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Vida do Papa São Clemente I e São Anfilóquio (23 de novembro)





Papa São Clemente I, mártir. Cromolitografia em L. Tripepi, Retratos e biografias dos papas romanos. de São Pedro a Leão XIII, Roma, Vaglimigli Davide, 1879.
Papa São Clemente I, mártir. Cromolitografia em L. Tripepi, Retratos e biografias dos papas romanos. de São Pedro a Leão XIII, Roma, Vaglimigli Davide, 1879.

O terceiro sucessor de São Pedro, provavelmente São Clemente, foi contemporâneo dos santos Pedro e Paulo, segundo se acredita. Com efeito, Santo Irineu escrevia, na segunda metade do século II: “Viu os bem-aventurados apóstolos e conversou com eles. A pregação destes ainda ressoava em seus ouvidos e ele conservava seus ensinamentos diante dos olhos.” Orígenes e outros autores o identificam com o Clemente a quem São Pedro chama seu companheiro de trabalhos (Fil 4, 3), e assim o repetem a missa e o ofício do santo; porém trata-se de uma identificação muito duvidosa. Certamente, o nosso santo não foi o Clemente Flávio condenado à morte no ano 95. Mas não é impossível que tenha sido um liberto do serviço do imperador, cujos ascendentes eram judeus. Não possuímos nenhum detalhe sobre sua vida.


As “atas” do século IV, que são apócrifas, afirmam que converteu um casal de patrícios, chamados Sisinio e Teodora, e outros 423. Isso atraiu sobre ele o ódio do povo, e o imperador Trajano o desterrou para a Crimeia, onde teve de trabalhar nas pedreiras. A fonte mais próxima ficava a dez quilômetros, mas Clemente descobriu, por inspiração do Céu, outra nascente mais próxima, onde puderam beber os numerosos cristãos cativos. O santo pregou nas pedreiras com tanto êxito que, pouco tempo depois, já havia setenta e cinco igrejas. Então, foi lançado ao mar com uma âncora pendurada ao pescoço. Os anjos lhe construíram um sepulcro sob as ondas. Todos os anos, as águas se abriam milagrosamente para deixar ver o sepulcro.


Santo Irineu diz: “Na época de Clemente, estourou uma importante sedição entre os irmãos de Corinto. A Igreja de Roma lhes enviou uma longa carta para restabelecer a paz, renovar a fé e anunciar-lhes a tradição que havia recebido recentemente dos apóstolos.

Papa São Clemente I, por Tiepolo
Papa São Clemente I, por Tiepolo

Essa carta tornou famoso o nome do Papa Clemente I. Nos primeiros tempos da Igreja, a carta de Clemente tinha quase tanta autoridade quanto os livros da Sagrada Escritura, e costumava ser lida junto com eles nas igrejas. No manuscrito da Bíblia (Codex Alexandrinus, século V) que Cirilo Lukaris, patriarca de Constantinopla, enviou ao rei Jaime I da Inglaterra, havia uma cópia da carta de Clemente. Patricio Young, encarregado da biblioteca real da Inglaterra, a publicou em Oxford, em 1633.


São Clemente começa explicando que as dificuldades pelas quais passava a Igreja em Roma (a perseguição de Diocleciano) haviam impedido que escrevesse antes. Em seguida, recorda aos coríntios quão edificante fora sua conduta quando todos eram humildes, quando desejavam mais obedecer do que mandar e estavam mais prontos para dar do que para receber, quando estavam satisfeitos com os bens que Deus lhes tinha concedido e escutavam diligentemente sua Palavra. Naquela época eram sinceros, inocentes, sabiam perdoar as injúrias, detestavam a sedição e o cisma. São Clemente lamenta que tivessem esquecido o temor de Deus e caído no orgulho, na inveja e nas dissensões, e os exorta a abandonar a soberba e a ira, porque Cristo está com os que se humilham e não com os que se exaltam. O cetro da majestade de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, não se manifestou no poder, mas na humilhação. Clemente convida os coríntios a contemplar a ordem do mundo, no qual tudo obedece à vontade de Deus: os céus, a terra, o oceano e os astros. Visto que estamos tão próximos de Deus e Ele conhece nossos pensamentos mais ocultos, não devemos fazer nada contrário à sua vontade e devemos honrar nossos superiores; as necessidades disciplinares obrigaram à criação de bispos e diáconos, a quem se deve toda obediência. As disputas são inevitáveis e os justos serão sempre perseguidos. Mas ele assinala que alguns coríntios estão arruinando sua igreja.


Obedeça cada um aos seus superiores, segundo a hierarquia estabelecida por Deus. Que o forte não esqueça o fraco, e que o fraco respeite o forte. Que o rico socorra o pobre, e que o pobre bendiga a Deus, a quem deve o socorro do rico. Que o sábio manifeste sua sabedoria, não em palavras, mas em obras. Os grandes não poderiam subsistir sem os pequenos, nem os pequenos sem os grandes. Num corpo, a cabeça nada pode sem os pés, nem os pés sem a cabeça. Os membros menos importantes são úteis e necessários ao conjunto.”

Papa Clemente I
Papa Clemente I

Em seguida, Clemente afirma que na Igreja os menores serão os maiores diante de Deus, contanto que cumpram seu dever. Termina pedindo que “lhes enviem de volta logo seus dois mensageiros, em paz e alegria, para que nos anunciem quanto antes que já reinam entre nós a paz e a concórdia pelas quais tanto temos orado e que tanto desejamos. Assim poderemos alegrar-nos com a vossa paz”.


Na carta há um trecho muito conhecido, que o historiador anglicano Lightfoot qualifica de “nobre repreensão” e de “primeiro passo rumo à dominação pontifícia”. Eis aqui:


Se alguns desobedecem às palavras que Ele nos comunicou, saibam que cometem um pecado grave e incorrem em um perigo muito sério. Mas nós seremos inocentes desse pecado.”

A carta de Clemente é muito importante por seus belos trechos, porque constitui uma prova do prestígio e autoridade de que gozava a sede romana no fim do século I e porque está repleta de alusões históricas incidentais. Além disso, “constitui um modelo de carta pastoral..., uma homilia sobre a vida cristã.” Existem outros escritos, chamados “Pseudo-clementinos”, que antigamente se atribuíam ao Papa. Entre eles conta-se outra carta aos coríntios, que também estava incluída no “códice” alexandrino da Bíblia.


Venera-se São Clemente como mártir, mas os autores mais antigos não mencionam seu martírio. Não sabemos onde morreu. Talvez durante seu exílio na Crimeia. No entanto, é muito pouco provável que as relíquias que São Cirilo trasladou da Crimeia a Roma, no fim do século IX, tenham sido realmente as de São Clemente. Tais relíquias foram depositadas sob o altar de São Clemente, na Via Célia. Debaixo da igreja e da basílica construída ali no século IV, conservam-se algumas salas da época imperial. De Rossi pensava que ali havia vivido São Clemente I. De todo modo, não sabemos quem foi o Clemente que deu seu nome àquela igreja, chamada originalmente “titulus Clementis”. O nome de São Clemente I figura no cânon da missa. Nosso santo é um dos chamados “Padres Apostólicos”, isto é, os que conheceram pessoalmente os apóstolos ou receberam sua influência quase direta.


O Martírio de São Clemente por Bernardino Fungai
O Martírio de São Clemente por Bernardino Fungai

Talvez a melhor coleção das alusões a São Clemente presentes na literatura cristã primitiva seja a do bispo anglicano de Durham, J. B. Lightfoot, Apostolic Fathers, parte I, vol. I, pp. 148-200. As citações mais importantes, como as do De viris illustribus de São Jerônimo, do Liber Pontificalis e dos sacramentários e calendários, podem ser vistas em CMH., pp. 615-616. Existe um relato do martírio, em latim e em grego. Franchi de Cavalieri e Delehaye opinam que o original é o texto latino. Deste relato deriva a lenda, perpetuada pelo Breviário Romano, sobre o sepulcro marítimo e a âncora usada para afogar São Clemente. Os textos podem ser vistos em F. Diekamp, Patres apostolici, vol. I (1913), pp. 50-81. Os Pseudo-clementinos, divididos em Homilias e Reconhecimentos, popularizaram muito o nome de São Clemente; mas naturalmente nada acrescentam do ponto de vista histórico ou hagiográfico. Escreveu-se bastante sobre São Clemente nos últimos anos. Um dos estudos mais recentes e completos é o de H. Delehaye, Étude sur le légendier romain (1936), pp. 96-116. O autor observa que, como no caso de Santa Cecília, o “titulus Clementis” transformou-se com o tempo em “sancti Clementis”. Veja-se também P. Franchi de Cavalieri, em Note agiografiche, vol. V, pp. 3-40; I. Franko, St Klemens in Chersonesus (1906); J. P. Kirsch, Die römischen Titelkirchen (1918). Na Loeb Classical Library, The Apostolic Fathers (1930), pode-se ver o texto grego da carta de São Clemente, acompanhado de uma tradução inglesa de Kirsopp Lake. Há outra tradução mais recente, feita por J. A. Kleist, no vol. I da série American Ancient Christian Writers, The Epistles of St. Clement... and St. Ignatius... (1946).1




Iluminura de São Anfilóquio de Icônio.c. 985, no Menológio de Basílio II.
Iluminura de São Anfilóquio de Icônio.c. 985, no Menológio de Basílio II.

São Anfilóquio foi amigo íntimo de São Gregório Nazianzeno, seu primo, e de São Basílio, embora fosse mais jovem que eles. As cartas desses dois santos a Anfilóquio são nossa principal fonte de informação. Anfilóquio nasceu na Capadócia. Na juventude, foi reitor em Constantinopla, onde, ao que parece, passou por dificuldades econômicas. Ainda jovem, retirou-se para um lugar solitário nas proximidades de Nazianzo, junto com seu pai já muito idoso. São Gregório lhe dava um pouco de grão em troca das hortaliças de seu horto. Em uma carta, queixa-se, em tom de brincadeira, de que sempre saía perdendo no negócio. No ano 374, quando tinha cerca de trinta e cinco anos, Anfilóquio foi eleito bispo de Icônio e aceitou o cargo muito contra sua vontade. O pai de Anfilóquio queixou-se a São Gregório de que lhe haviam privado do filho. Em resposta, o santo afirmou que não tivera parte alguma no nomeamento e que também sofria ao ver-se privado de seu amigo. São Basílio, a quem provavelmente se deveu o nomeamento, escreveu a Anfilóquio uma carta de felicitação. Nela o exorta a não se deixar arrastar nunca para o mal, ainda que esteja na moda e existam precedentes, pois está chamado a guiar os outros e não a ser guiado por eles. Imediatamente após sua consagração, São Anfilóquio foi visitar São Basílio em Cesareia. Ali pregou ao povo e seus sermões foram mais apreciados que os de todos os estrangeiros que haviam pregado na cidade. São Anfilóquio consultou frequentemente São Basílio sobre diversos pontos de doutrina e disciplina e, graças aos seus pedidos, Basílio escreveu seu tratado sobre o Espírito Santo. São Anfilóquio foi quem pregou o panegírico de São Basílio em seus funerais.


Nosso santo reuniu em Icônio um concílio contra os hereges macedônios, que negavam a divindade do Espírito Santo, e no ano 381 assistiu ao Concílio Ecumênico de Constantinopla contra os mesmos hereges. Ali conheceu São Jerônimo, a quem leu seu próprio tratado sobre o Espírito Santo. Anfilóquio pediu ao imperador Teodósio I que proibisse as reuniões dos arianos, mas o imperador se negou, julgando a medida demasiado rigorosa. Pouco depois, o santo foi ao palácio. Arcádio, que já havia sido proclamado imperador, estava junto ao pai. São Anfilóquio saudou Teodósio e ignorou seu filho. Quando Teodósio lhe chamou a atenção, o santo acariciou a face de Arcádio. Teodósio enfureceu-se. Então, Anfilóquio lhe disse: “Vejo que não suportas que se trate com leveza teu filho. Como podes, portanto, tolerar que seja desonrado o Filho de Deus?” Impressionado por essas palavras, o imperador proibiu pouco depois as reuniões públicas e privadas dos arianos. São Anfilóquio combateu também com zelo a nascente heresia dos messalianos. Eram maniqueus e iluminados que colocavam a essência da religião exclusivamente na oração. O santo presidiu em Sida da Panfília um sínodo contra esses hereges. São Gregório Nazianzeno chama São Anfilóquio bispo irrepreensível, anjo e arauto da verdade. O pai de nosso santo afirmava que ele curava os enfermos com suas orações.


Conhecemos bastante bem São Anfilóquio graças às referências presentes na literatura cristã da época. Além disso, existem duas biografias gregas, que podem ser vistas em Migne, PG., vol. XXXIX, pp. 13-25, e vol. CXVI, pp. 956-970. A coleção de fragmentos das obras do santo em Migne não é completa. Encontram-se outros fragmentos em K. Holl, Amphilochius von Ikonium (1904), e G. Ficker, Amphilochiana (1906). Ver também Bardenhewer, Altkirchliche Literatur, vol. III, pp. 220-228; DHG., vol. II, pp. 1346-1348; e DCB., vol. I, pp. 103-107.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 405-407.

2. Ibid. pp. 407-408.



* Na missa e no ofício de São Clemente se comemora Santa Felicidade. Tratamos dela no dia 10 de julho, junto com seus “Sete Filhos”.



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