Festa da Epifania de Jesus Cristo e a Vida de São Melânio e São Erminoldo (6 de janeiro)
- Sacra Traditio

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† A EPIFANIA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO †
† A EPIFANIA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO †

A Epifania, que em grego significa aparição ou revelação, é uma festa destinada a celebrar principalmente a revelação de Jesus Cristo aos Magos ou Sábios do Oriente, os quais, por inspiração particular do Todo-Poderoso, foram adorá-Lo pouco depois de seu nascimento.
O ofício do dia comemora igualmente outras duas manifestações do Senhor: a primeira é a de seu batismo, no qual o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma de pomba, ao mesmo tempo em que uma voz do céu dizia: “Este é o meu Filho muito amado, no qual tenho minhas complacências”; a segunda é a revelação de seu poder, no primeiro de seus milagres, a transformação da água em vinho, em Caná, onde manifestou sua glória e seus discípulos creram n’Ele. Por tudo isso, a festividade merece respeito e reverência, especialmente por parte de nós, os gentios, que nessa data fomos chamados à fé e à adoração do verdadeiro Deus, na pessoa dos Magos.[a]

Sem nos dizer quantos eram, a Bíblia chama de “magos” ou “sábios” os gentios que acorreram a Belém para render homenagem ao Redentor do mundo, obedecendo ao chamado divino. A opinião comum, apoiada pela autoridade de São Leão, Cesário, Beda e outros, sustenta que eram três. Em todo caso, o número era reduzido em comparação com o daqueles que viram a estrela e não lhe deram atenção; admiraram seu brilho extraordinário e permaneceram surdos à sua mensagem; escravizados por seu egoísmo e suas paixões, endureceram seus corações ao chamado do Senhor. Decididos a seguir o chamado divino, — apesar de todos os perigos, os Magos se informaram em Jerusalém e foram até a própria corte do rei Herodes perguntando: “Onde nasceu o Rei dos Judeus?” De acordo com as profecias de Jacó e Davi, toda a nação judaica estava à espera do Messias. Como as profecias detalhavam as circunstâncias de seu nascimento, os Magos souberam logo, pelas informações do Sinédrio ou grande Conselho dos judeus, que o profeta Miqueias havia predito, muitos séculos antes, que o Messias nasceria em Belém.
Os Magos puseram-se imediatamente a caminho, apesar do mau exemplo que lhes davam os membros do Sinédrio, pois nenhum escriba nem sacerdote se mostrou disposto a acompanhá-los para buscar e render homenagem ao seu próprio Rei. Para fortalecer sua fé, Deus fez brilhar novamente a estrela assim que saíram de Jerusalém, e esta os guiou até o lugar onde se encontrava o Salvador que vinham adorar. Detendo-se sobre a gruta, a estrela parecia dizer-lhes: “Aqui encontrareis o Rei que vos nasceu”. Os Magos penetraram no pobre abrigo, mais cheio de glória do que todos os palácios do mundo, onde encontraram o Menino com sua Mãe. Prostrando-se, adoraram-No e Lhe entregaram seus corações. São Leão celebra a fé e a devoção dos Magos com estas palavras:
“A estrela os conduziu a adorar Jesus; mas não O encontraram vencendo os demônios, nem ressuscitando os mortos, nem dando vista aos cegos e voz aos mudos. Jesus não fazia milagres. Estava ali como um recém-nascido, sem palavra e totalmente dependente de sua Mãe. Seu poder estava oculto e seu único milagre era a humildade”.

Os Magos ofereceram a Jesus os mais ricos produtos de suas terras: ouro, incenso e mirra. O ouro, para manifestar que reconheciam sua dignidade real; o incenso, como uma confissão de sua divindade; a mirra, como símbolo de que se havia feito homem para redimir o mundo. Mas seus mais ricos presentes foram as disposições em que se encontravam: sua ardente caridade, simbolizada no ouro; sua devoção, figurada pelo incenso, e a total entrega, representada pela mirra.
A mais antiga menção da celebração de uma festa cristã em 6 de janeiro parece ser a dos “Stromata” (1, 21) de Clemente de Alexandria, que morreu antes do ano 216. O referido autor afirma que a seita dos Basilianos celebrava a comemoração do Batismo do Senhor com grande solenidade, em datas que parecem corresponder ao dia 10 e ao dia 6 de janeiro. Isso teria, em si mesmo, pouca importância, se não existissem abundantes provas de que, nos dois séculos seguintes, o dia 6 de janeiro se tornou uma festividade principal na Igreja do Oriente, e que tal festividade estava estreitamente relacionada com o Batismo do Senhor. Em um documento conhecido com o nome de “Cânones de Atanásio”, cujo texto pertence basicamente à época de Santo Atanásio, por volta do ano 370, o autor nos diz que as três festas mais importantes do ano eram a Páscoa, Pentecostes e Epifania. O mesmo documento prescreve aos bispos que reúnam os pobres nas ocasiões solenes, particularmente “na grande festa do Senhor” (Páscoa), em Pentecostes, “quando o Espírito Santo desceu sobre sua Igreja”, e na “festa da Epifania do Senhor no mês de Tubi, isto é, a festa de seu Batismo” (cânon 16). O cânon 66 repete: “a festa da Páscoa, a festa de Pentecostes e a festa da Epifania, que é o décimo primeiro dia do mês de Tubi”.

Segundo as ideias do Oriente, a primeira manifestação do Salvador aos gentios coincide com as divinas palavras: “Este é o meu Filho muito amado, no qual tenho minhas complacências”. Os Padres gregos opinam que a Epifania, chamada também por eles “Manifestação de Deus” e “Iluminação”, identificava-se originalmente com a cena do Jordão. Em um sermão pregado em Antioquia, no ano 386, São João Crisóstomo pergunta: “Por que se chama Epifania, não ao dia do nascimento do Senhor, mas ao dia de seu Batismo?” E, depois de discutir alguns detalhes da observância litúrgica, especialmente a água benta que os fiéis levavam para suas casas e conservavam durante todo o ano (o santo inclina-se a pensar que o fato de a água não se corromper é um milagre), responde à sua própria pergunta: “Chamamos Epifania ao dia do Batismo do Senhor, porque ao nascer não Se manifestou a todos, como o fez no Batismo. Até esse momento havia permanecido oculto ao povo.” Também São Jerônimo, que vivia perto de Jerusalém, testemunha que a única festa que então se celebrava ali era a do dia 6 de janeiro, para comemorar o nascimento e o Batismo de Jesus. Em seguida, explica que a ideia de “manifestação” não se aplica propriamente ao nascimento, “porque Jesus então permaneceu oculto e não Se revelou”, mas sim ao Batismo no Jordão, “quando o céu se abriu sobre Cristo”. Fora de Jerusalém, onde, segundo nos diz Etéria (c. 395), cujo testemunho concorda com o de São Jerônimo, a festa do Natal e a Epifania eram celebradas no mesmo dia (6 de janeiro). O costume ocidental de celebrar separadamente o Natal em 25 de dezembro impôs-se [para todos] no século IV e difundiu-se rapidamente, desde Roma a todo o Oriente cristão.[b] São Crisóstomo nos informa que o dia 25 de dezembro foi celebrado pela primeira vez em Antioquia por volta do ano 376, porém, Santo Hipólito de Roma, no século III, diz que o Natal era celebrado no dia 25 de dezembro pelos cristãos. Constantinopla adotou essa festa dois ou três anos mais tarde, e São Gregório de Nissa, na oração fúnebre por seu irmão São Basílio, explica que a Capadócia adotou o costume aproximadamente na mesma época. Por outro lado, a festividade de 6 de janeiro, de origem indubitavelmente oriental, tornou-se festa da Igreja do Ocidente, como uma espécie de compensação, antes da morte de Santo Agostinho. Encontramo-la registrada pela primeira vez em Viena da Gália. O historiador pagão Amiano Marcelino, descrevendo a visita do imperador Juliano às igrejas, fala da “festa de janeiro que os cristãos chamam Epifania”. Santo Agostinho acusa os donatistas de não terem adotado, como os católicos, a nova festividade da Epifania. Por volta do ano 380, essa festividade já era celebrada em Saragoça, e no ano 400 era uma das festas nas quais estavam proibidos os jogos do circo.

No entanto, embora o dia da celebração fosse o mesmo, o caráter da festa da Epifania no Oriente e no Ocidente era distinto. No Oriente, o motivo principal da festa continua sendo até hoje o Batismo do Senhor, e a grande bênção da água é um dos ritos principais. No Ocidente, ao contrário, dá-se ênfase à viagem e à adoração dos Magos. Assim já acontecia desde a antiguidade, como o demonstram os sermões de Santo Agostinho e São Leão. É certo que o Batismo do Senhor e o milagre de Caná também estão incluídos na festa; mas, embora encontremos em São Paulino de Nola (inícios do século V), e um pouco depois em São Máximo de Turim, alusões muito claras a esses dois fatos em sua interpretação das solenidades do dia, é preciso reconhecer que a Igreja do Ocidente celebra praticamente apenas a revelação do Senhor aos gentios, representados pelos Magos.
Ver H. Leclercq, DAC., vol. V, pp. 197-201; Vacandard, Études de critique et d'histoire religieuse, vol. III, pp. 1-56; Hugo Kehrer, Die heiligen drei Könige (1908), vol. I, pp. 46-52 e 21-31; Duchesne, Christian Worship, pp. 257-265; Usener-Lietzmann, Religionsgeschichtliche Untersuchungen, pt. I; Kellner, Heortology, pp. 166-173; G. Morin, na Revue Bénédictine, vol. V (1888), pp. 257-264; F. C. Conybeare, em Rituale Armenorum, pp. 165-190; especialmente Dom de Puniet, na Rasegna Gregoriana, vol. V (1906), pp. 497-514. Ver também Riedel e Crum, The Canons of Athanasius, pp. 27, 131; Anecdota Maredsolana, vol. II, pp. 396-397; Rasegna Gregoriana, vol. X (1911), pp. 51-58; e Migne, PG., vol. XLIX, p. 366 (Crisóstomo), e PL., vol. XXV, cc. 18-19 (Jerônimo), vol. XXXVIII, c. 1033 (Agostinho).1

Melânio nasceu às margens do Vilaine, em Placs ou Plets, da diocese de Vannes, na Bretanha. À morte de Santo Amando, bispo de Rennes, as instâncias do clero e dos fiéis dessa igreja obrigaram-no a aceitar o governo, apesar dos reparos de sua humildade. Teve parte importante na redação dos cânones do concílio realizado em Orléans, em 511, e trabalhou depois para que tais normas fossem observadas.
Juntamente com os bispos de Tours e de Angers, escreveu a dois sacerdotes bretões para recordar-lhes a observância das regras canônicas sobre o celibato e a liturgia.
São, na verdade, poucos os detalhes que se conhecem de sua vida; mas podemos julgá-la pela grande veneração de que esteve rodeada a sua memória. Seu zelo contribuiu para que desaparecessem os restos da idolatria que ainda subsistiam em sua diocese.
Morreu em Placs, perto de um oratório que havia mandado construir para ali se dedicar à oração e à meditação. É muito difícil precisar a data de sua morte, que geralmente se situa por volta de 530. Monsenhor Duchesne contenta-se em dizer que, no ano 549, Rennes tinha um bispo chamado Febedélio. A morte ocorreu em 6 de janeiro ou em 6 de novembro? Coisa extraordinária: por volta do fim do século VI, um compilador franco do martirológio Jeronimiano atribuiu a São Melânio duas festas, uma em 6 de janeiro para a ordenação, e outra em 6 de novembro para a deposição. A segunda recensão do mesmo martirológio, no século VII, situa em 6 de janeiro o nascimento, a ordenação e a morte de São Melânio. Pode ser, diz monsenhor Duchesne, que o copista tenha interpretado mal as palavras colocadas em abreviatura e, por nat., ordinal, teria lido nativitas em vez de natalis.

Admitamos com o biógrafo que Melânio morreu em Placs no dia 6 de janeiro e que sua sepultura teve lugar em Rennes dez meses depois, isto é, no dia 6 de novembro. A trasladação foi feita sobre uma barca, subindo o curso do rio Vilaine. Nessa ocasião, ocorreram numerosos milagres. Um calendário bretão do século XII, recolhido por F. Duine, dá três festas de São Melânio ao longo do ano, a saber: 6 de janeiro, 6 de novembro e 11 de outubro, uma dedicação.
Basta dizer que o culto a Melânio começou imediatamente após sua morte, teve grande extensão e chegou até a Borgonha. São Gregório de Tours (Gloria confessorum, c. LIV) diz que sobre o túmulo de São Melânio, em Rennes, foi construída uma basílica que desabou durante um incêndio, mas o sarcófago não sofreu dano algum. É lamentável que a invocação dessa igreja tenha sido mudada, pois, renovada muitas vezes no curso dos séculos, conservava sempre o túmulo do santo bispo.
Vies des Saints et des Bienheureux selon l’ordre du calendrier avec l’historique des fêtes, pelos RR. PP. Raudot e Chaussin, O.S.B. A vida de São Melânio foi editada por B. Krusch, Monumenta Germaniae Historica. Scriptores rerum merovingicarum, vol. II, p. 370, com uma classificação à qual L. Duchesne não encontra nada a objetar; contudo, não admite as explicações do editor a propósito de uma suposta querela entre mosteiros. A vida dada por Krusch é, no máximo, do fim do século VII. Os bolandistas (Analecta Bollandiana, vol. XII, 1894, p. 79, e vol. XVI, 1897, p. 87) admitem que se equivocaram ao apresentar como primitiva sua recensão do Catálogo dos manuscritos da Biblioteca Nacional, vols. I e II. L. Duchesne, no Recueil des mémoires publiés par la Société nationale des antiquaires de France, Paris (1904), p. 105-109; Fastes épiscopaux, t. II, p. 340. Os Analecta Bollandiana, vol. IX (1890), p. 438, apresentam um acréscimo à coleção dos milagres.2

A vida medieval de São Erminoldo pertence a um tipo muito pouco satisfatório de biografia espiritual. Erminoldo, que havia chegado ao mosteiro ainda menino, passou toda a sua vida no claustro. Como se distinguiu em Hirschev pela estrita observância das regras, foi eleito abade de Lorsch; mas uma disputa sobre a legitimidade de sua eleição obrigou-o a renunciar ao cargo um ano mais tarde. Em 1114, a pedido de Santo Otão de Bamberg, foi enviado ao mosteiro de Prüfening, fundado pouco antes, onde foi inicialmente prior e mais tarde abade, a partir de 1117. Os calendários e martirológios locais o colocam na lista dos mártires, mas na realidade morreu às mãos de uma facção de conspiradores que faziam parte de sua comunidade e se rebelaram contra a severidade de seu governo, no dia 6 de janeiro de 1121. Um dos conspiradores descarregou sobre sua cabeça uma viga. Erminoldo lutou durante vários dias entre a vida e a morte e terminou seus dias na festa da Epifania, à hora que ele próprio havia predito. Tornou-se famoso tanto por seu espírito de oração quanto por sua caridade para com os pobres. Conserva-se a memória de numerosos milagres operados em seu túmulo.
Ver Acta Sanctorum, 6 de janeiro; ver também MGH., Scriptores, vol. XII, pp. 481-500.3
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 21-30.
2. Ibid. pp. 21-22.
3. Ibid. pp. 32-22.
Nota:
a. No sentido bíblico e patrístico, o termo gentios designa os povos não judeus, isto é, aqueles que originalmente viviam no paganismo. Os Magos representam esse chamado universal dos povos à fé em Cristo. Embora os fiéis já não sejam gentios no sentido religioso atual, pode-se dizer que a Igreja é formada majoritariamente por aqueles que vieram dos gentios, hoje incorporados a Cristo pelo Batismo (cf. Ef 2,19).
b. Até o dia de hoje, os armênios não católicos celebram conjuntamente o Natal e a Epifania em 6 de janeiro. E deve-se notar que, na própria Igreja do Ocidente, o grau litúrgico da Epifania é superior ao do Natal, assim como o da Páscoa e o de Pentecostes.


























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