Vida de São Edmundo de Abingdon e Santas Gertrudes e Matilde de Hackeborn (16 de novembro)
- Sacra Traditio

- 16 de nov. de 2025
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A Festa de Santa Matilde se celebra em 19 de novembro, aniversário de sua morte, mas pareceu-nos conveniente falar dela aqui, junto com sua discípula Santa Gertrudes. Quando Matilde tinha sete anos, seus pais a confiaram às religiosas de Rossdorf, que pouco depois elegeram como abadessa sua irmã, Gertrudes von Hackeborn. Costuma-se dizer que Santa Gertrudes, a Grande, foi abadessa, mas na realidade trata-se de uma confusão com a irmã de Santa Matilde. Esta tomou o hábito em Rossdorf, foi cantora do convento e exerceu o cargo de mestra das meninas que ali se educavam. Em 1258, as religiosas se transferiram para um mosteiro em Helfta, na Saxônia, de onde era originária a nobre família dos Hackeborn. Três anos mais tarde, Santa Gertrudes, então com cinco anos, foi enviada para ser educada pelas religiosas. Nada sabemos acerca de seus pais nem do lugar em que nasceu. A superiora confiou-a aos cuidados de Santa Matilde e, em pouco tempo, as duas santas começaram a unir-se pelos laços do afeto. Gertrudes, muito atraente e inteligente, tornou-se uma excelente latinista. Com o tempo, tomou o hábito naquele convento, do qual provavelmente não saíra desde a infância.

Por volta dos vinte e seis anos, Santa Gertrudes teve a primeira das revelações que a tornaram famosa. Quando ia se deitar, pareceu-lhe ver o Senhor em forma de jovem. “Embora eu soubesse que me encontrava no dormitório, parecia-me estar no canto do coro onde costumava fazer minhas tíbias orações, e ouvi estas palavras: ‘Eu te salvarei e te libertarei. Não temas.’ Quando o Senhor disse isso, estendeu Sua mão fina e delicada até tocar a minha, como para confirmar Sua promessa, e prosseguiu: ‘Tu mordeste o pó com meus inimigos e tentaste extrair mel dos espinhos. Volta agora a Mim, e minhas delícias divinas serão para ti como vinho.’” Então se interpôs uma sebe de espinhos entre os dois. Mas Gertrudes sentiu-se arrebatada pelos ares e encontrou-se ao lado do Senhor: “Então vi na mão que pouco antes me fora dada como penhor, as joias radiantes que anularam a pena de morte que pairava sobre nós.” Tal foi a experiência de Gertrudes; tal foi o que poderia chamar-se sua “conversão”, apesar de se tratar de uma alma puríssima e inocente. A partir de então, entregou-se com plena consciência e total determinação à conquista da perfeição e da união com Deus. Até então, os estudos profanos tinham sido suas delícias; dali em diante, dedicou-se ao estudo da Bíblia e dos escritos dos Padres, sobretudo de Santo Agostinho e de São Bernardo, que havia morrido pouco tempo antes. Em outras palavras, “do estudo da gramática passou ao da teologia”; e seus escritos mostram claramente a influência da liturgia e de suas leituras particulares.
Exteriormente, a vida de Santa Gertrudes foi como a de tantas outras contemplativas, isto é, pouco pitoresca. Sabemos que costumava copiar trechos da Sagrada Escritura e compor pequenos comentários para suas irmãs de religião, e que se distinguia por sua caridade para com os defuntos e por sua liberdade de espírito. O melhor exemplo disso é sua reação diante de mortes súbitas e inesperadas.
“Desejo de toda alma ter o consolo de receber os últimos Sacramentos, que dão a saúde; no entanto, a melhor preparação para a morte é ter presente que Deus escolhe a hora. Estou absolutamente certa de que, seja que eu tenha uma morte súbita ou prevista, não me faltará a misericórdia do Senhor, sem a qual não poderia salvar-me em nenhum dos dois casos.”
Depois da primeira revelação, Gertrudes continuou vendo o Senhor “veladamente”, na hora da comunhão, até a véspera da Anunciação. Nesse dia, o Senhor a visitou na capela durante os ofícios da manhã e “desde então, concedeu-me um conhecimento mais claro d’Ele, de modo que comecei a corrigir-me de minhas faltas muito mais pela doçura de Seu amor do que pelo temor de Sua justa cólera”.

Os cinco livros do “Arauto da amorosa bondade de Deus” (comumente chamados “Revelações de Santa Gertrudes”), dos quais a santa escreveu apenas o segundo, contêm uma série de visões, comunicações e experiências místicas, ratificadas por muitos místicos e teólogos distintos. A santa fala de um raio de luz, como uma flecha, que provinha da chaga do lado de um crucifixo. Conta também que sua alma, derretida como cera, aplicou-se ao peito do Senhor como para receber a impressão de um selo, e alude a um matrimônio espiritual no qual sua alma foi como absorvida pelo coração de Jesus. Mas “a adversidade é o anel espiritual que sela os esponsais com Deus”. Santa Gertrudes antecipou seu tempo em certos pontos, como a comunhão frequente, a devoção a São José e a devoção ao Sagrado Coração. Com frequência falava do Sagrado Coração com Santa Matilde e conta-se que, em duas visões diferentes, reclinou a cabeça sobre o peito do Senhor e ouviu os batimentos de Seu coração.
Santa Matilde, quinze anos mais velha que Santa Gertrudes e que cantava “como um rouxinol de Cristo”, era também uma alma mística. Aos cinquenta anos, soube que sua discípula vinha anotando cuidadosamente todos os seus ensinamentos e tudo quanto ouvia sobre suas experiências. Matilde alarmou-se ao saber disso; mas o Senhor lhe comunicou que Ele mesmo havia inspirado em Gertrudes o desejo de pôr por escrito esses dados. Com isso, serenou-se Santa Matilde e até corrigiu pessoalmente o manuscrito. Trata-se da obra intitulada “Livro da Graça Especial”, ou “Revelações de Santa Matilde”. Sete anos mais tarde, em 19 de novembro de 1208, Cristo chamou a Si Santa Matilde; “ela Lhe ofereceu seu coração, e Ele o introduziu no Seu. Nosso Senhor tocou o coração de Matilde com o Seu e lhe deu a glória eterna, onde esperamos que, por sua intercessão, nos alcançará muitas graças”. Santa Matilde nunca foi formalmente canonizada, mas sua Festa foi concedida a muitos conventos de religiosas beneditinas. Alguns autores a identificam com a “Dona Matelda” do Purgatório de Dante (cantos 27 e 28).

Atualmente, o povo cristão conhece sobretudo essas duas santas por uma série de orações que lhes são atribuídas. Foram publicadas pela primeira vez em Colônia, no fim do século XVII. Sem nos aventurarmos a julgar o mérito dessas orações, o certo é que não foram compostas por Gertrudes e Matilde. Dom Castel foi o primeiro a publicar em francês uma série de preces selecionadas das obras genuínas de ambas as santas; o cônego John Gray as traduziu para o inglês em 1927. Alban Butler, referindo-se ao livro de Santa Gertrudes, diz que é “provavelmente, depois das obras de Santa Teresa, o escrito mais útil que uma mulher deu à Igreja para alimentar a piedade no estado contemplativo”.
Santa Gertrudes morreu em 17 de novembro de 1301 ou 1302, por volta dos quarenta e cinco anos, após dez anos de penosas enfermidades. Embora não tenha sido formalmente canonizada, Inocêncio XI introduziu seu nome no Martirológio Romano em 1677. Clemente XII ordenou que sua Festa fosse celebrada em toda a Igreja do Ocidente. Tanto os beneditinos quanto os cistercienses asseguram que o mosteiro de Helfta pertencia às suas respectivas ordens e veneram especialmente Santa Gertrudes.
As únicas fontes sobre a vida de ambas as santas são seus próprios escritos. A primeira edição completa e aceitável foi feita pelos beneditinos de Solesmes, com o título Revelationes Gertrudianae et Mechtildianae (1875), mas sem distinguir claramente as diversas obras. O Legatus divinae pietatis divide-se em cinco livros: o segundo foi certamente escrito por Santa Gertrudes; os livros terceiro, quarto e quinto foram compostos sob sua direção; o primeiro foi escrito pelos amigos íntimos da santa, depois de sua morte. Essa obra é a principal fonte sobre a vida de Gertrudes, da qual sabemos muito pouco; mas há também alguns dados no Liber specialis gratiae, que se refere sobretudo a Santa Matilde e encontra-se no segundo livro das Revelationes. A biografia inglesa de Dom G. Dolan, St Gertrude the Great (1912), é excelente, assim como a obra francesa de G. Ledos (1901). E. Michel estudou com acerto a influência de Santa Gertrudes no sentimento religioso de sua época, em Geschichte des deutschen Volkes vom dreizehnten Jahrhundert, vol. II, pp. 174-211. Muitos livros e artigos foram escritos sobre a devoção que Santa Gertrudes professava ao Sagrado Coração, antecipando-se ao seu tempo. Veja-se, por exemplo, A. Hamon, Histoire de la dévotion au Sacré Coeur, vol. II; U. Berlière, La dévotion au Sacré Coeur dans l’Ordre de St Benoît (1920); K. Richstätter, Herz-Jesu Verehrung des deutsch. Mittelalters (1924). Muito se discutiu se Santa Gertrudes foi beneditina ou cisterciense. Veja-se Dom U. Berlière, na Revue Bénédictine, vol. XVI (1899), pp. 457-461; E. Michael, em Zeitschrift f. Kath. Theol., vol. XXIII (1899), pp. 548-552; e Cistercienser Chronik (1913), pp. 257-268. Em Archivum Franciscanum Historicum, vol. XIX (1926), pp. 733-752, demonstra-se que Santa Gertrudes sofreu influência dos franciscanos. Sobre “Donna Matelda”, cf. E. Gardner, Dante and the Mystics, p. 269.1

Edmundo era o filho mais novo de Reinaldo (ou Eduardo) Rich e de sua esposa, Mabel. O casal morava em Abingdon de Berkshire, possuía poucos bens deste mundo, mas era repleto de virtudes e graças. Com o consentimento da esposa e deixando a família provida de tudo o que necessitava, Reinaldo fez, na maturidade, a profissão religiosa no mosteiro de Eynsham, onde morreu pouco depois. Mabel levava uma vida muito austera e educou seus filhos de modo rigoroso e piedoso. Por volta dos doze anos, Edmundo partiu para estudar em Oxford. Uns três anos mais tarde, transferiu-se para Paris para prosseguir seus estudos, junto com seu irmão Roberto. Naturalmente, os dois rapazes tinham certo medo de abandonar sua pátria para irem sustentar-se sozinhos em um país estrangeiro. Sua mãe os exortou a confiar em Deus e deu a cada um uma camisa de cerdas, que ambos prometeram usar. Edmundo voltou à Inglaterra para acompanhar sua mãe na última enfermidade. Mabel lhe deu a bênção antes de morrer. Edmundo pediu que ela também abençoasse seu irmão e suas irmãs, mas ela replicou: “Já os abençoei em ti, porque através de ti receberão abundantes bênçãos do Céu.” Em seguida, Mabel confiou todos os seus irmãos a Edmundo. Como suas duas irmãs desejavam ser religiosas, Edmundo as conduziu ao convento das beneditinas de Catesby, em Northamptonshire, onde ambas se distinguiram por sua santidade e morreram exercendo o cargo de abadessas. Edmundo voltou a Paris para prosseguir seus estudos. Em Oxford havia feito um voto de castidade, que soube guardar fielmente, mesmo em circunstâncias difíceis, segundo conta seu biógrafo. Levava uma vida exemplar na Universidade e costumava assistir assiduamente aos ofícios divinos. Com o tempo, tornou-se mestre em Oxford, onde se dedicou zelosamente ao estudo e ao ensino das matemáticas. Uma noite sonhou que sua mãe lhe mostrava certas figuras geométricas e perguntava o que significavam. Edmundo respondeu que suas aulas versavam sobre essas figuras, e ela replicou que lhe seria mais útil dedicar-se ao estudo da Santíssima Trindade.
A partir de então, Edmundo entregou-se ao estudo da teologia, doutorou-se e recebeu as ordens sagradas, não se sabe se em Oxford ou em Paris. Durante oito anos foi professor de teologia em Oxford e, segundo se diz, foi o primeiro a ensinar a lógica de Aristóteles nessa Universidade. Teve muito êxito como professor e como pregador, e muitos de seus discípulos chegaram a distinguir-se. O santo interessava-se profundamente por eles, sobretudo pelos pobres e enfermos. Conosco mesmo era tão austero quanto fora sua mãe. Como um abade de Reading fez notar, ele não descansava nem mesmo durante as férias. Por volta de 1222, foi nomeado cônego e tesoureiro da catedral de Salisbury. Ao cargo vinha unida uma prebenda em Calne, Wiltshire, onde era obrigado a residir três meses por ano. Edmundo consagrou a quarta parte de suas rendas para criar um fundo catedralício. O resto ele dava quase por completo aos pobres, de modo que o pouco que conservava não lhe bastava para viver todo o ano, e teve de pedir hospitalidade na abadia de Stanley, próxima de Calne. O abade o repreendeu mais de uma vez por sua liberalidade e falta de previsão.
Em 1227, Gregório IX lhe ordenou que pregasse a Cruzada contra os sarracenos e lhe concedeu o direito de receber um estipêndio de cada igreja onde pregasse. Edmundo cumpriu a ordem com grande zelo, mas não aceitou estipêndio algum. Suas palavras eram de fogo e inflamavam seus ouvintes. Conta-se ainda que confirmou sua pregação com milagres em Worcester, Leominster e outros lugares. Guilherme Longsword, conde de Salisbury, que por longo tempo havia descuidado de seus deveres religiosos, converteu-se graças à sua pregação e à sua conversação. São Edmundo foi um dos mestres mais experientes da época em matéria de vida interior e costumava exortar frequentemente os fiéis à oração afetiva. Em certa ocasião escreveu:
“Milhares de pessoas se enganam multiplicando as orações. Eu preferiria dizer devotamente cinco palavras com toda a alma, em vez de 5000 sem acompanhá-las com o afeto e o entendimento. Cantai ao Senhor sabendo o que dizeis; o sentimento da alma deve acompanhar as palavras que os lábios repetem.”
São Edmundo soube unir tão bem a experiência interior com os conhecimentos de teologia mística e especulativa, que atingiu um alto grau de contemplação.

Depois de três votações anuladas, São Edmundo foi eleito arcebispo de Canterbury, uma sede que estivera muito tempo vaga. Os eleitores enviaram alguns homens a Calne para anunciar a notícia a São Edmundo e acompanhá-lo a Canterbury. O santo, que ao que parece nada sabia, protestou contra a eleição. Então os enviados recorreram a Roberto, bispo de Salisbury, que ordenou ao santo que aceitasse. Edmundo submeteu-se, não sem resistência, e foi consagrado em 2 de abril de 1234. Poucos dias depois, tomou parte em um parlamento reunido em Westminster, cujos membros informaram Henrique III do estado lamentável do reino e lhe pediram que despedisse os ministros indignos daquele cargo. Assim o fez o monarca, que enviou São Edmundo e outros bispos ao oeste do país para negociar uma trégua com Llewelyn de Gales e outros nobres desafetos à coroa. Por essa época, São Edmundo nomeou chanceler de sua diocese São Ricardo de Wyche, que seria mais tarde bispo de Chichester. Ao que parece, Ricardo de Wyche e Roberto Rich, irmão de São Edmundo, permaneceram com ele até sua morte. Em 1237, São Edmundo presidiu a cerimônia da solene ratificação feita por Henrique III da “Carta Magna”, na abadia de Westminster. Infelizmente, o matrimônio do monarca com Leonor da Provença abrira a porta a ministros e favoritos estrangeiros. Henrique III conseguira que o cardeal Otto fosse nomeado legado pontifício para apoiar sua política contra os barões ingleses. São Edmundo repreendeu o rei por isso e predisse que o nomeação do legado causaria ainda mais desordens no reino. O cardeal Otto causou muito boa impressão à sua chegada, pois recusou aceitar os presentes que lhe haviam enviado todos os partidos. Na qualidade de legado, presidiu um sínodo reunido em São Paulo, que promulgou certo número de cânones sobre a disciplina do clero e sobre os benefícios eclesiásticos; mas alguns cânones favoreciam os estrangeiros contra os ingleses na questão dos benefícios e foram muito mal recebidos. Henrique III arranjou um modo de valer-se do legado contra São Edmundo e contra os bispos e barões ingleses.
O amor e a solicitude pela paz foram característicos de São Edmundo. No entanto, preferiu romper com todos os seus amigos e inimizar-se com eles antes que aprovar ou tolerar o menor desvio da justiça e do direito. A hostilidade de seus inimigos jamais lhe fez perder a paz, nem diminuiu a terna caridade com que os amava. São Edmundo parecia indiferente a todas as injustiças que se cometiam contra ele. Costumava dizer que as tribulações eram o alimento com que Deus fortalecia as almas, e as considerava como um mel agridoce do qual sua alma devia alimentar-se no deserto desta vida, como São João Batista. Nicolau Trivet, o cronista da ordem de São Domingos, conta que São Edmundo costumava levar sempre em sua comitiva algum sábio dominicano. Um deles, que morreu em idade muito avançada, referiu ao cronista a seguinte anedota: certa vez, o santo havia convidado várias pessoas para comer, e as fez esperar por muito tempo. Como a comida já estava servida, Ricardo, o chanceler da diocese, foi chamar São Edmundo e o encontrou na capela, absorto em oração, elevado vários palmos acima do chão.
As injustiças e abusos cometidos por Henrique III em matéria de relações entre a Igreja e o Estado não foram as únicas dificuldades de São Edmundo. Os monges da Christ Church de Canterbury, a quem estava confiada a catedral, levantaram-se contra o arcebispo em defesa de certos supostos direitos. Embora São Edmundo se mostrasse disposto a negociar e o legado pontifício aconselhasse os monges a se submeterem, estes obstinaram-se até que o escândalo se divulgou por todo o país. São Edmundo decidiu apresentar pessoalmente o assunto em Roma em 1237. Numa noite, o Papa o chamou após as completas. São Edmundo contou ao Pontífice que seu recado chegara quando ele estava em oração. O Papa replicou sorrindo: “Vós seríeis um excelente monge.” O santo respondeu: “Praza a Deus que eu fosse um bom monge e me visse livre do peso dos negócios! Quão feliz e pacífica é a vida dos monges!” Em todo caso, os monges de Canterbury não eram pacíficos, de modo que o arcebispo se viu obrigado a excomungar dezessete deles ao regressar. O rei se opôs a São Edmundo e aos seus sufragâneos. O mesmo fez o cardeal Otto, que absolveu os monges excomungados por São Edmundo, desautorizou várias decisões suas de grande importância e chegou até a usurpar os direitos pessoais do primaz da Inglaterra. Num concílio reunido em Reading, o legado exigiu que os bispos e o clero contribuíssem com a quinta parte de suas rendas para as despesas de guerra do Papa contra o imperador Frederico II. Para então, já existia grande descontentamento pela quantidade de benefícios lucrativos que possuíam na Inglaterra certos personagens, em sua maioria italianos, que tinham sido nomeados pelo Papa e jamais haviam posto os pés no país. Isso trazia consigo grandes danos materiais e espirituais. O maior inimigo desse abuso era o piedoso Roberto Grosseteste, a quem São Edmundo consagrou bispo de Lincoln. Os bispos pediram conselho ao primaz. São Edmundo lhes disse: “Meus irmãos, bem sabeis que vivemos numa época tão difícil que mais nos valeria estar mortos. Temos de fazer da necessidade uma virtude, pois o Papa nos puxa de um lado e o rei do outro, e não vejo como podemos oferecer-lhes resistência.”

Henrique III costumava deixar vacantes as sedes e seus benefícios para desfrutar de suas rendas e até chegava a impedir as eleições, com o dano consequente para os fiéis. São Edmundo havia obtido de Gregório IX um breve segundo o qual, quando um ofício ou benefício permanecia vago durante seis meses, o metropolitano podia aplicar as rendas a qualquer catedral ou igreja abacial. Quando Henrique III conseguiu que o Papa anulasse tal breve, São Edmundo começou a aparecer como uma figura semelhante à de Tomás Becket. Com efeito, o governo de sua diocese tornara-se quase impossível, pois o cardeal Otto anulava todas as medidas que ele tomava. Assim, São Edmundo decidiu deixar o país. Despediu-se do monarca, abençoou a nação, “detendo-se sobre uma colina nas proximidades de Londres”, e embarcou em Thanet. “Olhando para as costas da Inglaterra, pôs-se a chorar amargamente, porque pressentia que nunca mais voltaria a vê-la.”
O santo refugiou-se na abadia cisterciense de Pontigny, “onde se asilavam todos os bispos que tinham sido expulsos da Inglaterra por defender a justiça... O bem-aventurado mártir Tomás havia ali aguardado durante dois anos o prêmio que merecia sua vida.” Durante os poucos meses que passou na abadia, São Edmundo viveu como um simples monge; escrevia no “scriptorium” e pregava nas povoações vizinhas. Em 1240, sua má saúde obrigou-o a trasladar-se ao priorado dos cônegos regulares de Soissy. Ali morreu ao amanhecer da sexta-feira, 16 de novembro, depois de haver levantado a excomunhão dos monges de Canterbury e de ter enviado sua camisa de cerdas a seu irmão Roberto e sua capa e uma imagem a suas duas irmãs. Foi sepultado na igreja maior de Pontigny, onde suas relíquias ainda se conservam com grande veneração. Sua canonização teve lugar seis anos mais tarde. A Festa do santo celebra-se em quase todas as dioceses da Inglaterra, em Meaux, em Sens e nos conventos cistercienses.
No conjunto, estamos muito bem informados sobre a vida de São Edmundo. Além dos abundantes dados que se encontram nas crônicas contemporâneas, como a de Mateus Paris, há pelo menos quatro biografias sérias. Infelizmente, não sabemos quem foram seus autores. Supõe-se que tenham sido compostas por Roberto Rich, Beltrán (prior da abadia cisterciense de Pontigny), Mateus Paris, Eustácio (monge de Canterbury) e Roberto Bacon (frei dominicano, tio ou irmão do célebre franciscano Rogério Bacon); mas é impossível identificar o autor de cada uma. O texto mais extenso e talvez o mais satisfatório pode ser visto em Martène e Durand, Thesaurus novus anecdotorum, vol. III, pp. 1775–1826. O segundo foi publicado por W. Wallace em sua Life of St Edmund of Canterbury (1893), pp. 543–583, junto com outros dois, pp. 589–624. Além desta excelente obra, existem as biografias da baronesa de Palavicini (1898), Mons. Bernard Ward (1903) e M. R. Newbolt (1928). Veja-se também o artigo de H. W. C. Davis, na English Historical Review, vol. XXI (1907), pp. 84–92; a Dublin Review, out. de 1904, pp. 229–237; e A. B. Emden, An Oxford Hall in Medieval Times (1927). Parece que alguns tratados teológicos de São Edmundo passaram despercebidos em um manuscrito, como demonstra Mons. Lacombe em um artigo intitulado Quaestiones Aberdonenses, em Mélanges Mandonnet (1930), vol. II, pp. 163–191. Os bolandistas mencionam entre os “praetermissi” as duas irmãs de São Edmundo: Alice e Margarida; cf. B. Camm, na Revue Bénédictine, vol. X, 1893, p. 314.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 348-350.
2. Ibid. pp. 352-356.


























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