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Vida de São Tomás Becket e São Trófimo de Arles (29 de dezembro)





São Tomás Becket em um manuscrito da obra Collectio Epistolarum Sancti Thome Cantuariensis c. 1180
São Tomás Becket em um manuscrito da obra Collectio Epistolarum Sancti Thome Cantuariensis c. 1180

Há uma tradição muito conhecida na qual se relata que a mãe de Santo Tomás Becket era uma princesa sarracena que, perdidamente apaixonada por um peregrino ou um cruzado inglês chamado Becket, o seguiu desde a Terra Santa e através da Europa, sem pronunciar diante das pessoas que encontrava em seu caminho mais que as duas únicas palavras que conhecia em inglês e que lhe interessavam: “London” e “Becket”. Assim foi como encontrou finalmente o seu amado, converteu-se ao cristianismo e casou-se com ele. Na realidade, não há nenhum fundamento para esta lenda. Vários contemporâneos nos falaram dos parentes do santo. Um tal FitzStephen, um clérigo ao serviço da família, diz: “Seu pai era Gilbert, alcaide de Londres, e o nome de sua mãe era Matilda. Os dois eram cidadãos de estirpe burguesa que não fizeram dinheiro com a usura nem exerceram o comércio, mas viviam respeitavelmente com o que tivessem”.[a] Outros dizem que o nome da mãe era Rohesia e que foi normanda como seu marido. De todas as maneiras, sabe-se que o filho do casal nasceu no dia de Santo Tomás do ano 1118, em Londres, e que foi enviado para educar-se com os cônegos regulares em Merton, localidade do Surrey. Ao cumprir os vinte e um anos, perdeu a sua mãe e, pouco depois, o seu pai. Já para então, os bens de Gilbert haviam diminuído bastante e Tomás teve que “trabalhar como empregado” de um parente, chamado Osbert Eightpence, em Londres. Também trabalhou para Richer de l'Aigle, que gostava de fazer-se acompanhar pelo rapaz em suas caçadas, sobretudo quando as fazia com falcões, e assim despertou em Tomás a afeição pelas correrias a campo aberto, que sempre cultivou. Certo dia em que perseguia uma presa, o falcão que levava sobre o ombro lançou-se ao rio para capturar um pato. Tomás, temeroso de perder o seu falcão, lançou-se também à água com a intenção de resgatá-lo, mas a rápida corrente arrastou-o até um moinho e só salvou a vida graças a que a roda do moinho se deteve, milagrosamente segundo se disse, quando estava a ponto de triturar o corpo do jovem. Aquele incidente foi característico da impetuosidade de Tomás e não um dos motivos que “lhe fizeram tomar a vida mais a sério”.[b] Ao cumprir os vinte e quatro anos, obteve um posto na servidão de Teobaldo, o arcebispo de Canterbury. Não passou muito tempo sem que recebesse as ordens menores e muitos favores da parte de Teobaldo, que se preocupou para que Tomás obtivesse numerosos benefícios em toda a zona compreendida desde Beverley até Shoreham. Em 1154 foi ordenado diácono, e o arcebispo nomeou-o arqui-diácono de Canterbury, um posto que era, por então, o primeiro em dignidade eclesiástica na Inglaterra, depois dos bispos e dos abades. Teobaldo encomendou-lhe o manejo de assuntos muito delicados, raramente fazia algo sem consultá-lo, em várias ocasiões enviou-o a Roma com missões importantes. Por outra parte, o arcebispo jamais teve motivos para arrepender-se de haver depositado sua inteira confiança em Tomás de Londres, como se lhe chamava geralmente.


No Thomas Saga Erkibyskupus, de Norse, descreve-se o jovem e brilhante clérigo desta maneira: “Era delgado de corpo e de tez pálida, com cabelo escuro, nariz longo e feições duras. Seu caráter alegre fazia-o atraente e amável na conversa; falava sempre com sinceridade e, não obstante certo leve gaguejar, era tão claro o seu discernimento e tão ágil a sua mente, que sempre fazia das questões mais difíceis e complicadas o assunto mais simples, por sua destra maneira de tratá-lo. Os monarcas gostam de ter à mão homens desta qualidade. Além disso, graças à diplomacia de Tomás de Londres, conseguiu-se que o Papa, Beato Eugênio III, deixasse de apoiar a sucessão ao trono de Eustácio, o filho de Estevão, e desta maneira, a coroa ficou firme na cabeça de Henrique de Anjou. Em consequência, por volta de 1155, encontramos Santo Tomás Becket, à idade de trinta e seis anos, nomeado chanceler do rei Henrique II.


“Tomás”, escreveu o seu secretário, Herbert de Bosham, “deixou de lado a sua dignidade de arqui-diácono e fez-se cargo de seus deveres de chanceler, que desempenhou com entusiasmo e habilidade”. Por certo que o seu talento teve um amplo campo de ação, posto que o cargo de chanceler só igualava em importância ao antigo funcionário político e judicial chamado “Justice.” Assim como outro chanceler e mártir posterior, também chamado Tomás, foi amigo pessoal e fiel servidor de seu soberano Henrique VIII, Becket era amigo de Henrique II e em maior grau de intimidade. Comentou-se que o monarca e o seu chanceler não tinham mais que um só coração e uma só cabeça; se acaso era assim, é indubitável que a influência de Becket teve muito a ver naquelas reformas pelas quais tanto se elogia a Henrique II, como por exemplo, as medidas para administrar melhor a justiça e a igualdade de trato, por meio de um sistema de leis mais uniforme. Mas a sua amizade não se limitava ao comum interesse nos assuntos de Estado e, nos momentos de descanso e de folga, as suas relações pessoais eram de um “companheirismo brincalhão”, como as descrevem alguns escritores.


Retrato de Becket num vitral da Catedral de Cantuária
Retrato de Becket num vitral da Catedral de Cantuária

Uma das mais destacadas virtudes de Tomás como chanceler, foi inquestionavelmente a magnificência, embora seja necessário dizer que caiu em alguns excessos. A sua residência e a sua servidão podiam comparar-se com as de um rei. Quando foi enviado à França para negociar um casamento real, o seu séquito pessoal estava formado por duzentos homens e ainda havia vários centenas mais, entre cavaleiros e nobres, clérigos e criados, músicos e trovadores, que escoltavam a caravana de oito carros carregados de presentes, cavalos, falcões e cães de caça, macacos e mastins.[c] Os franceses ficaram de boca aberta ao ver tanto esplendor e comentaram entre si: “Se este é o chanceler do Estado, como será a magnificência do rei!” A forma em que tratava os seus convidados e recebia os seus hóspedes, estava à altura correspondente e a sua generosidade para com os pobres estava em proporção com tudo o mais.


No ano de 1159, o rei Henrique formou na França um exército de mercenários, com o propósito de recuperar o condado de Toulouse, que pertencia, por herança, à sua esposa. Nas contendas que resultaram, tomou parte Becket com um exército de setecentos de seus cavaleiros e não só deu mostras de ser um bom general, mas também um valente lutador. Coberto com a sua armadura, encabeçou os ataques e, não obstante a sua condição de clérigo, participou em encontros com o inimigo, corpo a corpo. Portanto, não é surpreendente que o prior de Leicester, ao encontrar-se com ele em Rouen, exclamasse cheio de assombro: “O que fazeis vestido dessa maneira? Pareceis mais um guerreiro que um clérigo! No entanto, sois um clérigo na vossa pessoa e muito mais o sois nas vossas dignidades: arqui-diácono de Canterbury, decano de Hastings, preboste de Beverley, cônego desta e daquela igreja, procurador do arcebispado e, segundo correm os rumores, com muitas possibilidades de chegar a arcebispo”. Becket recebeu os reproches com toda a serenidade e respeito, mas respondeu que ele conhecia três pobres sacerdotes ingleses a quem veria complacido como arcebispos antes de ver-se ele elevado a tão alta dignidade, porque nesse caso, teria que escolher, inevitavelmente, entre o favor do rei e o favor de Deus.


Não obstante que a participação contínua nos assuntos públicos, a magnificência espetacular e a atividade secular eram os aspectos predominantes na vida de Becket como chanceler, não eram os únicos. Durante toda a sua vida foi orgulhoso, irascível e violento, mas também sabemos dos seus “retiros” em Merton, das disciplinas a que se submetia e das suas preces nas longas noites de vigília. Igualmente, conhecemos o testemunho do seu confessor sobre a intocável vida privada do chanceler sob condições de extremo perigo e grandes tentações de toda espécie. E, se às vezes ia demasiado longe ao colaborar nos planos e projetos do seu real senhor, que às vezes infringiam os direitos da Igreja, não teve reparos em marcar-lhe o alto em outros assuntos piores, como o caso do casamento da abadessa de Romsey.


Teobaldo, o arcebispo de Canterbury, morreu no ano de 1161. Naqueles momentos, o rei Henrique encontrava-se na Normandia com o seu chanceler, a quem já tinha pensado entregar o arcebispado. Assim que lhe fez a proposta, Becket respondeu com firmeza: “Se Deus permitir que eu ascenda à dignidade de arcebispo de Canterbury, não passará muito tempo sem que perca os favores de Vossa Majestade, e todo o afeto com que vós me honrais se transformará em ódio. Posto que Vossa Majestade projetará fazer certas coisas que vão em prejuízo dos direitos da Igreja, muito me temo que Vossa Majestade requeira de mim uma ajuda ou uma aprovação que não poderei dar. Não faltarão pessoas invejosas que aproveitem essas ocasiões para alentarem uma amarga e interminável desavença entre vós e mim”.


O rei fez caso omisso dos escrúpulos de Tomás, e este negou-se a aceitar a dignidade obstinadamente, até que o cardeal Henrique de Pisa acalmou os seus receios. A eleição levou-se a cabo em maio de 1162. O príncipe Henrique, que se encontrava em Londres, deu a sua aprovação em nome de seu pai, e Becket partiu imediatamente de Londres para Canterbury. No caminho distribuiu alguns cargos privados entre diversos membros do seu clero e a todos lhes recomendou encarecidamente que o observassem e o advertissem da menor falta em sua conduta, “porque nessas questões, quatro olhos alheios veem melhor e mais claramente que os dois próprios”. O sábado da semana de Pentecostes, foi ordenado sacerdote por Walter, o bispo de Rochester, e na oitava de Pentecostes, recebeu a consagração das mãos de Henrique de Blois, bispo de Winchester.[d]


Iluminura do século XIII do assassinato de Tomás Becket
Iluminura do século XIII do assassinato de Tomás Becket

Pouco tempo depois, recebeu o palio que lhe enviava o Papa Alexandre III, e para fins daquele ano, produziu-se uma mudança notabilíssima na sua maneira de viver. Sobre as suas carnes levava uma camisa de cerdas, e a sua vestimenta ordinária era uma casaca negra, uma sobrepeliz de linho e a estola sacerdotal ao pescoço. De acordo com a regra de vida que estabeleceu para si, levantava-se muito de manhã para ler as Sagradas Escrituras, sempre em companhia de Herbert de Bosham, a fim de discutir ou aclarar com ele alguns dos passagens. Às nove da manhã, cantava a Missa ou bem assistia a ela quando não era ele quem a celebrava. Uma hora mais tarde, e a diário, distribuía pessoalmente as esmolas, as quais elevou ao dobro do que davam os seus antecessores. Dormia ou descansava um pouco depois do meio-dia e, às três da tarde, comia com os seus convidados e familiares no grande salão. Em vez de música, durante a comida lia-se um livro piedoso. Sempre se serviram na sua mesa os alimentos mais escolhidos e os manjares suculentos, mas isso era para os hóspedes e convidados, porque o arcebispo conservava invariavelmente uma templança e uma moderação notáveis. Quase todos os dias visitava a enfermaria e o vizinho claustro dos monges. Entre os seus próprios familiares e servidores, estabeleceu certa regularidade monástica. Tomava especial cuidado na seleção de candidatos às sagradas ordens, examinava-os pessoalmente e, de acordo com a sua capacidade judicial, exercia a justiça rigorosamente. “Nem sequer as cartas e as solicitações do rei tinham poder algum para incliná-lo em favor de um homem que não tivesse o direito justo da sua parte”, dizem os seus biógrafos.


Não obstante que o arcebispo havia renunciado à sua chancelaria, contra os desejos do rei, as relações entre ambos conservavam-se tão amistosas como antes. Apesar de certas diferenças, o rei Henrique manifestava-lhe ainda os seus favores, dava-lhe grandes mostras de afeto e parecia conservar ainda o carinho que lhe havia professado desde um princípio. O primeiro descontentamento sério produziu-se em Woodstock onde residia temporariamente o monarca com a sua corte. Era costume pagar dois xelins anuais aos alcaides dos condados, por cada uma das parcelas de terra arrendadas ou de propriedade dos colonos, a fim de que os alcaides protegessem a estes contra a rapacidade dos cobradores de impostos (parece que nestes cobros se faziam os chanchullos da pior espécie). Naquela ocasião, o rei ordenou que as somas lhe fossem pagas ao seu tesoureiro. O arcebispo fez-lhe ver que se tratava de um pagamento voluntário que não podia ser cobrado, nem muito menos exigido como um haver da coroa. “Se os alcaides, os seus sargentos e oficiais”, replicou Becket, “cumprem com defender e proteger o povo, pagaremos; de outra maneira, nada se pagará”.


A isso respondeu o rei com um juramento profano: “Por Deus, que sim pagareis!”, exclamou altivo e com tom airado. “Com todo o respeito que se deve a esse santo nome, meu rei e senhor”, disse Becket, “devo adverti-vos que não se pagará nem um penny nas terras sob a minha jurisdição”. O monarca não disse nada mais naquele momento, mas já estava ressentido. Depois produziu-se o caso de Felipe de Brois, um cônego que foi acusado de assassinato. Segundo as leis daqueles tempos, o cônego foi julgado por um tribunal eclesiástico, e o bispo de Lincoln declarou-o inocente. Mas um dos juízes que o rei enviou como observadores, Simão Fitzpeter, citou o acusado ante o seu próprio tribunal civil. O cônego Felipe negou-se a aceitar aquele processo e dirigiu-se a Fitzpeter com altivez e em termos insultantes. Então, o rei ordenou que o réu fosse julgado pelo delito original e por desacato à autoridade. Mas interveio Tomás Becket para exigir que o processo se seguisse no seu próprio tribunal, ao que o monarca teve que aceder contra toda a sua vontade. A sentença prévia foi aceita como válida, mas, por causa do desacato ao juiz Fitzpeter, condenou-se a ser açoitado e à suspensão temporal dos seus benefícios. Ao rei Henrique pareceu demasiado benigna aquela sentença e convocou os assessores para demandar-lhes: “Jurár-me-eis em nome de Deus que não salvastes o acusado por ser um membro do clero?” Todos se manifestaram prontos a jurar, mas Henrique não ficou satisfeito e o seu ressentimento aumentou.


Acumularam-se incidentes e conflitos semelhantes, até que, no mês de outubro de 1163, o rei convocou os bispos a um concílio em Westminster, para exigir-lhes que se fizesse entrega aos poderes civis dos clérigos delinquentes e criminosos a fim de aplicar-lhes o merecido castigo. Os bispos mostraram-se um tanto vacilantes e atemorizados, mas Tomás alentou-os a manter-se firmes. Então o rei pediu-lhes uma solene promessa de se aterem aos seus costumes reais, os quais não especificou. Santo Tomás e os outros membros do concílio acederam, mas com a condição de que, “se os costumes do rei afetassem a Igreja”, não poderiam tolerá-los. Segundo os objetivos do monarca, aquela condição equivalia a uma rotunda negativa e, em consequência, no dia seguinte despojou Tomás de alguns títulos, benefícios e castelos que o arcebispo conservava desde os seus tempos de chanceler. No curso de uma tempestuosa entrevista realizada em Northampton, o rei tratou em vão de obrigar o seu antigo amigo a modificar a sua atitude, e o conflito estalou por fim no conselho de Clarendon, perto de Salisbury, a princípios de 1164. Como Tomás não havia recebido mais que um apoio muito débil por parte do Papa Alexandre III, ao começo das sessões mostrou-se conciliatório e até prometeu fazer “tudo o possível por aceitar as 'costumes' do rei”, mas em quanto leu as constituições nas quais se expunham detalhadamente essas costumes reais que ele devia aprovar, exclamou: “Não permita Deus que eu ponha o meu selo nisto!”. As Constituições exigiam, inter alia, que nenhum prelado pudesse abandonar o território do reino sem a permissão do monarca, nem apelar a Roma sem o seu consentimento; que nenhum funcionário detentor de alto cargo civil ou cortesão pudesse ser excomungado contra a vontade do rei (tal exigência vinha sendo reclamada desde os tempos de Guilherme I, mas jamais fora concedida, por constituir evidente infração à jurisdição espiritual da Igreja); que os benefícios das sedes ou de outros cargos eclesiásticos vacantes, bem como as rendas que produzissem, ficassem sob a custódia do rei (abuso já reconhecido durante o reinado de Henrique I); e — o que veio a ser a cláusula mais crítica — que os clérigos condenados nos tribunais eclesiásticos fossem entregues aos oficiais do rei, com a possibilidade de sofrerem dupla punição.


O Martírio de São Tomás Becket, por Jean Baptiste. Restaurado com IA.
O Martírio de São Tomás Becket, por Jean Baptiste. Restaurado com IA.

O arcebispo estava já profundamente arrependido de se haver mostrado débil, ao princípio, na sua oposição às pretensões do rei e mostrava-se muito disposto a pôr um exemplo que os outros bispos haveriam de seguir sem vacilações. “Sou um homem orgulhoso e vão!”, exclamou então, cheio de amargura. “Não sou nada mais que um criador de aves de presa e cães de caça. E é a mim a quem têm feito pastor de um rebanho! Não mereço outra coisa senão que me expulsem da sede que ocupo”. Desde aquele momento e durante mais de quarenta dias, em tanto que aguardava a absolvição e a autorização do Papa, não voltou a celebrar a Missa. Fez repetidos intentos de aplanar as coisas e chegar à concórdia, mas já o rei Henrique considerava-o como seu inimigo e havia-lhe submetido a uma perseguição sistemática que culminou com uma denúncia judicial contra Tomás para que pagasse 30.000 marcos que supostamente lhe devia dos tempos em que foi chanceler do reino (não obstante que, ao ser consagrado arcebispo, obteve um documento de quitação, perfeitamente claro e preciso).


O rei Henrique negou-se a recebê-lo quando foi solicitar-lhe audiência em Woodstock, e em duas ocasiões impediu-se-lhe cruzar o canal para trasladar-se ao continente a fim de apresentar o seu caso ante o Pontífice. Depois, o rei Henrique convocou a um novo concílio em Northampton. Daquela reunião resultou um ataque concreto e direto contra o arcebispo, no qual os prelados se dobraram aos desejos dos senhores. Em primeiro lugar, foi condenado a pagar uma elevada multa por não se ter apresentado diante do tribunal do rei logo após receber a citação para comparecer num processo movido contra ele; em segundo lugar, levantaram-se várias acusações de mau uso do dinheiro do reino e, por fim, exigiu-se que apresentasse determinadas contas da chancelaria. Henrique, bispo de Winchester, advogou pela quitação do chanceler, mas não lhe foi permitido tomar a sua defesa. Então, Tomás ofereceu-se a fazer um pagamento ex gratia de 2.000 marcos, provenientes do seu próprio pecúlio. Na terça-feira 13 de outubro de 1164, Santo Tomás celebrou a Missa votiva de Santo Estevão Protomártir e, ao termo da mesma, sem mitra nem palio, com a cruz do arcebispo metropolitano na mão, dirigiu-se à sala do concílio. O rei e os barões deliberavam em uma habitação aparte. Após uma longa espera, o conde de Leicester saiu para falar com o arcebispo. “O rei manda que lhe entregueis as contas”, disse-lhe. “Em caso contrário, sereis submetido a um juízo”. “Um juízo?”, perguntou, surpreso, Santo Tomás. “A igreja de Canterbury foi-me entregue livre de toda obrigação temporal. Por isso, em o que se refere a obrigações temporais, não tenho nada de que responder nem posso ser submetido a processo”. Após uma fria reverência, o conde de Leicester deu meia-volta para informar o rei da contestação, mas Becket deteve-o.— Senhor conde e filho meu, escutai — disse, estendendo-lhe a mão —: estais obrigado a obedecer a Deus e a mim antes que ao vosso rei terreno. Não há lei nem razão que permita aos filhos julgarem os seus pais nem condená-los. Por isso rejeito o juízo do rei, o vosso e o de todos. Somente pelo Papa posso ser julgado, depois de Deus e diante d’Ele. Já então, os barões haviam saído da habitação privada e escutavam Becket na sala do concílio. Este dirigiu-se diretamente aos prelados:— A vós, bispos, companheiros meus, que servistes ao homem antes que a Deus, a vós convoco perante o Pontífice. Desta maneira, protegido pela autoridade da Igreja Católica e da Santa Sé, saio daqui. Um vocerío, no qual se destacava a palavra “Traidor! Traidor!”, seguiu o arcebispo, que abandonou a sala pausadamente. Naquela mesma noite, Tomás Becket fugiu pelo porto de Northampton[e], sob uma chuva torrencial, e, três semanas mais tarde, em absoluto segredo, embarcou numa nave em Sandwich.


Santo Tomás e os poucos fiéis que lhe seguiram, desembarcaram na Flandres e refugiaram-se na abadia de Saint Omer, governada por São Bertino. Desde aí, o arcebispo enviou delegados a Luís VII, rei da França, quem os recebeu amavelmente e formulou a convite para que Tomás Becket se amparasse nos seus domínios.


Naqueles momentos, o Papa Alexandre III encontrava-se na cidade de Sens. Antes de que Santo Tomás pudesse chegar ali, os bispos e cavaleiros do bando do rei Henrique adiantaram-se-lhe para formular gravíssimas acusações contra o arcebispo ante o Pontífice,[f] mas já haviam partido quando chegou o acusado. Tomás mostrou ao Papa as dezesseis Constituições de Clarendon, muitas das quais foram qualificadas de “intoleráveis” pelo Pontífice, quem inclusive reconveio ao arcebispo por haver pensado em aceitá-las. No dia seguinte, na segunda entrevista, confessou Becket haver recebido a sede de Canterbury, embora contra a sua vontade, mas sim por meio de uma eleição que possivelmente se levou a cabo fora dos cânones e na qual ele não havia participado de nenhuma maneira. Depois desta admissão, renunciou à sua dignidade nas mãos do Sumo Pontífice, entregou-lhe o anel que tirou do seu dedo e retirou-se. Em seguida, chamou-o de novo o Papa e devolveu-lhe todas as suas dignidades e mandou-lhe que não abandonasse o seu posto, já que isso equivaleria, evidentemente, a abandonar a causa de Deus. O Papa recomendou ao exilado arcebispo ao abade do Pontigny para que o hospedasse e protegesse.


Martírio de São Tomás de Cantuária. Desenho em aquarela.
Martírio de São Tomás de Cantuária. Desenho em aquarela.

Santo Tomás ingressou naquele mosteiro da Ordem de Cister como quem entra num retiro religioso, um lugar de penitência para a expiação dos seus pecados; submeteu-se às regras do convento e não permitiu que se fizesse qualquer distinção em seu favor. Dedicou o tempo ao estudo e à escrita de cartas, tanto aos seus partidários como aos seus adversários, embora de nada servissem para alcançar um acordo pacífico. Enquanto isso, o rei Henrique confiscava os bens de todos os amigos, parentes e servidores de Tomás, ditava ordens de desterro contra eles e a muitos obrigava a viajar até Pontigny para que se apresentassem, miseráveis e despojados como estavam, diante do arcebispo, a fim de lhe mostrar que, por culpa sua, haviam caído em tão grande desgraça. Grande número de exilados começou a chegar a Pontigny para comover Becket. Quando se reuniu o capítulo geral da Ordem de Cister, em Cîteaux, recebeu-se uma intimidação do rei da Inglaterra no sentido de que, se os monges persistissem em asilar o seu inimigo, procederia a confiscar as casas da Ordem em todos os seus domínios. Não restava ao abade de Cister outra alternativa senão insinuar a Santo Tomás a necessidade de abandonar o seu refúgio em Pontigny. Assim o fez o santo prontamente e foi refugiar-se na abadia de São Columbano, perto de Sens, como hóspede do rei Luís da França. Ao longo de quase seis anos, houve negociações entre o Papa, o arcebispo e o monarca inglês. Santo Tomás foi nomeado legado a latere para toda a Inglaterra, com exceção de York, e, desde esse alto cargo, excomungou muitos dos seus adversários, mostrou-se por vezes ameaçador e por vezes conciliador; contudo, o Papa Alexandre julgou conveniente anular algumas das suas sentenças. O rei Luís da França viu-se assim arrastado à contenda. Em janeiro de 1169, os monarcas francês e inglês mantiveram uma conferência com o arcebispo em Montmirail, onde Tomás resistiu a ceder em dois dos pontos que lhe foram propostos. Uma conferência semelhante, realizada em Montmartre durante o outono, fracassou também, por causa da intransigência de Henrique. Becket redigiu então uma série de cartas aos bispos, ordenando-lhes a publicação de uma sentença de interdito sobre o reino da Inglaterra. Contudo, sem que ninguém o esperasse, em julho de 1170, o rei e o arcebispo reuniram-se novamente na Normandia e, por fim, chegou-se a uma reconciliação, sem que, ao que parece, se fizesse referência explícita aos assuntos em disputa.


No dia 1.º de dezembro, Santo Tomás desembarcou em Sandwich e, não obstante o alcaide de Kent ter tentado detê-lo, o curto trajeto dali até Canterbury foi uma marcha triunfal. As gentes alinhadas ao longo do caminho aclamavam-no, e os sinos de todas as igrejas repicaram. No entanto, aquela não era a paz.[g] Os que detinham o poder estavam de bom grado, pois tinham a presa à sua mercê, e Tomás viu-se obrigado a enfrentar a desagradável tarefa de tratar com Roger du Pont-l’Évêque, arcebispo de York, e com os outros bispos que haviam colaborado com ele no ato de coroação do filho do rei Henrique, em aberto desafio aos direitos de Canterbury e, talvez, contra as instruções do Papa. Já havia Santo Tomás enviado cartas de suspensão ao arcebispo Roger e a outros, bem como a excomunhão dos bispos de Londres e de Salisbury. Os três prelados partiram juntos para a França, onde se encontrava o rei Henrique, a fim de apelar à sua justiça. Enquanto isso, Tomás Becket permanecia em Kent, sujeito à constante perseguição e aos insultos do senhor Ranulfo de Broc, a quem o arcebispo havia exigido — inoportunamente, dadas as circunstâncias — a devolução do castelo de Saltwood, edifício pertencente à sua sé. Após passar uma semana em Canterbury, o arcebispo fez uma visita a Londres, onde foi recebido com regozijo por todos, exceto pelo filho de Henrique, “o jovem rei”, que se recusou a vê-lo. Depois de saudar vários de seus amigos, o arcebispo regressou a Canterbury, onde celebrou o seu quinquagésimo segundo aniversário.


Ao mesmo tempo, os três bispos sancionados pelo arcebispo de Canterbury haviam apresentado as suas queixas ao rei. A conferência teve lugar em Bures, perto de Bayeux, e, no decurso da mesma, alguém declarou em voz alta que não poderia haver paz no reino enquanto Becket estivesse vivo. Foi então que o rei Henrique, em um de seus acessos de furor, pronunciou as palavras fatais que alguns de seus ouvintes interpretaram como uma ordem, pela qual autorizava a eliminar aquele “clérigo infernal” que lhe tornava a vida impossível. Imediatamente, quatro cavaleiros empreenderam viagem para a Inglaterra e desembarcaram nas costas de Saltwood. Seus nomes eram: Reginaldo FitzUrse, Guilherme de Tracy, Hugo de Morville e Ricardo le Breton.


O Martírio de São Tomás Becket
O Martírio de São Tomás Becket

No dia de São João, o arcebispo recebeu uma carta na qual se lhe advertia do perigo a que estava exposto. Em toda a região sudeste de Kent, a população estava em expectativa e vivia num estado de constante tensão. Na tarde de 29 de dezembro,[h] os cavaleiros vindos da França entrevistaram-se com ele. Durante a conferência, fizeram ao arcebispo várias exigências, entre elas a de que levantasse as censuras impostas aos três bispos que haviam pedido clemência ao rei. A entrevista começou serenamente e terminou numa tempestade de vozes, gritos e ameaças. Ao partir, os cavaleiros proferiam juramentos e maldições. Mal haviam transcorrido alguns minutos, quando se ouviu do lado de fora uma gritaria descomunal, golpes nas portas e o choque das armas. No interior, os familiares e servidores de Santo Tomás rodearam-no e conduziram-no pausadamente em direção à igreja. Um dos servidores levava a cruz diante dele. Na catedral começavam a cantar-se as vésperas, e um grupo de monges aterrorizados aproximou-se da porta do cruzeiro norte, por onde entrou o arcebispo. — Retirai-vos para o coro! — ordenou-lhes Becket. — Enquanto permanecerdes aglomerados diante da porta, não poderei entrar. Os monges afastaram-se, sem contudo se retirarem, e, quando o arcebispo avançava serenamente entre eles para o interior da igreja, puderam ver as sombras de homens armados na penumbra do claustro (já quase era noite). Logo que o arcebispo entrou, os monges fecharam e trancaram a porta com tal precipitação que deixaram alguns de seus irmãos do lado de fora. Estes começaram a bater violentamente na madeira. Becket deteve-se e voltou-se: — Afastai-vos, covardes! — exclamou. — Uma igreja não é uma fortaleza. E ele mesmo retirou as trancas da porta e abriu-a. Depois prosseguiu o seu caminho e subiu a escada em direção ao coro. Apenas três homens o acompanhavam: Roberto, prior de Merton, Guilherme FitzStephen e Eduardo Grim.[i] Os demais haviam-se refugiado na cripta ou em algum recanto afastado da catedral. Uma vez no coro, apenas Grim permaneceu com ele. Os cavaleiros, aos quais se havia juntado um subdiácono chamado Hugo de Horsea, entraram por sua vez de maneira tumultuada e aos gritos: — Onde está Tomás, o traidor?— Onde está o arcebispo? Becket respondeu: — Aqui me tendes. Aqui tendes não um traidor, mas o arcebispo e sacerdote de Deus. Dito isto, desceu os degraus para ir ao encontro dos seus atacantes, até deter-se de pé entre os altares de Nossa Senhora e de São Bento.


Os cavaleiros intimaram-no a que absolvesse os três bispos. “Não posso desfazer o que já está feito”, respondeu serenamente; mas, um instante depois, levantou a voz e ergueu a mão. “Reinaldo!”, gritou. “Recebeste de mim muitos favores; por que vens armado à minha igreja?” Como única resposta, Reinaldo Fitzurse levantou o machado. “Estou pronto para morrer”, disse Santo Tomás. “Mas a maldição de Deus cairá sobre ti se fizeres mal à minha gente.” Fitzurse agarrou-o pela capa e tentou arrastá-lo para a porta. Becket desvencilhou-se com um empurrão violento. Então, todos se lançaram sobre ele para levá-lo à força até a porta. Seguiu-se a luta, e o arcebispo derrubou um dos atacantes. Nesse momento, Fitzurse atirou o machado ao chão com violência e desembainhou a espada. Rufião!”, gritou-lhe o arcebispo. “Tu me deves respeito e submissão.” “Não devo submissão a ninguém senão ao rei!”, vociferou Fitzurse, e logo deu a ordem: “Golpeai!” Sua espada cortou o ar e fez voar o gorro do arcebispo. Santo Tomás cobriu o rosto com as mãos e invocou a Deus e aos seus santos. Tracy desferiu um golpe, mas Grim o deteve com o próprio braço. Ainda assim, a espada de Tracy abriu uma ferida na cabeça de Becket, e o sangue começou a escorrer-lhe pelos olhos. Ele levou as mãos ao rosto e, ao vê-las manchadas de sangue, exclamou: “Senhor, em tuas mãos entrego o meu espírito!” Outro golpe, desferido por Tracy, fê-lo cair de joelhos, enquanto murmurava:


“Em nome de Jesus e em defesa da Igreja, estou pronto para morrer.”

Em 29 de dezembro de 1170, quatro cavaleiros de Henrique II assassinaram Tomás Becket em sua própria catedral. A pintura é do Mestre Francke.
Hamburgo, Kunsthalle, Mestre Francke, altar de Tomás, o martírio de São Tomás de Canierbury, 1426

Então caiu com o rosto em terra. Le Breton ergueu bem alto a espada, como se fosse decapitá-lo, e o terrível golpe que desferiu cortou de um só golpe a parte superior do crânio do arcebispo. A força foi tamanha que a espada de Le Breton se partiu em pedaços. Hugo de Horsea introduziu a ponta da espada no crânio dilacerado do bispo, retirou-lhe o cérebro e espalhou-o pelas lajes. Somente Hugo de Morville se absteve de desferir qualquer golpe contra o arcebispo. Os assassinos retiraram-se apressadamente, gritando: “Os homens do rei! Os homens do rei!”, e fugiram pelos claustros por onde haviam entrado apenas dez minutos antes. Nesse mesmo instante, as grandes naves da catedral enchiam-se de gente, enquanto no céu rebentava uma violenta tempestade. O cadáver do arcebispo jazia de bruços, sobre uma poça de sangue, no centro do transepto, e por longo tempo ninguém ousou tocá-lo ou sequer aproximar-se dele.


Ainda depois de tomar completamente em conta o horror universal que pôde haver causado no século doze, o sacrilégio de assassinar a um arcebispo metropolitano na sua própria catedral, devemos considerar a indignação e o repúdio que, em um instante, se estendeu por toda Europa, assim como o movimento espontâneo do povo em geral para lograr a canonização de Tomás Becket, para chegar a compreender o significado intrínseco que teve a sua trágica e heroica morte em todos os círculos sociais. O martírio do arcebispo fez entender a todos que se havia cumprido uma reivindicação necessária dos direitos da Igreja contra um estado agressor e que o arcebispo de Canterbury, que em muitos aspectos era de uma personalidade pouco atraente,[i] havia sido um mártir digno de ser venerado como um santo. O descobrimento da camisa de cerdas no seu cadáver e outras provas de que praticava a austeridade e a penitência na sua vida privada, assim como os milagres que começaram a obrar-se na sua tumba desde um princípio, segundo numerosos testemunhos, atizaram o fogo da sua devoção. Não se pode dizer positivamente até que grau foi deliberado e diretamente responsável do crime o rei Henrique II, mas de todas as maneiras, a consciência pública não havia de ficar satisfeita até que o soberano mais poderoso de Europa fez uma penitência pública na forma mais humilhante. Assim o fez o rei Henrique no mês de julho do ano 1174.[j]


Haviam transcorrido apenas dezoito meses desde que o Papa Alexandre III proclamara em Segni a canonização do mártir Tomás Becket, quando o rei Henrique fez, aí mesmo, a sua grande penitência pública.[k] O 7 de julho de 1220, o corpo de Santo Tomás foi solenemente trasladado desde a sua tumba na cripta de Canterbury, à parte posterior do altar maior, por iniciativa do arcebispo, cardeal Estevão Langton, e em presença do rei Henrique III. O cardenal Pandolfo, legado pontifício, o arcebispo de Reims e muitas outras personalidades, assistiram também à trasladação. Desde aquele dia, até setembro de 1538, o santuário da tumba de Santo Tomás foi um dos sítios de peregrinação mais favorecidos pelos cristãos e muito famoso pela sua beleza e a sua riqueza material e espiritual. Não se têm dados concretos sobre a forma e a data em que se procedeu à destruição e saqueo daquele santuário durante o reinado de Henrique VIII. Inclusive, o destino das relíquias do santo é incerto. Quase seguramente foram destruídas por aquela época em que a memória do santo arcebispo era particularmente execrada, sobre tudo pelo rei Henrique VIII. No entanto, deve fazer-se notar que o registro das crônicas onde se diz que “o rei fez uma espécie de auto de fé no qual os restos corporais de Tomás, o que fora alguma vez arcebispo de Canterbury e culpado de traição, queimaram-se publicamente”, é apócrifo. A festividade de Santo Tomás de Canterbury celebra-se em toda a Igreja de ocidente e na Inglaterra venera-se-o como patrono do clero secular. A cidade de Portsmouth tem também o privilégio de comemorar o aniversário da trasladação das suas relíquias.


É possível que não exista nenhum outro santo medieval sobre quem tenham escrito tantas biografias os seus contemporâneos, como Santo Tomás de Canterbury. A lista das que foram escritas em latim, encontra-se em BHL., nn. 8170-8248 e, todas essas biografias, junto com a coleção de escritos sobre os seus milagres, foram impressas nos sete volumes de Materials for the History of Thomas Becket, editados pela Rolls Series. Destes volumes têm-se feito outras edições, sobre tudo uma, na Islândia, que parece haver utilizado para os seus agregados, materiais que já não existem. Esta edição foi traduzida e reproduzida por E. Magnusson para a Rolls Series, com o título de Thomas Saga Erkibyskupus. Conhecem-se aos autores de algumas destas biografias, como por exemplo a de Guilherme FitzStephen e a de João de Salisbury, mas há muitas outras nas quais a identificação do escritor não foi fácil. As discussões sobre este problema não estariam aqui no seu lugar. Os críticos que se têm dedicado a essa tarefa, como Louis Halphen (na Revue Historique, vol. cu, 1909, pp. 35-45) e E. Walberg (La Tradition Historique de St. Thomas Becket, avant la fin de XII siècle, 1929), não estão de acordo entre si. Para este caso, consulte-se a Analecta Bollandiana, vol. xL (1922), pp. 432-436 e o vol. xr, pp. 454-456, The Life of St. Thomas Becket de John Morris (1885) conserva ainda o seu valor e, a que escreveu L'Huillier, Saint Thomas de Canterbury (2 vols. 1891), também é muito completa e digna de confiança. O estudo breve de M. Demimuid na série Les Saints, não é de todo satisfatório, em troca, o de Robert Speaight (1938), pode-se recomendar. Para a história do conflito entre Santo Tomás e o rei Henrique, veja-se The Episcopal Colleagues of Becket (1951), de D. Knowles e outra obra do mesmo autor, Archishop Thomas Becket (1949). Ver também a R. Foreville em L'Église et la Royauté en Angleterre sous Henri 11 (1943). Igualmente podem recomendar-se alguns escritos de autores anglicanos (vendo pelo lado histórico e não de doutrina), como por exemplo, o ensaio do professor Tout, The Place of St. Thomas of Canterbury in History (1921), em uma excelente publicação da Ryland Library, de Manchester. O mesmo pode dizer-se das páginas do livro de Z.N. Brooke, The English Church and the Papacy (1921), que se referem ao assassinato de Becket, assim como as exposições do mesmo assunto em Thomas Becket (1926) de W. H. Hutton e o artigo da senhorita Norgate em DNB, Por outra parte, The Development of the Legend of Thomas Becket (1930), de P.A. Brown e St. Thomas, his Death and Miracles (1898) de E.A, Abbott, são obras notavelmente racionalistas. A suposição que apoia o cânone A. J. Mason (no seu livro What became of the bones of St. Thomas?, 1920), no sentido de que um esqueleto hallado na cripta da catedral de Canterbury em 1888, pertencia ao mártir, foi profundamente estudada pelos sacerdotes Morris e Pollen (ver The Month de março de 1888, de janeiro de. 1908 e de maio de 1920) e, a conclusão negativa à qual chegaram esses investigadores, foi apoiada por uma autoridade tão reconhecida como a dos investigadores anglicanos, deão Hutton e o professor Tout. Um dos traços mais surpreendentes sobre este santo mártir, é a rapidez com que o seu culto se estendeu por todas as partes do mundo. Apenas transcorridos dez anos desde a sua morte, plasmaram-se imagens de Santo Tomás nos mosaicos da catedral de Monreale na Sicília e, apenas havia transcorrido um século, quando o seu nome ficou inscrito em um sinaxário armênio. Respecto às representações pictóricas de Santo Tomás, veja-se particularmente a monografia de Tancredo Borenio, Santo Tomaso Bechet e Parte (1932).1




São Trófimo de Arles, por Jean Baptiste Marie Fouque
São Trófimo de Arles, por Jean Baptiste Marie Fouque

Entre os que acompanharam São Paulo em sua terceira viagem, encontrava-se um gentio de Éfeso chamado Trófimo, o mesmo que, posteriormente, foi o motivo de que se desencadeasse a hostilidade contra o Apóstolo dos Gentios quando se apresentou com ele em Jerusalém. A Trófimo se referiam aqueles gritos dos judeus: “Introduziu gentios no templo; profanou este lugar santo! E tudo porque haviam visto Trófimo, o de Éfeso, na cidade com Paulo, e supuseram que o Apóstolo o havia levado ao templo”. Seu nome é mencionado novamente na segunda Epístola a Timóteo, onde se diz que Trófimo ficou doente em Malta.


Quando o Papa São Zósimo escreveu aos bispos das Gálias em 417, fez referência ao fato de que a Sé Apostólica havia enviado Trófimo às Gálias e que suas pregações em Arles formaram a fonte de onde as águas da fé se estenderam por toda a região. Cento e cinquenta anos mais tarde, São Gregório de Tours escreveu que São Trófimo de Arles, primeiro bispo daquela diocese, foi um dos seis prelados que chegaram de Roma com São Dionísio de Paris em meados do século terceiro. Nada mais se sabe sobre Trófimo de Arles. Em consequência da declaração do Papa Zósimo, ele foi identificado com o Trófimo de Éfeso que acompanhou São Paulo.


Naturalmente, não existe nenhuma biografia sobre São Trófimo e, no entanto, tendo em vista que a catedral de Arles lhe é dedicada e, se se levam em conta as palavras do Papa Zósimo e outras referências, é necessário considerá-lo um personagem histórico. A afirmação de que ele foi identificado com o Trófimo mencionado por São Paulo (em 2 Tim. 4, 20) é uma das invenções características do martirológio de Ado. Veja-se o Martyrologes Historiques de Quentin, pp. 303 e 603, bem como os Fastes Episcopaux de Duchesne, vol. I, pp. 253-254, e o DCB, vol. IV, p. 1055.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 634-646.

2. Ibid. p. 646.



Notas:


a. Sem dúvida que os pais de Tomás foram dignos exemplares dessas gentes em prol das quais fala o próprio FitzStephen: Os cidadãos de Londres destacam-se sobre os demais pelas suas boas maneiras e educação, na mesa e na conversa. As matronas são verdadeiras Sabinas”.


b. Diz-se que esse moinho estava situado no lugar denominado Wade's Mill, no Hertfordshire, no terreno compreendido entre Ware e o Colégio de Saint Edmund, um sítio melhor conhecido pela sua relação com outro Tomás, Tomás Clarkson, o abolicionista da escravatura.


c. Diz FitzStephen que dois dos carros iam carregados com tonéis de ferro que continham cerveja destinada aos franceses, “que gostam dessa classe de bebida, porque é forte, clara, transparente e de muito bom sabor”.


d. Santo Tomás decretou que o aniversário da sua consagração se observasse em toda a sua província com uma festa em honra da Santíssima Trindade, cento cinquenta anos antes de que essa comemoração se adotasse na Igreja de ocidente.


e. Santo Tomás de Canterbury é o patrono principal da atual diocese e da catedral de Northampton.


f. Entre os clérigos, o seu principal inimigo era Gilbert Foliot, bispo de Londres. Este começou a sua arenga com muita veemência e o Papa interrompeu-o: “Por graça, irmão!”, disse-lhe. “Devo ter graça para ele, meu senhor?”, perguntou Gilbert. “Não imploro a graça para ele, irmão, mas para ti mesmo”.


g. Em março daquele mesmo ano, isto é oito meses antes, São Godrico havia enviado uma mensagem a Santo Tomás para profetizar-lhe que regressaria à Inglaterra e morreria pouco depois. Quando Tomás despediu-se do bispo de Paris, disse-lhe: “Volto à Inglaterra para morrer”.


h. Era uma terça-feira, o mesmo dia da semana em que Becket nasceu e em que foi batizado. Tanto a sua fuga de Northampton, como a sua partida da Inglaterra, uma visão do seu martírio que teve no mosteiro de Pontigny, o seu regresso do exílio e a sua morte, ocorreram num dia de terça-feira.


i. Aqueles homens eram, respetivamente, o ancião confessor e conselheiro do Arcebispo, um clérigo da sua servidão e um monge inglês.


j. Precisamente quando o estavam matando, Grim ouviu murmurar a um dos monges no sentido de que aquele era o castigo que merecia o arcebispo, pela sua obstinação. Também na Universidade de Paris e noutras partes podiam encontrar-se pessoas que sustentavam abertamente que o assassinato não havia sido mais que a execução justa de “um homem que procurava colocar-se por cima do rei”.


k. Quando chegaram aos ouvidos do rei as notícias do crime, Henrique começou a lamentar-se em voz alta, depois encerrou-se numa habitação e aí jejuou durante quarenta dias. A sua primeira penitência fez-a em maio de 1172, na cidade francesa de Avranches, onde recebeu a absolvição dos legados pontifícios. Até hoje, existe um pilar que assinala o lugar onde o rei fez penitência, no sítio onde estava a antiga catedral.


l. No seu interessante e valioso livro Historical Memorial of Canterbury, o deão Stanley relata o que sucedeu a cada um dos assassinos. A respeito da lenda segundo a qual três deles, arrependidos do seu crime, teriam feito uma peregrinação à Palestina, ali morrido e sido sepultados em Jerusalém, ante ostium templi, o citado autor escreveu a seguinte nota:


“O átrio diante da basílica do Santo Sepulcro é — e sempre foi — uma explanada quadrangular, uma praça pública destinada a todos os peregrinos do mundo, onde é materialmente impossível que se tenham escavado sepulturas, seja para assassinos arrependidos, seja para santos. A igreja dos Templários era a mesquita da Rocha [a antiga mesquita da rocha foi convertida em igreja, chamada Templum Domini], e a sua plataforma frontal constituía o átrio, um lugar sagrado do santuário; haveria maiores possibilidades de que nesse local se encontrassem as tumbas dos assassinos, mas também isso é pouco provável, pois já não existe o menor vestígio.”


Entretanto, o erudito deão Stanley equivocou-se nos dois pontos assinalados. Na praça situada diante da igreja do Santo Sepulcro encontra-se a tumba de um cavaleiro anglo-normando chamado Filipe d’Aubigny, que certamente não foi um dos assassinos de Becket. No lado sul da plataforma do "santuário da rocha" encontra-se a mesquita chamada Al-Aqsa, que antigamente era uma igreja cristã. Há cerca de trinta anos, nesse mesmo local, um imã da mesquita mostrou ao autor destas linhas o sítio indicado pela tradição como o lugar da sepultura dos três cavaleiros. Na época, encontrava-se coberto de terra e ervas, e assegura-se que não há vestígios de inscrições.



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