Vida de São Pedro Fourier e São Hiparco e Companheiros, Mártires (9 de dezembro)
- Sacra Traditio

- 8 de dez. de 2025
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Ao voltar da campanha contra os persas, o César Galério (a menos que tenha sido Maximino, quando governava na Síria) celebrou uma festa em Samosata, junto ao Eufrates, e ordenou que todos participassem nos sacrifícios que seriam oferecidos aos deuses. Os magistrados Hiparco e Filoteu haviam se convertido ao cristianismo pouco antes. Na casa de Hiparco havia uma cruz, diante da qual ambos costumavam fazer oração. Cinco jovens amigos seus, chamados Tiago, Paragro, Abibo, Romano e Loliano, foram visitá-los e os encontraram prostrados diante da cruz. Naturalmente, perguntaram-lhes por que faziam oração em casa, quando o imperador havia mandado que todo o povo se reunisse no templo da deusa Fortuna. Hiparco e Filoteu responderam que adoravam o Criador do Mundo. Os jovens perguntaram: “Acaso credes que essa cruz criou o mundo?” Hiparco replicou: “Adoramos Aquele que morreu na cruz, pois era Deus e Filho de Deus. Faz já três anos que fomos batizados por Tiago, sacerdote da verdadeira religião, o qual nos dá o Corpo e o Sangue de Cristo. Consideraríamos um pecado sair de casa durante estes três dias, pois aborrecemos o odor dos sacrifícios que invade toda a cidade.” Depois de muito discutir, os cinco jovens declararam que desejavam receber o batismo. Hiparco escreveu então uma carta ao sacerdote Tiago e a entregou a um mensageiro. O sacerdote apresentou-se imediatamente na casa de Hiparco, levando escondidos sob seu manto os vasos sagrados. Ao ver os sete amigos, saudou-os dizendo: “A paz seja convosco, servos de Jesus Cristo, que foi crucificado por suas criaturas.” Romano e seus companheiros convertidos caíram de joelhos e disseram: “Apieda-te de nós e imprime-nos o selo de Jesus Cristo, a quem adoramos.” Depois de orarem juntos, o sacerdote Tiago lhes disse: “A graça de Jesus Cristo seja com todos vós.” Os jovens fizeram uma profissão de fé e abjuraram a idolatria. O sacerdote os batizou e lhes deu o Corpo e o Sangue de Cristo. Em seguida, cobriu com sua capa os vasos sagrados e partiu apressadamente para sua casa, pois temia que os pagãos o vissem em tal companhia, já que ele era um ancião pobremente vestido, enquanto Hiparco, Filoteu e os cinco jovens eram personagens de alta posição.
Ao terceiro dia das festas, o imperador perguntou se todos os magistrados haviam sacrificado em público. Com isso, soube que Hiparco e Filoteu não participavam do culto havia três anos. Imediatamente, o imperador ordenou que fossem conduzidos ao templo e forçados a oferecer sacrifícios. Os mensageiros imperiais encontraram na casa de Hiparco os sete cristãos, mas somente prenderam por então Hiparco e Filoteu. O imperador perguntou-lhes por que o desprezavam a ele e aos deuses. Hiparco replicou que se envergonhava de ouvir chamar deuses a ídolos de madeira e pedra. O imperador ordenou que lhe dessem cinquenta açoites e prometeu a Filoteu que o nomearia pretor se cedesse. Filoteu respondeu que consideraria uma ignomínia um cargo comprado por tal preço. Em seguida, começou a falar com grande eloqüência sobre a criação do mundo, mas o imperador interrompeu-o, dizendo que via tratar-se de um homem muito culto e esperava que abandonasse seus erros para que não fosse obrigado a torturá-lo. Em seguida, ordenou aos guardas que o encerrassem numa masmorra separada da de Hiparco, carregado de cadeias. Entretanto, um oficial fora prender os outros cinco cristãos que estavam na casa de Hiparco. Como também eles se negassem a oferecer sacrifícios, o imperador fez notar que eram ainda muito jovens e lhes disse que, se persistissem em sua obstinação, mandaria açoitá-los e crucificá-los como a seu Mestre. Os jovens responderam que não temiam a tortura. No mesmo instante foram acorrentados e encerrados em diferentes calabouços, e não lhes deram de comer nem de beber até terminarem as festas.
Quando findaram as solenidades em honra dos deuses, ergueu-se uma tribuna nas margens do Eufrates. O imperador dirigiu-se até lá e mandou trazer os cativos. Os dois magistrados, carregados de cadeias, abriam a marcha, seguidos pelos cinco jovens, com as mãos atadas. Como se recusassem novamente a oferecer sacrifícios, foram atormentados no potro e receberam vinte açoites cada um. Depois, foram conduzidos outra vez à prisão. O imperador ordenou que ninguém lhes fosse permitido visitar ou prestar auxílio e que somente lhes dessem um pouco de pão para que não morressem de fome. Após mais de dois meses, os prisioneiros compareceram novamente diante do imperador. Por seu aspecto, pareciam mais cadáveres que vivos. Quando se tentou incitá-los a oferecer sacrifícios aos deuses, os mártires rogaram que não tentasse afastá-los do caminho de Jesus Cristo. O imperador replicou, furioso: “Já que desejais a morte, vou satisfazer vosso desejo para que não continueis insultando os deuses.” Em seguida, ordenou aos guardas que os amordaçassem e crucificassem. Os guardas os levaram rapidamente ao lugar da execução. Alguns magistrados fizeram notar que Hiparco e Filoteu eram seus colegas na magistratura e deviam prestar contas do exercício de seu ofício, e que os outros cinco eram patrícios e tinham ao menos o direito de redigir seu testamento; por isso, pediram que se adiasse a execução. O imperador concordou e entregou os condenados aos magistrados para que realizassem tais trâmites. Os magistrados conduziram-nos à entrada do circo, retiraram-lhes as mordazas e lhes disseram em privado: “Obtivemos o adiamento da sentença com o pretexto de acertar convosco certos assuntos de interesse público, mas na verdade queríamos falar convosco em particular para pedir que rogueis a Deus por nós e nos abençoeis, a nós e à cidade.” Os mártires os abençoaram e dirigiram a palavra à multidão reunida. Quando o imperador soube disso, enviou uma reprimenda aos magistrados por terem permitido que os condenados falassem ao povo. Os magistrados se desculparam dizendo que não o impediram por medo da multidão.
O imperador mandou armar sete cruzes perto das portas da cidade e ordenou novamente a Hiparco que se submetesse. O ancião replicou, pondo a mão sobre sua cabeça calva: “Assim como minha cabeça não pode, naturalmente, voltar a cobrir-se de cabelos, assim também não posso eu mudar de parecer e submeter-me à tua vontade.” O imperador mandou que colocassem uma pele de cabra sobre a cabeça do ancião e lhe disse, zombeteiramente: “Agora que tens a cabeça coberta de pelos, oferece sacrifícios aos deuses, como convém à tua condição.” Em seguida, deu ordem de crucificar os prisioneiros. À noite, algumas mulheres subornaram os guardas para que lhes permitissem limpar o sangue do rosto dos mártires. HIPARCO morreu muito cedo. TIAGO, ROMANO e LOLIANO morreram no dia seguinte, apunhalados pelos soldados. Quanto a FILOTEO, ABIBO e PARAGRO, foram retirados da cruz antes de morrer e tiveram a cabeça perfurada a golpes de lança. O imperador ordenou que os cadáveres fossem lançados ao rio. Mas um cristão chamado Baso os comprou dos guardas e os sepultou durante a noite em sua casa de campo.
S. E. Assemani publicou pela primeira vez a paixão síria, com tradução latina, em Ácta sanctorum martyrum orientalium, vol. 1, pp. 124-147. Bedjan também publicou o original sírio em Acta Martyrum et Sanctorum, vol. iv. Há uma tradução francesa desse documento em H. Leclercq, Les Martyrs, vol. 11, 1903, pp. 391-403. Na Igreja bizantina comemoravam-se esses mártires em 29 de janeiro; na Igreja armênia, em outubro. O Dr. G. T. Stokes faz notar que a descrição do batismo dos cinco jovens contém vários pontos de grande interesse litúrgico e levanta o problema da data do martírio e do nome do imperador (DCB., vol. III, p. 85).1

Pedro Fourier nasceu em Mirecourt, cidade da Lorena, em 1565. Quando tinha quinze anos, seu pai o enviou à Universidade que os jesuítas mantinham em Pont-à-Mousson, onde conheceu o futuro mártir, o Beato Guilherme Lacey, que estudava ali. Pedro concluiu brilhantemente seus estudos e abriu uma escola em sua cidade natal; mas já então estava decidido a abandonar o mundo, de modo que, aos vinte anos de idade, ingressou no convento dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho em Chamousey. Em 1589, recebeu a ordenação sacerdotal; mas, como sua humildade o fizesse sentir-se indigno, não celebrou a missa senão vários meses depois. Seu abade o enviou à Universidade para continuar seus estudos de teologia. Quando voltou ao seu mosteiro, foi nomeado procurador e vigário da paróquia da abadia. As condições em que exerceu seu cargo eram muito desanimadoras, pois a observância no mosteiro era bastante relaxada e os cônegos ridicularizavam todos os esforços de Pedro para melhorá-la.
Em 1597, deram-lhe a escolher entre três paróquias atendidas pelos cônegos. São Pedro escolheu a de Mattaincourt, que era a mais difícil. Mattaincourt é um vilarejo dos Vosges que, naquela época, estava contaminado pelo calvinismo, e a moralidade de seus habitantes estava em decadência. São Pedro Fourier trabalhou ali durante trinta anos, e até hoje as pessoas continuam chamando-o de “o bom padre de Mattaincourt.” O primeiro cuidado do santo foi orar e dar bom exemplo. Vivia com austeridade, pobreza e simplicidade dignas de um monge. Jamais acendia fogo em sua casa, a não ser para aquecer aqueles que o visitavam, e os necessitados sempre o encontravam disposto a dar esmola e conselho, tanto material como espiritual. O P. João Bedel, discípulo e biógrafo do santo, diz que ele era particularmente compassivo com aqueles cuja fortuna havia decaído por causa de maus negócios, roubos ou qualquer outra razão independente de sua vontade.
“Para ajudar essas pessoas, fundou a ‘Bolsa de São Evre’ (assim chamada em honra do santo padroeiro da paróquia), na qual depositava esmolas, legados, etc. Quando algum de seus paroquianos se encontrava em dificuldades, ele lhe dava algumas centenas de francos desse fundo para que pudesse salvar seu negócio; a única condição que estabelecia era que, se o negócio prosperasse, o beneficiário devolvesse a quantia emprestada. O sistema funcionava tão bem que a ‘Bolsa de São Evre’ podia sustentar-se com os juros do capital.”

São Pedro estabeleceu igualmente três confrarias em sua igreja: a de São Sebastião, para os homens; a do Rosário, para as mulheres casadas; e a da Imaculada Conceição, para as jovens. Esta última foi uma das primeiras congregações de “Filhas de Maria”. Um dos principais problemas que São Pedro teve de enfrentar foi o da educação das crianças; depois de muita oração e reflexão, compreendeu que era necessário torná-la gratuita.
Primeiro, tentou organizar escolas para meninos. Mas os tempos ainda não estavam maduros para isso. O instrumento que Deus havia escolhido para essa obra era São João Batista de La Salle, que deveria nascer meio século mais tarde. São Pedro Fourier reconheceu seu fracasso sem rodeios. Em seguida, dedicou-se especialmente a quatro voluntárias: Alix Le Clercq, Ganthe André e as irmãs Joana e Isabel de Louvroir. Depois de prová-las devidamente, mandou que fizessem uma espécie de noviciado no convento das canonesas de Poussey, em 1598. Com o tempo, essas jovens abriram uma escola gratuita em Mattaincourt. São Pedro, que tinha suas próprias ideias sobre educação, dava todos os dias uma aula de pedagogia às professoras. Foi um dos primeiros a empregar o que os pedagogos chamam hoje de “método simultâneo”. Desejava que as meninas mais velhas aprendessem a redigir recibos e faturas, que se exercitassem na composição e redação de cartas e que falassem corretamente “a língua de sua província”. Tanto pelo bem das crianças como do Estado, queria que os pobres fossem educados no amor de Deus, com princípios que os ajudassem a viver de modo decente e digno, e estava convencido de que a escola deveria ser gratuita. Consciente do valor do “método dramático”, escreveu vários diálogos sobre as virtudes e os vícios (insistindo sobretudo naquilo que mais convinha a seus paroquianos) e fazia com que as crianças os recitassem diante de seus pais aos domingos à tarde, na igreja.

O santo instruiu suas religiosas sobre como tratar as crianças protestantes: “...com amor e bondade. Não permitais que as outras crianças as molestem ou zombem delas. Não faleis mal de sua religião. Dirigi-vos em termos gerais a todos os vossos discípulos, mas não percais a ocasião de mostrar aos protestantes quão bons e razoáveis são os preceitos e práticas da nossa Igreja.” São Pedro Fourier empregou os mesmos métodos em 1625, quando foi enviado a combater o protestantismo no principado de Salm. Com efeito, não se contentava em exortar os protestantes à conversão, mas incitava com igual fervor os católicos a mudarem de vida; por outro lado, não provocava os protestantes chamando-os de hereges, mas os chamava de “estrangeiros”. Ajudado pelo P. Bedel e por outro jesuíta, São Pedro conseguiu em seis meses mais do que seus predecessores haviam alcançado em trinta anos. Em 1616, a nova congregação religiosa recebeu aprovação pontifícia e o nome oficial de Canonesas Regulares de Santo Agostinho da Congregação de Nossa Senhora. Essa congregação difundiu-se rapidamente por toda a França; atualmente, possui casas na Inglaterra e em outros países. Em 1628, o Papa Urbano VIII concedeu às religiosas o privilégio de fazer um quarto voto, pelo qual se obrigavam a educar gratuitamente as crianças. Alix Le Clercq, a principal colaboradora do P. Fourier, foi beatificada como cofundadora da congregação em 1947. Em vista do sucesso que São Pedro Fourier tivera na reforma daquela paróquia rural, seus superiores o dedicaram a uma tarefa menos local, mas não menos difícil. Naquela época, a vida religiosa em Lorena estava em decadência. A Santa Sé nomeou São Pedro visitador dos cônegos regulares. Em 1622, Mons. João de Porcelets de Maillanes, bispo de Toul, chamou-o para restabelecer a disciplina nos conventos de sua ordem e uni-los numa congregação reformada. Essa missão não deixou de provocar hostilidade; mas no ano seguinte, o abade de Lunéville entregou seu mosteiro a um punhado de cônegos regulares, presididos por São Pedro Fourier. Em 1629, o principal já estava feito: a observância havia sido restabelecida, e os cônegos regulares da Lorena formavam a congregação do Salvador. Em 1632, São Pedro foi eleito superior, muito contra sua vontade. Quando tomou posse de seu cargo, disse: “Assim como Jesus Cristo se entrega aos homens no Santíssimo Sacramento, sem esperar pagamento algum e pensando somente no bem daqueles que irão recebê-Lo na comunhão, assim eu me entrego a vós neste dia, não para obter qualquer honra ou vantagem, mas pensando somente na salvação de vossas almas.” São Pedro sempre havia sonhado com o dia em que os cônegos empreendessem a obra da educação das crianças, na qual ele fracassara em Mattaincourt, e os súditos do santo estavam dispostos a isso. Assim, quando São Pedro enviou representantes a Roma, em 1627, para conseguir a aprovação da congregação do Salvador, encarregou-os de tratar do assunto: “No que toca às escolas que queremos fundar, seria bom fazer notar que as crianças que não desejam aprender o latim e as outras, antes de ingressarem na escola superior, não têm quem cuide delas ex officio, pelo menos nesta região, de modo que são uma espécie de benefício vacante na Igreja de Deus. Supliquemos humildemente que essa tarefa nos seja designada.” Os representantes de São Pedro Fourier apresentaram o pedido, mas não tiveram sucesso. Ao que parece, a Santa Sé havia esquecido, no século XVII, que o ensino primário não era incompatível com a dignidade sacerdotal. Contudo, a congregação do Salvador inaugurou vários colégios e obras educacionais. E quando a Companhia de Jesus foi suprimida no século XVIII, vários de seus colégios em Lorena passaram às mãos dos cônegos regulares.

São Pedro Fourier estava muito ligado à casa de Lorena e ao duque Carlos IV. Assim, quando lhe exigiram, em 1636, que assinasse o juramento de fidelidade ao rei Luís XIII, o santo recusou-se e fugiu para refugiar-se em Gray, no Franco-Condado. Passou os quatro últimos anos de sua vida nesse exílio, atuando como capelão de um convento e ensinando numa escola gratuita cuja fundação se devia a ele. Deus chamou-o a Si em 9 de dezembro de 1640. Sua canonização teve lugar em 1897. O santuário de São Pedro Fourier em Mattaincourt é um importante centro de peregrinação.
O primeiro biógrafo do santo foi o P. Bedel, que havia sido seu discípulo e companheiro. Entre as numerosas biografias escritas desde então, mencionaremos as do P. Rogie, a de Dom Vuillemin e a do P. Pingaud. Esta última está traduzida para o inglês. O P. Chérot utilizou habilmente, em sua obra, a correspondência de São Pedro. B. Boutoux publicou, em 1949, uma biografia intitulada São Pedro Fourier. Veja-se a bibliografia de nosso artigo sobre a Beata Alix Le Clercq (9 de janeiro).2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 518-520.
2. Ibid. pp. 521-524.


























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