Vida de Santa Águeda e São Felipe de Jesus (5 de fevereiro)
- Sacra Traditio

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As cidades de Palermo e Catânia, na Sicília, disputam a honra de terem sido o local de nascimento de Santa Águeda, mas o único dado certo a que se chegou é que ela recebeu a coroa do martírio em Catânia. Suas “atas”, que existem em latim e grego com muitas variantes e que não têm valor histórico, declaram que pertencia a uma família rica e ilustre, e que, tendo sido consagrada a Deus desde os primeiros anos, triunfou sobre os muitos ataques contra a sua pureza. Quinciano, um dignitário consular, pensou que poderia levar a cabo suas perversas intenções contra Águeda, por meio do édito do imperador contra os cristãos. Com esse objetivo, mandou que ela comparecesse à sua presença. Vendo-se nas mãos de seus perseguidores, orou da seguinte maneira: “Jesus Cristo, Senhor de todas as coisas, tu vês o meu coração, tu conheces os meus desejos. Sê tu o dono absoluto de tudo o que sou. Sou tua ovelha: faze-me digna de vencer o demônio”. Quinciano ordenou que fosse entregue a Afrodísia, uma mulher perversa que, com suas seis filhas, mantinha uma casa de má fama. Nesse lugar espantoso, Águeda sofreu ataques e armadilhas contra a sua honra, mais terríveis para ela do que o tormento ou a morte, mas manteve-se firme. Depois de um mês, Quinciano tentou assustá-la com ameaças, mas ela permaneceu inabalável e declarou que ser serva de Jesus Cristo era, na verdade, ser livre. O juiz, desgostoso com suas respostas firmes, mandou que fosse açoitada e levada à prisão.
No dia seguinte, foi submetida a novo interrogatório, e ela assegurou que Jesus Cristo era sua luz e sua salvação. Então Quinciano ordenou que fosse estendida no potro, suplício que geralmente vinha acompanhado de açoites, dilaceração dos flancos com ganchos de ferro e aplicação de tochas ardentes. O governador, enfurecido ao ver que ela suportava tudo isso com alegria, ordenou que lhe comprimíssem brutalmente os seios e depois os cortassem. Em seguida, mandou que fosse enviada novamente à prisão, ordenando que não lhe dessem nem alimento nem cuidados médicos. Mas Deus a confortou: São Pedro lhe apareceu numa visão que encheu o cárcere de uma luz celestial, consolou-a e curou-a. Quatro dias depois, Quinciano mandou que a rolassem nua sobre brasas ardentes, misturadas com fragmentos cortantes de vasos. Ao ser conduzida de volta à prisão, exclamou: “Senhor, meu Criador, desde o berço sempre me protegeste; afastaste-me do amor ao mundo e me deste paciência para sofrer. Recebe agora a minha alma”. Depois de dizer essas palavras, expirou.

Há bom testemunho do culto primitivo a Santa Águeda. Seu nome aparece no calendário de Cartago (c. 530) e no Hieronymianum, e seus louvores foram cantados por Venâncio Fortunato (Carmina, VI, 4), mas nada podemos afirmar com segurança a respeito de sua história. Ela está representada na procissão dos santos em “Sant’Apollinare Nuovo”, em Ravena. Na arte, é representada segurando um prato com os seios que lhe foram cortados. Na Idade Média, estes às vezes foram confundidos com pães, e daí parece ter surgido o costume de abençoar pão na festa de Santa Águeda, o qual é levado ao altar num prato. Como na Sicília ela tinha fama de poder deter as erupções do monte Etna, é invocada contra qualquer incêndio. Seja porque, quando ocorre algum fogo, se dá o aviso com o toque de sinos, seja porque o metal fundido para moldá-los se assemelha a uma corrente de lava, as corporações de fundidores de sinos tomaram Santa Águeda por sua padroeira. Em Roma há duas igrejas do século VI dedicadas à sua honra, e seu nome é mencionado no cânon da Missa.
Veja-se o Acta Sanctorum, fevereiro, vol. 1, onde há, “inter alia”, uma versão latina de um elogio atribuído a São Metódio de Constantinopla († 847), sobre o qual se pode ver Analecta Bollandiana, vol. LXVIII (1950), pp. 58 ss. Veja-se também J. P. Kirsch na Catholic Encyclopedia, vol. 1, pp. 203-204; e, para a santa na arte, Künstle, Ikonographie der Heiligen (1926), pp. 37-39. Uma obra sobre Santa Águeda em dois volumes, de B. G. Consoli, apareceu em 1951.1

Pertence ao século dos primeiros santos verdadeiramente internacionais. Nasceu no momento em que os missionários, sempre ao lado dos descobridores, estendiam a fé por toda a terra e a Igreja chegava a ser completamente universal. Os pontos geográficos relacionados com a sua vida estendem-se ao longo de metade do globo.
Seus pais chegaram à Nova Espanha — haviam se casado pouco antes em Sevilha — e, poucos meses após a sua chegada, em 1º de maio de 1572, nasceu Felipe na cidade do México. Aos vinte e um anos, encontrando-se nas Ilhas Filipinas, para onde havia ido em busca de aventura, ingressou na Ordem Franciscana, e quatro anos depois, em 5 de fevereiro de 1597, morreu martirizado no Japão.
Felipe de las Casas Martínez era o mais velho de uma família de onze irmãos, dos quais outros dois seguiram a vida religiosa. Por parte de pai, era aparentado com outro notável monge e evangelizador da América, Frei Bartolomeu de las Casas. Felipe estudou gramática no colégio de São Pedro e São Paulo da cidade do México, dirigido pelos jesuítas, e demonstrou interesse pela arte da ourivesaria em prata. Por isso, quando Felipe foi beatificado, o grêmio dos ourives o nomeou seu patrono.
Aos vinte anos, Felipe foi para Manila, a cidade que era como o posto avançado espanhol na conquista do império das especiarias. Os filhos de mercadores ricos, quando empreendiam uma viagem tão longa naqueles tempos, geralmente não o faziam por motivos piedosos. Tampouco predominava o espiritual no ambiente daquela cidade, conquistada havia pouco tempo, em 1571. Contudo, naquele mercado cosmopolita que vivia sobretudo do comércio com a China, entre transações agitadas e planos de conquistas militares, Felipe de las Casas sentiu a vocação para a vida religiosa.

No mês em que completou vinte e um anos, ingressou na Ordem Franciscana no convento de Santa Maria dos Anjos de Manila. No ano seguinte, em 22 de maio de 1594, Frei Felipe de Jesus fez sua profissão religiosa. Quando, três anos depois, se aproximava o tempo da ordenação, em 12 de julho de 1596, partiu no galeão San Felipe rumo ao México, pois nas Filipinas não havia um bispo que pudesse ordená-lo. A viagem das Filipinas à Nova Espanha era uma aventura perigosa, que podia prolongar-se por sete ou oito meses. Naquela ocasião, a aventura esteve prestes a ser desastrosa. Durante um mês (18 de setembro a 18 de outubro), o navio ficou à deriva, lançado pelas tempestades de um lado para outro, até que, destroçado e sem governo, foi dar na costa do Japão.
Os viajantes chegaram a um Japão onde haviam despertado suspeitas quanto às intenções dos missionários. Seguiram-se meses de incerteza, durante os quais os náufragos ignoravam qual seria o seu destino. Frei Felipe de Jesus, depois de percorrer os caminhos daquele país desconhecido, refugiou-se em Meaco, onde os franciscanos tinham escola e hospital. Em 30 de dezembro, todos os frades foram feitos prisioneiros, juntamente com um grupo de cristãos japoneses. Começava o martírio. No dia 3 de janeiro, cortaram a todos a orelha esquerda. Em seguida, empreenderam uma penosa marcha que se prolongou por um mês inteiro, em pleno inverno, através do Japão, até Nagasaki.
Ali foi, em 5 de fevereiro. Vinte e seis cristãos foram pendurados em outras tantas cruzes sobre uma colina nos arredores de Nagasaki. Vinte e seis mártires foram fixados às madeiras por meio de argolas de ferro: no pescoço, nos braços e nas pernas, para serem atravessados por lanças. O primeiro foi Felipe de Jesus. As argolas que deviam sustentar-lhe as pernas estavam mal presa s. O corpo escorregou e ficou pendente da argola que prendia o pescoço, a qual começou a sufocá-lo. Duas lançadas no peito lhe abriram o pórtico da Glória. Tivera de percorrer meio mundo para entrar pela porta estreita.
Foi beatificado, juntamente com seus companheiros, em 14 de setembro de 1627, e canonizado em 8 de julho de 1862. P. M. Cuevas, S.J., Vida e Martírio de S. Felipe de Jesus, México, 1957.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 264-265.
2. Ibid. pp. 268-269.


























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