Vida do Papa Santo Higino e São Teodósio, o Cenobiarca (11 de janeiro)
- Sacra Traditio

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Hoje também se celebra a Festa da Sagrada Família.

O Martirológio Romano inclui São Higinio no número dos mártires, mas não existe nenhuma prova de seu martírio. O Liber Pontificalis nos diz que ele era grego de nascimento. A afirmação de que era filósofo deve-se provavelmente a uma confusão com outro Higínio.
Eusébio nos informa que o predecessor deste Papa morreu durante o primeiro ano do reinado do imperador Antonino Pio, o que significa, provavelmente, que o pontificado de Higínio se estendeu do ano 138 ao 142. Santo Irineu relata que, nessa época, os heresiarcas Valentino e Cerdão se encontravam em Roma e produziram grande agitação na Igreja, mas ignoramos as proporções que tal agitação havia tomado quando Higínio morreu.
Ver Duchesne, Liber Pontificalis, vol. 1, p. 131; e Acta Sanctorum, 11 de janeiro.1

São Teodósio nasceu em Gariso da Capadócia (incorretamente chamado também Mogariso), no ano 423. Já havia sido ordenado leitor, quando o exemplo de Abraão o levou a abandonar pátria e família, como o patriarca. Empreendeu, pois, a viagem a Jerusalém; mas, no caminho, desviou-se para visitar São Simeão Estilita, que lhe predisse muitas coisas de sua vida futura e lhe deu alguns conselhos. Depois de satisfazer sua devoção visitando os Lugares Santos, Teodósio começou a refletir sobre de que forma deveria consagrar-se a Deus. Os perigos que trazia consigo o viver sem diretor espiritual o induziram a escolher a vida monástica. Assim, colocou-se sob a direção de um homem de Deus chamado Longino, que logo concebeu grande afeição por seu discípulo. Como uma dama tivesse construído uma igreja no caminho de Belém, Longino não pôde negar-se ao pedido de que Teodósio se encarregasse de assegurar o culto; mas teve necessidade de impor essa obrigação por preceito de santa obediência a seu discípulo, para que este aceitasse o encargo. De resto, tal encargo não durou muito tempo, pois Teodósio retirou-se para uma gruta no cume de um monte vizinho.
Logo começaram a reunir-se a ele numerosos companheiros que desejavam servir a Deus sob sua direção. Teodósio decidiu, a princípio, não admitir mais do que sete ou oito; mas, pouco depois, teve de aumentar o número e, finalmente, determinou não rejeitar nenhum aspirante cujas disposições fossem sinceras. A primeira lição que deu a seus companheiros foi mostrar-lhes um grande fosso que havia escavado nos arredores e que deveria servir de sepultura comum, para recordar-lhes que deviam aprender a morrer constantemente para si mesmos. Um dia, o abade disse à comunidade: “A sepultura está preparada. Quem será o primeiro a ocupá-la?” Um sacerdote chamado Basílio ajoelhou-se e disse a Teodósio: “Permite que seja eu o primeiro, mas dá-me antes a tua bênção”. O abade ordenou que se rezassem por Basílio as orações dos moribundos, e este morreu quatro dias depois, sem ter estado doente.
Num dia de Páscoa, os monges, que já eram doze, não tinham nada para comer, nem sequer pão para celebrar a Missa. Alguns começaram a murmurar, mas o santo os exortou a ter confiança na Providência de Deus. Pouco depois chegou ao mosteiro uma recua de mulas carregada de alimentos. Como a santidade e os milagres de Teodósio atraíssem grande número de aspirantes à vida religiosa, o mosteiro começou a tornar-se pequeno demais. Teodósio construiu então outro maior, num lugar chamado Catisma, perto de Belém. Construiu também nos arredores três hospitais: um para os enfermos; outro para os idosos e os fracos; e o terceiro para os que haviam perdido a razão. Deve-se observar que, naquela época, a perda da razão era atribuída à possessão diabólica; mas, na maioria dos casos, devia-se simplesmente a excessos extravagantes na prática do ascetismo. Nesses hospitais, os habitantes da região encontravam generoso socorro material e espiritual. A hospitalidade era tão ampla que, segundo contam as crônicas, Teodósio recebeu, num só dia, mais de cem hóspedes nos albergues que havia fundado. Quando a comida era insuficiente para tanta gente, as orações de Teodósio a multiplicavam.

O mosteiro era uma espécie de cidade de santos no meio do deserto. A regularidade, o silêncio e a caridade reinavam nele. Quatro igrejas dependiam do mosteiro: uma para cada uma das três principais nacionalidades dos monges, que falavam línguas diferentes, e a quarta para os que faziam penitência por seus pecados e para os lunáticos que estavam em vias de cura. A comunidade dividia-se em três nacionalidades principais: a dos gregos, que constituíam o contingente mais numeroso e provinham de todas as províncias do Império; a dos armênios, entre os quais se contavam os árabes e os persas; e, finalmente, a dos besas, que compreendia todos os monges de língua eslava e os originários das regiões vizinhas da Trácia. Cada nação cantava em sua própria igreja a primeira parte da liturgia eucarística, até o Evangelho; em seguida, reuniam-se todos na igreja dos gregos, onde celebravam em grego a parte principal da liturgia e comungavam juntos. Os monges passavam grande parte do dia e da noite na igreja. Fora das horas de oração e de descanso, eram obrigados a executar algum trabalho manual que não fosse incompatível com o recolhimento e ajudasse a manter a despensa abastecida. Salústio, patriarca de Jerusalém, nomeou São Sabas superior dos eremitas e São Teodósio superior dos monges que viviam em comunidade em toda a Palestina; por isso se deu ao nosso santo o nome de cenobiarca. Uma grande amizade unia os dois servos de Deus, e o tempo viria a uni-los também em seus sofrimentos pela Igreja.
O imperador Anastásio favorecia a heresia de Eutiques e empregou todos os meios que estiveram a seu alcance para ganhar São Teodósio. No ano 513 depôs Elias, patriarca de Jerusalém, e já antes havia desterrado de Antioquia Flaviano II para colocar Severo à frente de sua sé. Teodósio e Sabas defenderam valorosamente os direitos de Elias e de seu sucessor João. Isso levou os agentes imperiais a tentar ganhá-los para sua causa, em vista da grande autoridade que sua santidade lhes conferia. Pouco depois, o imperador enviou a Teodósio uma grande soma de dinheiro, aparentemente para que a utilizasse em suas obras de caridade, mas na realidade para conquistar seu apoio. O santo aceitou o dinheiro e o distribuiu entre os pobres. Anastásio, acreditando que com isso já havia conquistado a vontade do santo, enviou-lhe para que assinasse uma profissão de fé herética que confundia numa só as duas naturezas de Cristo. São Teodósio respondeu-lhe com uma carta cheia de espírito apostólico, que aplacou o imperador por algum tempo; mas logo este renovou seus éditos persecutórios contra os ortodoxos e enviou suas tropas para que os fizessem cumprir. Ao sabê-lo, Teodósio empreendeu uma viagem por toda a Palestina, exortando os cristãos a permanecerem fiéis aos ensinamentos dos quatro concílios ecumênicos. Em Jerusalém, gritou do púlpito:
“Quem não tem os ensinamentos dos quatro concílios ecumênicos em tanta estima quanto os quatro Evangelhos, merece a morte eterna”.

Essas palavras corajosas devolveram o ânimo aos cristãos aterrorizados pelos éditos imperiais. Os sermões de Teodósio produziam efeitos maravilhosos, e Deus confirmava seu zelo com milagres surpreendentes. Por exemplo, uma mulher que sofria de tumores ficou instantaneamente curada apenas ao tocar suas vestes. O imperador decidiu finalmente desterrar Teodósio; mas Anastásio morreu pouco depois, e seu sucessor, Justino, fez o santo voltar do exílio.
Nos últimos anos de sua vida, Teodósio foi atacado por uma dolorosa enfermidade, na qual deu provas de paciência heroica e de absoluta submissão à vontade de Deus. Quando uma testemunha de seus sofrimentos lhe rogou que orasse para que Deus lhe concedesse algum alívio, o santo recusou-se a fazê-lo, dizendo que isso constituiria uma falta de paciência. Quando Teodósio compreendeu que o fim se aproximava, dirigiu a seus discípulos uma última exortação e predisse muitas coisas que deveriam acontecer após sua morte. O santo cenobita entregou sua alma a Deus em 529, aos cento e cinco anos de idade. O patriarca de Jerusalém, Pedro, e toda a cidade assistiram a seus funerais, nos quais se realizaram vários milagres. O santo foi sepultado na primeira cela que havia ocupado, chamada caverna dos Magos, porque a tradição afirmava que nela se haviam hospedado os gentios que foram adorar o Senhor em Belém.
Existem duas fontes principais sobre a vida de São Teodósio: a primeira é a biografia escrita por um de seus discípulos, o bispo de Petra; a segunda é uma breve notícia que devemos à pena de Cirilo de Escitópolis. H. Usener publicou pela primeira vez o texto grego de ambas as biografias: Der heilige Theodosius (1890). A esse material crítico, K. Krumbacher fez uma importante contribuição nos Sitzungsberichte da Academia de Munique (1892), pp. 220-379. Cf. também Byzantinische Zeitschrift (1897), vol. VI, pp. 357 ss.; Acta Sanctorum, 11 de janeiro; e E. Schwartz, Kyrillos von Skythopolis (1939), no que se refere ao texto da biografia breve.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, p. 74.
2. Ibid. pp. 76-78


























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