas voltou ao Monte Senário para terminar seus dias.
São Maneto tornou-se o quarto prior geral e enviou missionários à Ásia, mas retirou-se logo para ceder o lugar a São Filipe Benizi, sobre cujo peito expirou. São Hugo e São Sóstenes foram ao estrangeiro; Sóstenes a Paris e Hugo a fundar conventos na Alemanha. Foram chamados de volta em 1276 e, tendo adoecido, morreram um ao lado do outro, na mesma noite.
Santo Aleixo, o humilde irmão leigo, sobreviveu a todos os demais e foi o único que viveu para ver a ordem em pleno vigor e definitivamente reconhecida. Diz-se que morreu com a idade de cento e dez anos.
Há certa falta de informações precisas com relação à história primitiva dos Sete Santos Fundadores. Entre as fontes contemporâneas mais próximas encontramos uma crônica de Pedro de Todi e umas memórias do padre Nicolau Mati. Os Annales Sacri de Giani, continuados por Garbi, não são muito dignos de confiança no que se refere aos primórdios da ordem. A Histoire des Sept Saints Fondateurs de l’Ordre des Servites de Marie, do padre Ladoux (1888). Foram contados entre os santos pelo Papa Leão XIII em 1887.1

No dia 27 de janeiro fazemos referência a um “Julião”, bispo de Le Mans, e hoje a outro São Julião conhecido como “o Hospitaleiro”. Mal é possível saber se a história que possuímos é puramente novela, mas criou-se uma estranha confusão entre os diferentes São Juliões e torna-se muito difícil desenredar os poucos fios de fatos autênticos que possivelmente pertençam às vidas de um ou outro deles. Já no século quinze a confusão aparecia; a versão de Caxton da “Golden Legend” (Legenda Dourada), da qual podemos tirar os dados da história tradicional do “Hospitaleiro”, começa apresentando-nos, ao menos, outros três Juliões. O primeiro foi o bispo de Le Mans já mencionado, que alguns supõem não ser outro senão Simão o leproso, a quem Nosso Senhor purificou da lepra e que convidou Jesus Cristo para comer. Por essa razão, continua o escritor, muita gente o identifica com o santo a quem peregrinos e viajantes invocam para obter boa hospedagem, “porque Nosso Senhor se hospedou em sua casa”; mas o nosso crítico medieval considera isso pouco provável. Houve também outro São Julião, “nascido na Alemanha, de nobre linhagem, ainda mais nobre na fé e na virtude”. Esse santo foi mártir. Depois de sua morte, quando um clérigo sem princípios roubou uma ovelha pertencente à igreja da qual ele era titular, recebeu dele um castigo por sua culpa. Ainda há um terceiro São Julião, “irmão de uma mulher chamada Júlia”. Ambos foram martirizados juntos e realizaram, depois da morte, muitos milagres, dos quais um ou dois são narrados em detalhe.
Mas o Julião a quem se dá mais atenção é o Hospitaleiro, “que matou seu pai e sua mãe por ignorância”. Sua história, modernizando o vocabulário, seria esta:
“Era uma vez um jovem nobre que certa vez saiu para caçar. Andando pelo bosque encontrou um cervo que se voltou para ele e lhe disse: ‘Se me caçares, matarás teu pai e tua mãe’, pelo que o jovem ficou muito perturbado e assustado. Com medo de que lhe acontecesse o que o cervo havia dito, partiu para longe, onde ninguém o pudesse descobrir, e encontrou um príncipe nobre e poderoso que o tomou a seu serviço. Sua conduta era tão boa na guerra quanto no palácio, e o rei tanto o distinguia que o fez cavaleiro, deu-lhe em casamento uma rica viúva de um castelão e, como dote, recebeu o castelo. E quando seu pai e sua mãe souberam que ele havia partido, puseram-se a procurá-lo por toda parte. Andaram por muito tempo até que chegaram ao castelo onde ele vivia, mas ele estava fora e encontraram apenas sua esposa. Quando ela os viu, perguntou-lhes atentamente quem eram; e quando relataram o que lhes acontecera com o filho, percebeu que eram de fato o pai e a mãe de seu marido. Recebeu-os com a maior cortesia e deu-lhes sua própria cama, preparando outra para si.

“Na manhã seguinte, a esposa de Julião foi à igreja, e seu marido chegou enquanto ela estava lá. Entrou em seu quarto para despertar a esposa e viu duas pessoas em sua cama. Como imaginasse que fosse um homem que se deitara com sua mulher, matou os dois com sua espada. Depois saiu e viu sua esposa que vinha da igreja. Então ficou muito envergonhado e exigiu que sua esposa lhe dissesse quem eram os que estavam em sua cama. Ela respondeu que eram seu pai e sua mãe, que o haviam procurado por muito tempo e aos quais ela dissera que dormissem em sua cama. Então ele desmaiou e quase morreu de impressão. Começou a lamentar-se amargamente e a exclamar em alta voz: ‘Ai de mim, miserável! Que farei eu, que matei meu pai e minha mãe? Agora aconteceu aquilo que eu pensava ter evitado’. E disse à esposa: ‘Adeus, vai com Deus, minha amada; não descansarei até saber que Deus me perdoou e esqueceu isto que fiz; farei digna penitência’. E ela respondeu: ‘Sim, meu amor, que Deus não permita que partas sem mim; assim como tive alegria contigo, assim terei dor e suportarei a tristeza’.
“Então partiram e viajaram até chegar a um grande rio por onde passava muita gente; ali edificaram um hospital para abrigar os pobres e fizeram penitência, conduzindo de um lado a outro os que queriam atravessar.
Passado muito tempo, numa noite São Julião adormeceu já tarde; estava muito cansado, havia geado e fazia muito frio. Então ouviu uma voz que se lamentava dizendo: ‘Julião, vem e ajuda-nos a passar’. Logo se levantou e foi até lá e encontrou uma pessoa quase morta de frio. Imediatamente a tomou e levou até o fogo e fez grandes esforços para aquecê-la, esfregando seus membros. Quando viu que não podia reanimá-la nem aquecê-la, levou-a para sua cama e a cobriu o melhor que pôde. Depois viu esse homem, que estava tão doente e parecia ser um leproso, subir resplandecente ao céu. E disse a São Julião, que o havia hospedado: ‘Julião, Nosso Senhor me enviou a ti e manda dizer que Ele aceitou tua penitência’. Pouco depois, São Julião e sua esposa entregaram suas almas a Deus e deixaram este mundo”.

Esta é a lenda de São Julião, que foi extremamente popular na Idade Média. Muitos hospitais estiveram e ainda estão dedicados a ele, especialmente nos Países Baixos. Várias cenas de sua vida estão representadas em um dos vitrais de uma das janelas da catedral de Rouen; parece que foi doado pela corporação dos barqueiros do rio daquela cidade. Todos os hoteleiros, viajantes e barqueiros colocaram-se sob sua proteção. Não há um emblema peculiar para representar São Julião o Hospitaleiro, mas frequentemente ele é representado com um cervo ou com um barco, exercendo a função de barqueiro.
Seria difícil datar a origem desta lenda. Ela está na Legenda Aurea do Beato Jacopo de Voragine, e os bolandistas publicam a versão da história que se encontra em Santo Antonino de Florença, que trata do assunto no dia 29 de janeiro. A lenda é certamente anterior aos tempos de Voragine ou Antonino; pois se encontra, entre outros, em Vicente de Beauvais. Consulte-se ali o artigo mais valioso, incluindo uma “vita” inédita, do P. B. de Gaiffier em Analecta Bollandiana, vol. LXXXIII (1945), pp. 144-219. Há considerável bibliografia a respeito de São Julião. Veja-se, por exemplo, Gustave Flaubert, La Légende de St. Julien l’Hospitalier (1874), e A. M. Gosrez, Le St. Julien de Flaubert (1903).2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 317-319.
2. Ibid. pp. 320-322.


























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