Vida de São Davi de Gales e Papa São Félix III (1 de março)
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Infelizmente não existe nenhuma biografia primitiva do Santo Padroeiro do País de Gales, que é talvez o mais célebre dos santos britânicos. Todos os dados que possuímos sobre ele baseiam-se na biografia escrita por volta do ano 1090 por Ricemarco, filho do bispo Sulien de Saint David's. Ricemarco era um homem de grande cultura e, por conseguinte, há motivos para crer que investigou a fundo as fontes originais; mas, por outro lado, empenhava-se em sustentar a lenda da primazia da sede de Saint David's e carecia de senso crítico para distinguir os fatos históricos das fábulas mais extravagantes.
Segundo a lenda, Davi nasceu por volta do ano 520. Seu pai foi um nobre de Ceredigion, chamado Sant, e sua mãe, Santa Nona (3 de março), era neta de Brychan de Brecknock.
“O lugar onde foi educado — diz Ricemarco — chamava-se Vetus Rubus (Henfynyw, em Cardigan). Cresceu cheio de graça e era de grande atrativo físico. Aprendeu o alfabeto, os salmos e todas as lições do Breviário. Um dia, seus companheiros viram uma pomba de bico de ouro pousar sobre seus lábios para ensiná-lo a cantar os louvores divinos.”
Depois de sua ordenação sacerdotal, retirou-se durante alguns anos para estudar sob a direção de São Paulino, que habitava numa ilha que não foi possível identificar. Conta-se que o santo devolveu a vista a seu mestre, a quem a abundância de lágrimas havia deixado cego. Ao sair do mosteiro, Davi entrou num período de grande atividade; mas os detalhes que se narram dessa época de sua vida são quase todos fantásticos. Citemos novamente seu biógrafo:
“Fundou doze mosteiros para maior glória de Deus; primeiro construiu uma igreja em Glastonbury; em Bath, sua bênção transformou a água venenosa de uma fonte em água termal de propriedades curativas para que os habitantes pudessem tomar banhos; mais tarde foi a Croyland e a Repton, de onde passou a Colfan e Glascwm, levando um altar de dupla face; depois fundou o mosteiro de Leominster; em seguida construiu uma igreja num lugar chamado Raglan, no distrito de Gwent, e um mosteiro num lugar chamado Llangyfelach, no distrito de Gower”.
Finalmente (o que parece mais seguro), estabeleceu-se no extremo sudoeste do País de Gales, em Mynyw (Menevia), com alguns de seus discípulos e fundou a principal de suas numerosas abadias.

A vida da comunidade era sumamente austera. O trabalho manual era obrigatório e estava proibido empregar bois para puxar o arado. Os monges não deviam falar senão em caso de absoluta necessidade e, mesmo no trabalho, prosseguiam a oração mental. Alimentavam-se de pão, verduras e sal e só bebiam água, misturada às vezes com um pouco de leite. Por essa razão, chamou-se São Davi “o aguadeiro”, pois era o superior daqueles monges de quem São Gildas disse que eram mais abstêmios que cristãos, cujo ideal era imitar os eremitas da Tebaida. Os candidatos tinham de aguardar dez dias diante das portas do mosteiro e sofrer toda espécie de insultos antes de serem admitidos. Desde a tarde de sexta-feira até a madrugada de domingo, observava-se estrita vigília, durante a qual oravam continuamente e só tomavam uma hora de repouso, depois das matinas de sábado.
Diz-se que houve um sínodo em Brefi de Cardigan para combater a heresia pelagiana que se estava propagando pela segunda vez na Grã-Bretanha. Contudo, nos decretos que se atribuem a esse sínodo não há o menor vestígio de antipelagianismo. São Davi foi convidado a participar, mas recusou até que São Deiniol e São Dobricio foram buscá-lo pessoalmente. Conta-se que a graça e a eloquência de São Davi reduziram seus adversários ao silêncio e que São Dobricio renunciou à sede primacial de Caerleon para dar oportunidade à assembleia de eleger unanimemente São Davi. Vendo-se obrigado a aceitar, o santo pôs como condição que a sede se transferisse de Caerleon para Mynyw (atualmente Saint David's), que era uma cidade mais tranquila.
Uma lenda fabulosa (?), criada sem dúvida para demonstrar que São Davi tinha o título de metropolitano, diz que o servo de Deus fez uma peregrinação a Jerusalém, onde foi consagrado arcebispo pelo patriarca da Cidade Santa. Diz-se também que reuniu outro concílio em Caerleon, conhecido como “o sínodo da vitória”, porque pôs fim ao pelagianismo na Grã-Bretanha. O concílio ratificou os decretos do de Brefi e um código de regras para a Igreja da Inglaterra. Giraldo acrescenta, parafraseando Ricemarco:
“O bispo Davi promulgou, primeiro de palavra, os decretos de ambos os sínodos e depois os escreveu com sua santa mão e mandou que fossem observados em sua própria igreja e nas outras igrejas do País de Gales; mas, como tantos outros tesouros de sua distinta biblioteca, desapareceram devido ao tempo, à negligência e aos frequentes ataques dos piratas que vinham durante o verão das ilhas Orkney e assolavam as províncias marítimas do País de Gales.”
O próprio Giraldo nos diz que São Davi foi o ornamento e o exemplo de sua época e que governou sua diocese até idade muito avançada. À sua morte, ocorrida no mosteiro de Mynyw, segundo Godofredo de Monmouth, São Kentigern, que se encontrava em Llanelwy, viu os anjos levarem sua alma ao céu. As últimas palavras de São Davi a seus monges e vizinhos foram:
“Sede alegres, irmãos e irmãs. Guardai a fé e continuai praticando as pequenas coisas que me vistes fazer e dizer.”
O corpo do santo foi mais tarde trasladado do mosteiro para a catedral de Saint David's, onde ainda hoje se mostra o túmulo vazio. As relíquias estavam em Saint David's em 1346, mas diz-se que foram trasladadas para Glastonbury.

Costuma-se representar São Davi sobre uma colina e com uma pomba no ombro. Trata-se de uma alusão à lenda segundo a qual uma pomba branca veio pousar sobre ele durante um de seus discursos no sínodo de Brefi e a terra se elevou sob seus pés até formar uma colina, para que toda a assembleia pudesse ouvi-lo. Em “Henrique V”, Shakespeare faz alusão ao costume dos homens do País de Gales de levar ramos de alho-poró no dia de São Davi e o chama de “tradição antiga e de nobre origem”; mas, na realidade, a origem de tal costume é desconhecida. Em todo caso, na vida de São Davi não se faz menção aos alhos-porós. Diz-se que o Papa Calisto II aprovou o culto de São Davi por volta do ano 1120 e que concedeu uma indulgência a todos os que fossem visitar seu santuário: “duas peregrinações a Menevia equivaliam a uma peregrinação a Roma”, afirma essa tradição duvidosa. O que não pode ser posto em dúvida é que São Davi foi muito popular no País de Gales. Mais de cinquenta igrejas foram consagradas em sua honra somente no País de Gales, antes da Reforma. O arcebispo inglês Arundel ordenou que todas as igrejas de Canterbury celebrassem sua festa a partir do ano de 1398. Atualmente celebra-se a festa do santo nas dioceses de Westminster e Portsmouth.
A mais antiga menção do nome de São Davi encontra-se no Catalogue of Saints of Ireland (c. 730) e no Martyrology of Oengus (c. 800); mas não se dá nenhum detalhe sobre ele. O texto da biografia de Ricemarco foi cuidadosamente editado por A. W. Wade-Evans, em Cymmrodir, vol. xxix; o mesmo autor publicou uma tradução inglesa, com muitas notas, juntamente com outros importantes documentos, em Life of Saint David (1923); o texto latino encontra-se também em Vitae Sanctorum Britanniae (1944), do mesmo autor. A paráfrase da obra de Ricemarco, devida à pena de Giraldo de Cambridge, acha-se no vol. III de suas obras, publicadas na Rolls Series. Ver igualmente LBS., vol. II, pp. 285-322; J. E. Lloyd, History of Wales (1939), vol. I, pp. 152-159; S. M. Harris, St. David in the Liturgy (1940); J. Barret Davies, em Blackfriars, vol. xxix (1948), pp. 121-126. Acerca da influência de São Davi na Igreja da Irlanda, ver J. Ryan, Irish Monasticism (1931), pp. 113-114, 160-164 e passim; sobre a pretendida canonização, Analecta Bollandiana, vol. XLIX (1931), pp. 211-213. Wyndham Morgan, patrocinado pela Cardiff Public Library, publicou uma biografia muito completa sobre São Davi. Ver também a bela obra de Ernest Rhys, The Life of St. David (1927), Greynog Press; e Diana Latham, The Story of St. David (1952).1

Segundo o Martirológio Romano, este Papa foi bisavô de São Gregório Magno, que conta que, quando sua tia Santa Tarsila se encontrava no leito de morte, São Félix lhe apareceu e a levou ao Céu. O Martirológio Romano o chama Félix III devido ao fato de que o antigo catálogo dos Papas incluía, por erro, o antipapa Félix com o nome de São Félix II (ver 29 de julho).
Muito pouco sabemos sobre a vida pessoal deste santo Pontífice. Era um romano valente e prudente, como Leão I, e na história da Igreja seu nome está relacionado com os distúrbios produzidos pela heresia monofisita [mono = uma, physis = natureza]. No ano 482, o imperador Zenão publicou um documento conhecido com o nome de “Henotikon”, redigido por Acácio, patriarca de Constantinopla, para apaziguar os monofisitas, deixando de lado as decisões do Concílio de Calcedônia. Dois anos mais tarde, São Félix convocou um Concílio no Latrão e excomungou Acácio e seus partidários por terem traído a fé católica. São Félix é um dos numerosos pontífices romanos que defenderam as decisões dos concílios ecumênicos contra o poder secular, enquanto a maioria dos hierarcas orientais se submetia covardemente aos desígnios do imperador. Infelizmente, o cisma de Acácio durou trinta e cinco anos e preparou o grande cisma da Igreja bizantina.
No Ocidente, Félix trabalhou muito pela revitalização da Igreja da África, depois da longa perseguição dos vândalos arianos. Morreu no ano 492, pouco antes de completar nove anos de pontificado. Sua festa celebra-se em Roma.
Ver Duchesne, Liber Pontificalis, vol. I, pp. 252-253; DCB, vol. II, pp. 482-485, sv. Félix II; e as obras de história geral da Igreja.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 440-443.
2. Ibid. p. 443.






















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