Vida de São Valentim de Passau e São Luciano de Antioquia, Mártir (7 de janeiro)
- Sacra Traditio

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São Luciano nasceu em Samósata da Síria. Distinguiu-se na retórica e na filosofia. Sob a direção de Macário de Edessa, consagrou-se ao estudo da Sagrada Escritura. Convencido de que seu dever de sacerdote consistia em entregar-se totalmente ao serviço de Deus e ao bem do próximo, não se contentou em pregar pela palavra e pelo exemplo a prática da virtude, mas empreendeu uma revisão de todo o Antigo e o Novo Testamento, a fim de corrigir os erros devidos à falta de atenção dos copistas e a outras causas. Quer tenha simplesmente revisto o texto do Antigo Testamento, comparando as diferentes edições dos Setenta; quer, graças aos seus conhecimentos de hebraico, tenha podido fazer correções a partir do texto original, o certo é que sua edição da Bíblia foi muito estimada e de grande utilidade para São Jerônimo.
São Alexandre, bispo de Alexandria, relata que Luciano esteve separado da comunhão católica em Antioquia sob três bispos sucessivos. É possível que tenha favorecido excessivamente o herege Paulo de Samósata, condenado em Antioquia no ano 269. Em todo caso, não há dúvida de que Luciano morreu na comunhão da Igreja, como o demonstra o fragmento de uma de suas cartas à Igreja de Antioquia, conservado na Crônica Alexandrina. Embora pertencesse à diocese de Antioquia, encontramo-lo em Nicomédia no ano 303, quando Diocleciano publicava seus primeiros éditos contra os cristãos. Ali sofreu uma longa prisão por causa da fé e, de sua masmorra, escrevia: “Todos os mártires te saúdam. Comunico-te que o sacerdote Antimo (bispo de Nicomédia) foi martirizado”. A carta é do ano 303; mas Eusébio nos diz que São Luciano só obteve a coroa do martírio depois da morte de São Pedro de Alexandria, em 311, de modo que sua prisão parece ter durado mais nove anos.
Depois de tão longa espera, compareceu diante do governador, ou talvez diante do próprio imperador, pois a palavra usada por Eusébio para designar seu juiz é ambígua. Em sua defesa, Luciano fez uma excelente apologia da fé cristã. O juiz o devolveu à prisão e ordenou que fosse privado de todo alimento; duas semanas depois, quando estava meio morto de fome, o carcereiro lhe apresentou um prato de carne oferecida aos ídolos, mas ele não quis tocá-la. O ato de comer carne oferecida aos ídolos não era ilícito em si mesmo, como explica São Paulo, exceto quando podia ser motivo de escândalo para os fracos ou quando equivalia a um ato de idolatria, como no caso presente.

Conduzido pela segunda vez ao tribunal, a única resposta que deu a todas as perguntas foi: “Sou cristão”. No cavalete, continuou repetindo essas palavras e terminou sua gloriosa carreira na prisão, morrendo de fome ou pela espada, como afirma São João Crisóstomo. Em seus atos contam-se muitos de seus milagres e alguns detalhes de seu martírio. Por exemplo, quando se encontrava na prisão, acorrentado ao chão, celebrou a Missa sobre o próprio peito e distribuiu a comunhão aos fiéis que ali estavam presentes. Filostórgio, historiador ariano, também narra esse fato. São Luciano morreu em Nicomédia da Bitínia, no dia 7 de janeiro do ano 312, e foi sepultado em Drepano (Helenópolis).
Encontramos muitas notícias referentes a São Luciano em Eusébio (Hist. Eccles., IX, 6), em um panegírico de São João Crisóstomo (Migne, PG., vol. I, p. 519) e em uma fantástica lenda conservada por Metafrasto (Migne, PG., vol. CXIV, p. 397). Ver também Pio Franchi em Studi e Documenti (1897), vol. XVIII, pp. 24-45. O Pe. Delehaye diz a propósito de São Luciano: “Nada mais autêntico que seu martírio, nada melhor comprovado que seu culto, do qual dão testemunho a basílica de Helenópolis e os documentos literários” (Legends of the Saints, p. 192). Contudo, H. Usener (Die Sintfluthsagen, 1899, pp. 168-180) escolheu a vida de São Luciano como exemplo típico da evolução da lenda cristã a partir de um mito pagão. Ver a resposta do Pe. Delehaye (op. cit., pp. 193-197); e Batiffol em Compte-rendu du Congrès catholique (1894), vol. II, pp. 181-186. Existe ainda um estudo inteligente e erudito de G. Bardy, Recherches sur St. Lucien d’Antioche (1936).1

Muito pouco é o que sabemos sobre São Valentim, apesar de o Acta Sanctorum ter publicado uma longa biografia medieval. "Valentim foi enviado pelo Papa para pregar o Evangelho em Passau. Verificando que seu trabalho não produzia frutos, voltou a Roma para implorar ao Santo Padre que o enviasse a outro lugar. Mas o Papa o consagrou bispo e o enviou de volta a Passau, para pregar oportuna e inoportunamente, quer produzisse fruto ou não. O bispo renovou seus esforços, mas pagãos e arianos uniram-se para expulsá-lo da cidade. Dirigiu-se então aos Alpes da Récia, e sua doutrina produziu abundantes frutos entre os montanheses. Por fim, resolveu servir a Deus e purificar a própria alma numa vida de recolhimento. Por isso construiu uma pequena capela e um mosteiro em Mais, no Tirol, onde veio a falecer."2
Em sua Vida de São Severino, Eugípio nos informa que Valentim foi primeiramente abade e, mais tarde, bispo missionário na Récia. O mesmo autor afirma que um discípulo de Valentim, que depois o foi de São Severino, costumava celebrar a Missa de 7 de janeiro em honra de seu antigo pai em Cristo. Venâncio Fortunato narra que, em uma viagem pelo Tirol, encontrou numerosas igrejas dedicadas a São Valentim. Arbeo de Freising afirma que São Valentim foi inicialmente sepultado na cidade de Mais, no Tirol, mas que seus restos foram trasladados no ano 750 para Trento e, em 768, para Passau. Todos esses testemunhos têm a seu favor a antiguidade, mas carecemos de outras provas fidedignas. Em época muito posterior, surgiu a lenda de que, ao trasladar as relíquias do santo para um santuário mais importante de Passau, encontrou-se uma tábua de chumbo na qual estava gravada toda a biografia do santo. Seu biógrafo afirma ter utilizado esse documento, mas o estudo crítico revela que se trata indubitavelmente de uma invenção.
Ver o ensaio de A. Leider, Die Bleitafel im Sarge des Hl. Valentin, em Festgabe Alois Knofler (1907), pp. 254-274; e o Acta Sanctorum, 7 de janeiro.3
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 54-55.
2. Baring-Gould, Sabine (1898). "The Lives of the Saints", S. Valentine, B. of Passau.
3. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 55.


























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