Vida do Papa São Silvestre I e Santa Columba de Sens (31 de dezembro)
- Sacra Traditio

- 30 de dez. de 2025
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Ao Papa Silvestre I, assim como ao seu predecessor São Milcíades, recorda-se mais pelos acontecimentos que tiveram lugar durante o seu pontificado do que por sua vida e seus feitos. Viveu numa época de tão grande transcendência histórica que, inevitavelmente, surgiram em torno dele diversas lendas e anedotas sensacionais, como as que figuram na obra Vita beati Silvestri, porém sem valor como dados para os registros da história. Em contrapartida, o Liber Pontificalis faz constar que era filho de um romano chamado Rufino, eleito Papa por ocasião da morte de São Milcíades, em 314, quase um ano depois de que o Édito de Milão havia garantido a liberdade à Igreja. Em consequência, as lendas mais significativas sobre São Silvestre foram fabricadas em torno das suas relações com o imperador Constantino. Nelas se representa Constantino como um leproso que, ao converter-se ao cristianismo e ao receber o batismo das mãos do Papa Silvestre, ficou curado. Como demonstração de gratidão para com o vigário de Cristo na terra, o imperador concedeu numerosos direitos e privilégios ao Papa e a seus sucessores e deixou sob o domínio da Igreja as províncias da Itália. A história das “doações de Constantino”, que foi composta e utilizada para fins políticos e eclesiásticos durante a Idade Média, é reconhecida há muito tempo como uma falsidade; contudo, há um ponto nesse relato, o batismo de Constantino por São Silvestre, que está registrado no Martirológio Romano e no Breviário.

Poucos meses depois de ocupar a cátedra de São Pedro, o Papa enviou uma delegação pessoal ao sínodo convocado em Arles para tratar da controvérsia donatista. Os bispos reunidos naquela assembleia formularam críticas pela ausência do Pontífice, que, em vez de se apresentar à reunião, permanecia “no lugar onde os Apóstolos têm o seu tribunal permanente”.
Em junho do ano 325, reuniu-se na cidade de Niceia, na Bitínia, o primeiro Concílio Ecumênico ou geral da Igreja, ao qual compareceram cerca de 220 bispos, quase todos orientais. O Papa Silvestre enviou de Roma, como delegados, dois sacerdotes. O Concílio, presidido por um bispo do Ocidente, Ósio de Córdova, condenou as heresias de Ário e com isso deu início a uma longa e devastadora luta no seio da Igreja. Não há notícias precisas de que São Silvestre tenha ratificado oficialmente a assinatura de seus delegados nas atas do Concílio.
É provável que tenha sido a São Silvestre, e não a Milcíades, que Constantino cedeu o palácio de Latrão, onde o Papa estabeleceu a sua cátedra e fez da basílica de Latrão a igreja catedral de Roma. Durante o pontificado de São Silvestre, o imperador (que em 330 transferiu a sua capital de Roma para Bizâncio) mandou construir as primeiras igrejas romanas, como a de São Pedro no Vaticano, a da Santa Cruz no palácio Sessoriano e a de São Lourenço fora dos muros. O nome deste Papa, juntamente com o de São Martinho, ficou até hoje ligado à igreja titular de um cardeal que, naquela época, foi fundada perto das termas de Diocleciano por um sacerdote chamado Equício. São Silvestre construiu também outra igreja no cemitério de Priscila, sobre a Via Salária. Nesse mesmo lugar foi sepultado no ano de 335, mas em 761 o Papa Paulo I trasladou as suas relíquias para a igreja de São Silvestre in Capite, que é atualmente a igreja nacional dos católicos ingleses em Roma. Desde o século XIII, generalizou-se no Ocidente a celebração da festa deste santo Pontífice no dia 31 de dezembro, e também se observa no Oriente (em 2 de janeiro) a comemoração daquele primeiro Pontífice de Roma depois que a Igreja saiu das catacumbas.

Em um artigo intitulado Konstantinische Schenkung und Silvester Legende, com o qual W. Levison, o investigador cuja autoridade ninguém põe em dúvida, contribuiu para a obra Miscellanea Francesco Ehrle (vol. II, 1924, pp. 159-247), a trigésima oitava publicação da série Studi e Testi, faz-se um estudo muito completo sobre os famosos “Donativos de Constantino”. Do mesmo modo, J. P. Kirsch realizou um estudo profundo sobre o documento espúrio na Catholic Encyclopedia (vol. V, pp. 118-121), mas Levison chegou a conclusões muito mais claras acerca dos diversos elementos que contribuíram para a fabricação da fábula. Ao que parece, anteriormente circulou uma história de São Silvestre, inventada para a edificação dos leitores piedosos da segunda metade do século V. Nela figura, por exemplo, o relato de uma discussão teológica entre São Silvestre e doze doutores judeus. Há indícios de que o Liber Pontificalis (ver a edição de Duchesne, vol. I, pp. cxxxv e 170-201) se documentou nesse livro ao tratar do Constitutum Silvestri. Mas havia também outra versão dessa lenda que incluía incidentes como a luta contra um dragão e que modificava radicalmente outros detalhes.

No século IX, encontram-se textos nos quais esses elementos estão fundidos com outros novos. Por outro lado, desde o século VI começaram a aparecer versões gregas sobre esse mesmo tema (ver o BHG., nn. 1628-1632). Um desses textos gregos conservou-se em quarenta cópias que ainda existem. Contudo, Levison rejeita decididamente a tese de que foram os textos gregos sobre os “Donativos de Constantino” que forneceram os dados às versões latinas. Houve também traduções das atas de São Silvestre para o siríaco e o armênio, bem como uma homilia em verso, atribuída a Tiago de Sarug.
Em algumas dessas versões orientais, São Silvestre é apresentado como companheiro de viagem de Santa Helena, mãe de Constantino, pela Palestina, e afirma-se, além disso, que o Papa tomou parte no descobrimento da verdadeira Cruz. Pode-se ter uma ideia do lugar tão importante que São Silvestre ocupou no movimento intelectual da Idade Média por meio do Speculum Ecclesiae de Giraldo Cambrensis e do Polychronicon de Ralph Higden, vol. V. Cf. também Döllinger em Papstfabeln, pp. 61 ss., e Donato em Un Papa Legendario (1908). Sobre a história de seu pontificado, ver E. Caspar em Geschichte des Papsttums, vol. I, pp. 115 ss., e Poisnel em Un concil apocryphe du Pape St. Silvestre, em Mélanges d’archéol. et d’histoire, 1886, pp. 3-13. Há uma nota suplementar ao artigo de Levison na Zeitschrift der Savigny…, vol. XLVI (1926), pp. 501-511. Cf. N. H. Baynes em Constantine the Great and the Christian Church (1929).1

A tradição diz que Columba era natural da Espanha e que, aos dezesseis anos de idade, se transferiu para as Gálias com outros espanhóis que posteriormente foram martirizados. Diz-se que esse grupo de emigrantes se estabeleceu em Sens. Ao que parece, Columba era filha de pais nobres que praticavam a religião pagã, aos quais abandonou em segredo para evitar que a obrigassem a adorar os falsos deuses. Na cidade francesa de Vienne recebeu o batismo. Quando Aureliano chegou a Sens, ordenou que Santa Columba e seus companheiros fossem executados.
A “paixão” desses mártires relata que a santa foi milagrosamente protegida da desonra e da brutalidade de seus carcereiros quando foi entregue aos soldados, por um dos ursos do anfiteatro, que não se afastava dela e atacava todo aquele que se aproximasse. Columba morreu decapitada junto à fonte de Azon, na estrada de Meaux, e um homem que havia recuperado a vista ao invocar o nome da santa encarregou-se de dar sepultura ao cadáver nos arredores do local da execução.
O culto a Santa Columba estendeu-se pela França, Espanha e Itália, em algumas de cujas dioceses ainda se celebra a sua festa. Contudo, em meados do século passado, fracassou a tentativa feita para dar novo impulso à devoção popular a essa santa.

A abadia de Santa Columba, que conservava as suas relíquias, era a principal das casas religiosas de Sens. A terceira das igrejas dedicadas a Santa Columba foi consagrada pelo Papa Alexandre III em 1164. No ano seguinte, quando São Tomás Becket fugiu da Inglaterra para fazer a sua apelação ao Papa e não pôde permanecer em Pontigny, refugiou-se no mosteiro de Santa Columba e ali estabeleceu a sua residência até regressar à Inglaterra para receber o martírio.
Não obstante a paixão desses mártires, em suas diversas versões, conservar-se em numerosos manuscritos, ela não possui nenhum valor histórico. Mombrício e os bolandistas a imprimiram em seu Catalogus hagiographicus Bruxellensis, vol. I, pp. 302-306. Veja-se ainda Tillemont em Mémoires, vol. IV, p. 347 e, sobretudo, G. Chastel em Ste. Colombe de Sens (1939), que contém um novo texto da paixão e importantes detalhes sobre o culto.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 652-653.
2. Ibid. p. 654.


























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