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Festa da Purificação da Virgem Maria e a Vida de Santa Catarina de Ricci e Santa Joana de Lestonnac (2 de fevereiro)






Apresentação de Jesus no Templo, por Philippe de Champaigne
Apresentação de Jesus no Templo, por Philippe de Champaigne

A lei de Deus dada por Moisés ao povo de Israel especificava que a mulher, depois do parto, permanecia por certo tempo em um estado que a lei chamava de “impuro”, e ordenava que durante esse período não devia mostrar-se em público nem tocar nada consagrado a Deus. Quarenta dias depois do nascimento de um filho e oitenta dias depois do nascimento de uma filha, a mãe devia deixar à porta do tabernáculo ou do templo um cordeiro e uma pomba: o cordeiro, destinado a ser consumido pelo fogo, simbolizava o reconhecimento da soberania de Deus e era oferecido em ação de graças pelo feliz nascimento; a ave oferecia-se em sacrifício para purificação do pecado. Consumado o sacrifício, a mulher ficava limpa da impureza legal. No caso de pessoas pobres, não se exigia um cordeiro, mas duas pombas ou rolas.


Tendo Nosso Senhor sido concebido sem mancha de pecado por obra do Espírito Santo, e visto que Maria, sua mãe, permanecera virgem, é evidente que a Ela não se aplicava esta disposição da lei. Contudo, aos olhos do mundo, o mandamento a obrigava e, com toda humildade, Maria submeteu-se a todos os requisitos da cerimônia tradicional. Também sua piedade e seu desejo de honrar a Deus com todos os ritos prescritos a impulsionaram a este ato de religião e, como era pobre, fez a oferta de duas rolas.[a]


Neste dia comemora-se um segundo grande mistério: a apresentação do nosso Redentor no templo. Além da lei que obrigava a mãe a purificar-se, havia outra que ordenava oferecer a Deus o primogênito, embora depois pudesse ser resgatado mediante certa soma de dinheiro. Maria cumpriu também estritamente todas essas ordenanças. Permaneceu quarenta dias em sua casa, sem deixar-se ver, abstendo-se de entrar no templo e de participar nas cerimônias do culto, embora soubesse que Ela era templo vivo de Deus. No dia de sua purificação caminhou vários quilômetros até Jerusalém, com o Redentor do mundo nos braços, fez suas ofertas como ação de graças e para sua expiação; apresentou seu Filho, pelas mãos do sacerdote, a seu Pai Celestial, resgatou-o com cinco “shekels” e o recebeu de novo em seus braços, até que o Pai voltasse a reclamá-lo. É claro que o caso de Cristo não estava previsto na lei. “Se o filho do rei — como diz São Hilário —, a quem cabia herdar a coroa, estava isento da servidão, quanto mais estaria Cristo, que era o Redentor de nossas almas, isento de qualquer lei pela qual devesse ser resgatado”. Contudo, Ele quis dar-nos exemplo de humildade, obediência e devoção, renovando publicamente a própria oblação ao Pai, como o fizera em sua Encarnação.


Apresentação do Senhor, afresco de Giotto na Capela Scrovegni, em Pádua.
Apresentação do Senhor, afresco de Giotto na Capela Scrovegni, em Pádua.

Do mesmo modo, o dia comemora um terceiro mistério: o encontro de Simeão e Ana com o Menino Jesus e seus pais, às portas do templo. O bem-aventurado Simeão recebeu em seus braços aquele que reconheceu como o objeto de seus anseios e louvou a Deus pela felicidade de contemplar o Messias esperado. Predisse o doloroso martírio de Maria e anunciou que seriam salvos todos os que cressem por meio de Cristo. A profetisa Ana também compartilhou o privilégio de reconhecer e adorar o recém-nascido Redentor do mundo, que não podia ocultar-se àqueles que o buscavam com simplicidade, humildade e fé ardente. A menos que o busquemos com essas disposições, Ele não se manifestará a nós nem nos concederá suas graças. Quando Simeão olhou para seu Salvador, já não desejou continuar vendo a luz deste mundo.


Somente em tempos recentes tivemos notícias sobre a data em que começou a celebrar-se esta festa. Uma descoberta feita em Arezzo, em 1887, revelou a existência de uma descrição, até então desconhecida, do cerimonial que se observava em Jerusalém, aparentemente, na última década do século IV. Crê-se agora que a autora desse opúsculo foi certa abadessa Etéria que, deixando seu convento no noroeste da Espanha, empreendeu uma longa peregrinação à Terra Santa. Ao regressar, escreveu um relato detalhado de suas experiências. No curso da narração, informa-nos que a festa do nascimento de Nosso Senhor no oriente, então fixada em 6 de janeiro, juntamente com a Epifania, celebrava-se de modo especial em Jerusalém, na Igreja da Anástasis (Ressurreição). Etéria acrescentou pormenores sobre as cerimônias, que continuavam durante a oitava, e depois dizia:


Certamente o quadragésimo dia depois da Epifania é celebrado com grande solenidade e organiza-se uma procissão à Anástasis, na qual todos participam e tudo se faz em ordem e com o maior regozijo, como na Páscoa da Ressurreição. Todos os sacerdotes, e depois deles o bispo, pregam sempre sobre o tema daquela passagem do Evangelho em que José e Maria levaram o Senhor ao templo, aos quarenta dias de nascido, e quando Simeão e Ana, a profetisa, filha de Fanuel, o viram. Os sermões tratam das palavras que disseram ao ver o Senhor e da oferta que seus pais fizeram no templo.


A Apresentação, por Vicente López y Portaña.
A Apresentação, por Vicente López y Portaña.

Parece muito provável que Jerusalém tenha sido o lugar de onde a observância da festa se estendeu por todo o mundo oriental. Por exemplo, já no ano 540, ou talvez muito antes, encontramo-la estabelecida em Éfeso com o nome que ainda conserva entre os gregos, o “Hypapante” (isto é, o “encontro” de Jesus com Simeão). Devemos recordar que no oriente, e a princípio também no ocidente, esta celebração era uma festa de Nosso Senhor. Comemorava-se o episódio narrado pelo Evangelho, e o papel correspondente à Santíssima Virgem estava subordinado ao de seu Filho. É surpreendente encontrar provas suficientes para afirmar que desde época muito antiga, ao menos desde o século V, realizava-se na Palestina uma procissão com velas na festa do Hypapante. Na “Vida do abade Teodósio, escrita por Cirilo de Scitópolis, faz-se menção clara dessa prática, e tais alusões se repetem. O fato sugere, ao menos, a possibilidade de que alguma influência oriental tenha introduzido o costume em Roma e, dali, em outras Igrejas do ocidente.


No que se refere à origem das cerimônias que hoje se praticam no dia da Candelária (de candela ou vela), é preciso distinguir em nosso rito atual dois elementos distintos: a Missa e o ofício não estão necessariamente ligados à bênção das velas e à procissão subsequente; esses ritos realizam-se sempre em 2 de fevereiro, enquanto a festa litúrgica pode ser transferida. O mesmo se pode dizer no caso das “Litaniae majores” de 25 de abril, festa de São Marcos. Enquanto a procissão cristã das “litaniae” data do pontificado de São Gregório Magno, que a organizou para substituir a antiga procissão pagã da Robigália, celebrada em Roma desde tempos imemoriais nesse mesmo dia,[b] a festa de São Marcos foi introduzida muito mais tarde. Por outro lado, a procissão da Candelária é penitencial. Até hoje, o sacerdote que preside usa capa pluvial roxa e, antigamente, em Roma, o Papa não usava sua carruagem e ia descalço, e tanto ele como seus diáconos vestiam paramentos negros.


O escritor mais antigo que nos oferece pela primeira vez uma teoria sobre a origem da procissão da Candelária é o Venerável Beda. Em seu “De temporum ratione”, escrito por volta do ano 721, ele a descreve como uma versão cristã de uma “lustratio”, procissão com tochas que, desde os tempos de Numa, se realizava em fevereiro. Esta é a mais antiga das hipóteses, seguida por muitas outras, que chamam a atenção para a festividade pagã chamada Lupercália, como fonte original da festa da Candelária. A Lupercália era um rito de fertilidade que se realizava como uma purificação simbólica da terra. Sacrificavam-se cabras e cães e, depois, os sacerdotes, chamados Luperci, cortavam a pele das vítimas em tiras e corriam nus pela cidade, golpeando todos os que encontravam, especialmente as mulheres que se colocavam em seu caminho para obter fertilidade. Esta celebração pagã foi praticada durante séculos e, em todos os antigos calendários que continham o mês de fevereiro, o dia 15 era o da Lupercália; além disso, vários dos primeiros escritores cristãos falam dela, denunciam-na e condenam tais ritos. Provavelmente os primeiros cristãos, com a ideia de acabar com as práticas pagãs, procuraram oferecer às pessoas daquele tempo uma celebração cristã que substituísse a habitual Lupercália, sem as cenas de desordem e libertinagem que a caracterizavam. Talvez por isso se tenha importado do oriente a celebração do quadragésimo dia depois da Epifania, com sua procissão de luzes, já que geralmente caía em meados de fevereiro e assim coincidia com a censurável festividade pagã. Em um período posterior, quando o Hypapante começou a ser observado liturgicamente, com Missa e ofício como festa da Santíssima Virgem, naturalmente se tornaria mais notável a inconsistência de observar o nascimento de Cristo em 25 de dezembro e o encontro com Simeão em 15 de fevereiro. Como já então a lembrança da Lupercália se havia perdido, a procissão da Candelária foi transferida para a Purificação de Nossa Senhora, em 2 de fevereiro, onde propriamente pertencia.


Apresentação do Senhor, por Hans Holbein, o Velho, atualmente no Kunsthalle de Hamburgo, na Alemanha.
Apresentação do Senhor, por Hans Holbein, o Velho, atualmente no Kunsthalle de Hamburgo, na Alemanha.

Há duas ou três considerações que conduzem a esta conclusão. Em primeiro lugar, a menção mais antiga de uma procissão com velas nos vem, como indicamos, das devoções em Jerusalém, praticadas desde antes de 440 d.C., mais ou menos. Em segundo lugar, não podemos ignorar o fato significativo de que as mais antigas referências à celebração em Roma falam da festa, seja como o Hypapante (seu título grego) ou como a festividade de São Simeão. É como a “Natale Sti. Simeonis” que aparece no calendário de São Willibrordo e também no Antifonário de Pamelius; do mesmo modo encontramos ambos os nomes na referência casual feita a tal celebração no Liber Pontificalis, composto sob o pontificado de São Sérgio I. Em terceiro lugar, sabemos agora com certeza, graças às pesquisas de Dom H. Peillon, que os cânticos que ainda figuram no Antifonário Romano e são cantados na procissão da Candelária são tomados inteiramente de fontes litúrgicas gregas. No manuscrito que Dom Peillon identifica como o empregado principalmente por Pamelius para sua edição do antifonário, as antífonas “Ave Gratia plena” e “Adorna thalamum tuum Sion” estão escritas tanto em latim como em grego, com letras latinas. É indubitável que Dom Peillon esteja justificado ao considerar este manuscrito como cópia de um documento mais antigo, que conserva com substancial fidelidade o costume da Igreja romana da segunda parte do século VIII.


Parecem dignas de confiança as seguintes conclusões:


  1. A celebração da apresentação de Nosso Senhor no templo sem dúvida começou em Jerusalém, mais ou menos no século IV, caracterizada por uma procissão com tochas ou velas, no quadragésimo dia depois da Epifania, 15 de fevereiro.


  2. A observância estendeu-se a toda a Igreja oriental no decorrer dos séculos V e VI.


  3. Embora sempre ligada à data de 15 de fevereiro, adotou-se a procissão em Roma para proporcionar um substituto cristão à Lupercália.


  4. Quando passou a ser honrada no ocidente a Purificação da Santíssima Virgem como elemento do ciclo do Natal, a procissão do Hypapante, festa de São Simeão, foi transferida para o seu dia próprio, 2 de fevereiro, quarenta dias depois de 25 de dezembro, quando se celebrava em Roma o nascimento de Nosso Senhor.


  5. O Venerável Beda, embora provavelmente conhecesse o que certos autores haviam dito acerca de uma sinistra observância pagã, o “amburbium”, deliberadamente se absteve de se referir a ela. Estava satisfeito com que a procissão de fevereiro tomasse o lugar de alguma “lustratio” pagã. Além disso, sabia que a Lupercália havia durado muito tempo, até mesmo em épocas do cristianismo, e que o “lustrum” representava um período de cinco anos, e como não havia informes exatos disponíveis, intencionalmente foi vago na declaração que fez.


Vejam-se McClure e Feltoe, The Pilgrimage of Etheria, p. 56; F. C. Conybeare, Rituale Armenorum, pp. 507 ss.; I. Rahmani, Studia Syriaca, vol. 11, pp. 73-138; Teódoto de Ancira em Migne, PG., vol. LXVII, p. 1400; Usener, Der hl. Theodosios, p. 106; Revue Bénédictine, vols. XXVIII (1916), pp. 301, 313, 323 e XXXIV (1922), p. 15; CMH., p. 75 e os livros habituais de referência. Convém notar que não há razão para relacionar as observâncias de 2 de fevereiro com a Igreja da Espanha, como foi sugerido pelo autor do artigo sobre a Candelária na Encyclopaedia of Religion and Ethics. Os informes fornecidos por Dom Férotin, Liber Ordinum, p. 454, n. 9, demonstram claramente que no ritual moçárabe não há, praticamente falando, nenhum vestígio de tal celebração antes do século XI. 1




Santa Catarina de Ricci
Santa Catarina de Ricci

Esta santa nasceu em 1522, de uma família florentina bem conhecida. E foi batizada com o nome de Alexandrina. Aos treze anos tomou o nome de Catarina, ao receber o hábito no convento dominicano de São Vicente, em Prato, do qual seu tio, o Pe. Timóteo dei Ricci, era diretor. Ali sofreu durante dois anos intensas dores, devidas a uma complicação de enfermidades que pareciam agravar-se com os remédios; mas santificou seus sofrimentos com sua exemplar paciência, a qual tirava em grande parte de sua constante meditação sobre a Paixão de Cristo. Quando ainda era muito jovem, foi eleita mestra das noviças, depois superiora, e aos trinta anos foi nomeada priora perpétua. A fama de sua santidade e sabedoria lhe trazia visitas de muitos leigos e pessoas do clero, incluindo três cardeais, que depois se tornaram Papas. Algo semelhante ao que se conta de Santo Agostinho e São João do Egito sucedeu com São Filipe Néri e Santa Catarina de Ricci. Haviam trocado várias cartas e, embora nunca se tenham conhecido pessoalmente, ela lhe apareceu e falou com ele em Roma, sem jamais ter saído de seu convento em Prato. Isso foi declarado expressamente por São Filipe Néri, que era sumamente cauteloso em dar crédito a visões, e foi confirmado pelo juramento de cinco testemunhas.


Catarina é conhecida talvez mais do que outros místicos que tiveram privilégios semelhantes, pela série extraordinária de êxtases nos quais contemplava e vivia os passos consecutivos que precederam a crucificação de Nosso Salvador. Parece que esses êxtases sempre seguiam o mesmo curso. Começaram quando ela tinha vinte anos, em fevereiro de 1542, e se renovaram toda semana, por doze anos consecutivos. Naturalmente deram muito que falar e uma multidão de pessoas devotas ou curiosas queria visitar o convento. Isso constituía um obstáculo ao recolhimento da comunidade, e esses inconvenientes se acentuaram ainda mais quando, em 1552, foi eleita priora. A pedido seu, todas as monjas começaram a rezar fervorosamente para que cessassem essas manifestações e, em 1554, elas chegaram ao fim. Enquanto duraram, apresentaram algumas características diferentes das que costumam ter tais casos. Catarina perdia o conhecimento regularmente ao meio-dia, todas as quintas-feiras, e voltava a si vinte e oito horas depois, às quatro da tarde da sexta-feira. No entanto, ocorria uma interrupção nesse estado de arrebatamento. Levavam-lhe regularmente a Sagrada Comunhão pela manhã, e ela voltava a estar suficientemente consciente do mundo exterior para recebê-la com intensa devoção; mas quase imediatamente depois recaía de novo em êxtase e retomava sua contemplação dos passos da Paixão no ponto exato em que os havia deixado.


Catarina tinha outro tipo de êxtase durante o qual, em geral, permanecia inteiramente passiva, com os olhos fixos no céu. Mas, no êxtase semanal da Paixão, seu corpo se movia em conformidade com os gestos e movimentos de Nosso Senhor, tal como os presenciava em sua contemplação. Por exemplo, quando Ele era preso no horto, estendia as mãos como para que fossem atadas; permanecia de pé majestosamente quando O amarravam à coluna para a flagelação; inclinava a cabeça, como para receber a coroa de espinhos, e assim por diante. Um detalhe ainda mais incomum nessas experiências era que, com frequência, aproveitava a ocasião dos sofrimentos particulares de Jesus Cristo para exortar as irmãs que a rodeavam, em meio aos seus êxtases, e isso o fazia, diz uma de suas biógrafas, “com um conhecimento, uma elevação de pensamento e uma eloquência inesperados em uma mulher, e especialmente em uma mulher que não era nem instruída nem literata”.


O Casamento de Santa Catarina (de Ricci), por Pierre Subleyras
O Casamento de Santa Catarina (de Ricci), por Pierre Subleyras

Também se afirmava comumente que Catarina era favorecida com os estigmas, as chagas das mãos, dos pés e do lado, assim como a coroa de espinhos. No processo de beatificação foram apresentados testemunhos a esse respeito. Curiosamente, os que afirmaram ter visto os estigmas parecem ter tido impressões diferentes em cada caso. Alguns viam as mãos completamente traspassadas e sangrentas; outros viam os sinais das chagas com uma luz tão brilhante que os deslumbrava; e ainda outros percebiam apenas “chagas cicatrizadas, vermelhas e inchadas, com uma mancha negra no centro, ao redor da qual parecia circular o sangue”. Essa diversidade tão notável nos relatos das testemunhas é ainda mais notável quando descrevem o fenômeno místico pelo qual Santa Catarina é especialmente famosa, a saber, o fenômeno do anel. Diz-se que Cristo lhe deu um anel como penhor de seus esponsais espirituais com ela. No dia da Páscoa da Ressurreição de 1542, Nosso Salvador lhe apareceu radiante de luz e, depois de tirar de seu dedo um anel fulgurante, colocou-o no dedo indicador de sua mão esquerda, dizendo: “Minha filha, recebe este anel como sinal e prova de que agora e para sempre me pertencerás”.


Na “Positio super Virtutibus”, [c] que é o resumo dos testemunhos apresentados — e que hoje se elabora em todos os processos de beatificação para que os consultores analisem as virtudes heroicas de qualquer candidato à beatificação —, as declarações feitas relativas aos esponsais místicos de Catarina ocupam grande espaço. O promotor da fé (popularmente conhecido como “o advogado do diabo”), na época em que a causa foi levada à Congregação dos Ritos, era o famoso Próspero Lambertini, mais tarde conhecido como o Papa Bento XIV. A questão do anel de Santa Catarina atraiu particularmente sua atenção, e ele fez várias críticas, às quais o postulador da causa respondeu detalhadamente. Santa Catarina, como vimos, nasceu em 1522 e morreu em 1590; infelizmente, foi apenas em 1614 que ocorreu o primeiro exame jurídico das testemunhas em relação à causa de beatificação. Como o anel se havia manifestado originalmente em abril de 1542, era praticamente impossível que alguma das monjas que faziam parte da comunidade quando ocorreu essa maravilha estivesse viva para dar seu testemunho em 1614, setenta e dois anos depois. Afirma-se, ao menos, que o fenômeno se manifestou com intervalos durante toda a vida de Catarina; além de testemunhos escritos e de segunda mão, algumas testemunhas puderam relatar o que elas mesmas haviam visto. Os testemunhos, em geral, parecem contraditórios.


Talvez as provas mais valiosas que se possuem no processo de beatificação sejam dois documentos escritos: um, a carta do Padre Néri, dominicano, datada do ano de 1549, ou seja, sete anos depois dos esponsais místicos; o outro, algumas notas feitas pela irmã Maria Madalena Strozzi, amiga íntima de Catarina, que a assistiu em sua enfermidade. O primeiro relata a aparição de Nosso Senhor no domingo de Páscoa e comenta particularmente que o anel foi colocado no dedo indicador de sua mão esquerda. Depois disso, prossegue:


“Os superiores de nossa província descobriram que, durante uma quinzena de Páscoa, o anel verdadeiro, isto é, o anel de ouro com seu diamante, foi visto por três irmãs muito santas, em três ocasiões diferentes, cada uma delas com mais de quarenta e cinco anos de idade. A primeira foi a irmã Potenciana de Florença; a segunda, a irmã Maria Madalena de Prato (esta foi Maria Madalena Strozzi, que deixou uma relação manuscrita de sua amada madre Catari\na); e a terceira foi a irmã Aurélia de Florença.”


A superiora de Catarina mandou-lhe que pedisse um favor a Jesus Cristo, e Ele concedeu que todas as irmãs vissem o anel, ou ao menos algo em seu lugar, durante três dias consecutivos: a segunda-feira, a terça-feira e a quarta-feira da semana de Páscoa. Durante esses dias, todas as irmãs viram em seu dedo, junto ao dedo médio da mão esquerda, e no lugar onde ela dizia que estava o anel, um losango vermelho (“quadretto”) no lugar da pedra ou diamante, e do mesmo modo contemplaram um aro vermelho ao redor de seu dedo, no lugar do anel.


Catarina assegurava que nunca havia visto o losango e o aro da mesma maneira que as irmãs, porque ela sempre via o anel de ouro e esmalte com seu diamante. O anel também foi visto durante todo o dia da Ascensão de 1542 e no dia de Corpus Christi, como se fosse um avermelhamento da carne. Acrescenta-se que essa manifestação foi acompanhada por um perfume sumamente agradável, que todos perceberam.


Gravura de Santa Catarina de Ricci, por C. Klauber
Gravura de Santa Catarina de Ricci, por C. Klauber

O padre Néri acrescenta o comentário de que esse avermelhamento do dedo não poderia ter sido causado por alguma pintura ou tintura, porque no dia de Corpus Christi, como ele mesmo diz, Catarina foi levada à igreja para que o governador da cidade pudesse ver esse círculo vermelho. Mas todo sinal do mesmo desapareceu em sua presença, embora imediatamente depois tenha voltado a manifestar-se às monjas.


Quanto à declaração do padre Néri de que três das monjas mais idosas tiveram o privilégio de ver o verdadeiro anel de ouro e esmalte vermelho, é curioso que não se encontre confirmação disso nas próprias notas da irmã Maria Madalena Strozzi, embora ela seja uma das três mencionadas. O que esta deixa perfeitamente claro é que, durante os três dias depois da Páscoa, havia um círculo vermelho ao redor do dedo de Catarina, o qual descreve como um anel “entre pele e pele”, o que corresponde estritamente ao que o Dr. Imbert-Gourbeyre diz de Marie-Julie Jahenny: parecia como se um anel vermelho, de coral, tivesse sido enterrado na carne do dedo. Além disso, as notas da irmã Maria Madalena impressionam profundamente pela solicitude e temor que ela demonstra de que Catarina tivesse sido vítima de algum engano do demônio. Ela contou isso a seu confessor e, juntos, fizeram experiências com cinábrio e outros pigmentos, mas não puderam de modo algum reproduzir algo semelhante ao avermelhamento no dedo de Catarina. Então a irmã Maria Madalena foi ver a própria Catarina e parece que, com toda franqueza, lhe contou suas dúvidas e escrúpulos. Essas manifestações extraordinárias, insistia, eram contrárias ao espírito e às tradições do convento e muito perigosas para a humildade e o silêncio tão importantes na vida religiosa. Catarina concordava e, de bom grado, se prestou a que fizesse o que quisesse para apagar o sinal. Ela apenas se lamentava e pedia perdão por ser a causa de tanta perturbação e inquietação espiritual como havia em todo o resto da comunidade. Então, a irmã Maria Madalena tomou-lhe o dedo e o colocou na boca para saber se tinha algum sabor, e também o mergulhou em água; depois tentou apagar o sinal com sabão, mas naturalmente nada deu resultado. Por outro lado, Catarina declarou com toda simplicidade que ela via em seu dedo um anel de ouro engastado com um diamante ogival e não via mais nada. “Tenho de recorrer à fé”, disse à sua amiga, “quando me dizes que percebes unicamente um sinal vermelho”. É certo que o fato de Santa Catarina ver continuamente o anel e sua pedra com seus olhos corporais, e de não poder ver o círculo vermelho, também é mencionado na carta do padre Néri de 1549.


Os fatos são muito incertos. Existem abundantes provas de que algumas vezes aparecia o sinal de um círculo vermelho e um losango no dedo de Catarina, de modo que todos podiam percebê-lo. Também parece certo que ela sempre viu com seus olhos corporais, naquele dedo, um anel de ouro com diamante engastado, mas não há prova satisfatória que mostre que o anel de ouro tenha sido realmente visto por alguns outros. Há tantos e tão comprovados exemplos de resplendor que irradia do rosto, das mãos e das vestes dos místicos quando estão arrebatados em êxtase, que podemos facilmente admitir que isso possa ter ocorrido no caso do dedo de Catarina.


Se assim foi, possivelmente alguns testemunhos podem ter-se enganado ao ver a luz brilhante e tê-la interpretado como um anel de ouro com um diamante, do qual antes tinham ouvido falar. Uma monja declarou explicitamente que o dedo desprendia uma luz tão brilhante que não podia ver que espécie de anel o circundava.


Santa Catarina de Ricci morreu após uma prolongada enfermidade, aos sessenta e oito anos de idade, em 2 de fevereiro de 1590. Os fenômenos extraordinários dos quais acabamos de falar contribuíram para desviar a atenção de outros traços de sua vida. Ela se distinguiu por uma “excelente sanidade psicológica e moral” e, como muitos outros santos contemplativos, foi uma boa administradora e fiel cumpridora dos deveres de sua casa e de seu cargo. Nunca estava mais feliz do que quando cuidava dos enfermos, e sua influência estendeu-se além dos muros de seu convento e da cidade. Uma de suas características, e não das menos interessantes, foi a reverência que tinha pela memória de Jerônimo Savonarola, à cuja intercessão celeste atribuía o restabelecimento de sua saúde em 1540. Santa Catarina foi canonizada em 1747.


Uma fonte abundante em dados é a Life of St. Catherine d’Ricci, por F. M. Capes (1905). As fontes mais autênticas de informação são, naturalmente, as declarações das testemunhas no processo de beatificação: uma cópia do Summarium de Virtutibus encontra-se no Museu Britânico. Vários trechos selecionados das cartas da santa foram publicados em italiano e francês. No Tokens of Espousal estudam-se os documentos reunidos pelo Pe. Thurston, The Physical Phenomena of Mysticism (1952).2



Santa Joana de Lestonnac
Santa Joana de Lestonnac

O pai de Joana de Lestonnac pertencia a uma distinta família bordalesa e, ainda que o calvinismo florescesse em Bordéus, manteve-se como um bom católico. Em contrapartida, sua mãe, Joana Eyquem de Montaigne, irmã do famoso Miguel de Montaigne, não apenas renegou sua religião, mas também tentou mudar a fé de sua filha, e quando seus esforços fracassaram, maltratou cruelmente Joana. Essas provações impeliram o coração da jovem para Deus e, desde então, ela aspirou a uma vida de oração e mortificação. Contudo, apesar de seu desejo, quando tinha dezessete anos casou-se com Gastão de Montferrant, aparentado às casas reais da França, Aragão e Navarra. O matrimônio foi muito feliz, mas o marido morreu em 1597, deixando a esposa com quatro filhos, aos quais ela se dedicou inteiramente até que pudessem sustentar-se por si mesmos. Com o tempo, duas de suas filhas entraram na vida religiosa.


À idade de quarenta e sete anos, Joana de Lestonnac ingressou no mosteiro cisterciense de “Les Feuillantes”, em Toulouse. Seu filho opôs-se energicamente à decisão, mas ela permaneceu firme e, tomada de dor por contrariar o filho e separar-se da filha mais nova, abandonou o lar.


Madame de Lestonnac, convertida em irmã Joana, passou seis meses no noviciado cisterciense levando uma conduta edificante. Porém aquela existência tão austera acabou por abalar sua saúde e, apesar de suplicar que lhe permitissem permanecer no convento até a morte, os superiores mandaram que o deixasse, advertindo-a de que tinha obrigação de cuidar da própria vida para servir a Deus. Antes de partir, foi-lhe permitido passar a noite em oração na capela e afirma-se que, enquanto repetia as palavras de Cristo no Horto das Oliveiras: “Senhor, se é possível, afasta de mim este cálice”, sentiu no íntimo a certeza absoluta de que seria a fundadora de uma nova ordem para a salvação das almas, e lhe veio à mente o esboço da futura Congregação de Nossa Senhora.


Visão da Virgem Maria com o Menino Jesus, e os Apóstolos São Pedro e São João Santa Joana de Lestonnac
Visão da Virgem Maria com o Menino Jesus e os Apóstolos São Pedro e São João a Santa Joana de Lestonnac

Logo que deixou “Les Feuillantes”, recuperou a saúde quase milagrosamente. Voltou a Bordéus e transferiu-se para Périgord, onde reuniu ao seu redor várias jovens que, com o tempo, seriam suas primeiras noviças. Depois passou dois anos de tranquilidade em sua casa de campo, “La Mothe”, preparando-se para a realização de sua grande obra. Ao regressar a Bordéus, seus diretores espirituais aconselharam-na a contentar-se com uma vida ordinária dedicada às obras de caridade, sem empreender grandes projetos.


Quando a peste assolava Bordéus, Madame de Lestonnac e um grupo de mulheres corajosas dedicaram-se a cuidar das vítimas. Nesses trabalhos, Joana conheceu dois sacerdotes jesuítas, o Pe. De Bordes e o Pe. Raymond, que exerceram grande influência sobre ela, incutindo-lhe a ideia da enorme devastação que o calvinismo causava entre os jovens de todas as classes sociais, privados de uma sólida educação católica. Ao que parece, ambos os sacerdotes, enquanto celebravam simultaneamente a Missa, tiveram o pressentimento de que era vontade de Deus que ajudassem Joana de Lestonnac na fundação de uma ordem que combatesse os danos da heresia. Assim começou a obra, que prosperou rapidamente. A senhora de Lestonnac foi a primeira superiora da congregação nascente, afiliada à Ordem de São Bento, embora suas regras e constituições se inspirassem nas de Santo Inácio. A primeira casa foi aberta no antigo priorado do Espírito Santo, em Bordéus.


Madame de Lestonnac e suas companheiras receberam o hábito das mãos do cardeal Sourdis, arcebispo de Bordéus, em 1608. Dois anos mais tarde, sob o prudente governo da madre Lestonnac, a ordem funcionava admiravelmente, e começaram a afluir candidatas ao noviciado. A estas se ensinava a vida religiosa com o único fim e propósito de formar e instruir jovens de todas as classes sociais. As escolas prosperaram além de toda expectativa. Fizeram-se fundações em muitas localidades, sendo a de Périgord uma das primeiras. As monjas levavam uma vida de grande pobreza e mortificação; todas estavam contentes; as coisas iam bem e no convento reinava a paz. Mas então começaram a chover sobre a fundadora as provas mais duras. Uma de suas monjas, Blanche Hervé, e o diretor de uma das escolas conspiraram contra ela e, por algum tempo, triunfaram em seus tortuosos desígnios. Urdíram calúnias, inventaram histórias ignominiosas a seu respeito e, o mais surpreendente, foi que o cardeal de Sourdis nelas acreditou. A madre Lestonnac foi destituída e seu lugar ocupado por Blanche Hervé que, desde seu posto de mando, passou a tratar a destituída Joana com cruel despotismo, sem perder ocasião de insultá-la de todas as maneiras possíveis, chegando a maltratá-la com violências físicas. Tal estado de coisas manteve-se por algum tempo; mas, finalmente, a inalterável paciência de Santa Joana comoveu o coração de Blanche que, sinceramente arrependida, tentou reparar os danos; contudo, a madre de Lestonnac, sentindo-se já velha e cansada, não quis reassumir o cargo de superiora e designou a madre Badiffe.


Santa Joana de Lestonnac
Santa Joana de Lestonnac

A fundadora passou seus últimos anos no recolhimento, preparando-se para a morte. Faleceu quando todas as suas religiosas haviam renovado os votos, na festa da Purificação, no ano de 1640. Diz-se que seu corpo permaneceu fresco e flexível, exalando uma doce fragrância mesmo dois dias após a morte, e que a multidão que acorreu para rezar junto a ele deu testemunho da beleza de seu rosto e de uma luz brilhante que rodeava o catafalco. Nos anos seguintes, realizaram-se diversos milagres em sua tumba. Várias causas retardaram o processo de beatificação, que afinal ficou interrompido pelo irromper da Revolução Francesa. As religiosas dispersaram-se e o corpo de sua fundadora ficou perdido até o início do século XIX. Ao corpo recuperado deu-se sepultura, com grande solenidade, em Bordéus, e finalmente, graças aos esforços da madre Duterrail, a causa foi introduzida em Roma, e Joana de Lestonnac foi canonizada em 1949.


Veja-se Duprat, La digne Fille de Marie: Jeanne de Lestonnac (1906); P. Mércier, La vén. Jeanne de Lestonnac (1891); e Paula Hoesl, Ste. Jeanne de Lestonnac (1949). Esta última obra foi traduzida para o inglês com o título In the Service of Youth (1951).3



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 21-30.

2. Ibid. pp. 21-22.

3. Ibid. pp. 21-222.


Notas:


a. A visita de Nossa Senhora ao templo com este objetivo é também comemorada pela Igreja com a Bênção da Mulher depois do parto, comumente chamada “churching” ou “a apresentação”. Este rito cristão não contém nenhum conceito de purificação, pois gerar honestamente e dar à luz um filho não é causa de nenhuma mancha. Talvez não seja fora de propósito acrescentar aqui que a ideia, com a qual às vezes nos deparamos, de que uma mãe não deve ir à igreja para nada antes de ser “apresentada”, não se justifica e tem muito de superstição.


b. Convém recordar o fato de que as palavras “litaniae” (literalmente, súplicas), nos tempos de São Gregório Magno e muito depois, referiam-se particularmente à ideia de uma procissão, geralmente penitencial. O povo romano estava muito acostumado a tais procissões religiosas nos tempos do paganismo. Desde tempos muito antigos, em Roma e por toda a Itália, sempre que a cidade, o exército, as colheitas ou os rebanhos pareciam ameaçados por influências nocivas, recorria-se a uma “lustratio”, uma procissão que desfilava ao redor do objeto que precisava ser purificado ou protegido. As pessoas levavam consigo as vítimas que deviam ser sacrificadas e iam parando em certas estações para orar e sacrificar. Uma “lustratio” particular, chamada Robigália, realizava-se em 25 de abril e tinha por objetivo, ao menos originalmente, proteger as futuras colheitas contra o “robigo” ou “rubigo”, isto é, a praga do ferrugem. Esta prática começou sem dúvida quando no coração de Roma ainda existiam regiões cultivadas, mas o costume foi mantido, seguindo sempre uma rota tradicional, mesmo depois que Roma se tornou uma grande cidade e se perdeu de vista o fim original da cerimônia. Extirpar tais celebrações populares é quase impossível e, quando o povo aceitou o cristianismo, os Papas e seu clero agiram sabiamente ao substituir a “lustratio” por uma procissão cristã, que seguia a mesma rota conhecida e cantava invocações e responsórios que correspondem estreitamente aos que hoje encontramos em nossa Ladainha dos Santos.


c. Positio super Virtutibus: Summarium, p. 352; cf. Responsio ad animadversiones, p. 79.



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