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Vida do Papa São Sérgio I e São Corbiniano (8 de setembro)

8 de set. de 2025
7 min de leitura

Atualizado: 7 de set.





Papa São Sérgio I. Cromolitografia em L. Tripepi, Retratos e biografias dos papas romanos. de São Pedro a Leão XIII, Roma, Vaglimigli Davide, 1879.
Papa São Sérgio I. Cromolitografia em L. Tripepi, Retratos e biografias dos papas romanos. de São Pedro a Leão XIII, Roma, Vaglimigli Davide, 1879.

Durante a prolongada enfermidade do Papa Cónon, seu arcediácono, Pascoal [que se tornaria o antipapa Pascoal I, 18.º da história], ofereceu uma enorme soma como suborno a João, o exarca imperial, a fim de que lhe assegurasse a sucessão no trono de São Pedro. Em 687, quando finalmente morreu Cónon, o exarca cumpriu sua palavra, lançou a nomeação de Pascoal e o apoiou com um partido, cuja maioria dos membros se opunha à candidatura do arcipreste Teodoro [conhecido como antipapa Teodoro II, 19.º da história]; mas, afinal, ambos os candidatos ficaram frustrados e o sacerdote Sérgio foi canonicamente eleito. O exarca João, que viajou a Roma para cuidar de seus interesses, concordou em dar sua aprovação à eleição de Sérgio, mas não sem antes ter recebido deste a mesma soma de dinheiro que lhe havia oferecido Pascoal. Não se tratava aí de simonia, mas de extorsão: Sérgio havia sido livre e legalmente eleito e, ao ver-se obrigado a pagar, fê-lo sob enérgicas protestas. O homem que chegou a Papa em tão desastrosas circunstâncias era um sírio, filho de um comerciante de Antioquia e educado em Palermo.



Papa São Sérgio I do livro The Lives and Times of the Popes, por Chevalier Artaud de Montor
Papa São Sérgio I do livro The Lives and Times of the Popes, por Chevalier Artaud de Montor

Os primeiros anos de seu pontificado foram perturbados pelos distúrbios causados pelo Concílio in Trullo (Concilium Quinisextum) convocado em Constantinopla com o propósito de completar as Atas do Quinto e Sexto Concílios Ecumênicos com alguns cânones sobre disciplina. Estiveram presentes duzentos bispos, todos orientais, à exceção de um, para aprovar 102 cânones, muitos dos quais pareciam contrários, quando não hostis, às doutrinas e políticas da Igreja do Ocidente. O pior daquela assembleia foi que ela se arrogou o direito de aprovar decretos, não só para a Igreja do Oriente, mas também para a do Ocidente; em consequência, quando o imperador Justiniano II enviou a Roma as Atas do Concílio para que o Papa as assinasse, Sérgio recusou-se a fazê-lo [principalmente as resoluções relativas à supressão do celibato eclesiástico]. De modo que o imperador, no ano 693, enviou sua guarda pessoal, com um certo Zacarias à frente, para que prendessem o pontífice recalcitrante e o conduzissem, à força, a Constantinopla. O Papa Sérgio apelou ao exarca, ao mesmo tempo em que os cidadãos de Roma, reforçados pelas tropas vindas de Ravena, reuniram uma força considerável e fizeram uma demonstração muito impressionante, sobretudo para Zacarias, que se aterrorizou a tal ponto que foi implorar proteção a Sérgio e correu a esconder-se debaixo da cama do Papa. Este, por sua vez, saiu para tranquilizar o povo, mas ninguém quis abandonar seu posto perto do Santo Padre até que o “valente” soldado Zacarias deixou seu refúgio e, à frente de seus guardas, partiu da cidade rumo a Constantinopla. Não há dúvida de que o assunto teria acarretado graves consequências para o Papa Sérgio, se não tivesse ocorrido o oportuno derrubamento do imperador Justiniano II pouco tempo depois. Nem aquele Pontífice, nem nenhum de seus sucessores, fizeram algo mais a respeito dos cânones do Quinisextum do que aprová-los tacitamente para a Igreja do Oriente.


Santo Huberto de Liège é consagrado bispo pelo Papa São Sérgio
Santo Huberto de Liège é consagrado bispo pelo Papa São Sérgio

Durante o reinado daquele Pontífice, chegou a Roma Cadwalla, rei dos saxões ocidentais, que havia “abdicado do trono para pôr-se a serviço do Senhor e de seu reino eterno”. Foi São Sérgio quem o batizou na vigília da Páscoa do ano 689; cinco anos depois, consagrou bispo da Nortúmbria outro famoso inglês, São Vilibrordo, e o alentou e ajudou para que levasse a cabo sua missão na Frísia. Do mesmo modo, foi São Sérgio quem recebeu uma delegação de monges enviados por São Ceolfrido, aos quais concedeu a confirmação de privilégios em suas abadias de Wearmouth e Jarrow; em 701, escreveu pessoalmente a São Ceolfrido para pedir-lhe que enviasse a “esse piedoso servo de Deus, Beda, sacerdote de vosso mosteiro”, a Roma, porque o Pontífice necessitava do conselho de homens sábios. São Sérgio prometia que Beda seria “devolvido” em seguida, mas o certo é que ele não foi a Roma e o próprio São beda nos diz que nunca deixou seu mosteiro. Sérgio era aluno da schola cantorum romana e sempre manteve um interesse ativo na liturgia e sua música; em particular, como assinala o Liber Pontificalis, preocupou-se em dar instruções para que o Agnus Dei “fosse cantado pelos clérigos e pelo povo, ao fracionar-se a hóstia” durante a missa. Também foi São Sérgio quem dispôs que a Igreja romana celebrasse as quatro festas de Nossa Senhora que já se observavam em Constantinopla: a Natividade da Virgem Maria, sua Purificação, a Anunciação e a “Dormição”.


O Sonho do Papa Sérgio (1430), do Retábulo de São Huberto, por Rogier van der Weyden
O Sonho do Papa Sérgio (1430), do Retábulo de São Huberto, por Rogier van der Weyden

Quanto ao seu caráter pessoal, só se pode julgar São Sérgio por seus atos públicos e pelas tradições da Igreja, nas quais aparece, como disse Alcuíno, como um santo e digníssimo sucessor de São Pedro, notável por sua piedade. Morreu no ano de 701 e foi sepultado em São Pedro.


Uma nota que diz: “Sergii Papae Romae”, sob o dia 7 de setembro na edição original do calendário de São Vilibrordo, serve como um terminus a quo pelo qual se estabelece a data do documento e prova que o culto ao santo começou imediatamente após a morte do Pontífice. O Liber Pontificalis, com as notas de Duchesne, e as cartas colecionadas por Jaffé são fontes de informação de primeira importância. Mas São Sérgio é uma personagem da história da Igreja. Convém ver, entretanto, o Acta Sanctorum, set., vol. III; o Geschichte Roms und der Päpste, de Grisar e, especialmente, Lives of the Popes, vol. I, parte 2, pp. 77-104, de Mons. Mann.1




Escultura de São Corbiniano.
Escultura de São Corbiniano.

Este apóstolo da Baviera, um dos primeiros que pregou o Evangelho naquelas regiões, nasceu em Chartres, perto de Melun, na França. Na pia batismal recebeu o nome de seu pai: Waldegiso, mas depois sua mãe o mudou pelo dela: Corbiniano. Durante catorze anos, viveu como eremita numa cela que ele mesmo construiu junto a uma capela, na região onde nasceu. A fama de seu nome, aumentada pela realização de diversos milagres e pela prudência dos conselhos que dava em questões espirituais, tornou-o célebre em várias léguas ao redor e pôde admitir algumas das muitas pessoas que lhe pediam em uma comunidade religiosa sob seu governo. As distrações que lhe proporcionava aquela tarefa o fizeram pensar em retirar-se para outro lugar onde pudesse permanecer só e ignorado; mas antes de buscar um retiro, decidiu fazer uma peregrinação a Roma. Ao cruzar os Alpes pelo passo de Brennero, ocorreu o lendário incidente que deu ao santo o emblema de um urso; pois foi um urso que atacou a caravana e matou o cavalo que carregava os fardos. Corbiniano ordenou então a seu criado que colocasse as rédeas e o freio do cavalo morto no focinho do urso e a carga sobre seus lombos. Assim se fez, sem que a besta oferecesse resistência alguma, e prosseguiu-se a marcha até chegar a Roma, com o urso domesticado, mas não sem que antes, ao passar por Trento, um senhor do lugar lhe roubasse seu melhor cavalo e, em Pavia, outro senhor o despojasse do único bom animal que lhe restava. Não passou muito tempo sem que os dois ladrões pagassem sua culpa, pois o senhor de Trento morreu subitamente e o de Pavia perdeu quarenta e dois animais de suas cavalariças por causa de uma epidemia de elefantíase. O Papa São Gregório II enviou Corbiniano, que já devia ser bispo então, a pregar na Baviera. Ao chegar ao seu destino, o santo colocou-se sob a proteção do duque Grimoaldo. Depois de aumentar consideravelmente o número de cristãos, estabeleceu sua sé em Freising, na Alta Baviera, que, no entanto, não chegou a ser uma sé episcopal regular até o ano de 739, quando foi ocupada por São Bonifácio.


São Corbiniano e o urso que matou seu cavalo de carga, por Friedrich Pacher
São Corbiniano e o urso que matou seu cavalo de carga, por Friedrich Pacher

São Corbiniano descobriu que seu protetor, o duque Grimoaldo, apesar de proclamar-se cristão, havia quebrado as leis da disciplina da Igreja ao casar-se com a viúva de seu irmão, a formosa Biltrudis. O santo bispo rompeu absolutamente todas as suas relações com o duque, até que conseguiu a separação dos cônjuges. [a] Mas Biltrudis não lhe perdoou e, desde aquele momento, lançou contra o bispo, sem poupar meios, uma implacável perseguição, com a esperança de voltar ao lado do duque. A perseguição começou com uma campanha de acusações falsas (como a de estrangeiro pernicioso, espião, intrometido bispo inglês), destinadas a desacreditar o santo, e culminou com uma conspiração em toda forma para assassiná-lo. Corbiniano refugiou-se em Meran e aí permaneceu como exilado voluntário em sinal de protesto, até que o duque Grimoaldo (que havia voltado a unir-se a Biltrudis) foi morto em batalha e a dama raptada pelos francos. O sucessor de Grimoaldo protegeu efetivamente o bispo, que pôde continuar com sucesso seu trabalho missionário em toda a Baviera.


Afresco na Catedral de Frisinga representa São Corbiniano domesticando o urso.
Afresco na Catedral de Frisinga representa São Corbiniano domesticando o urso.

À sua morte, São Corbiniano foi sepultado num mosteiro que ele mesmo havia fundado em Obermais, na região de Meran, mas seus restos foram trasladados a Freising, no ano de 795, por Aribo, seu sucessor e biógrafo. Aribo diz que São Corbiniano era um homem de caráter violento, que se inflamava com rapidez e, como exemplo, cita a ocasião em que cavalgava pelas ruas de Freising e cruzou-se com uma mulher que tinha fama de praticar magia negra e levava um grande pacote de carne fresca; o bispo perguntou o que ia fazer, e disseram-lhe que tentaria curar um enfermo com suas artes. Corbiniano saltou do cavalo, alcançou a mulher, lhe aplicou uma soberana surra e distribuiu a carne entre os pobres.


Em Merano, o piedoso bispo Aribo constata que o corpo de São Corbiniano está incorrupto.
Em Merano, o piedoso bispo Aribo constata que o corpo de São Corbiniano está incorrupto.

Contamos com uma excelente biografia de São Corbiniano escrita na Idade Média por Árbeo ou Aribo, que viveu pouco tempo depois e foi seu sucessor na sé de Freising. Posteriormente, essa biografia foi complementada com incidentes lendários, como o episódio do urso, por exemplo. Bruno Krusch editou o texto original nos volumes quarto e quinto de MGH, Scriptores Merov., em um livrinho muito cômodo de ler que se usa nas escolas. Ver também o Acta Sanctorum, set., vol. III.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, pp. 516-517.

2. Ibid. pp. 517-519.


Notas:


a. O Concílio de Elvira (c. 300–303 d.C.), realizado em Illiberis (atual Granada, Espanha), estabeleceu normas disciplinares para a Igreja primitiva. Entre essas normas, o Cânon 71 proíbe o casamento com a enteada, considerando-o incestuoso e impedindo a participação na comunhão, mesmo antes da morte:


“Um homem que se casa com sua enteada é culpado de incesto e não podem comungar, mesmo antes da morte” (Concílio de Elvira, Cânon 71).


O texto completo dos cânones pode ser consultado em PDF aqui.



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