Festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria e a Vida de São Romário (8 de dezembro)
- Sacra Traditio

- 8 de dez. de 2025
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Em 8 de dezembro de 1854, no exercício de seu poder pontifício de ensinar infalivelmente a verdade, Pio IX promulgou a bula “Ineffabilis Deus”, na qual expôs e definiu como “doutrina revelada por Deus e que todos os fiéis devem crer firme e constantemente, que a santíssima Virgem Maria foi preservada de toda mancha do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção, por graça e privilégio únicos que lhe concedeu Deus onipotente em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano”.
Isso significa que a alma de Maria, no momento em que foi criada e infundida, estava adornada com a graça santificante. A graça não toma posse dos filhos de Adão senão após o nascimento. Crê-se piedosamente que Jeremias e São João Batista foram santificados antes de nascerem, mas depois de terem sido concebidos. Na alma de Maria jamais existiu a mancha do pecado original. Duzentos e cinquenta anos antes da definição dessa verdade, a Igreja universal já cria firmemente na Imaculada Conceição de Maria (naturalmente, essa verdade está implícita no depósito da fé). Estava proibido falar em público contra a doutrina da Imaculada Conceição. Entretanto, antes da definição, ela ainda não era uma doutrina “de fé”, assim como não o era a Assunção de Maria antes de ser definida em 1950. Por isso, não é estranho que Alban Butler, ao falar da “Concepção da Bem-aventurada Virgem Maria”, tenha escrito que “é uma crença muito geral, embora não um artigo de fé, que (Maria) foi concebida sem mancha. Numerosos prelados e grande número de universidades católicas declararam-se vigorosamente a favor dessa doutrina, e vários Papas proibiram severamente que ela fosse impugnada, discutida ou que se escrevesse contra ela. Contudo, está igualmente proibido considerá-la como doutrina de fé definida e censurar aqueles que ‘creem o contrário em privado’”. Alban Butler acrescenta que basta que a Igreja tenha favorecido abertamente a doutrina da Imaculada Conceição para que aqueles que desejam distinguir-se por sua fidelidade à Igreja sigam essa orientação... “O respeito que devemos à Mãe de Deus e a honra que devemos a seu divino Filho movem-nos a pensar que esse privilégio convém altamente à sua santidade sem mácula.” Depois que Pio IX falou em 1854, as reservas mencionadas por Butler deixaram de existir. Atualmente, todo católico é obrigado a crer como artigo de fé na doutrina da Imaculada Conceição.

Ao que parece, desde tempos muito antigos celebrava-se na Palestina uma Festa para comemorar a Concepção de Maria; mas não se afirmava que tivesse sido concebida sem pecado original. Não faltam razões para supor que essa Festa teve sua origem na da Concepção de São João Batista, que já se celebrava no início do século VIII. Durante muito tempo, a expressão “Concepção de Maria” empregava-se para significar o momento em que Maria, pela obra do Espírito Santo, concebeu o Verbo encarnado (Festa da Anunciação). Por isso, a nova Festa foi chamada inicialmente de Concepção de Santa Ana. Com esse nome e sem qualquer referência à Imaculada Conceição, a Festa passou de Constantinopla à Sicília e ao sul da Itália no século IX.[a] O primeiro vestígio claro da festa da “Concepção de Nossa Senhora” no Ocidente encontra-se na Irlanda no século IX, e dois séculos depois na Inglaterra, de onde se propagou para a Germânia, França e Espanha. A festa celebrava-se em 8 de dezembro, o que evidencia a influência oriental, já que em Jerusalém e Constantinopla, assim como em Nápoles, a data da celebração era 9 de dezembro.
No Ocidente, assim como no Oriente, a Festa começou a ser celebrada nos mosteiros. As duas primeiras menções da festividade encontram-se em dois calendários da abadia de New Minster de Winchester. A inovação encontrou inicialmente certa oposição; mas um discípulo de Santo Anselmo, o monge Eadmero, escreveu um importante tratado sobre a concepção de Nossa Senhora, e um sobrinho do santo arcebispo, chamado Anselmo como ele, introduziu a Festa da Concepção em sua abadia de Bury St. Edmund’s. Logo adotaram a festa as abadias de Saint Alban’s, Reading, Gloucester e outras. O prior de Westminster, Osberto de Clare, era favorável à Festa; mas alguns dos monges eram contrários. Finalmente, a festa foi aprovada pelo Sínodo de Londres de 1129. Na mesma época, a festa começou a popularizar-se na Normandia, embora não se saiba se o costume provinha da Inglaterra, então ocupada pelos normandos, ou do sul da Itália.

Por volta do ano de 1140, a catedral de Lyon adotou a festa. Com essa ocasião, São Bernardo desencadeou uma controvérsia teológica, que havia de durar três séculos, acerca do momento em que a Virgem Maria havia recebido a graça santificante. Contudo, enquanto a opinião dos teólogos fluctuava de um extremo ao outro, a Festa da Conceição de Maria ia ganhando terreno. Em 1263, foi adotada por todos os franciscanos, que se converteram em seus mais ardentes defensores, enquanto os teólogos dominicanos se opunham geralmente a ela. Em 1476, Sisto IV, que era franciscano, impôs a festa na diocese de Roma. A festa se chamava então da Conceição da Imaculada e não da Imaculada Conceição; mas, como nota acertadamente Butler, o objeto da devoção da Igreja é a santificação de Maria e não simplesmente o fato de que tenha sido concebida. Em 1661, o Papa Alexandre VII declarou que a festa celebrava a imunidade de Maria de toda mancha de pecado desde o momento em que sua alma foi criada e infundida em seu corpo, isto é, desde o momento em que a Mãe de Deus foi concebida. Em 1708, Clemente XI impôs a toda a Igreja do Ocidente a obrigação de celebrar a Imaculada Conceição como festa de preceito.
Depois da solene definição do dogma em 1854, a festa tomou o nome de Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria. Nove anos mais tarde, foram promulgados o novo ofício e a nova Missa. Desde então, ainda que seria melhor dizer desde antes, a devoção à Imaculada Conceição foi um dos aspectos mais difundidos da devoção mariana. A França se colocou sob seu patrocínio e dez das dezoito dioceses da Inglaterra e do País de Gales tiveram a Imaculada Conceição como padroeira principal. Oito anos antes da definição do dogma, seis nações da América Latina haviam adotado a Imaculada Conceição como padroeira, e o Concílio de Baltimore a declarou padroeira dos Estados Unidos. Em todo o mundo há centenas de igrejas dedicadas a este privilégio de Nossa Senhora.

Naturalmente, a bibliografia sobre a Imaculada Conceição e a festa litúrgica é imensa. Talvez o artigo mais completo seja o dos PP. Le Bachelet e Jugie, em DTC., vol. VII, que ocupa mais de 350 colunas. Veja-se também Thurston, em The Month, 1904, maio, junho, julho e dezembro, assim como o juízo de E. Bishop em Bosworth Psalter, pp. 43-51, e Liturgica historica, pp. 238-259. O P. Grosjean publicou em Analecta Bollandiana, vol. LIX (1943), pp. 91-95, uma “nota” muito importante sobre a menção da festa nos calendários irlandeses, fazendo notar que a menção se introduziu em certos manuscritos “por um erro do copista”. Há dois artigos de valor sobre a celebração da festa na Igreja bizantina, em Bessarione, set. e dez. de 1904. O primeiro tratado teológico sério em defesa da Imaculada Conceição foi o de Eadmero, biógrafo e fiel discípulo de Santo Anselmo, embora nisso tivesse opinião diferente da de seu mestre. Slater e Thurston fizeram uma edição crítica deste e de outros documentos, intitulada Eadmeri Tractatus de Conceptione Sanctae Mariae (1904). H. del Marmol traduziu essa obra ao francês, em 1923. A discussão se prolongou muitos séculos depois da morte de Eadmero; sobre isso veja-se a bibliografia de Le Bachelet e o artigo de A. W. Burridge em Revue d'histoire ecclésiastique, vol. XXXII (1936), pp. 570-597, titulado L’Immaculée Conception dans la théologie de l’Angleterre médiévale. Entre as obras recentes, mencionaremos a de M. Jugie, L'Immaculée Conception dans l'Écriture Sainte (1952). Sobre a origem da Festa no Ocidente, cf. S. J. P. van Dijk, em Dublin Review (3 e 4, 1945). Sobre a devoção à Imaculada, veja-se Mons. H. F. Davis, no fascículo seguinte da mesma revista.1

Em nosso artigo sobre Santo Amado de Remiremont (13 de setembro), relatamos como ele converteu um nobre merovíngio chamado Romárico, que ingressou no mosteiro de Luxeuil. Aí mesmo dissemos que Romárico se havia transferido mais tarde para suas posses de Habendum nos Vosgos, junto com Santo Amado, e havia fundado ali o mosteiro que se chamou depois Remiremont (isto é, Monte de Romárico). O pai de nosso santo perdeu a vida e todos os seus bens às mãos da rainha Brunequilda. Romárico, que era então muito jovem, tornou-se um vagabundo. Contudo, quando conheceu Santo Amado, já era um personagem distinto da corte de Clotário II, com uma fortuna considerável e numerosos escravos aos quais posteriormente devolveu a liberdade. Segundo se conta, vários dos libertos receberam a tonsura junto com São Romárico, em Luxeuil. O mosteiro de Remiremont foi fundado no ano de 620. O primeiro abade foi Santo Amado; mas, logo, São Romárico lhe sucedeu no cargo e o desempenhou durante trinta anos, até sua morte. Como as comunidades eram muito numerosas, o santo pôde estabelecer no mosteiro a “laus perennis”. Santo Amado havia aprendido em Agaunum esse costume, que consistia em dividir os monges em sete coros, de modo que pudessem cantar o ofício divino por turno dia e noite sem cessar. Um dos primeiros monges de Remiremont foi um amigo de Romárico, São Arnulfo de Metz, que morreu no ano 629 em uma ermida das redondezas. Pouco antes de morrer, São Romárico soube que Grimoaldo, que era filho de outro amigo seu, o Beato Pepino de Landen, tramava uma conspiração para impedir que o jovem príncipe Dagoberto ocupasse o trono da Austrásia. Embora já fosse muito idoso, o santo abade foi a Metz repreender Grimoaldo e os nobres que apoiavam sua causa. Os conspiradores o escutaram sem pronunciar palavra, trataram-no com suma cortesia e o enviaram novamente ao seu mosteiro. São Romárico morreu três dias depois. Em 1051, o Papa São Leão IX, que era um grande benfeitor de Remiremont, permitiu que fossem entronizadas as relíquias do santo. A atual população de Remiremont se encontra no lugar para onde se transferiu o mosteiro de religiosas no início do século X. Os monges permaneceram no mosteiro da colina próxima, até a Revolução Francesa.
Existem duas biografias do santo. A primeira pode ser vista em Mabillon; mas B. Krusch fez uma edição crítica moderna, em MGH., Scriptores Merov., vol. IV, pp. 221-225; veja-se também G. Kurth, Dissertations académiques, vol. I (1888).2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 514-517.
2. Ibid. pp. 517-518.
Notas:
a. A festa conservou esse nome no Oriente, mesmo entre os católicos bizantinos, que continuam chamando-a oficialmente “a concepção de Santa Ana, mãe da Mãe de Deus”, e a celebram em 9 de novembro (data original no Oriente). Naturalmente, trata-se da Festa que nós chamamos de Imaculada Conceição. As igrejas orientais dissidentes não têm uma doutrina oficial sobre esse ponto; alguns teólogos defendem a Imaculada Conceição, enquanto outros a atacam. Provavelmente o povo crê implicitamente na Imaculada Conceição. Diz-se que a seita russa dos “velhos crentes” professava formalmente essa doutrina. No calendário litúrgico anglicano se lê em 8 de dezembro: “A Conceição da Virgem Maria.”


























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