Vida de São Pedro Bálsamo e Santa Genoveva (3 de janeiro)
- Sacra Traditio

- 2 de jan.
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De acordo com o relato de suas “atas”, Pedro Bálsamo nasceu no território de Eleuterópolis, na Palestina, e foi feito prisioneiro em Aulana, durante a perseguição de Maximino. No interrogatório, Severo, governador da Província, começou perguntando-lhe o nome. Ele respondeu: “O nome de minha família é Bálsamo, mas meu nome de batismo é Pedro”.
Severo: De que família és e onde nasceste?
Pedro: Sou cristão.
Severo: Qual é o teu ofício?
Pedro: Que ocupação ou ofício mais nobre posso ter do que o de ser cristão?
Severo: Conheces os éditos imperiais?
Pedro: Conheço a lei de Deus, Soberano do universo.
Severo: Muito em breve saberás que existe um édito do mais clemente dos imperadores, no qual se ordena que todos aqueles que não sacrificarem aos deuses sejam condenados à morte.
Pedro: Também é necessário fazer-te conhecer uma lei, na qual o Rei Eterno manda que pereçam todos aqueles que oferecem sacrifícios ao demônio. E entre essas duas leis, a qual me aconselhas obedecer? Devo morrer decapitado, ou escolher a condenação eterna do grande Rei e verdadeiro Deus?
Severo: Já que me pedes conselho, minha opinião é que deves obedecer ao édito do imperador e sacrificar aos deuses.
Pedro: Jamais me convencerás a oferecer sacrifícios a ídolos de madeira e de pedra, pois teus deuses não são outra coisa.
Severo: Recordo-te que tenho poder para vingar essas afrontas, condenando-te à morte.
Pedro: Minha intenção não é ofender-te; não fiz mais do que repetir o que está escrito na lei divina.
Severo: Tem compaixão de ti mesmo e sacrifica aos deuses.
Pedro: Para não sentir compaixão de mim mesmo, devo abster-me de sacrificar aos deuses.
Severo: Quero mostrar-me benigno contigo e, portanto, vou dar-te tempo para que reflitas e salves tua vida.
Pedro: Será inútil a demora, pois não mudarei de opinião; faze logo o que estás obrigado a fazer e conclui a obra que o demônio, teu pai, começou, porque eu jamais farei o que Jesus Cristo me proíbe.

Ao ouvir isso, Severo ordenou aos verdugos que desarticulassem Pedro no cavalete. Quando se achava sob a tortura, o governador lhe perguntou ironicamente: “E então, Pedro, agora que provaste o cavalete, estás disposto a sacrificar?” Pedro respondeu: —Dilacera-me com teus ganchos e não me fales de sacrificar aos teus demônios. Já te disse que só oferecerei sacrifícios a Deus; por Ele sofro. Diante de tal resposta, o governador mandou aos verdugos que intensificassem a tortura; mas, longe de se queixar, o mártir entoou alegremente os versos do real profeta: “Uma coisa pedi ao Senhor e só essa buscarei: habitar em sua morada todos os dias da minha vida. Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor”. Os espectadores, ao verem correr em abundância o sangue do mártir, gritavam-lhe: “Obedece ao imperador; sacrifica aos deuses e livra-te assim da tortura”. Pedro replicou: “A isto chamais tortura? Eu não sinto nenhuma dor; ao contrário, se não fosse fiel ao meu Senhor, seria condenado a tormentos que não podem ser imaginados”. Também o juiz interveio: “Sacrifica, Pedro Bálsamo, ou terás de arrepender-te de não o ter feito”.
Pedro: Não sacrificarei, nem me arrependerei de não o fazer.
Severo: Vê que estou prestes a proferir minha sentença.
Pedro: Tal é o meu maior desejo.
Então Severo pronunciou sua sentença: “Damos a ordem de que Pedro Bálsamo seja crucificado, por ter-se recusado a obedecer ao decreto de nossos invencíveis imperadores e por ter defendido obstinadamente a lei de um crucificado”. Assim terminou sua triunfal carreira este glorioso mártir, em Aulana, no dia 11 de janeiro. O Martirológio Romano celebra sua memória no dia 3 de janeiro.
É indubitável que Pedro Bálsamo pode ser identificado com o mártir Pedro Abselamo, o qual, segundo Eusébio (De Martyribus Palest., X, 2-3), foi queimado em Cesareia. Por esta e outras razões, as opiniões sobre a veracidade do relato que transcrevemos neste artigo divergem muito. Ruinart e o próprio Bardenhewer (Geschichte der altkirchl. Literatur, vol. II, p. 640) consideram estas atas como autênticas. P. Allard (Hist. des persécutions, vol. V, p. 126) e H. Leclercq (Les Martyrs, vol. II, p. 323) pensam que se trata de uma compilação pouco exata; mais logicamente, o P. Delehaye (Légendes Hagiographiques, p. 114) opina que tais atas constituem uma espécie de romance histórico fundado em fatos reais. Ver também Harnack, Chronol. Altchristl. Lit., vol. II, p. 474.1
SANTA GENOVEVA (DE PARIS), VIRGEM (c. 500 d.C.)

O pai de Genoveva chamava-se Severo e sua mãe, Gerôncia. A santa nasceu por volta do ano 422, em Nanterre, pequena localidade dos arredores de Paris, nas proximidades do Monte Valérien. A caminho da Bretanha, para onde ia combater a heresia pelagiana na companhia de São Lupo, São Germano, bispo de Auxerre, passou uma noite em Nanterre. Os habitantes os rodearam para receber sua bênção; São Germano pregou um sermão, durante o qual Genoveva, que tinha apenas sete anos, atraiu sua atenção. Ao final da pregação, São Germano chamou os pais da menina e lhes predisse que sua filha seria uma santa. Em seguida perguntou à criança se não era verdade que seu único desejo era servir a Deus e ser esposa de Jesus Cristo. Ela respondeu que, de fato, não pensava em outra coisa, e lhe pediu que a abençoasse de tal modo que ficasse consagrada a Deus a partir daquele instante. O santo prelado dirigiu-se à igreja, seguido pelo povo, e durante o canto dos salmos — como diz Constâncio (uma narração da vida de Santa Genoveva especifica que foi durante a recitação da Hora Nona e das Vésperas) — impôs as mãos sobre a menina. Depois da ceia, despediu-a, pedindo a seus pais que a trouxessem novamente na manhã seguinte. Estes obedeceram, e São Germano perguntou à criança se se lembrava da promessa que havia feito a Deus. Ela respondeu afirmativamente e que esperava guardá-la com fidelidade. O bispo lhe deu uma medalha com uma cruz para que a trouxesse ao pescoço, em lembrança de sua consagração do dia anterior, e recomendou-lhe que nunca usasse braceletes nem joias.
O autor da biografia da santa nos conta que, como a menina pedisse um dia permissão para ir à igreja, sua mãe lhe respondeu com bofetadas e, como castigo de sua crueldade, ficou cega, e só recuperou a vista dois meses mais tarde, ao lavar os olhos com a água que sua filha havia trazido do poço e sobre a qual havia traçado o sinal da cruz. Desde então, os habitantes de Nanterre consideraram o poço como bento.

Por volta dos quinze anos, Genoveva foi apresentada ao bispo de Paris, junto com duas companheiras, para receber o véu. Embora fosse a mais jovem das três, o bispo lhe deu o primeiro lugar, dizendo que o céu já a havia santificado, com o que parecia aludir à promessa de Genoveva de se consagrar a Deus. A partir de então, Genoveva só comia, geralmente, duas vezes por semana, às quintas-feiras e aos domingos, um pouco de pão e uma pequena porção de favas. Com a morte de seus pais, Genoveva foi viver em Paris com sua madrinha. De vez em quando, partia em viagem por motivos de caridade; assim visitou as cidades de Meaux, Laon, Tours, Orléans e algumas outras, que conservam a lembrança de seus milagres e admiráveis predições. Deus permitiu que sofresse duras provações: durante algum tempo, parecia que todos estavam contra ela, e teve de suportar ser tratada como visionária e hipócrita. A chegada de São Germano, provavelmente durante sua segunda viagem à Bretanha, acalmou por algum tempo os caluniadores; mas pouco depois a tempestade estourou novamente. Seus inimigos estavam decididos a desacreditá-la e até mesmo a afogá-la, quando se apresentou o arquidiácono de Auxerre trazendo-lhe pão bento da parte de São Germano, como prova da estima que o bispo lhe dedicava e em sinal de comunhão com ela. O fato parece ter ocorrido quando São Germano se encontrava na Itália, em 448. Essa demonstração de veneração do santo bispo mudou o coração dos inimigos de Genoveva, que se tornaram seus admiradores até o fim de sua vida.

Por essa época, os francos haviam se apoderado da maior parte da Gália, e o rei Childerico pôs cerco a Paris. Como os habitantes da cidade sofressem cruelmente de fome, Santa Genoveva partiu à frente de um grupo que ia em busca de provisões, segundo relata seu biógrafo, e voltou de Arcis-sur-Aube e Troyes com várias embarcações carregadas de trigo. Uma vez senhor de Paris, Childerico, embora continuasse pagão, professou grande respeito por Genoveva; graças às súplicas da jovem, o conquistador poupou a vida de muitos prisioneiros e deu outras provas de generosidade. Graças ao zelo de Genoveva em obter contribuições, foi construída em Paris a igreja de São Dionísio, a mesma que quase um século depois, no ano 629, o rei Dagoberto I reconstruiu, acrescentando-lhe um mosteiro. Genoveva empreendeu muitas peregrinações, na companhia de outras virgens, ao santuário de São Martinho de Tours. A fama de sua santidade era já tão grande que parece ter chegado aos ouvidos de São Simeão Estilita, na Síria. O rei Clóvis, que abraçou a fé em 496, escutava respeitosamente Genoveva e mais de uma vez lhe concedeu a libertação de prisioneiros. Quando chegou a notícia do avanço de Átila, os parisienses prepararam-se para abandonar a cidade; mas Santa Genoveva, como uma Judite ou uma Ester cristã, animou-os a afastar essa ameaça por meio da oração e do jejum. Muitas mulheres passavam o dia inteiro rezando com ela no batistério; daí provém a devoção particular a Santa Genoveva que existia em Saint-Jean-le-Rond, o antigo batistério da igreja de Paris. Genoveva assegurou ao povo que Deus os protegeria contra Átila e, embora muitos a chamassem de impostora, os fatos lhe deram razão, pois o chefe dos bárbaros modificou subitamente seu itinerário e passou ao largo de Paris. Nosso autor atribui a Santa Genoveva a primeira ideia da igreja que Clóvis começou a edificar em honra de São Pedro e São Paulo, para agradar a sua esposa, Santa Clotilde. O corpo de Santa Genoveva foi sepultado ali, por volta do ano 500. Os milagres operados pela santa em sua sepultura tornaram famosa em toda a França a igreja de São Pedro e São Paulo, que o povo passou a chamar templo de Santa Genoveva. Em 1764 foi construída uma nova igreja sobre os restos da antiga: trata-se do “Panteão”, atualmente secularizado e transformado em monumento nacional.

A cidade de Paris tem sido frequentemente protegida pela intercessão de Santa Genoveva. O caso mais famoso é o milagre conhecido com o nome de “dos Ardentes”, isto é, da febre de fogo. Em 1129, uma enfermidade, talvez uma espécie de envenenamento, levou ao túmulo, em poucos dias, milhares de pessoas, sem que os médicos pudessem encontrar qualquer remédio. Estêvão, bispo de Paris, implorou, com o clero e o povo, a misericórdia divina com jejuns e orações. Mas a epidemia não cessou até que as relíquias de Santa Genoveva foram trasladadas em solene procissão à catedral. Muitas pessoas foram curadas apenas por tocar o relicário; somente três dos doentes morreram e a epidemia cessou por completo. O Papa Inocêncio I, que foi a Paris no ano seguinte, após uma minuciosa investigação, ordenou que se celebrasse anualmente, em 26 de novembro, a comemoração desse milagre, o que ainda hoje se faz em Paris. Antigamente existia o costume de levar à catedral os restos de Santa Genoveva, em solene procissão, sempre que havia uma calamidade pública. A maior parte das relíquias da santa foi destruída durante a Revolução.

A antiga vida de Santa Genoveva, da qual tomamos os principais dados e que se atribui a um contemporâneo da santa, que a escreveu dezoito anos após sua morte, tem sido objeto de uma aguda controvérsia. Existem três recensões dela, conhecidas respectivamente pelas siglas A, B e C. O texto A foi editado por B. Krusch em MGH., Scriptores Merov., vol. II, 1896. C. Kohler publicou o texto B em seu inteligente ensaio Étude critique sur le texte de la vie latine de Sainte Geneviève (1881), e o texto C encontra-se na edição Teubner da Vita Sanctae Genovefae, feita por C. Künstle em 1910. Embora o texto C tenha a seu favor a autoridade dos manuscritos mais antigos (século VIII), os críticos geralmente não admitem a prioridade dessa recensão. Mas a controvérsia mais importante versa sobre a autenticidade da própria vida. Bruno Krusch assegura que se trata de uma invenção e que o autor não é um contemporâneo, mas que compilou a vida mais de 250 anos depois, por volta do fim do século VIII. Aqui só podemos dar uma ideia sumária das discussões que a tese de Krusch provocou. Basta dizer que sua opinião não encontrou apoio na maioria dos críticos de peso. Pesquisadores da estatura de Mons. Duchesne, do Prof. G. Kurth, de C. Künstle e de A. Poncelet sustentam que a vida foi realmente escrita por um contemporâneo e que é substancialmente verídica. O leitor encontrará um excelente resumo dos dados certos da vida de Santa Genoveva em H. Lesêtre, Ste. Geneviève (na coleção Les Saints), assim como no ensaio de E. Vacandard, Études Critiques, vol. IV, pp. 67-124 e 255-266. O livro de M. Reynes-Monlaur, Ste. Geneviève (1924), constitui um encantador relato popular. Uma lenda conta que, quando Genoveva ia à igreja para rezar, durante a noite, o demônio acendia um círio para assustá-la; por isso as imagens de Santa Genoveva a representam com um círio, e o demônio se encontra algumas vezes nas proximidades.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 29-30.
2. Ibid. pp. 30-31.


























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