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Vida dos Sete Irmãos e Santa Felicidade e Os Mártires de Damasco (10 de julho)

  • 10 de jul. de 2025
  • 9 min de leitura




Os Mártires de Damasco
Os Mártires de Damasco

O conflito do Líbano de 1860 foi o ápice de uma revolta camponesa que começou no norte do Líbano como uma rebelião de camponeses maronitas contra seus senhores drusos. A rebelião rapidamente se espalhou para o sul do país, onde assumiu um caráter sectário mais violento: os drusos, com apoio de muçulmanos sunitas e de autoridades otomanas locais, voltaram-se contra a população cristã. Entre 10 mil e 20 mil cristãos foram massacrados pela plebe drusa e por grupos muçulmanos. Cerca de 380 vilarejos cristãos e 560 igrejas foram destruídas.


Após a Guerra da Crimeia, a Assembleia Francesa exigiu certas reformas ao Império Otomano, particularmente no tocante à tolerância às minorias cristãs. Em 1856, o sultão publicou um decreto segundo o qual todos os súditos do império, sem distinção de raça ou religião, ficavam em pé de igualdade em matéria de impostos e com direito a ocupar cargos públicos. Isso constituiu um ultraje aos sentimentos dos maometanos que, durante doze séculos, haviam considerado as comunidades cristãs como “guetos” de raças inferiores excluídas da lei, às quais o decreto do sultão colocava em pé de igualdade com os filhos do profeta. Por outro lado, as notícias do motim da Índia apenas aumentaram o ressentimento dos maometanos. Os turcos, particularmente o bajá Khursud, governador de Beirute, incitaram secretamente os muçulmanos da Síria e, em 1860, a conflagração explodiu em Bait Mari. O estopim foi uma briga entre um druso (muçulmano de uma seita do Líbano) e um jovem cristão, pertencente ao importante rito católico maronita. Os maronitas sofreram mais que os demais católicos nessa perseguição. Quando o massacre começou, os drusos estavam armados, enquanto os cristãos haviam sido desarmados pelas autoridades turcas sob o pretexto de restaurar a paz. De 30 de maio a 26 de junho, os drusos saquearam e incendiaram todas as aldeias maronitas do centro e sul do Líbano, e assassinaram, mutilaram ou violentaram cerca de 6.000 cristãos. Cinco jesuítas foram estrangulados em Zahleh; em Dair-al-Kamar, o abade do mosteiro maronita foi esfolado vivo e vinte monges foram mortos a machadadas. Khursud então dirigiu-se ao distrito com 600 soldados; mas se contentou em disparar um tiro de canhão e, depois, deixou seus homens participarem do massacre. Em 9 de julho, o motim chegou a Damasco. O governador, bajá Ahmed, não moveu um dedo para impedir a matança; em contrapartida, o nobre emir argelino Abd-al-Kadar, grande defensor do Islã, opôs-se abertamente a seus correligionários e deu abrigo a 1.500 cristãos, entre os quais alguns europeus. As vítimas do terror e da violência chegaram, em três dias, a vários milhares; certamente houve mais de 3.000 mortos, sem contar mulheres e crianças. Oito frades menores e três leigos maronitas foram beatificados em 1926, graças às “circunstâncias particularmente claras de sua morte e ao testemunho dos milagres com que Deus os distinguiu”.


Quando a turba invadiu o bairro da cidade onde se situava o convento franciscano, o padre guardião deu abrigo a todas as crianças e alguns cristãos, exortando-os a permanecer firmes na fé. Os refugiados cantaram as ladainhas dos santos diante do Santíssimo Sacramento e receberam a absolvição e a Comunhão. O convento era uma espécie de fortaleza muito bem protegida; provavelmente, os cristãos teriam se salvado, se um traidor — que havia recebido muitos benefícios dos franciscanos — não tivesse guiado a turba até uma porta traseira disfarçada.


O Martírio do Beato Manuel Ruiz
O Martírio do Beato Manuel Ruiz

O BEATO MANUEL RUIZ, guardião do convento, era um espanhol de origem humilde, nascido em Santander em 1804. Quando a turba penetrou no mosteiro, na noite de 9 de julho de 1860, o Pe. Ruiz correu à capela e consumiu o Santíssimo Sacramento; depois, ajoelhou-se diante do altar para esperar a morte. A turba o agarrou, gritando: “Confessa-te, confessa-te!” (isto é, confessa que Alá é Deus e Maomé seu profeta). O beato respondeu: “Sou cristão e morrerei como cristão”. Em seguida, reclinou a cabeça sobre o altar e ali morreu decapitado por um machado.


Todos os outros frades também eram espanhóis, exceto o BEATO ENGELBERTO KOLLAND, que era austríaco. Após quatro anos no seminário de sua diocese, fora dispensado por seu caráter inquieto e vivaz. Mais tarde, foi admitido pelos franciscanos e passou seus anos de ministério no convento de Damasco. Naquela noite, refugiou-se no terraço e alguém cobriu seu hábito com um véu feminino; mas a turba o reconheceu pelas sandálias e o arrastou até o pátio. Como se recusasse a apostatar, foi assassinado de imediato.


O BEATO CARMELO VOLTA perdeu os sentidos com um golpe na cabeça. Uma hora depois, dois maometanos amigos seus lhe ofereceram abrigo em casa, sob condição de que renunciasse à fé. O padre recusou e seus amigos o mataram.


O BEATO NICANOR ASCANIO havia chegado à Síria no ano anterior; se o Pe. Ruiz não lhe tivesse negado permissão de partir, julgando perigosa a viagem, ele teria estado em Jerusalém e escapado da matança.


O BEATO PEDRO SOLER iniciou seu ministério como missionário numa fábrica de Cuevas. Dois meninos que o ouviram recusar a apostasia e presenciaram seu assassinato deram testemunho no processo de beatificação.


O BEATO NICOLÁS ALBERCA, com apenas trinta anos, caiu sob balas em um corredor do convento. Os outros dois mártires franciscanos eram irmãos leigos.


Retrato oficial dos onze mártires de Damasco, incluindo oito franciscanos e os três irmãos Massabki
Retrato oficial dos onze mártires de Damasco, incluindo oito franciscanos e os três irmãos Massabki

O BEATO FRANCISCO PINAZO havia sido "pastor" na juventude. Traído pela noiva, tornou-se irmão leigo da terceira ordem regular, em Huelva; mais tarde, foi admitido na primeira ordem.


O BEATO JOÃO JACOBO FERNÁNDEZ tomou o hábito em Hebron e viveu na Espanha até 1857. Ambos os irmãos haviam se escondido na parte superior da torre da igreja do convento. Os muçulmanos os encontraram e os lançaram do balcão ao pátio. O irmão Francisco morreu instantaneamente; o irmão João agonizou toda a noite até ser degolado por um soldado turco ao amanhecer.


Quase todos os leigos que estavam no convento escaparam com vida. Mas três maronitas pereceram e foram beatificados com os franciscanos. Os BEATOS FRANCISCO, ABDUL-MUTI e RAFAEL MASABKI eram irmãos. O mais velho, Francisco, com cerca de setenta anos, era pai de família, rico e influente. Muti, viúvo, havia se retirado do comércio para viver com o irmão e ajudava os franciscanos na instrução. Rafael, o mais jovem, era solteiro; após trabalhar com o irmão Francisco, tornou-se uma espécie de sacristão do convento. A beatificação desses três mártires é particularmente notável, pois o processo foi concluído em menos de seis meses. A causa dos franciscanos havia sido introduzida em 1885; mas a dos irmãos Masabki apenas em 1926, por iniciativa de Mons. Giannini, delegado apostólico na Síria. Felizmente, o bispo maronita de Damasco possuía em seus arquivos todos os documentos necessários, de modo que a beatificação dos três irmãos ocorreu junto à dos franciscanos, em 10 de outubro de 1926.


Mais detalhes podem ser encontrados em H. Lammens, La Syrie (1921), vol. II, pp. 180ss; P. Paoli, Il beato Emmanuele Ruiz... (1926); P. Seeböck, P. Engelbert Kolland (1904); e C. Salotti, L'eroismo di tre martiri maroniti (1926). Nos Anais da Propagação da Fé (1860), pp. 308-326, há um relato geral do levante.1




Martírio de Santa Felicidade e de seus sete filhos, por Francesco Coghetti
Martírio de Santa Felicidade e de seus sete filhos, por Francesco Coghetti

A festa de Santa Felicidade, viúva e mártir, celebra-se no dia 23 de novembro. No entanto, pareceu-nos justo falar dela ao mesmo tempo que de seus sete filhos. Segundo a lenda, Felicidade era uma nobre cristã que se havia consagrado a Deus em sua viuvez e vivia dedicada à oração e às obras de caridade. Seu exemplo e o de sua família converteram numerosos idólatras à fé. Isso enfureceu os sacerdotes pagãos, que se queixaram ao imperador Antonino Pio de que as numerosas conversões realizadas por Felicidade provocariam a cólera dos deuses e, como consequência, a cidade e todo o país sofreriam terrível desolação. O imperador deixou o caso nas mãos de Públio, prefeito de Roma, que mandou que a santa e seus filhos comparecessem diante dele. Tomou Felicidade à parte e tentou, por todos os meios, induzi-la a oferecer sacrifícios aos deuses, para não se ver obrigado a castigar ela e seus filhos. Mas a santa respondeu:


“Não tentes me amedrontar com tuas ameaças nem me conquistar com teus elogios, pois o Espírito de Deus, que habita em mim, não permitirá que me venças, mas me fará sair vitoriosa de todos os teus ataques.”

Públio replicou: “Infeliz de ti! Se queres morrer, morre então, mas não mates teus filhos!”


“Meus filhos, respondeu Felicidade, viverão eternamente se permanecerem fiéis à fé; mas se oferecerem sacrifícios aos ídolos, os espera a morte eterna.”

No dia seguinte, o prefeito mandou chamar novamente Felicidade e seus filhos e disse a ela: “Tem piedade de teus filhos, Felicidade, pois estão na flor da juventude”. A santa replicou: “Tua piedade é ímpia, e tuas palavras, cruéis”. Em seguida, voltou-se para seus filhos e lhes disse:


“Meus filhos, levantai os olhos ao céu, onde vos esperam Jesus Cristo e seus santos. Permanecei fiéis ao seu amor e lutai valentemente por vossas almas”.

Santa Felicidade. Gravura colorida.
Santa Felicidade. Gravura colorida.

Públio encolerizou-se ao ouvir tais palavras e replicou com raiva: “É uma insolência que fales assim a teus filhos na minha presença, tanto quanto tua desobediência às ordens do soberano; portanto, serás castigada”. Mandou então que a açoitem.


O prefeito chamou então, separadamente, cada um dos jovens e tentou, com promessas e ameaças, fazê-los adorar os deuses. Como todos recusaram, ordenou que fossem açoitados e trancados num calabouço. O prefeito informou o caso ao imperador, que mandou que fossem julgados por juízes diferentes e condenados a diferentes tipos de morte. Genaro morreu dilacerado pelos açoites; Félix e Filipe pereceram a golpes de malho; Silvano foi lançado ao Tibre; Alexandre, Vital e Marcial conquistaram a coroa pelo fio da espada. Também a mãe foi decapitada, depois de ter visto morrer seus filhos.


A propósito da morte de Santa Felicidade, Santo Agostinho diz:


“O espetáculo que se apresenta aos olhos de nossa fé é magnífico. Ouvimos e vimos com a imaginação essa mãe que, contra todos os seus instintos humanos, escolhe ver seus filhos perecerem diante dela. Mas Felicidade não abandonou seus filhos, e sim os enviou à frente, porque considerava a morte não como fim, mas como início da vida. Esses mártires renunciaram a uma existência que deveria necessariamente acabar, para passar a uma vida que jamais terá fim. Mas Felicidade não se contentou em ver seus filhos morrerem, mas os encorajou a isso e, ao fazê-lo, fez com que sua coragem fosse ainda mais fecunda que seu seio. Ao vê-los lutar, lutou com eles, e a vitória de cada um de seus filhos foi sua própria vitória”.

São Gregório Magno pregou uma homilia no dia da festa de Santa Felicidade, na igreja erguida sobre o túmulo da santa na Via Salária. Nessa homilia, disse que Felicidade, “que tinha sete filhos, temia que algum lhe sobrevivesse, como outras mães temem sobreviver a seus filhos. Seu martírio foi maior, pois ao ver morrer todos os seus filhos, sofreu o martírio em cada um deles. Felicidade foi a última a morrer; mas desde o primeiro momento sofreu, de tal forma que seu martírio começou com o do primeiro de seus filhos e terminou com sua própria morte. Assim, conquistou não só sua própria coroa, mas também a de todos os seus filhos. Ao presenciar seus tormentos, permaneceu constante, sofreu porque era mãe, mas regozijou-se porque possuía a esperança. Em Santa Felicidade, a fé triunfou da carne e do sangue, quando em nós ela não é capaz de vencer as paixões e arrancar nosso coração deste mundo corrompido.”


O Martírio de Santa Felicita
Gravura do Martírio de Santa Felicidade

Apesar da eloquência de Santo Agostinho e de São Gregório, do que disse Alban Butler e, não obstante o valor das lições que extraem deste martírio, não se pode considerar o fato como histórico. Está fora de dúvida que uma mulher chamada Felicidade sofreu o martírio e foi sepultada no cemitério de Máximo, na Via Salária. A festa dessa mártir era e é celebrada no dia 23 de novembro. Mas apenas umas “atas” de valor histórico muito duvidoso afirmam que os “Sete Irmãos” eram seus filhos; na verdade, nem sequer se sabe se eram irmãos. Pelo menos desde meados do século V, comemorava-se em 10 de julho o triunfo de sete mártires. Dois deles, Félix e Filipe, foram sepultados no cemitério de Priscila; Marcial, Vital e Alexandre, no cemitério “Jordanorum”; Genaro, no cemitério de Pretextato, onde de Rossi descobriu, em 1863, uma capela decorada com afrescos e uma inscrição em que se invocava esse santo; Silano foi sepultado na catacumba de Máximo. Talvez a origem da lenda de que esses sete mártires eram filhos de Santa Felicidade tenha sido o fato de que a tumba de Silano (ou Silvano) estava junto à da referida santa.2


No final do século passado, muito se discutiu sobre Santa Felicidade e seus sete filhos. Embora as atas, como dissemos antes, sejam muito posteriores e de autoridade duvidosa, e embora haja razões para suspeitar que o relato foi inspirado na narrativa bíblica da Mãe dos Macabeus, é certo, no entanto, que existia um culto muito antigo, segundo o Calendário Filocaliano, o epitáfio de São Dâmaso e o Hieronymianum. O texto das atas pode ser consultado nas Acta Sincera de Ruinart, assim como nas edições mais modernas feitas por Doulcet e Künstle. Entre as críticas mais destrutivas, conta-se a de J. Führer, Ein Beitrag zur Lösung der Felicitas-Frage (1890), e o folheto que o mesmo autor escreveu posteriormente para responder aos argumentos de Künstle. Em favor da lenda, cf. o artigo de Duchesne no Bulletin Critique, 1890, p. 425, e o artigo detalhadíssimo de Leclercq no DAC, vol. V, cols. 1259–1298. O Pe. Delehaye voltou à questão no CMH (pp. 362–364) e em Étude sur le légendier romain (1936), pp. 116–123; esse autor conclui que é indubitável que um hagiógrafo inventou que os sete mártires do dia 10 de julho eram irmãos para criar um paralelo cristão à narrativa bíblica dos Macabeus (1º de agosto).*


Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, pp. 71-73.

2. Ibid. pp. 65-67.



Notas:


* Embora historicamente possam faltar provas documentais, durante séculos a Igreja celebrou com devoção a festa dos Sete Santos Mártires junto com Santa Felicidade como sua mãe. Além disso, testemunhos de grande peso, como os de Santo Agostinho e São Gregório Magno, atestam essa tradição.



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