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Vida de Santo Hilário de Poitiers e São Félix de Nola (14 de janeiro)





Ícone de Santo Hilário de Poitiers
Ícone de Santo Hilário de Poitiers

Santo Agostinho, que cita frequentemente contra os pelagianos a autoridade de Santo Hilário, chama-o de “o ilustre doutor das Igrejas”. São Jerônimo diz que ele era “um homem de grande eloquência; a trombeta dos latinos contra os arianos”. Em outro lugar afirma que, “em São Cipriano e Santo Hilário, Deus transplantou dois cedros do mundo para a sua Igreja”.


Santo Hilário nasceu em Poitiers, de uma ilustre família. Ele mesmo nos diz que foi educado na idolatria e nos faz uma narração detalhada da forma como Deus o conduziu ao conhecimento da fé. A luz da razão levou-o a compreender que, sendo o homem um ser moral e livre, foi criado para exercitar a paciência, a temperança e as demais virtudes que merecem uma recompensa após a morte. Hilário consagrou-se ardorosamente a refletir sobre a essência de Deus e logo descobriu quão absurdo é o politeísmo, chegando assim à convicção de que existe um único Deus eterno, imutável, todo-poderoso, causa primeira de todas as coisas. Suas reflexões estavam nesse ponto quando conheceu a Sagrada Escritura. A descrição da existência de Deus pelas palavras “Eu sou aquele que é” impressionou-o profundamente, assim como a ideia do supremo domínio divino, ilustrada pela linguagem inspirada dos profetas. A leitura do Novo Testamento completou suas investigações: São João ensinou-lhe, desde o primeiro capítulo de seu Evangelho, que o Verbo Divino, Deus Filho, é coeterno e consubstancial com o Pai. Tendo chegado assim ao conhecimento da fé, recebeu o batismo em idade já um tanto avançada.


Hilário havia se casado antes de sua conversão e tinha uma filha chamada Apra. Sua esposa ainda vivia quando ele foi eleito bispo de Poitiers, por volta do ano 350. O santo fez tudo o que esteve ao seu alcance para evitar essa dignidade, mas sua humildade não fez mais do que confirmar ao povo a retidão de sua escolha. As esperanças nele depositadas não foram frustradas, pois suas eminentes qualidades brilharam não apenas na Gália, mas em toda a Igreja. Pouco depois de sua elevação ao episcopado, compôs, antes de partir para o exílio, um comentário sobre o Evangelho de São Mateus, que chegou até nós. O comentário sobre os salmos foi escrito no exílio. Porém, seus principais escritos dizem respeito ao arianismo. Hilário era orador e poeta. Seu estilo é elevado e nobre, cheio de figuras retóricas e algo elaborado; a extensão dos períodos torna-o por vezes obscuro. São Jerônimo queixa-se de suas longas e tortuosas frases, nas quais a retórica ainda vive. Santo Hilário frequentemente toma Deus por testemunha de que considera como fim principal de sua vida empregar todas as suas faculdades em dá-lo a conhecer ao mundo e fazê-lo amar pelos homens. Recomenda igualmente começar todas as ações e conversas com a oração. Em suas palavras percebe-se um ardente desejo de martírio, próprio de uma alma que nada tem a temer da morte. Santo Hilário amava a verdade acima de todas as coisas e não poupava esforço algum, nem evitava qualquer sacrifício, para defendê-la.


Gravura colorida de Santo Hilário de Poitiers
Gravura colorida de Santo Hilário de Poitiers

No Concílio de Milão, em 355, o imperador Constâncio pediu aos bispos que assinassem a condenação de Santo Atanásio. Aqueles que se recusaram foram desterrados, entre eles São Eusébio de Vercelli, Lúcifer de Cagliari e São Dionísio de Milão. Nessa ocasião, Santo Hilário escreveu o seu “Primeiro Livro a Constâncio”, exortando-o a restabelecer a paz na Igreja. Hilário separou-se dos três bispos arianos do Ocidente, Úrsácio, Valente e Saturnino, razão pela qual o imperador enviou a Juliano, o Apóstata, então governador da Gália, a ordem de desterrar imediatamente Hilário para a Frígia. Em meados do ano 356, Santo Hilário partiu para o exílio com a mesma alegria com que outros partiriam para uma viagem de prazer, sem se intimidar diante das dificuldades e perigos, pois seu coração estava firmemente fixado em Deus, muito acima das seduções e ameaças do mundo. O exílio durou três anos, durante os quais o santo compôs vários tratados eruditos. O principal e mais estimado é o “Tratado da Trindade”. O nome de Santo Hilário de Poitiers está ligado aos primeiros hinos latinos.


Intervindo novamente nos assuntos da Igreja, o imperador reuniu um concílio de arianos em Selêucia da Isáuria, a fim de neutralizar os decretos do Concílio de Niceia. Santo Hilário, que já havia passado três anos na Frígia, foi convidado ao concílio pelos semiarianos, que esperavam valer-se de sua autoridade para combater os arianos. Contudo, suas propostas não foram capazes de dobrar a firmeza de Santo Hilário, que defendeu ardorosamente os decretos do Concílio de Niceia até que, cansado da controvérsia, retirou-se para Constantinopla. Ali apresentou ao imperador uma petição, conhecida como o “Segundo Livro a Constâncio”, na qual lhe pedia permissão para sustentar uma discussão pública com Saturnino, o autor de seu desterro. Temendo tal prova, os arianos persuadiram o imperador a livrar o Oriente de um homem que não cessara de perturbar a paz. Em consequência disso, o imperador restituiu Hilário à Gália no ano 360.


São Martinho e Santo Hilário
São Martinho e Santo Hilário

Santo Hilário fez a viagem através do Ilírico e da Itália para confirmar os fracos na fé. Os habitantes de Poitiers o receberam com grandes demonstrações de alegria, e seu antigo discípulo, São Martinho, foi logo ao seu encontro. Um sínodo que se realizou na Gália, por iniciativa de Hilário, condenou o Concílio de Rimini, em 359, e excomungou e depôs Saturnino por contumácia. O mesmo sínodo fez cessar os escândalos e restabeleceu a disciplina, a paz e a pureza da fé. A morte de Constâncio, ocorrida em 361, pôs fim à perseguição ariana. Santo Hilário era, por temperamento, um homem extremamente cortês e bondoso; mas, percebendo que a bondade não produzia os resultados desejados, compôs uma invectiva contra Constâncio, na qual, por razões que provavelmente nunca conheceremos, empregou uma linguagem muito violenta. O documento só começou a circular depois da morte do imperador. No ano 364, Hilário empreendeu uma viagem a Milão para refutar Auxêncio, que havia usurpado aquela sé episcopal. Numa disputa pública, obrigou-o a confessar que Cristo era verdadeiro Deus e consubstancial ao Pai. Santo Hilário não se deixou enganar pela hipocrisia de Auxêncio, ao contrário do imperador Valentiniano, aos olhos de quem ele passava por ortodoxo. Hilário morreu em Poitiers, provavelmente em 368, mas é impossível determinar com absoluta certeza o ano e o mês de sua morte. O Martirológio Romano celebra sua festa no dia 14 de janeiro. O Papa Pio IX proclamou Santo Hilário Doutor da Igreja.


Nos últimos anos, muitas obras foram escritas sobre Santo Hilário, mas nenhuma delas diminuiu o valor substancial da narração de Alban Butler, da qual nos servimos. A descoberta mais importante, geralmente aceita hoje, é a de A. Wilmart (Revue Bénédictine, vol. XXIV [1908], pp. 159 ss., 293 ss.). Esse autor demonstra que o texto do Primeiro Livro a Constâncio está mal intitulado e é incompleto. Trata-se, na realidade, de um fragmento de uma carta dirigida aos imperadores pelo Concílio de Sárdica, por um lado, e, por outro, de alguns extratos de uma obra de Santo Hilário, escrita em 356, imediatamente antes do desterro, cujo título era Primeiro Livro contra Valente e Ursácio (os bispos arianos). Parece também certo que a obra de Hilário Liber ou Tractatus Mysteriorum, que se julgava perdida, não o está totalmente. Em um manuscrito de Arezzo (1887) descobriu-se uma parte dessa obra, juntamente com alguns poemas ou hinos do santo. Esse Tractatus nada tem a ver com a liturgia, como se havia suposto, mas identifica-se com o Liber Officiorum, que havia sido atribuído hipoteticamente ao santo (ver Wilmart, em Revue Bénédictine, vol. XXVII [1910], pp. 12 ss.). No artigo de Le Bachélet sobre Santo Hilário (DTC, vol. VI, col. 2388 ss.) encontra-se uma ampla bibliografia sobre essas descobertas. Ver também A. Feder, nos Sitzungsberichte da Academia de Viena, Phil.-Histor. Kl., CLXm, n. 4, e os textos por ele editados para o Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum. Quanto à vida de Santo Hilário, possuímos uma biografia e uma coleção de milagres escritas por Venâncio Fortunato e publicadas em Acta Sanctorum, 13 de janeiro (cf. BHL, nn. 580-582); ver igualmente E. Watson, The Life and Writings of St. Hilary of Poitiers (1899). Quanto aos hinos, remetemos o leitor ao suplemento do Dictionary of Hymnology de Julian, a Early Latin Hymns (1922), de Walpole, e sobretudo ao quarto volume do Corpus editado por Feder. Santo Hilário figura no calendário do Book of Common Prayer da Inglaterra.1




Afresco de São Félix, interior da Igreja de São Félix de Nola
Afresco de São Félix, interior da Igreja de São Félix de Nola

Devemos lembrar que São Paulino de Nola, considerado a principal autoridade sobre São Félix, viveu mais de um século após a morte deste, e é muito provável que já então a tradição estivesse contaminada por alguns elementos lendários. São Paulino nos narra a vida de São Félix da seguinte maneira:


São Félix era natural de Nola, colônia romana da Campânia, a vinte quilômetros de Nápoles, onde seu pai havia adquirido algumas propriedades e se estabelecido. O pai de São Félix era sírio de nascimento e havia servido no exército. Ao morrer, deixou seus bens a Félix e Hermias, seus dois filhos. Hermias seguiu a carreira das armas, enquanto Félix decidiu buscar a felicidade que seu nome latino lhe prometia, no serviço do Rei dos reis, Jesus Cristo. Assim, distribuiu sua herança entre os pobres e foi ordenado sacerdote por São Máximo, bispo de Nola, que, encantado com sua virtude e prudência, fez dele seu braço direito naqueles tempos agitados e o considerava destinado a sucedê-lo.


No ano 250, o imperador Décio desencadeou uma cruel perseguição contra a Igreja. Máximo, compreendendo que seria uma das primeiras vítimas, retirou-se para o deserto, não por medo de morrer, mas para continuar servindo seu rebanho. Como os perseguidores não encontrassem o bispo, prenderam Félix, que o substituía zelosamente nos deveres pastorais. O governador mandou açoitá-lo, carregou-o de cadeias e encerrou-o num calabouço cujo chão estava coberto de cacos de vidro, de modo que o mártir não podia nem ficar de pé nem deitar-se sem se ferir, segundo nos informa Prudêncio.


Certa noite, um anjo apareceu-lhe em meio a grande luz e ordenou-lhe que fosse socorrer seu bispo. Vendo suas cadeias caírem por terra e as portas da prisão se abrirem, Félix seguiu seu guia, que o conduziu a um lugar onde Máximo jazia inconsciente, quase morto de fome e de frio; a angústia por seus fiéis e as privações da vida solitária haviam-lhe causado mais sofrimento do que o próprio martírio. Incapaz de fazê-lo recobrar os sentidos, Félix recorreu à oração, e imediatamente apareceu um cacho de uvas ao alcance de sua mão. Félix espremeu algumas nos lábios de seu mestre, que então recobrou a consciência. Assim que reconheceu Félix, o bom bispo pediu-lhe que o levasse de volta à sua igreja. O santo tomou-o nos braços e, antes do amanhecer, levou-o à sua casa na cidade, onde uma piedosa mulher cuidou dele.


Iluminara medieval de São Félix de Nola espancado e escondido por uma teia de aranha
Iluminara medieval de São Félix de Nola espancado e escondido por uma teia de aranha

Félix permaneceu escondido, orando incessantemente pela Igreja, até a morte de Décio, em 251. Assim que reapareceu, seu zelo exasperou de tal modo os pagãos, que decidiram prendê-lo novamente; mas o céu não permitiu que o reconhecessem ao vê-lo. Seus perseguidores perguntaram-lhe onde estava Félix, ao que o santo respondeu de maneira evasiva. Logo perceberam o erro e voltaram ao lugar onde o haviam visto; mas, nesse meio-tempo, Félix já tivera tempo de introduzir-se num muro próximo, através de uma abertura que se cobriu milagrosamente de teias de aranha assim que o santo passou. Seus perseguidores, sem sequer suspeitar que Félix estivesse atrás da espessa rede de teias, retiraram-se vencidos após uma busca infrutífera. Félix descobriu um poço quase seco, entre duas casas em ruínas, e ocultou-se nele durante seis meses. Uma piedosa cristã encarregou-se de lhe levar alimento. Quando a paz foi restabelecida na Igreja, Félix saiu de seu esconderijo e foi recebido com grande alegria na cidade.


São Máximo morreu pouco depois, e Félix foi eleito por unanimidade para sucedê-lo. Contudo, conseguiu persuadir o povo de que era mais prudente confiar a diocese a Quinto, um sacerdote de idade mais avançada. O restante dos bens do santo havia sido confiscado durante a perseguição. Os cristãos aconselharam-no a reclamá-los às autoridades, como outros o haviam feito com êxito; mas o santo respondeu simplesmente que, no meio da pobreza, encontraria com maior segurança a Cristo. Nem sequer conseguiram convencê-lo a aceitar o que os ricos lhe ofereciam. Félix arrendou três acres de terra, que cultivou com as próprias mãos, para satisfazer suas necessidades e poder dar algumas esmolas. Todos os dons que recebia entregava imediatamente aos pobres. Se possuía duas túnicas, os pobres podiam estar certos de que em breve lhes daria a melhor, e mais de uma vez trocou suas vestes pelos andrajos de um mendigo. Félix morreu já muito idoso, em 14 de janeiro, dia em que é comemorado pelos martirológios.


São Félix de Nola
São Félix de Nola

Já havia passado mais de um século desde sua morte quando São Paulino, distinto senador romano, se estabeleceu em Nola e foi eleito bispo dessa cidade. São Paulino atesta que uma grande multidão de peregrinos acorria de Roma e de outras cidades ainda mais distantes para celebrar a festa do santo em seu santuário. O mesmo testemunho acrescenta que todos levavam algum presente à igreja, como, por exemplo, círios para ornamentar o túmulo de Félix, mas que ele havia escolhido oferecer ao santo o humilde tributo de sua pregação e de seu coração. São Paulino exprime sua devoção nos termos mais fervorosos e pensa que todas as graças que recebeu do céu se devem à intercessão de São Félix. Descreve minuciosamente as pinturas do Antigo Testamento que adornavam o santuário e que eram como livros que os iletrados podiam compreender. Os versos do santo bispo refletem seu entusiasmo. Relata igualmente um grande número de milagres operados junto ao túmulo de São Félix, bem como curas instantâneas e livramentos de graves perigos. Afirma que ele próprio foi testemunha ocular de alguns desses prodígios e declara que nunca recorreu à intercessão do santo sem receber socorro imediato. Também Santo Agostinho nos deixou uma narração dos milagres realizados no santuário de São Félix. Naquela época, não era permitido sepultar os mortos dentro dos muros da cidade. Como a igreja de São Félix se encontrava fora das muralhas de Nola, muitos cristãos pediam para ser ali sepultados, a fim de que sua fé e devoção os conservassem sob a proteção do santo mesmo após a morte. São Paulino consultou o caso com Santo Agostinho, que lhe respondeu em sua obra O cuidado com os mortos, na qual demonstra que a fé e a devoção daqueles que desejavam ser sepultados na igreja de São Félix não eram inúteis, pois ali participariam do fruto das boas obras dos peregrinos.


Como indicamos acima, os poemas de São Paulino constituem nossa principal fonte sobre a vida de São Félix. Beda resumiu esses poemas em prosa; seu resumo encontra-se, juntamente com outros documentos, em Acta Sanctorum, 14 de janeiro. Em Analecta Bollandiana, vol. XVI (1897), pp. 22 ss., encontra-se uma curiosa ilustração da confusão introduzida por Adão e outros hagiógrafos, que inventaram um “São Félix in Pincis”. Tal confusão se originou provavelmente da existência de uma igreja dedicada a São Félix de Nola no Pincio. O Papa São Dâmaso agradece a São Félix, em um poema, a cura de que ele próprio foi beneficiado. Cf. Quentin, Les Martirologes historiques, pp. 518-522.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 89-92.

2. Ibid. pp. 92-94.



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