Vida de Santo Elígio ou Elói e Santo Ansano, Mártir (1 de dezembro)
- Sacra Traditio

- 30 de nov. de 2025
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Venera-se Santo Ansano, romano de nascimento, como o primeiro apóstolo de Siena. Com efeito, as conversões que conseguiu naquela cidade foram tão numerosas que lhe deram o apelido de “o batizador”. Durante a perseguição de Diocleciano, foi encarcerado, torturado e decapitado. No local de sua execução, fora das muralhas da cidade, existe ainda hoje uma igreja. Em 1170, as relíquias de Santo Ansano foram trasladadas para a catedral. Os restos do santo operaram então vários milagres. Alguém se encarregou de registrá-los numa biografia fabulosa. Segundo essa obra, Ansano foi denunciado por seu próprio pai. O jovem confessou a fé, mas conseguiu fugir de Roma e dirigiu-se à Toscana. No caminho, pregou em Bagnorea e foi feito prisioneiro. "Tendo convertido inúmeros pagãos, foi preso e levado ao procônsul Lísias. Como não conseguissem levá-lo a apostatar, arrojaram-no a uma grande fogueira, mas o fogo no mesmo instante em que nele o atiraram, apagou-se. Tomaram-no, pois, e o decapitaram, perto de Arbia, no lugar em que se ergueu a igreja"1 de Nossa Senhora das Prisões.
Em Siena, ainda se professa grande devoção a esse jovem mártir: “Nos subterrâneos que existem debaixo do hospital, costumam reunir-se várias confrarias que, segundo se diz, datam da época dos primeiros cristãos de Siena, convertidos por Santo Ansano, os quais costumavam reunir-se secretamente nesse local nos dias das perseguições romanas.”
Não existem vestígios do culto antigo de Santo Ansano. Baluze-Mansi, Miscellanea (vol. IV, pp. 60-63), publicaram dois textos da paixão do santo; por sua extensão, equivalem a duas leituras do breviário e seu estilo revela a época em que foram escritos. Cf. Catalogus cod. hagiog. Bruxel., vol. I, pp. 129-132, dos bolandistas. Veja-se E. G. Gardner, Story of Siena, p. 187 e passim; e V. Lusini, Il San Giovanni di Siena, que afirma que os documentos provam que, no ano de 881, foi dedicada a Santo Ansano uma pequena igreja, cujas ruínas ainda existem. Presume-se que essa igreja tenha sido o primeiro batistério de Siena.2

O nome de Elígio, assim como o de seu pai, Equerio, e o de sua mãe, Terrígia, provam que era de origem galo-romana. Nasceu em Chaptelat, perto de Limoges, por volta do ano 588. Seu pai, um artesão, percebeu que Elígio tinha grandes aptidões para a gravação em metal e o colocou como aprendiz na oficina de Abón, o encarregado de cunhar a moeda em Limoges. Depois de aprender o ofício, Elígio atravessou o Loire e dirigiu-se a Paris, onde conheceu Bobbo, o tesoureiro de Clotário II. O monarca encarregou Elígio da fabricação de um trono adornado de ouro e pedras preciosas. Com o material que lhe deram, Elígio construiu dois tronos como o que lhe havia sido pedido. Clotário ficou admirado da habilidade, da honestidade, da inteligência e de outras qualidades do jovem, pelo que imediatamente o tomou a seu serviço e o nomeou chefe da casa da moeda. O nome de Elígio ainda se vê em algumas moedas cunhadas em Paris e Marselha durante os reinados de Dagoberto I e Clodoveu II. O biógrafo de Elígio diz que ele trabalhou os relicários de São Martinho (de Tours), São Dionísio (Saint-Denis), São Quintino, Santos Crispino e Crispiniano (Soissons), São Luciano, São Germano de Paris, Santa Genoveva e outros. A habilidade e a posição do santo, assim como sua amizade com o rei, fizeram dele uma personagem importante. Elígio não deixou que a corrupção da corte manchasse sua alma e destruísse sua virtude, mas soube adaptar-se perfeitamente à sua condição. Por exemplo, vestia-se magnificamente, de modo que em certas ocasiões suas roupas eram de pura seda (material muito raro então na França) e estavam bordadas com fio de ouro e adornadas com pedras preciosas. Quando um forasteiro perguntava onde morava Elígio, as pessoas respondiam: “Ide a tal rua; sua casa é a que está cercada por uma multidão de pobres.”
São Audoeno escreveu a hagiografia Vita Sancti Eligii, na qual narrou a vida e as obras de Santo Elígio. Em determinado trecho, recorda com especial carinho como, mesmo vivendo na corte real, Elígio adquiria um aspecto progressivamente mais austero e marcado pela ascese, sinal de sua profunda vida interior e de seu desapego das vaidades do mundo:
Ele era alto, de rosto rosado. Tinha uma bela cabeleira encaracolada. Suas mãos eram honestas e seus dedos longos. Tinha o rosto de um anjo e um olhar prudente. No início, costumava usar ouro e pedras preciosas em suas roupas, com cintos feitos de ouro e pedras preciosas e bolsas elegantemente adornadas com joias, linho coberto com metal vermelho e sacos de ouro com bainhas de ouro e todos os tecidos mais preciosos, incluindo seda. Mas tudo isso não passou de ostentação passageira desde o início, e por baixo usava um cilício junto à pele e, à medida que progredia para a perfeição, doava os ornamentos para as necessidades dos pobres. Então você o veria, aquele que antes brilhava com o peso do ouro e das pedras preciosas que o cobriam, vestido com as roupas mais vis e com uma corda como cinto.3

É curioso o episódio ocorrido quando Clotário pediu a Elígio que prestasse o juramento de fidelidade. O santo, fosse por escrúpulo de jurar sem necessidade suficiente, fosse por temor do que o monarca poderia mandar-lhe fazer ou aprovar, escusou-se de prestar o juramento com tal obstinação que incomodou o rei durante algum tempo, até que, enfim, Clotário compreendeu que a razão da repugnância de Elígio provinha realmente de sua retidão de consciência e ficou convencido de que essa mesma retidão supria amplamente os juramentos dos outros ministros. Santo Elígio resgatou muitos escravos. Alguns deles permaneceram a seu serviço e lhe foram fiéis durante toda a vida. Entre eles contava-se um saxão chamado Tilo, venerado como santo em 7 de janeiro, que foi o primeiro dos discípulos a seguir o santo da oficina da corte para sua diocese. Na corte, Elígio tornou-se amigo de Sulpício, Bertário, Desidério, Rústico (irmão do anterior) e, sobretudo, de Audoeno. Todos eles chegaram, com o tempo, a ser bispos e santos canonizados. Audoeno (também chamado Ouen) devia ser ainda muito jovem quando conheceu Santo Elígio; durante muito tempo lhe foi atribuída a Vita Eligii, que os historiadores atualmente consideram obra de um monge que viveu mais tarde em Noyon. Nessa biografia descreve-se Santo Elígio na corte, dizendo que era “alto, de feições juvenis, barba e cabelo encaracolados sem artifício algum; suas mãos eram finas e de dedos longos, em seu rosto refletia-se uma bondade angelical e sua expressão era grave e natural”.
Dagoberto I herdou a estima e a confiança que seu pai professava ao santo; contudo, como tantos outros monarcas, Dagoberto preferia que seu conselheiro o orientasse nos assuntos públicos e políticos mais do que nas questões íntimas de sua conduta moral. O rei doou a Santo Elígio as terras de Solignac, no Limousin, para que fundasse um mosteiro. Os monges que aí se estabeleceram no ano 632 observavam uma regra que combinava a de São Columbano e São Bento. Sob a direção experiente do fundador, os monges se distinguiram em diversas artes. Dagoberto doou também a Santo Elígio uma casa em Paris para que fundasse um convento de religiosas, que o santo colocou sob a direção de Santa Áurea. Elígio pediu ao rei alguns terrenos para completar os edifícios, e o monarca lhos concedeu. O santo ultrapassou ligeiramente a superfície que o rei lhe havia concedido e, assim que se deu conta, foi pedir-lhe perdão. Dagoberto, surpreendido com tamanha honestidade, disse aos cortesãos: “Alguns de meus súditos não têm o menor escrúpulo em roubar-me propriedades inteiras, enquanto Elígio se angustia por ter tomado algumas polegadas de terra que não lhe pertenciam.” Naturalmente, um homem tão honrado podia ser um excelente embaixador, e por isso, ao que parece, Dagoberto o enviou a negociar com o príncipe dos turbulentos bretões, Judecael.

Santo Elegio foi eleito bispo de Noyon e Tournai. Pela mesma época, seu amigo Santo Audoeno foi eleito bispo de Rouen. Ambos receberam a consagração episcopal no ano 641. Santo Eligio distinguiu-se no serviço da Igreja tanto quanto se havia distinguido no do rei. Com efeito, sua solicitude paternal, seu zelo e sua vigilância foram admiráveis.
Desde logo, preocupou-se com a conversão dos infiéis, pois a maioria dos habitantes da região de Tournai ainda não se havia convertido ao cristianismo. Uma grande porção de Flandres deve a conversão a Santo Eligio. O santo pregou nos territórios de Antuérpia, Gante e Courtrai. Ainda que os habitantes, selvagens como feras, zombassem dele por ser “romano”, o santo não desistiu, mas assistiu os enfermos, protegeu a todos contra a opressão e empregou todos os meios que sua caridade lhe inspirou para vencer a obstinação deles. Pouco a pouco, os bárbaros amoleceram e alguns se converteram. Santo Eligio batizava a cada dia de Páscoa quantos havia conduzido à luz do Evangelho durante o ano.
Seu biógrafo nos diz que pregava ao povo todos os domingos e dias de festa, e que o instruía com zelo infatigável. Na biografia do santo há um extrato de vários de seus sermões reunidos em um só, o que basta para comprovar que Eligio tomava passagens inteiras dos sermões de São Cesário de Arles. Talvez fosse mais correto dizer que foi o biógrafo quem tomou essas passagens de São Cesário, mas o certo é que nas dezesseis homilias atribuídas a Santo Eligio observa-se a mesma influência de São Cesário.
Uma dessas homilias é provavelmente autêntica. Trata-se de um sermão muito interessante, no qual o santo prega contra as superstições e as práticas pagãs, entre as quais menciona as festas de 1º de janeiro e de 24 de junho, e o costume de não trabalhar às quintas-feiras (“dies Jovis”) por respeito a Júpiter. Também proíbe os malefícios (tanto os bíblicos como os de outras espécies), a adivinhação da sorte, a análise dos presságios e outras superstições que ainda existem em muitos países. Em seguida, exorta à oração, à comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo, à unção dos enfermos, ao sinal da cruz e à recitação do Credo e da oração do Senhor.

Em Noyon, Santo Eligio fundou um convento de religiosas. Para governá-lo, fez vir de Paris sua protegida, Santa Godeberta, e um dos monges do mosteiro situado fora da cidade, no caminho de Soissons. O santo promoveu muito a devoção aos santos do lugar; durante seu episcopado, foram esculpidos por ele mesmo ou sob sua direção alguns dos relicários mencionados acima. Santo Eligio desempenhou um papel muito importante na vida eclesiástica de seu tempo. Pouco antes de sua morte, durante um curto período, foi conselheiro da rainha regente Batilde, que apreciava muito seu critério. O biógrafo do santo dá alguns exemplos que mostram a alta estima que a rainha lhe tinha, pois ambos tinham em comum não só a maneira de ver os problemas políticos, mas também uma grande solicitude pelos escravos (Batilde, quando criança, fora vendida como escrava). O efeito desses sentimentos refletiu-se nos resultados do Concílio de Chalon (c. 647), que proibiu a venda de escravos fora do reino e impôs a obrigação de deixá-los descansar aos domingos e dias de festa.
O único escrito certamente autêntico de Santo Eligio é uma encantadora carta que enviou a seu amigo São Desidério de Cahors: “Quando tua alma se derramar em oração diante do Senhor, lembra-te de mim, Desidério, que me és tão querido como um outro eu... Saúdo-te de todo o coração e com o mais sincero afeto. Também te saúda nosso fiel companheiro Dado.” Este era São Audoeno. Quando já levava dezenove anos governando sua diocese, Santo Eligio teve uma revelação sobre a proximidade de sua morte e a predisse a seu clero. Pouco depois, contraiu uma febre. Ao sexto dia, convocou todos os membros de sua casa para despedir-se deles. Como todos começassem a chorar, o santo não pôde conter as lágrimas. Em seguida, encomendou-os a Deus e morreu algumas horas mais tarde. Era 1º de dezembro do ano 660. Ao saber que o santo estava enfermo, a rainha Batilde partiu apressadamente de Paris, mas chegou na manhã seguinte à morte de Eligio. A rainha organizou os preparativos para transferir os restos ao mosteiro que ele havia fundado em Chelles, embora outros quisessem que fossem levados a Paris. O povo de Noyon opôs-se a todos os projetos e Eligio foi sepultado na cidade. Suas relíquias foram mais tarde transferidas para a catedral, onde ainda se conservam em grande parte. Durante muito tempo, Santo Eligio foi um dos santos mais populares da França. Na Idade Média, sua festa era celebrada em toda a Europa do norte. Santo Eligio é o Patrono dos Ourives e dos Ferreiros. Também é invocado em assuntos relacionados com os cavalos, por causa de certas lendas. O santo praticou seu ofício durante toda a vida, e ainda se conservam algumas obras que lhe são atribuídas.

Talvez a vida de Santo Eligio seja, entre as dos santos merovíngios, a que mais revela sobre a vida cristã dessa época, razão pela qual não é estranho que se tenha escrito muito a seu respeito. A obra fundamental é a Vita S. Eligii, um documento excepcionalmente longo que, como dissemos acima, é atribuída a Santo Audoeno. O melhor texto é o editado por B. Krusch em MGH., Scriptores Merov., vol. IV, pp. 635-742; pode-se ver também em Migne, PL., vol. LXXXVII, col. 477-658. É certo que São Audoeno escreveu sobre seu amigo, mas a biografia que possuímos foi redigida em Noyon mais de meio século depois. Embora provavelmente contenha a maior parte da obra de São Audoeno, ela a reelabora e completa em muitos aspectos. Há um excelente artigo de E. Vacandard sobre Santo Eligio no DTC., vol. IV, col. 2340-2350; existem ainda vários artigos do mesmo autor sobre o tema, entre os quais mencionaremos particularmente os da Revue des questions historiques (1898-1899), onde discute muito a fundo a questão da autenticidade das homilias atribuídas ao santo. Veja-se também Van der Essen, Étude critique sur les saints mérovingiens (1904), pp. 324-336; H. Timerding, Die christ. Frühzeit Deutschlands, vol. I (1929), pp. 125-149; S. R. Maitland, The Dark Ages (1889), pp. 101-140; e P. Parsy, Saint Éloi (1904), na coleção Les Saints. H. Leclercq, em seu longo artigo do DAC., vol. IV, col. 2674-2687, especifica detalhadamente as obras de arte atribuídas a Santo Eligio. Sobre os “sermões missionais” e a influência de São Cesário nas homilias de Santo Eligio, veja-se W. Levison, England and the Continent... (1946), apêndice X, pp. 302-314, passim.4
Referências:
1. Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Vol. 20, p. 367.
2. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, p. 450.
3. Jones, Terry H.,'"Saint Ouen of Rouen: The Life of Saint Eligius".
4. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. .451-454.


























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