Vida de São Romualdo e São Teodoro de Heracleia (7 de fevereiro)
- Sacra Traditio

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São Romualdo, da família dos Onesti, duques de Ravena, provavelmente nasceu no ano de 950. A afirmação de seu biógrafo, São Pedro Damião, de que viveu até a idade de 120 anos é hoje universalmente rejeitada. Embora tenha crescido como um jovem mundano, escravo de suas paixões, às vezes aspirava a ideais mais elevados. Seu pai, cujo nome era Sérgio, havia decidido resolver em duelo a disputa que tinha com um parente por uma propriedade, e Romualdo foi espectador involuntário do encontro. Sérgio matou seu adversário e Romualdo, horrorizado, fugiu para o mosteiro próximo de Santo Apolinário-em-Classe. Nessa casa passou três anos com tal fervor e austeridade que sua observância se tornou uma viva censura para certos monges relaxados e infiéis, que se exasperaram ainda mais quando ele censurou sua conduta. Então, com o consentimento do abade, abandonou o mosteiro e retirou-se para as proximidades de Veneza, onde se submeteu à direção de um eremita chamado Marino. Com ele, Romualdo fez grandes progressos no caminho da perfeição. Diz-se que Romualdo e Marino tiveram algo a ver com a retirada do doge de Veneza, São Pedro Orseolo, para Cuxa, e que ali viveram por algum tempo como eremitas. O exemplo de São Romualdo teve tal influência sobre seu pai Sérgio, que este entrou no mosteiro de São Severo, perto de Ravena, para reparar seus pecados. Depois de algum tempo, teve a tentação de voltar ao mundo, pelo que seu filho foi até lá para dissuadi-lo de romper seu propósito. Conseguiu-o, e Sérgio permaneceu no mosteiro até o fim de sua vida.
Parece que Romualdo passou os trinta anos seguintes fundando ermitérios e mosteiros por toda a Itália. Permaneceu três anos numa cela próxima à casa que havia fundado em Parenzo. Ali trabalhou por algum tempo, experimentando grande aridez espiritual, mas um dia, de repente, quando estava recitando as palavras do salmista: “Eu te darei entendimento e te instruirei”, Deus o visitou com uma luz extraordinária e um espírito de compunção que desde então nunca o abandonou. Escreveu uma exposição dos Salmos cheia de pensamentos admiráveis. Com frequência prognosticava acontecimentos futuros e dava conselhos a todos os que iam consultá-lo, inspirado por sabedoria celestial. Sempre havia desejado o martírio e, por fim, obteve licença do Papa para pregar o Evangelho na Hungria; mas foi atacado por grave enfermidade tão logo pôs os pés no país e, como o mal retornava cada vez que tentava agir, concluiu que isso era clara indicação da vontade de Deus de que não o queria ali. Muito resignado, voltou à Itália, embora alguns de seus companheiros tenham ido e pregado a fé aos magiares. Posteriormente permaneceu por bastante tempo em Monte de Sitrio, mas ali foi acusado de um crime escandaloso por um jovem nobre a quem havia censurado por sua vida dissoluta. Embora pareça extraordinário, os monges acreditaram na mentira, impuseram-lhe severa penitência, proibiram-no de celebrar Missa e o excomungaram. Tudo suportou em silêncio por seis meses, mas então Deus o advertiu para que não se submetesse mais a sentença tão injusta, pronunciada sem autoridade e sem sombra de fundamento. Passou seis anos em Sitrio guardando silêncio estrito e aumentando suas austeridades em vez de relaxá-las, apesar de sua idade avançada. Romualdo teve alguma influência nas missões aos eslavos e prussianos por meio do mosteiro de Querfurt em Pereum, perto de Ravena, que Otão III fundou para ele e São Bruno, em 1001. Um filho do duque Boleslau I da Polônia era monge nesse mosteiro e, em nome de seu pai, presenteou Romualdo com um magnífico cavalo. Ele o trocou por um jumento e declarou que se sentia mais unido a Jesus Cristo montado sobre tal montaria.

O mosteiro mais famoso de todos os de São Romualdo é o de Camáldoli, perto de Arezzo, na Toscana, fundado por ele por volta do ano 1012. Situa-se além de uma montanha, cuja encosta mais afastada desce em um precipício escarpado que dá para um vale agradável, que então pertencia a um castelão chamado Maldolo, o qual o cedeu ao santo; daí vem o nome de Camáldoli (campo de Maldolo).
São Romualdo edificou nesse local um mosteiro e, pelas diversas observâncias que acrescentou à regra de São Bento, deu início a uma nova congregação chamada Camaldulense, na qual uniu a vida cenobítica à eremítica. Depois que seu benfeitor teve em sonho a visão de uma escada que se elevava da terra ao Céu, pela qual subiam religiosos vestidos de branco, Romualdo mudou o hábito de negro para branco. A ermida dista pouco mais de dois quilômetros do mosteiro. Está na encosta da montanha, sombreada por um escuro bosque de abetos. Nela há sete fontes de água cristalina. A simples vista dessa solidão em meio à floresta ajuda a encher a mente de compunção e de amor à contemplação. No lado esquerdo da igreja está a cela na qual São Romualdo viveu quando reuniu pela primeira vez esses eremitas. Suas celas, construídas de pedra, possuem cada uma um pequeno jardim cercado por muros e uma capela na qual o ocupante pode celebrar a Missa.
Depois de alguns anos em Camáldoli, Romualdo retomou suas viagens e, com o passar do tempo, morreu sozinho em sua cela, no mosteiro de Val-di-Castro, em 19 de junho de 1027. Um quarto de século antes havia profetizado que a morte lhe chegaria nesse local e dessa maneira. Sua principal festa celebra-se no dia de hoje, porque em 7 de fevereiro de 1481 seu corpo incorrupto foi trasladado para Fabriano; assim se dispôs quando o Papa Clemente VIII acrescentou seu nome ao calendário geral em 1595.
A principal fonte de informações sobre a vida de São Romualdo é a biografia escrita por São Pedro Damião, que se encontra no Acta Sanctorum, fevereiro, vol. II, e em muitas outras coleções. Veja-se BHL., n. 7324. Há, porém, muito material de importância secundária que também se encontra na Life of St. Peter Orseolo, no Chronicon Venetum e nas duas Lives of St. Bononius de Lucedio. W. Franke realizou um valioso estudo preliminar dessas fontes em seu Quellen und Chronologie zur Geschichte Romualds von Camaldoli und seiner Einsiedlergenossenschaften im Zeitalter Ottos III (1910). Veja-se Analecta Bollandiana, vol. XXXI (1912), pp. 376-377; e também de W. Franke, Hist. Studien, vol. CVI (1913). Em 1927 foram publicadas duas vidas italianas, por A. Pagnani e C. Ciampelli; e cf. A. Giabbini, L’eremu (1945).1

Entre os mártires a quem os gregos honram com o título de megalomártir (isto é, grande mártir), tais como São Jorge, São Pantaleão e outros, distinguem-se quatro: São Teodoro de Heracleia, cognominado Stratelates (general do exército); São Teodoro de Amásia, chamado Tiro (o recruta); São Procopio e São Demétrio. De São Teodoro de Heracleia, de quem agora nos ocupamos, diz-se que fora general das forças de Licínio e governador de grande parte da Bitínia do Ponto e da Paflagônia. Supõe-se que o santo residiu em Heracleia do Ponto, cidade originalmente grega fundada por uma colônia de Mégara, e que ali mesmo foi onde, segundo uma lenda, morreu mártir, sendo decapitado por sua fé depois de ter sido cruelmente torturado por ordem do imperador Licínio.
Toda a questão foi cuidadosamente estudada pelo padre H. Delehaye em seu livro “Les Légendes grecques des saints militaires” (1909). Em sua opinião, houve apenas um Teodoro, provavelmente mártir e possivelmente soldado de profissão. Parece que seu culto começou muito cedo em Euchaita, uma pequena localidade no Helesponto, e que daí se difundiu para outras regiões. Pouco a pouco, alguns hagiógrafos foram introduzindo muitos detalhes fictícios e contraditórios em sua história, sem se preocupar absolutamente se o que escreviam se ajustava à verdade histórica. Com o tempo, as divergências tornaram-se tão notórias que foi necessário recorrer à hipótese de dois São Teodoros diferentes: o Stratelates e o Tiro; mas, ainda assim, suas biografias se sobrepõem e não se pode esclarecer muita coisa. Um dos elementos fabulosos introduzidos em certas versões da história é o combate com um dragão. Esse detalhe aparece na lenda de São Teodoro muito antes do que na de São Jorge. Por isso, não é raro encontrar imagens e pinturas em que ele aparece montado a cavalo, transpassando o dragão com uma lança, o que leva a identificá-lo erroneamente. A ideia de distinguir os dois Teodoros parece ter ocorrido a alguém muito antes do que supõe o padre Delehaye. Em uma homilia armênia que F. C. Conybeare atribui ao século quarto, eles já são considerados distintos; e Mons. Wilpert reproduziu um mosaico que o Papa Félix IV (526-530) mandou colocar na igreja de São Teodoro, no Palatino, no qual se representa Nosso Salvador sentado, enquanto São Pedro lhe apresenta de um lado um São Teodoro, e São Paulo lhe apresenta do outro lado o outro São Teodoro.

O testemunho escrito mais antigo que possuímos sobre o culto de São Teodoro é um panegírico do mártir atribuído a São Gregório de Nissa (Migne, PG., vol. XLVI, pp. 736-748). Ainda que se duvide de sua autenticidade, pertence à época do fim do século quarto ou início do quinto. Na obra mencionada foi feita uma seleção do que há de mais notável nas vidas gregas dos dois santos Teodoro, realizada pelo Pe. Delehaye. Uma antiga homilia armênia sobre o santo foi traduzida para o inglês pelo Prof. Conybeare em seu Monuments of Early Christianity (pp. 217-238). No que se refere a São Teodoro na arte, veja-se Künstler, Ikonographie (pp. 551-552), que faz referência em particular a um artigo de Hengstenberg, Der Drachenkampf d. hl. Theodor, em Oriens Christianus, 1912, pp. 18 ss., e a Wilpert, Die römischen Mosaiken, pp. 106-107. Cf. São Teodoro Tiro incluído em 9 de novembro.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 276-277.
2. Ibid. pp. 277-278.


























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