Vida do Papa Santo Agatão e São Guilherme de Bourges (10 de janeiro)
- Sacra Traditio

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Santo Agatão, que havia nascido na Sicília, de uma família grega, distinguiu-se pela profundidade e doçura de seu temperamento. Antes de se tornar monge em Palermo, havia sido casado e dedicado aos negócios durante vinte anos. Era tesoureiro da Igreja em Roma quando sucedeu a Dono no Pontificado, no ano 678. Seus três legados presidiram o sexto Concílio Ecumênico (terceiro de Constantinopla) contra a heresia monotelita, que ele próprio refutou numa erudita carta, fazendo alusão à tradição apostólica da Igreja de Roma:
“Reconhecei — dizia — que a Igreja católica é a mãe de todas as Igrejas e que sua autoridade provém de São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, a quem Cristo confiou seu rebanho e prometeu a infalibilidade na fé”.
O Concílio de Constantinopla aprovou essa carta como regra de fé, dizendo que “Pedro havia falado pela boca de Agatão”. O mesmo Pontífice restituiu São Wilfrido à diocese de York e concedeu privilégios a muitos mosteiros da Inglaterra. A terrível peste que devastou Roma naquela época parece ter sido a causa, ao menos indireta, de sua morte, ocorrida em 681.

Santo Agatão viveu num período muito agitado. A razão que alegava para explicar o mau grego falado por seus legados no Concílio de Constantinopla era que não podiam aprender as delicadezas da língua durante as incursões dos bárbaros, pois já era difícil obter simplesmente o sustento diário com o trabalho manual. Contudo — acrescentava — “conservamos a fé que nossos pais nos deixaram”. Seus legados repetiam o mesmo: “Nossas cidades foram devastadas pelo furor dos bárbaros. Vivemos em meio a batalhas, incursões e saques. Estamos em contínua apreensão e ganhamos o pão com o trabalho de nossas mãos”. Agatão morreu antes que o Concílio terminasse.
Ver Acta Sanctorum, 10 de janeiro, e sobretudo Duchesne, Liber Pontificalis, vol. I, pp. 350-358; cf. Mann, Lives of the Popes, vol. II, pp. 23-48.1

Guilherme de Donjeon, pertencente a uma ilustre família de Nevers, foi educado por seu tio Pedro, arquidiácono de Soissons. Muito jovem foi feito cônego, primeiro em Soissons e depois em Paris. Mas logo decidiu abandonar completamente o mundo e retirou-se para a solidão na abadia de Grandmont. Ali viveu com grande regularidade a vida dessa austera ordem, até que uma disputa entre os monges do coro e os outros perturbou a paz. Guilherme passou então para a ordem cisterciense, que se distinguia por sua fama de santidade. Tomou o hábito na abadia de Pontigny. Pouco depois foi eleito abade, primeiro de Fontaine-Jean, na diocese de Sens, e depois do mosteiro de Châlis, muito mais importante, construído por Luís, o Gordo, em 1136. São Guilherme considerou-se sempre o último dos monges. A mansidão de sua palavra testemunhava a alegria e a paz de sua alma. A virtude era nele atraente, apesar de suas rigorosas austeridades.
À morte de Henrique de Sully, arcebispo de Bourges, o clero da cidade pediu a Eudes, bispo de Paris, que os ajudasse a eleger um pastor. Como todos desejavam um abade cisterciense, colocaram sobre o altar o nome de três abades. Essa eleição por sorteio teria sido superstição se os eleitores esperassem um milagre; na realidade, era muito razoável, pois todos os propostos pareciam igualmente aptos, e confiava-se a escolha a Deus, colocando toda a confiança em sua Providência ordinária. Depois de orar, Eudes leu o nome de Guilherme, que, aliás, fora favorecido por quase todos os votos. Era o dia 23 de novembro do ano 1200. A notícia abateu Guilherme, que “jamais teria aceitado o cargo se o papa Inocêncio III e o abade de Cister não lho tivessem ordenado”. Guilherme deixou a solidão com lágrimas nos olhos e foi consagrado pouco depois.
O primeiro cuidado de São Guilherme foi elevar sua vida interior e exterior à altura de sua dignidade, pois estava convencido de que o primeiro dever do homem é honrar a Deus no coração. Redobrou, portanto, suas penitências, dizendo que seu cargo o obrigava a sacrificar-se pelos outros tanto ou mais do que por si mesmo. Sob o hábito religioso usava uma áspera camisa, e nem no inverno nem no verão mudava sua maneira de vestir. Jamais comia carne, embora seus hóspedes encontrassem boa mesa em sua casa. Não menos digna de louvor era sua solicitude por seu rebanho. Preocupava-se especialmente com os pobres, a quem prestava auxílio espiritual e material, pois dizia que Deus o havia enviado sobretudo para eles. Era muito indulgente com os pecadores arrependidos; ao contrário, mostrava-se inflexível com os impenitentes, embora nunca recorresse ao poder civil, como então se costumava. Essa atitude lhe valeu muitas conversões. Alguns nobres, abusando de sua bondade, usurparam os direitos de sua igreja; mas Guilherme não se deixou intimidar pela ameaça de confisco de bens e levou o caso ao rei. Sua humildade e paciência triunfaram várias vezes da oposição de seu capítulo e de seu clero. Guilherme converteu muitos albigenses, e sua última enfermidade o surpreendeu quando preparava uma missão para esses hereges. Apesar do sofrimento, decidiu pregar um sermão de despedida, o que fez aumentar a febre e obrigou-o a adiar a viagem. Na noite seguinte, prevendo o fim próximo, insistiu em antecipar o canto das matinas, que se realizam à meia-noite; mas, tendo traçado sobre os lábios o sinal da cruz, só conseguiu pronunciar as duas primeiras palavras. Então fez sinal aos presentes para que o colocassem sobre um leito de cinzas, e morreu ao amanhecer do dia 10 de janeiro de 1209. Seu corpo foi sepultado na catedral de Bourges. Em 1217, após numerosos milagres, seus restos foram colocados num relicário. O papa Honório III o canonizou no ano seguinte.
Ver Acta Sanctorum, 10 de janeiro, e Analecta Bollandiana, vol. LI (1884), pp. 277-361; BHL., nn. 1283-1284.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 70-71.
2. Ibid. pp. 72-73.


























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