Vida do Papa São Telésforo e São Simeão Estilita, o Velho (5 de janeiro)
- Sacra Traditio

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São Telésforo, que figura na lista dos Papas como o sétimo bispo de Roma, parece ter sido grego de nascimento. Sucedeu a Sisto I por volta do ano 126 e presenciou a devastação causada pela perseguição de Adriano. “Terminou a sua vida com um glorioso martírio”, diz-nos Eusébio, e é um dos primeiros sucessores de São Pedro a quem Santo Irineu e outros autores chamam pelo nome de mártir. 1
O Liber Pontificalis afirma não apenas que ele teria sido monge eremita antes de assumir o papado, mas também lhe atribui diversas disposições litúrgicas, como a celebração da Missa do Galo, a observância da Páscoa aos domingos, a fixação de sete semanas de Quaresma antes da Páscoa e o canto do Glória. Contudo, alguns historiadores consideram essas informações pouco seguras, duvidando que tais práticas possam ser atribuídas com certeza ao seu pontificado.
Ver Acta Sanctorum, 5 de janeiro; e o Liber Pontificalis (ed. Duchesne), vol. I, p. 129. O calendário dos carmelitas considera São Telésforo como membro da ordem, mas é difícil adivinhar o fundamento histórico de tal afirmação.1

A vida e a conduta de São Simeão chamaram a atenção não só de todo o Império Romano, mas também dos povos bárbaros, que o tinham em grande admiração. Os imperadores romanos encomendavam-se às suas orações e consultavam-no sobre assuntos de importância. No entanto, deve reconhecer-se que se trata de um santo mais admirável do que exemplar. A sua vida é profundamente edificante, no sentido de que não podemos deixar de nos sentir confundidos ao comparar o seu fervor com a nossa indolência no serviço divino.
São Simeão foi filho de um pastor da Cilícia, na fronteira da Síria, e começou a sua vida guardando as ovelhas de seu pai. Por volta do ano 402, quando Simeão tinha apenas catorze anos, sentiu-se profundamente comovido ao ouvir na igreja a leitura das Bem-aventuranças, sobretudo pelas palavras: “Bem-aventurados os que sofrem”, “Bem-aventurados os puros de coração”. O jovem recorreu a um ancião para que lhe explicasse o seu sentido e rogou-lhe que lhe dissesse como podia alcançar a felicidade prometida. O ancião respondeu-lhe que o texto sagrado propunha como caminho para a felicidade a oração, a vigília, o jejum, a humilhação e a paciência nas perseguições, e que a vida de solidão era a melhor maneira de praticar a virtude.
Simeão retirou-se para certa distância e rogou Àquele que quer a salvação de todos os homens que o guiasse na busca da felicidade e da perfeição. Depois de rezar longamente, adormeceu e teve um sonho, como ele próprio referiu mais tarde repetidas vezes. Viu-se a si mesmo cavando os alicerces de uma casa. As quatro vezes que interrompeu o trabalho para tomar fôlego, ouviu uma voz que lhe ordenava continuar a escavar. Finalmente, recebeu a ordem de cessar, porque o fosso já era tão profundo que podia conter os alicerces de um edifício da forma e do tamanho que ele escolhesse. Como comenta Teodoreto, “os fatos confirmaram a predição, pois os atos desse homem estavam tão acima da natureza, que os alicerces deviam ser muito profundos para suportar peso tão enorme”.

Ao despertar, Simeão dirigiu-se a um mosteiro das proximidades, cujo abade se chamava Timóteo, e permaneceu às portas durante vários dias sem comer nem beber, suplicando que o admitissem como o último dos servos. O seu pedido foi bem acolhido e por fim foi recebido por um prazo de quatro meses. Esse tempo bastou-lhe para aprender de memória o saltério. Esse contacto com o texto sagrado iria alimentar a sua alma durante o resto da vida. Embora ainda fosse muito jovem, praticava toda a espécie de austeridades, e a sua humildade e caridade granjearam-lhe o apreço dos monges. Ao cabo de dois anos, passou ao mosteiro de Heliodoro, o qual havia vivido sessenta e dois anos nessa comunidade, tão absolutamente afastado do mundo que o ignorava por completo, segundo nos conta Teodoreto, que o conheceu pessoalmente. Simeão intensificou ali as suas mortificações. Considerando que a grosseira corda do poço, tecida com folhas de palmeira, constituía um excelente instrumento de mortificação, despiu-se, atou-a com força em redor do corpo e vestiu-se em seguida. Assim permaneceu por longo tempo, sem que o superior ou algum dos monges suspeitasse do seu sofrimento, até que a corda se lhe incrustou na carne. Formaram-se-lhe grandes chagas por todo o corpo e, durante os três dias seguintes, teve de molhar as vestes para poder tirá-las, pois estavam completamente coladas à carne ferida. As incisões feitas para arrancar as cordas causaram-lhe tal dor que desmaiou. Ao recobrar os sentidos, o superior despediu-o do mosteiro, para mostrar aos outros monges que não estava disposto a tolerar tais singularidades.
Simeão retirou-se para uma ermida nas proximidades do monte Telanisa, onde resolveu passar os quarenta dias da Quaresma em total abstinência, seguindo o exemplo de Cristo. Um sacerdote chamado Basso, com quem consultou o seu propósito, deu-lhe dez pedaços de pão e um pouco de água, para que pudesse comer em caso de necessidade. Basso foi visitá-lo ao terminar a Quaresma; o pão e a água estavam intactos, mas Simeão jazia por terra como morto. Com uma esponja, Basso umedeceu os lábios de Simeão e depositou neles a sagrada Eucaristia. Voltando a si, Simeão ergueu-se e pôde comer lentamente algumas folhas de alface. Daí em diante jejuou do mesmo modo em cada Quaresma até o fim da vida.

Quando Teodoreto escreveu sobre ele, Simeão já havia suportado assim vinte e seis Quaresmas. Teodoreto explica-nos que ele começava a Quaresma rezando de pé; quando as forças começavam a faltar-lhe, continuava a oração sentado; perto do fim da Quaresma, rezava deitado por terra, pois já era incapaz de se sustentar em qualquer outra posição. No entanto, é provável que nos seus últimos anos tenha mitigado um pouco essa incrível austeridade. Quando já vivia na sua coluna, atava-se a uma estaca durante o jejum quaresmal para não cair; mas no fim da vida estava tão habituado que já não precisava amarrar-se. Alguns atribuem a sua resistência a uma constituição robusta, que lhe teria permitido habituar-se a tão extraordinário jejum. Como é bem sabido, o clima quente permite longos períodos de abstinência aos faquires da Índia. Nos nossos dias, um monge francês jejuou durante toda a Quaresma quase tão rigorosamente como São Simeão.[a] Mas há pouquíssimos exemplos de pessoas que resistam ao jejum total prolongado, a não ser que a prática as tenha preparado para isso.
Depois de passar três anos na ermida, Simeão foi viver no cume do monte, onde construiu uma espécie de cabana sem teto para ficar exposto às intempéries. Como símbolo da sua resolução de perseverar nesse gênero de vida, acorrentou o pé direito a uma rocha. Melécio, vigário do Patriarca de Antioquia, assegurou-lhe que, se a sua decisão fosse realmente firme, com a graça de Deus poderia viver no seu retiro sem jamais sair dele. Ao ouvir isso, o santo mandou chamar um ferreiro para soldar definitivamente as suas correntes. Mas os visitantes começaram a frequentá-lo, e a solidão que a sua alma desejava era constantemente interrompida pelas multidões que acorriam para receber a sua bênção, que curava os doentes. Alguns não se davam por satisfeitos até tocar o santo com as próprias mãos.
Para fugir a essas causas de distração, Simeão concebeu um novo gênero de vida sem precedentes. No ano 423 construiu uma coluna de cerca de três metros de altura, sobre a qual viveu durante quatro anos. Numa outra, de seis metros, viveu três anos. Numa terceira, de doze metros, viveu dez anos. Os últimos vinte anos da sua vida passou-os numa coluna de vinte metros, que o povo lhe construiu. No total, passou trinta e sete anos sobre as quatro colunas; por isso recebeu o nome de estilita, pois a palavra grega stylos significa coluna. A princípio, todos criticaram essa forma de vida como uma singularidade. Para provar a sua humildade, os bispos e abades dos arredores deram-lhe ordem de renunciar a tal extravagância. O santo mostrou-se imediatamente disposto a obedecer; mas o mensageiro disse-lhe que, visto ter demonstrado obediência, os bispos e abades o autorizavam a seguir a sua vocação.

Sua coluna não passava de ter cerca de dois metros de superfície, o que mal lhe permitia deitar-se. De resto, não possuía nenhum assento. Apenas se reclinava para tomar um pouco de descanso; o restante do tempo passava-o curvado em oração. Um visitante contou, certa vez, 1244 profundas reverências. Duas vezes por dia, o santo fazia exortações ao povo. Vestia-se com peles de animais e jamais permitiu que uma mulher penetrasse no espaço fechado onde se erguia a sua coluna. O seu discípulo Antônio conta-nos que o santo rezou de modo muito especial por sua mãe, por ocasião da morte dela.
Deus compraz-se algumas vezes em conduzir certas almas por caminhos estranhos, onde outras só encontrariam perigos de ilusões e de vaidade. Contudo, é preciso notar que a santidade dessas almas não consiste nem em suas ações extraordinárias, nem em seus milagres, mas na perfeição da sua caridade, da sua paciência e da sua humildade; e essas virtudes brilharam esplendorosamente na vida de São Simeão. Exortava ardentemente o povo a corrigir-se do seu inveterado costume de blasfemar, a praticar a justiça, a banir a usura, à seriedade na piedade e a rezar pela salvação das almas. O respeito com que até os próprios bárbaros o escutavam era indescritível. Muitos persas, armênios e iberos converteram-se por seus milagres ou por seus sermões, aos quais acorriam grandes multidões. Os imperadores Teodósio e Leão I consultavam-no frequentemente e encomendavam-se às suas orações. O imperador Marciano disfarçou-se para ir visitá-lo. O santo suportou com invencível paciência todas as contradições e oposições, sem uma palavra de queixa. Considerava-se sinceramente o pior dos homens e falava a todos com a maior suavidade e caridade. O patriarca de Antioquia, Domno, e outros sacerdotes levavam-lhe a comunhão à sua coluna. Na quarta-feira, 2 de setembro do ano 459, ou talvez na sexta-feira, 24 de julho do mesmo ano, segundo outra fonte, o santo entregou a sua alma a Deus, aos sessenta e nove anos de idade, na posição em que costumava rezar. O seu corpo foi trasladado dois dias depois para Antioquia, onde o esperavam os bispos e todo o povo. Evágrio, Antônio e Cosme relatam muitos milagres operados nessa ocasião.

Por mais incríveis que possam parecer alguns dos rigores atribuídos a São Simeão, o Velho, e a outros estilitas, as provas históricas são indiscutíveis. Por exemplo, Teodoreto, historiador da Igreja, que é uma das principais autoridades sobre São Simeão, conheceu-o pessoalmente, foi seu confidente e escreveu a sua narração durante a própria vida do santo. O problema dessa fase extraordinária do ascetismo foi discutido a fundo por Hippolyte Delehaye, na sua monografia Les Saints Stylites (1923). Essa obra supera todas as anteriores sobre o mesmo tema. Baseando-se nas pesquisas de Delehaye, Fr. Thurston publicou um artigo de divulgação sobre o assunto na revista irlandesa Studies, dezembro de 1923, pp. 584-596. Além da narração de Teodoreto, existem outras duas fontes importantes sobre a vida de São Simeão: a biografia grega escrita por seu discípulo e contemporâneo Antônio, e a biografia siríaca, certamente escrita menos de cinquenta anos após a morte do santo. Lietzmann publicou uma edição crítica de ambos os textos em Das Leben des heiligen Symeon Stylites (1908); ver também P. Peeters, Analecta Bollandiana, vol. LXI (1943), pp. 71 ss., a propósito dos primeiros biógrafos de São Simeão. As biografias grega e siríaca diferem em boa quantidade de detalhes, mas não podemos tratar disso aqui. O Martirológio Romano comemora São Simeão em 5 de janeiro; os bolandistas e Butler seguiram o mesmo exemplo. A. Vasiliev, Life of David of Thessalonika, em Traditio, vol. IV (1946), pp. 115-147, trata do problema de um asceta que viveu numa árvore (dendrita).2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, p. 41.
2. Ibid. pp. 43-45.
Notas: a. Dom Claude Léauté, monge beneditino da Congregação de São Mauro. Cf. Dom L’Isle, History of Fasting, Sens, 1731; e The Month, fevereiro e março de 1921: The Mystic as a Hunger Striker.


























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