Vida de São Espiridião de Tremitus e São Venâncio Fortunato (14 de dezembro)
- Sacra Traditio

- 14 de dez. de 2025
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Contam-se muitas anedotas deste santo cipriota, que foi pastor, pai de família e bispo. Sozômeno, que escreveu em meados do século V, narra que uns bandoleiros que tentaram roubar certa noite o gado do santo foram detidos por uma mão invisível, de tal modo que não puderam nem roubar o gado nem fugir. Espiridião encontrou-os paralisados na manhã seguinte, orou por eles para que recuperassem o movimento e deu-lhes de presente um carneiro para que não partissem de mãos vazias. Sozômeno relata também que o santo e toda a sua família se abstinham de todo alimento durante vários dias na Quaresma. Numa dessas ocasiões, um forasteiro deteve-se na casa de Espiridião para descansar um pouco. Este viu que o viajante estava muito fatigado e, como não tinha pão para lhe oferecer, mandou cozinhar um pouco de carne de porco salgada e convidou-o a comer. O forasteiro desculpou-se, dizendo que era cristão. Então o santo começou a comer para incitar o estrangeiro a fazer o mesmo e fez-lhe notar que os preceitos eclesiásticos só obrigam dentro do razoável e que não há alimento algum proibido ao cristão.
São Espiridião foi eleito bispo de Tremitus, na costa de Salamina, e desde então, além de seu ofício pastoral, dedicou-se à cura das almas. A diocese era muito pequena e os habitantes pobres; os cristãos eram muito observantes, mas ainda restavam alguns pagãos. Durante a perseguição de Galério, o santo fez uma gloriosa confissão da fé. O Martirológio Romano afirma que Espiridião foi um dos que ficaram marcados como escravos com a perda do olho esquerdo e a aplicação de um ferro em brasa na perna esquerda, para ser enviado a trabalhar nas minas. O Martirológio Romano acrescenta, erroneamente, que São Espiridião assistiu ao Concílio de Niceia no ano de 325.

No Oriente existe uma lenda que conta que, quando Espiridião se dirigia ao Concílio, encontrou um grupo de bispos, os quais se alarmaram muito, pensando que a simplicidade do santo constituía um perigo para a ortodoxia. Assim, ordenaram a seus criados que degolassem as mulas de Espiridião e de seu diácono. Naquela noite, ao encontrar os animais degolados, Espiridião não se perturbou; limitou-se a dizer a seu diácono que tornasse a unir as cabeças aos corpos, e os animais ressuscitaram. Quando o sol nasceu, o diácono percebeu que havia unido a cabeça de sua mula, que era baia, ao corpo da mula do santo, que era alazã.
No Concílio, um filósofo pagão chamado Eulógio atacou o cristianismo. Um bispo idoso, caolho e de modos rudes, levantou-se para responder àquele sofista rebuscado. Sem rodeios, o bispo afirmou que Deus era onipotente e que o Verbo se havia feito homem para redimir o gênero humano, acrescentando que isso era matéria de fé e não se podia demonstrar. Em seguida, perguntou a Eulógio se acreditava nisso ou não. O filósofo refletiu um instante e teve de confessar que sim. Então o bispo lhe disse: “Pois vem comigo à igreja para que eu te conceda o sinal da fé.” Assim fez Eulógio, que comentou que a virtude é mais forte do que as palavras e os argumentos, o que equivalia a dizer que o Espírito Santo se manifestara através daquele bispo inculto. Alguns historiadores posteriores identificaram esse bispo com São Espiridião, mas sem fundamento suficiente.

Certa pessoa havia confiado aos cuidados de Irene, filha de Espiridião, um objeto de grande valor. Como Irene morreu, essa pessoa reclamou o objeto ao santo, mas este não conseguiu encontrá-lo. Então, segundo conta a lenda, Espiridião dirigiu-se ao túmulo de sua filha e perguntou-lhe onde estava o objeto perdido. A morta indicou-lhe o lugar onde se encontrava, e o santo pôde devolvê-lo ao dono. Embora São Espiridião fosse muito inculto, lia diariamente a Sagrada Escritura e conhecia o respeito que se deve à palavra de Deus. Em certa reunião dos bispos de Chipre, São Trifílio, bispo de Ledra (a quem São Jerônimo chama o homem mais eloquente de seu tempo), pregou um sermão. Referindo-se à passagem “Toma tua enxerga e anda”, Trifílio disse “Toma teu leito e anda”, porque lhe pareceu que essa tradução era mais elegante. São Espiridião repreendeu-o por querer embelezar um relato cujo valor consistia precisamente em sua simplicidade e perguntou ao pregador se acreditava que o Senhor não tivesse empregado a palavra adequada. As relíquias de São Espiridião foram trasladadas de Chipre para Constantinopla e, mais tarde, para Corfu, onde ainda hoje são veneradas. O santo é o principal patrono dos católicos de Corfu, Zakynthos e Cefalônia.
Além das alusões relativamente antigas que se encontram nas obras de Sócrates e de Sozômeno, parece que Leôncio de Neápolis escreveu uma biografia de São Espiridião no início do século VII; mas só se conserva a adaptação feita posteriormente por Metafrastes (Migne, PG., vol. CXVI, pp. 417-468). Existe também um sermão de Teodoro de Pafos sobre o santo; Usener publicou alguns parágrafos em Beiträge zur Geschichte der Legendenliteratur, pp. 222-232, e S. Papageorgios fez uma edição completa em 1901. Contudo, em grande parte trata-se de um texto plagiado da biografia anônima dos bispos Metrofânes e Alexandre de Constantinopla (cf. Heseler, Hagiographica, 1934). Diz-se também que Trifílio de Ledra, discípulo de São Espiridião, escreveu outra biografia em versos elegíacos, mas a obra não se conserva. Na arte bizantina, São Espiridião aparece com um gorro de pastor; veja-se, por exemplo, G. de Jerphanion, Les églises rupestres de Cappadoce (1932), e Byzantinische Zeitschrift (1900), pp. 29 e 107. Veja-se também P. Van den Ven, La légende de S. Spyridion (1953), que o Pe. F. Halkin qualificou como “belo trabalho de edição e crítica”.1

Venâncio Honório Clementiano Fortunato nasceu em Treviso por volta do ano 535, educou-se em Ravena e é mais conhecido como poeta do que como santo. Foi um homem muito popular. O rei Sigeberto e sua corte o admiravam tanto quanto Santa Radegunda e suas religiosas. Os escritos de Venâncio Fortunato tornaram-se tão famosos que um panegirista italiano do século XVI disse que as odes de Horácio eram pequenas em comparação com os hinos pindáricos do santo. Contudo, não se pode negar que a popularidade de Venâncio Fortunato se deveu, em parte, a uma fraqueza humana muito explicável: seu desejo de agradar e de ser louvado. É certo que Santa Radegunda, a abadessa Inês e o duque Lupo mereciam os elogios que lhes prodigalizou, mas outros, como Chariberto e Fredegunda, não os mereceram nem mesmo em seus melhores momentos. Fortunato partiu para a Itália quando tinha cerca de trinta anos, a fim de ir ao santuário de São Martinho de Tours para agradecer por ter recuperado a visão após uma doença nos olhos. Durante a viagem, escreveu poemas em honra dos bispos e de outros personagens ilustres que o hospedaram. Como chegou a Metz justamente nos dias em que se celebraria o casamento do rei, compôs um epitalâmio em honra de Sigeberto e Brunequilda. Em Paris, chamou-lhe particularmente a atenção a diligência com que o clero cantava o Ofício Divino.
De Tours passou a Poitiers. Ali se estabeleceu e recebeu a ordenação sacerdotal. Dessa época data a amizade que o uniu por toda a vida a Radegunda, à abadessa Inês e às religiosas da Santa Cruz, das quais foi uma espécie de “factótum” e protetor extraoficial. Venâncio, Radegunda e Inês mantiveram uma intensa correspondência, na qual se intercalavam poemas. Muitas dessas cartas se perderam. A amizade que os unia era suficientemente íntima para ser algre e suficientemente séria para ser fecunda. Numa Quaresma, Fortunato escreveu a Radegunda uma carta em versos, na qual lhe pedia que não se isolasse excessivamente durante aquele tempo de penitência. “Mesmo quando não há nuvens e o céu está sereno, falta o sol quando vós estais ausente.” Em seguida, aconselhava-a a beber vinho e a comer mais para não perder a saúde, e agradecia-lhe pelos frutos e iguarias que ela lhe havia enviado. “Aconselhastes-me a tomar dois ovos à tarde. Para dizer a verdade, tomei quatro. Quisera que minha alma fosse tão dócil aos vossos conselhos quanto o é o meu estômago.” Fortunato termina a carta prometendo a Santa Radegunda que lhe enviaria rosas, lírios e outras flores assim que as encontrasse.

No ano de 569, o imperador Justiniano II enviou uma relíquia da verdadeira Cruz ao mosteiro, o que deu ocasião de ver Fortunato sob outro aspecto. O rei Sigeberto encarregou São Eufrônio de Tours da missão de depositar solenemente a relíquia, pois Meroveu de Poitiers, que não era amigo de Fortunato, havia se recusado. Nessa ocasião, Fortunato compôs o hino “Vexilla regis prodeunt”, que atualmente se canta na Sexta-feira Santa durante a procissão em que se transporta o Santíssimo Sacramento desde o monumento, nas Vésperas do tempo da Paixão e nas festas da Santa Cruz. Fortunato foi sobretudo um poeta litúrgico. Na liturgia romana conserva-se também outro hino seu, o “Pange lingua”.[a] O “Salve festa dies”, que se canta na Páscoa, é também obra de Fortunato.
Santa Radegunda morreu no ano de 587, e Inês faleceu mais ou menos na mesma época. A partir de então, Fortunato participou mais plenamente dos assuntos públicos e eclesiásticos, sendo bem recebido onde quer que fosse necessário um poeta para celebrar algum acontecimento. Foi particularmente amigo de três bispos santos: Félix de Nantes, Leôncio de Bordéus e Gregório de Tours, este último aconselhou-o a recolher e publicar seus poemas. Fortunato publicou dez volumes durante sua vida. Entre suas obras mais sérias contam-se as biografias de São Martinho, de Santa Radegunda e de outros santos. Por volta do ano 600, foi eleito bispo de Poitiers, mas seu episcopado foi muito breve.
Venâncio Fortunato era particularmente sensível — para não dizer excessivamente sensível — às dores e dificuldades das mulheres, como se vê nas linhas que escreveu à abadessa Inês sobre a virgindade, bem como em outras passagens de suas obras. Essa mesma sensibilidade, porém, permitiu-lhe apreciar como poucos o papel da vida e do pensamento cristãos na Gália merovíngia, já que muitas das principais figuras daquele tempo eram mulheres. Em geral, Venâncio Fortunato é considerado um “personagem ilustre, bom poeta e grande bispo”. Nem todos os autores, contudo, são tão benevolentes, pois não faltaram críticos que o acusaram de ter exagerado o tato e a prudência até transformá-los em pusilanimidade e doçura excessiva, e de ter-se guiado pelo princípio de que se deve gozar a vida o máximo possível. É preciso reconhecer que com frequência se deixava levar pelo desejo de agradar; mas também se deve admitir que a ideia de desfrutar o mais possível desta vida e da outra, bem compreendida, não é contrária ao cristianismo. Não há estado de vida no qual a santidade seja impossível. São Venâncio Fortunato foi um cavaleiro romano muito culto, de gostos refinados e de vida pouco austera. Seu nome não figura no Martirológio Romano, mas sua festa é celebrada em várias dioceses da França e da Itália.

As principais fontes são as obras de Gregório de Tours e as cartas e escritos do poeta. O melhor texto das obras completas de Fortunato é o de Leo e Krusch, em MGH., Auctores antiquissimi, vol. IV. Quanto ao juízo literário sobre os escritos de Fortunato, basta citar M. Manitius, Geschichte der lateinischen Literatur des Mittelalters, vol. I, pp. 170-181, e as referências contidas nos volumes seguintes. Veja-se também o longo artigo do DAC., vol. V, cols. 1982-1997; DTC., col. VI, cols. 611-614; e DCB., vol. I, pp. 552-553. Neste último artigo, exageram-se um pouco os defeitos de Fortunato. Helen Waddell publicou em Mediaeval Latin Lyrics (1935), pp. 58-67, o texto e a tradução de cinco poemas de Fortunato. Sobre o culto do santo, cf. B. de Gaiffier, em Analecta Bollandiana, vol. LXX (1952), pp. 262-284.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 557-559.
2. Ibid. pp. 559-561.
Notas:
a. Convém distinguir dois hinos litúrgicos diferentes que começam com as palavras Pange lingua. O Pange lingua gloriosi proelium certaminis, dedicado à Cruz e à Paixão do Senhor, foi composto por São Venâncio Fortunato (séc. VI) e é usado na liturgia da Sexta-feira Santa e da Exaltação da Santa Cruz. Já o Pange lingua gloriosi Corporis mysterium, de caráter eucarístico, foi composto por São Tomás de Aquino (séc. XIII) para a Festa de Corpus Christi. Apesar do mesmo início, tratam-se de hinos distintos, com autores, temas e uso litúrgico próprios.


























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