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Vida de São Modesto de Jerusalém e São Lázaro (17 de dezembro)



AVISO: Hoje é dia de jejum e abstinência de carne (Quatro-Têmporas)




São Modesto de Jerusalém
São Modesto de Jerusalém

Com o pretexto de vingar o seu idoso protetor, o imperador Maurício, assassinado por Focas em 602, Cosroes II, rei dos persas, invadiu os territórios da Síria. Não encontrando nenhuma resistência séria, estendeu as suas conquistas. No ano de 613, o general persa Romizanes, chamado o “Scharbaraz” (o “javali real”), apoderou-se de Damasco e, no ano seguinte, entrou na Palestina, onde foi bem acolhido pelos judeus e samaritanos, enquanto os cristãos, afetados por divisões internas, foram incapazes de se defender. Nessas condições, o patriarca de Jerusalém, Zacarias, julgou preferível tratar com o inimigo que, por sua parte, manifestava intenções pacíficas. Deve-se levar em conta que, na Pérsia, os cristãos eram bastante numerosos naquela época e que alguns deles ocupavam cargos de importância. O próprio Cosroes mostrava certa simpatia pela religião cristã. Mas havia em Jerusalém um partido de intransigentes, convencidos de que Deus não permitiria que a Cidade Santa caísse nas mãos dos bárbarocs. Estes foram os que ameaçaram o patriarca de fazê-lo perecer como traidor se entrasse em negociações com os invasores persas. Zacarias cedeu às pressões, não sem antes declarar que não se responsabilizava pelas desgraças que inevitavelmente sobreviriam. Então enviou a Jericó o higúmeno [a] de São Teodósio, chamado Modesto, com a missão de reunir e convocar a guarnição bizantina. Os persas não deram tempo para que chegassem os reforços e, em maio de 614, entraram na Cidade Santa, incendiaram as igrejas e mataram grande número de habitantes, venderam muitos outros como escravos e deportaram o restante, juntamente com o patriarca Zacarias, para a Pérsia. Graças à intervenção do ourives particular do rei Cosroes, um cristão chamado Yazdin, as relíquias da verdadeira Cruz não foram destruídas, embora tenham sido confiscadas como despojo de guerra.


Durante alguns anos, os habitantes da Palestina tiveram de suportar um regime de terror, submetidos como estavam aos excessos dos persas e às represálias dos judeus que aproveitaram a situação para destruir as igrejas.


Os primeiros êxitos de Heráclio, em 622, obrigaram Cosroes a mudar de atitude para não provocar revoltas entre os povos conquistados. Em consequência, expulsou os judeus do território de Jerusalém, ordenou a restituição das igrejas e mosteiros aos cristãos e concedeu-lhes o direito de reconstruir o que estava em ruínas, além de lhes outorgar a liberdade de culto. Mas, apesar dos favores concedidos, o rei apoiava decididamente os hereges monofisitas, e os cristãos da Palestina, privados do seu patriarca e da maioria dos sacerdotes e monges que haviam fugido para além do Jordão, para o Egito e até para o Ocidente, corriam o risco de cair na heresia.


Foi então que entrou em cena o higúmeno Modesto, digno sucessor de São Teodósio, com coragem suficiente para empreender a reconstrução moral e material da Cidade Santa. Alguns anos mais tarde, Antíoco, monge de São Sabas, escreveu a Eustácio de Ancira para lhe relatar o martírio de quarenta e quatro monges e concluía a sua carta com estas palavras de esperança:


“Pela graça de Cristo e pelo zelo do nosso santíssimo pai Modesto, os mosteiros foram novamente povoados. Pois o virtuoso Modesto não vela apenas pelos mosteiros do deserto, mas também pelos das cidades e seus arredores, e o espírito de Deus está com ele. Com efeito, Modesto é para nós um novo Beseleel ou outro Zorobabel, cheio do Espírito Santo, e levantou novamente os veneráveis santuários de Nosso Salvador Jesus Cristo que haviam sido derrubados e incendiados: a santa igreja do Calvário, a santa Anástase, a venerável casa da preciosa Cruz, a Mãe das igrejas, a da sua bendita Ascensão e os outros templos veneráveis”.

Santo Modesto de Jerusalém
Santo Modesto de Jerusalém

Muito mais tarde, Eutíquio, que era médico e chegou a ser patriarca de Alexandria (933–940), elogiou também os méritos de Modesto. “Quando os persas se retiraram de Jerusalém”, escreveu, “depois de terem destruído e queimado as igrejas, havia no mosteiro de Duaks, isto é, no de São Teodósio, um monge chamado Modesto, que era o superior. Ao retirarem-se os persas, Modesto viajou para Ramlé, Tiberíades, Tiro e Damasco para inflamar a fé dos cristãos e pedir-lhes ajuda para a reconstrução das igrejas de Jerusalém. Graças às suas doações, Modesto reuniu abundantes recursos e regressou à cidade, onde construiu a igreja da Ressurreição, o Sepulcro, o lugar do Crânion e São Constantino. Essas construções subsistem até hoje. Ao saber que Modesto reconstruía as igrejas destruídas pelos persas, João o Esmoler, patriarca de Alexandria, enviou-lhe mil animais de tração, mil sacos de trigo, mil sacos de grãos, mil barris de peixe salgado, mil ânforas de vinho, mil lâminas de ferro e mil operários”.


O propósito de Modesto era dar às basílicas a magnificência e o esplendor que tinham antes da invasão. O fogo dos incêndios havia corroído os telhados, enegrecido as paredes e destruído os ornamentos. Todo o mobiliário foi despedaçado ou levado como despojo. A tarefa era árdua, e Modesto não tentou criar nada de novo, mas apenas restaurar. As pesquisas demonstraram que ele respeitou as formas originais, sobretudo no Santo Sepulcro, onde se conservam detalhes da construção de Constantino que outros autores anteriores acreditaram ser obra de Modesto. Seu grande mérito foi ter-se posto imediatamente em ação, pois, se tivesse esperado tempos melhores, que nunca chegaram, não teria devolvido ao culto cristão as igrejas de Jerusalém. Começou pela mais venerável das basílicas, a do Santo Sepulcro, que restaurou em todas as suas partes; depois continuou com a Anástasis, o Crânion, a capela do Calvário e a igreja da Cruz, bem como a grande basílica do Martyrium, que, a partir do século IX, passou a levar o nome de seu construtor, São Constantino. Com o nome de “Mãe das igrejas”, o monge Antíoco designa a grande basílica da cidade alta que se encontrava no lugar onde esteve o Cenáculo e que, com o nome de Santa Sião, foi objeto de particular veneração. No Monte das Oliveiras, Modesto preocupou-se especialmente com o conjunto formado pela igreja da Ascensão e a de Santa Helena.


Como Modesto não pôde ocupar-se da restauração de igrejas tão ilustres como a do Getsêmani e a de Santo Estêvão, por falta de recursos, elas desapareceram e foram substituídas por oratórios pobres e exíguos. Jerusalém deveu a Modesto a fisionomia que conservou até a época das Cruzadas, pois a sua atividade não se limitou às grandes basílicas, mas alcançou também muitas igrejas secundárias, como a de São João Batista, que ainda existe.


Enquanto Modesto se ocupava de suas reconstruções, o imperador Heráclio, com uma série de campanhas triunfais, arrancou dos persas todas as suas conquistas. Quando exigiu a evacuação total da Síria, recuperou as relíquias da verdadeira Cruz. Mandou transportá-las para Tiberíades e ele mesmo as acompanhou até Jerusalém, aonde chegou em março de 630. A entrada triunfal do imperador vitorioso, portador das veneradas relíquias, deu origem a inúmeras lendas cujo principal defeito foi relegar ao esquecimento Modesto, o restaurador dos Lugares Santos. Somente o relato de Eutíquio, mais histórico e mais simples, lhe presta a devida homenagem: “À sua chegada a Jerusalém, Heráclio foi recebido com incenso pelos habitantes da cidade e pelos monges de Sig, à frente dos quais se encontrava Modesto. Quando o imperador entrou na cidade, afligiu-se profundamente ao ver tudo o que os persas haviam devastado e incendiado. Mas, ao saber que Modesto havia reconstruído a igreja da Ressurreição, o lugar do Crânion e a igreja de São Constantino, experimentou grande alegria e agradeceu a Modesto pelo que havia feito”.


Ícone búlgaro de São Modesto de Jerusalém de meados do século XIX do Museu de Arte de Burgas, Bulgária
Ícone búlgaro de São Modesto de Jerusalém de meados do século XIX do Museu de Arte de Burgas, Bulgária

Como o patriarca Zacarias havia morrido no exílio, Heráclio julgou que não poderia haver melhor sucessor do que aquele que havia ocupado o seu lugar durante longo tempo e, em consequência, Modesto tornou-se patriarca de Jerusalém. O imperador Heráclio levou-o consigo até Damasco para lhe entregar o dinheiro do fisco da Síria e da Palestina. Ainda havia muito trabalho a ser feito nas igrejas de Jerusalém, e Modesto continuou sem descanso as suas tarefas de restaurador e as suas viagens de inspeção, mas a morte o surpreendeu numa delas, em Sozón, localidade fronteiriça da Palestina. Naquela época, correu com insistência o rumor de que os companheiros de viagem de Modesto o haviam envenenado para se apoderarem do ouro que levava consigo.


O corpo de Modesto foi transportado para Jerusalém e sepultado na basílica do Martyrium. “A memória de Modesto, patriarca de Jerusalém, reconstrutor de Sião depois do incêndio”, foi honrada na Cidade Santa na data de 17 de dezembro. Os sinaxários o mencionam em 19 de outubro, 16 e 18 de dezembro. O calendário de mármore de Nápoles, gravado no século IX, nomeia o santo em 18 de dezembro. O Martirológio Romano não faz menção de São Modesto, e o seu culto, que não parece ter sido muito popular nem mesmo no Oriente, deixou poucos vestígios. Contudo, em algumas igrejas da Capadócia, a sua imagem aparece em afrescos e mosaicos.


Toda a fama de Modesto reside na reconstrução das igrejas de Jerusalém. H. Vincent e F. M. Abel, em Jerusalem, vol. II, e Jérusalem Nouvelle, Paris, 1914–1926, publicaram um estudo sobre as diversas fontes de informação. Podem-se confrontar as suas conclusões com as de A. Grabar, em Martyrium, Paris, 1946 (cf. índice, vol. II, p. 390). F. M. Abel, Histoire de la Palestine, vol. II, 1952, pp. 389–392. Dict. de théol. cath., vol. X, cols. 2047–2048. A carta do monge Antíoco a Eustácio de Ancira encontra-se em PG., vol. LXXXIX, cols. 1421–1427; Eutíquio, em Corpus scriptor. christian. oriental., cols. 150, 314 e 325, bem como em Hagiographie napolitaine da Analecta Bollandiana, vol. LVII, 1939, pp. 42–43. De Jerphanión, em Les églises rupestres de Capadoce, vol. II, p. 508 e lâmina 59. A biografia de São Modesto, descoberta e editada por Loparev em 1892 (Biblioth. hag. gr. n. 1299), é uma autêntica fábula. Potio atribui a Modesto três discursos (PG., vol. CIV, cols. 244–245), mas a sua autenticidade é duvidosa. O único desses discursos que foi editado integralmente, o que se refere à Dormição da Virgem, é apócrifo. O Pe. Jugie atribui-o a um autor do fim do século VII ou do início do século VIII, que viveu longe de Jerusalém depois da controvérsia monotelita. Veja-se, a este respeito, La Mort et l’Assomption de la Sainte Vierge, Roma, 1944, pp. 139–150.1




Ressurreição de Lázaro por Jesus, de Carl Bloch (1834–1890)
Ressurreição de Lázaro por Jesus, de Carl Bloch (1834–1890)

No capítulo undécimo do Evangelho de São João há um relato muito detalhado da ressurreição de Lázaro de Betânia, irmão de Marta e Maria e amigo muito querido do Senhor. Mas a Bíblia não fala da vida posterior do ressuscitado. Nas Pseudo-clementinas conta-se que Lázaro acompanhou São Pedro à Síria. A tradição mais comum no Oriente afirma que os judeus embarcaram Lázaro em Jafa, numa nave que fazia água, juntamente com suas duas irmãs e outros cristãos, e que a nave chegou milagrosamente à ilha de Chipre. Lázaro foi eleito bispo de Kítion (Lárnaca) e morreu pacificamente trinta anos mais tarde. No ano 890, o imperador Leão VI construiu em sua honra uma igreja e um mosteiro em Constantinopla e transferiu para lá uma parte das supostas relíquias, que se encontravam em Chipre.


No século XI começou-se a falar de que Lázaro teria estado na Europa ocidental, a propósito da lenda provençal de Santa Maria Madalena. Numa carta que Bento IX escreveu por ocasião da consagração da igreja abacial de São Vítor de Marselha, faz alusão às relíquias de Lázaro que ali se encontravam; mas não diz que ele tenha sido bispo da Provença, nem que tenha pregado nessa região, como afirma a lenda. Segundo essa lenda, Lázaro foi obrigado a embarcar num navio sem remos nem leme (com Maria Madalena, Marta, Maximino, etc.) e chegou às praias do sudeste da Gália. Em Marselha converteu muitas pessoas, foi eleito bispo e morreu pela fé durante a perseguição de Domiciano, no local onde se encontra a prisão de São Lázaro. Foi sepultado numa caverna, sobre a qual mais tarde se erigiu a abadia de São Vítor. Suas relíquias teriam sido trasladadas para Autun, segundo se diz; mas o único fato certo é que, em 1146, foram trasladados para a catedral dessa cidade alguns restos humanos. Um fato que pode lançar luz sobre a origem da lenda é que há na cripta de São Vítor de Marselha um epitáfio de um bispo de Aix (século V), que renunciou ao governo de sua sede, fez uma viagem à Palestina, voltou e morreu em sua pátria, sendo ali sepultado. A lenda talvez esteja também relacionada com a trasladação das relíquias de São Nazário, de Milão para Autun, no ano 542.


A Ressurreição de Lázaro, por Jose Casado del Alisal
A Ressurreição de Lázaro, por Jose Casado del Alisal

Existem muitas provas de que, desde os primeiros tempos do cristianismo, Lázaro era venerado tanto em Jerusalém como na Igreja inteira. A peregrina Etéria (c. 390) descreve a procissão que se realizava no sábado anterior ao Domingo de Ramos ao “Lazarium”, isto é, o local onde Lázaro havia sido ressuscitado. Etéria ficou muito impressionada ao ver a grande quantidade de pessoas que assistiam a essa procissão. Na Igreja do Ocidente realizavam-se procissões semelhantes, quase sempre durante a Quaresma. Em Milão, o Domingo da Paixão era chamado “Dominica de Lázaro”. Santo Agostinho conta que a passagem evangélica da ressurreição de Lázaro era lida na África no ofício da Aurora do Domingo de Ramos.


Veja-se DAC., vol. VII, cc. 2009–2086, e nossa bibliografia sobre Santa Maria Madalena (22 de julho). Mencionemos também o artigo “Lazarus”, de L. Clugnet, na Catholic Encyclopedia (vol. IX, p. 98), e o artigo do Pe. Thurston na revista irlandesa Studies, vol. XX (1934), pp. 110–123. Não merece nenhum crédito a lenda que afirma que as relíquias de São Lázaro estão em Autun; tem muito mais peso a tradição oriental que se refere a Kítion, em Chipre. Veja-se Lexikon f. Theologie und Kirche, vol. VI, c. 432. Sobre as celebrações litúrgicas, cf. Cabrol, em DAC., vol. VI, cc. 2086–2088. Em meados da Idade Média, inventou-se a lenda de que Lázaro teria relatado por escrito o que viu no outro mundo; veja-se Max Voigt, Beiträge zur Geschichte der Visionsliteratur im M.A., vol. II (1924). A ordem militar dos cavaleiros hospitalários de São Lázaro de Jerusalém (que ainda existe sob duas formas distintas na França e na Itália) deriva o seu nome do Lázaro da parábola do rico Epulão, e não do ressuscitado.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 578-581.

2. Ibid. pp. 581-582.



Notas:


a. Higúmeno, superior dos mosteiros que difundiram o cristianismo no Oriente. N. do E.



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