Vida de São Sebastião e Papa São Fabiano, Mártir (20 janeiro)
- 20 de jan.
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São Fabiano sucedeu no pontificado a São Antero, por volta do ano 236. Eusébio relata que, reunida uma assembleia do clero e do povo para eleger o novo Papa, uma pomba veio voando e pousou sobre a cabeça de São Fabiano. Esse sinal lhe valeu os votos do clero e do povo, embora até então não se tivesse pensado nele, pois era leigo e pouco conhecido. São Fabiano governou a Igreja durante catorze anos, mandou trasladar da Sardenha para Roma o corpo de São Ponciano, Papa e mártir, e condenou Privato, autor de uma nova heresia na África. São Fabiano morreu martirizado na perseguição de Décio, no ano 250, como atestam São Cipriano e São Jerônimo. São Cipriano, numa carta a São Cornélio, sucessor de São Fabiano, chama-o de homem incomparável e diz que a glória de sua morte correspondeu à pureza e santidade de sua vida. Ainda se conserva a lápide que cobria o sepulcro de São Fabiano no cemitério de São Calisto; seus quatro fragmentos trazem claramente traçada, em caracteres gregos, a inscrição: “Fabiano, Bispo, Mártir”.
Ver Duchesne, Liber Pontificalis, vol. I, pp. 148-149; São Cipriano, Epístola IX; H. Leclercq, em DAC, vol. V, cc. 1057-1064; Nuovo Bullettino di archeologia cristiana (1916), pp. 207-221; Wilpert, La cripta dei Papi (1910), p. 18. O corpo de São Fabiano foi posteriormente trasladado para a igreja de São Sebastião: ver Grossi-Gondi, S. Fabiano, papa e martire (1916), e Chéramy, Saint Sébastien hors les murs (1925).1

Segundo as suas “atas”, atribuídas (sem fundamento suficiente) a Santo Ambrósio, Sebastião nasceu em Narbona, na Gália, embora seus pais fossem originários de Milão, e foi educado nessa cidade. Era um fervoroso servidor de Jesus Cristo. Embora a vida militar não correspondesse às suas inclinações, por volta do ano 283 foi a Roma e ingressou no exército, a serviço do imperador Carino, com o propósito de ajudar os confessores e mártires cristãos, sem despertar suspeitas. Os mártires Marcos e Marceliano, condenados à morte, estavam a ponto de vacilar na fé diante das lágrimas de seus amigos, quando São Sebastião interveio e os exortou apaixonadamente à constância; suas palavras ardentes impressionaram profundamente os mártires.
Zoe, esposa de Nicóstrato, que havia perdido havia seis anos o uso da palavra, lançou-se aos pés de Sebastião. Quando o santo traçou sobre ela o sinal da cruz, Zoe recuperou a fala. Esse milagre converteu Zoe e seu esposo, que era chefe dos escribas (“primiscrinius”), os pais de Marcos e Marceliano, o carcereiro Cláudio e outros dezesseis prisioneiros. Nicóstrato, encarregado dos prisioneiros, levou-os à sua própria casa, onde um sacerdote chamado Policarpo os instruiu e batizou. Ao saber do ocorrido e ao saber que Tranquilino, pai de Marcos e Marceliano, fora curado da gota ao receber o batismo, Cromácio, governador de Roma, sentiu-se movido a seguir seu exemplo, pois também sofria desse mal. Mandou, então, chamar São Sebastião, que o curou da enfermidade. Cromácio recebeu o batismo juntamente com seu filho Tibúrcio, libertou os prisioneiros convertidos, concedeu liberdade a seus próprios escravos e renunciou ao cargo.
Pouco depois, Carino morreu na Ilíria, derrotado por Diocleciano, que no ano seguinte nomeou Maximiano seu colega no Império. Embora não houvesse novos éditos persecutórios, os magistrados continuavam a perseguição da mesma forma que sob o governo de Carino. Diocleciano, que admirava o valor e o caráter de São Sebastião, queria tê-lo perto de si. Ignorando a fé religiosa que o santo professava, elevou-o à alta dignidade de capitão de uma companhia da guarda pretoriana. Quando Diocleciano partiu para o Oriente, Maximiano prodigalizou a São Sebastião as mesmas demonstrações de distinção e respeito. Cromácio retirou-se para a Campânia, juntamente com muitos outros convertidos. Isso deu origem a uma admirável discussão entre São Sebastião e o sacerdote Policarpo, para decidir qual deles acompanharia Cromácio a fim de continuar a instrução dos neófitos e quem permaneceria no posto perigoso da cidade para animar e ajudar os mártires.

O Papa Caio, a quem recorreram para decidir, determinou que Sebastião ficasse na cidade. Como a perseguição se intensificasse, o Papa e outros cristãos refugiaram-se, no ano 286, no próprio palácio imperial, que era o lugar mais seguro, nos aposentos de um oficial da corte chamado Cástulo. Zoe foi a primeira a ser presa, enquanto orava no túmulo de São Pedro, no dia da festa do Apóstolo. Suspensa pelos tornozelos sobre uma fogueira, morreu sufocada. Tranquilino, envergonhado de demonstrar menos coragem que uma mulher, foi orar no túmulo de São Paulo, onde morreu apedrejado. Nicóstrato, Cláudio, Castório e Victorino, após serem torturados três vezes, foram lançados ao mar. Tibúrcio, denunciado por um traidor, foi decapitado. Cástulo, acusado pelo mesmo traidor, foi torturado duas vezes no cavalete e depois queimado vivo. Marcos e Marceliano morreram transpassados por flechas, após terem permanecido vinte e quatro horas com os pés cravados a uma estaca.
São Sebastião, que havia ajudado tantos mártires em seu trânsito para o Céu, foi finalmente conduzido à presença de Diocleciano, que lhe censurou amargamente a sua ingratidão e o entregou a um corpo de arqueiros da Mauritânia para que o matassem. Seus verdugos abandonaram o corpo atravessado por flechas, julgando-o morto. Quando Irene, viúva de São Cástulo, foi recolher o cadáver, encontrou o santo ainda vivo e levou-o para sua casa. Ali ele se restabeleceu das feridas e ficou curado, mas recusou-se a fugir, apesar dos rogos de seus amigos. Um dia, o santo postou-se numa escada por onde o imperador deveria passar e lançou-lhe em rosto as abomináveis crueldades cometidas contra os cristãos. Tal liberdade de linguagem por parte de um homem que todos acreditavam morto deixou, por um momento, o imperador mudo de espanto; mas, recuperado da surpresa, deu ordem para que acabassem com a vida de Sebastião a golpes de bastão e lançassem o seu corpo na vala comum. Uma mulher chamada Lucina, a quem o santo apareceu em sonho, transportou o seu corpo para o lugar chamado “ad catacumbas”, onde hoje se ergue a basílica de São Sebastião.

Os historiadores (?) pensam que esta biografia é uma fábula piedosa, escrita no fim do século V. A única coisa que sabemos com certeza sobre São Sebastião é que foi martirizado em Roma; que tinha alguma ligação com Milão, onde já era venerado no tempo de Santo Ambrósio, e que foi sepultado na Via Ápia, provavelmente muito perto da atual basílica de São Sebastião, no cemitério “ad catacumbas”. Embora a arte medieval e renascentista represente São Sebastião atravessado por flechas ou trazendo uma flecha na mão, esse atributo é de aparecimento relativamente tardio. Um mosaico de San Pietro in Vincoli, que data aproximadamente do ano 680, representa-o como um homem barbado, que traz na mão a coroa do martírio. Um antigo vitral da catedral de Estrasburgo o pinta como um cavaleiro, com espada e escudo, mas sem flechas. São Sebastião é invocado como padroeiro contra as pestes, e certos escritores de renome, como Mâle e Perdrizet, opinam que essa tradição está relacionada com um famoso episódio do primeiro livro da “Ilíada” e tem sua origem na valente atitude de São Sebastião diante da chuva de flechas disparadas contra ele; mas o P. Delehaye afirma, provavelmente com razão, que a tradição deve antes ter-se originado da coincidência entre o fim de uma peste e a invocação de São Sebastião. O fato de São Sebastião ser o padroeiro dos arqueiros e dos soldados em geral provém naturalmente da lenda.
Sobre a “paixão” de São Sebastião, ver Acta Sanctorum, 20 de janeiro. Ver também H. Delehaye, na Encyclopaedia Britannica (décima primeira edição), e Acta Bollandiana, vol. XXVIII (1909), p. 489; igualmente K. Löffler, na Catholic Encyclopedia, vol. XIII; Chéramy, Saint-Sébastien hors les murs (1925), e Civiltà Cattolica, janeiro e fevereiro de 1918.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 131-132.
2. Ibid. pp. 132-134.






















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