Vida de São Pedro Crisólogo e Santa Bárbara, Mártir (4 de dezembro)
- Sacra Traditio

- 3 de dez. de 2025
- 9 min de leitura

São Pedro nasceu em Ímola, na Emília oriental. Estudou as ciências sagradas e recebeu o diaconato das mãos de Cornélio, bispo de Ímola, de quem fala com a maior veneração e gratidão. Cornélio formou Pedro na virtude desde seus primeiros anos e lhe fez compreender que no domínio das paixões e de si mesmo residia a verdadeira grandeza e que este era o único meio de alcançar o espírito de Cristo. Segundo a lenda, São Pedro foi elevado à dignidade episcopal da seguinte maneira: João, o arcebispo de Rávena, morreu por volta do ano 433. O clero e o povo da cidade elegeram seu sucessor e pediram a Cornélio de Ímola que encabeçasse a embaixada que iria a Roma pedir ao Papa São Sisto III que confirmasse a eleição. Cornélio levou consigo seu diácono Pedro. Segundo se conta, o Papa tivera na noite anterior uma visão de São Pedro e São Apolinário (primeiro bispo de Rávena, morto pela fé), que lhe ordenaram não confirmar a escolha. Assim, Sisto III propôs para o cargo São Pedro Crisólogo, seguindo as instruções celestes. Os embaixadores acabaram por ceder. O novo bispo recebeu a consagração e transferiu-se para Rávena, onde o povo o recebeu com certa frieza. É pouco provável que São Pedro tenha sido eleito dessa forma. O imperador Valentiniano III e sua mãe, Gala Placídia, residiam então em Rávena. São Pedro gozou de sua estima e confiança, bem como das do sucessor de Sisto III, São Leão Magno. Quando São Pedro chegou a Rávena, ainda havia muitos pagãos em sua diocese e abundavam abusos entre os fiéis. O zelo infatigável do santo conseguiu extirpar o paganismo e corrigir os abusos. Na cidade de Classis, então porto de Rávena, São Pedro construiu um batistério e uma igreja dedicada a Santo André. Distinguiu-se pela imensa caridade e vigilância incansável com que atendeu seu rebanho, alimentando-o constantemente com o pão da vida, que é a palavra de Deus. Conservam-se ainda muitos sermões do santo, sempre muito curtos, pois temia cansar seus ouvintes.

No século IX, escreveu-se uma biografia de Pedro que dá pouquíssimos dados sobre ele. Alban Butler preencheu essa lacuna com citações dos sermões do santo, que ele qualifica de “mais instrutivos que patéticos. Neles encontram-se longas exposições doutrinais e poucas exortações e afetos. Esses sermões não podem ser considerados modelo de eloquência, embora a fama do santo como pregador lhe tenha valido o título de Crisólogo, isto é, orador áureo ou excelente.” Contudo, embora o estilo oratório de São Pedro não seja perfeito (ainda que Butler afirme em outra parte que seu vocabulário é “exato, simples e natural”), o conteúdo de seus sermões moveu Bento XIII a declará-lo Doutor da Igreja, em 1729. Butler omitiu este dado. Conta-se que São Pedro pregava com tal veemência que às vezes a emoção lhe impedia continuar falando. Pregou em favor da comunhão frequente e exortou os cristãos a fazer da Eucaristia seu alimento cotidiano.
O herege Eutiques, condenado por São Flávio no ano 448, escreveu uma circular aos prelados mais importantes para justificar-se. Em sua resposta, São Pedro dizia ter lido sua carta com a mais profunda pena, pois assim como a pacífica união da Igreja alegra os céus, suas divisões os entristecem. E acrescenta que, por mais inexplicável que seja o mistério da Encarnação, foi-nos revelado por Deus e devemos crê-lo com simplicidade. Em seguida, exorta Eutiques a submeter-se sem discussão. Nesse mesmo ano, São Pedro Crisólogo recebeu com grandes honras em Rávena São Germano de Auxerre; em 31 de julho, oficiou nos funerais do santo francês e conservou como relíquias sua capa e sua camisa de pêlo. São Pedro Crisólogo não sobreviveu muito a São Germano. Tendo recebido uma revelação sobre sua morte próxima, voltou à sua cidade natal, Ímola, onde presenteou a igreja de São Cassiano com vários cálices preciosos. Após aconselhar que se elegesse rapidamente seu sucessor, morreu em Ímola em 2 de dezembro, provavelmente no ano 450, e foi sepultado na igreja de São Cassiano.

A biografia latina, tão insatisfatória, que é nossa única fonte de informação sobre a vida pessoal deste Doutor da Igreja, foi escrita pelo abade Agnellus no ano 836. Em Migne, PL., há dois textos: vol. LI, cc. 13-20, e vol. CVI, cc. 533-559. Mas a melhor edição é, sem dúvida, a de Testi Rasponi, Codex pontificalis ecclesiae Ravennatis, vol. I (1924). Vale a pena ler a biografia de D. L. Baldisserri, San Pier Crisólogo (1920), assim como as monografias alemãs de H. Dapper (1867) e G. Böhmer (1919). Discutiu-se muito sobre os sermões atribuídos a São Pedro. Veja-se Mons. Lanzoni, I sermoni di S. Pier Crisologo (1909); F. J. Peters, Petrus Chrysologus als Homilet (1918); Baxter, em Journal of Theol. Studies, vol. XXIX (1928), pp. 362-368; também C. Jenkins em Church Quarterly Review, vol. CIII (1927), pp. 233-259. Na Revue Bénédictine, vol. XXI (1906), pp. 486-500, o abade Cabrol enumera as razões para atribuir ao santo o “Rótulo” de Rávena; mas a questão não é clara. Os sermões atribuídos a São Pedro Crisólogo podem ser vistos em Migne, PL., vol. 111; na obra de F. Liverani, Spicilegium Liberianum (1863), pp. 125-203, há outros sermões e se utilizam outros manuscritos. Veja-se também Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Literatur, vol. IV, pp. 604-610.1

“Na época do reinado de Maximiano, havia um homem muito rico chamado Dioscoro, que adorava e venerava os ídolos. Dioscoro tinha uma filha chamada Bárbara. Para que nenhum homem pudesse ver a grande beleza de sua filha, Dioscoro construiu uma torre alta e bem defendida e encerrou nela a jovem. Muitos príncipes foram ter com Dioscoro para pedir a mão de sua filha. Dioscoro foi ver Bárbara e lhe disse: “Minha filha, certos príncipes vieram pedir-me a tua mão. Por isso, rogo-te que me comuniques tuas intenções e me digas o que desejas fazer.” Então Santa Bárbara voltou-se, muito irritada, para seu pai e lhe disse: “Meu pai, rogo-te que não me obrigues a casar, pois nem o desejo, nem sequer pensei nisso.”... Pouco depois, Dioscoro saiu da torre e foi para um país distante, onde permaneceu por longo tempo.
“Então Santa Bárbara, a donzela de Nosso Senhor Jesus Cristo, desceu da torre para ver umas termas que seu pai estava construindo. Logo percebeu que havia apenas duas janelas, uma voltada para o norte e outra para o sul, o que a surpreendeu e maravilhou grandemente. Perguntou aos operários por que não tinham feito mais janelas. Eles lhe responderam que assim seu pai havia disposto e ordenado. Então Santa Bárbara lhes disse: “Fazei-me aí outra janela”... Nessas termas a santa donzela foi batizada por um homem de Deus e ali viveu por algum tempo. Seguindo o exemplo do santo precursor do Senhor, São João Batista, alimentava-se apenas de mel e gafanhotos. Nas termas, como na piscina de Siloé, os cegos de nascença recuperaram a vista...
Um dia, a bendita donzela subiu à torre e viu os ídolos que seu pai costumava adorar e venerar. Subitamente, a jovem recebeu a luz do Espírito Santo e adquiriu uma sutileza e clareza maravilhosas no amor de Jesus Cristo, pois o Deus Todo-Poderoso a revestiu de glória soberana e castidade acrisolada. A santa virgem Bárbara, fortalecida na fé, venceu o demônio. Com efeito, ao ver os ídolos, cuspiu-os com desprezo, dizendo: “Todos aqueles a quem vós induzistes ao erro e que creem em vós serão como vós.” Em seguida, retirou-se e louvou o Senhor na torre”.

“E quando a obra já estava concluída, seu pai regressou da viagem. Quando viu que havia três janelas, perguntou aos operários: “Por que fizestes três janelas?” E eles responderam: “Porque tua filha nos ordenou.” Então Dioscoro mandou chamar sua filha e perguntou por que havia mandado fazer três janelas, ao que ela respondeu: “Ordenei que fizessem três janelas, porque três janelas dão luz a todo o mundo e a todas as criaturas, enquanto duas ensombram o universo.” Então seu pai dirigiu-se com ela às termas e perguntou-lhe no caminho como era que três janelas davam mais luz do que duas. E Santa Bárbara respondeu: “Essas três janelas representam claramente o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que são três Pessoas e um só Deus, no qual devemos crer e ao qual devemos adorar.” Então Dioscoro, cheio de cólera, sacou ali mesmo a espada para matá-la. Mas a santa virgem pôs-se em oração e, no mesmo instante, foi milagrosamente transportada para uma distante rocha da montanha. Dois pastores que guardavam ali suas ovelhas viram-na voar... Mas seu pai subiu à sua procura e, tomando-a pelos cabelos, arrastou-a montanha abaixo e a encerrou apressadamente na prisão ... Então o juiz sentou-se para julgá-la. Vendo a grande beleza de Bárbara, disse-lhe: “Escolhe, pois, entre sacrificar aos deuses e salvar a vida, ou morrer cruelmente torturada.” Santa Bárbara respondeu: 'Ofereço-me em sacrifício ao meu Deus, Jesus Cristo, Criador do céu e da terra e de todas as coisas...'”
Depois de ter sido espancada, a santa teve uma visão do Senhor em sua masmorra. Mais tarde, foi novamente açoitada e torturada. E “o juiz mandou que fosse decapitada pela espada. Então, seu pai, muito enfurecido, arrancou-a das mãos do juiz e conduziu-a ao cume de uma montanha. E Santa Bárbara alegrou-se ao ver que se aproximava o momento em que iria receber o prêmio de sua vitória. E enquanto seu pai a arrastava para a montanha, ela fez sua oração, dizendo:
Senhor Jesus Cristo, Criador do céu e da terra, suplico-Te que me concedas a Tua graça e ouças a minha oração por todos aqueles que se recordarem do Teu nome e do meu martírio. Peço-Te que esqueças os seus pecados [de seu pai], pois Tu conheces a nossa fragilidade.”

Então ouviu uma voz do céu que lhe dizia: Vem, Bárbara, minha esposa, vem descansar na morada de Deus meu Pai, que está nos céus. Eu te concedo o que acabas de pedir-me.” E depois de ouvir essas palavras, aproximou-se de seu pai e recebeu a coroa do martírio juntamente com Santa Juliana. E quando seu pai descia da montanha, um fogo do céu caiu sobre ele e o consumiu, de modo que apenas restaram as cinzas de seu corpo. Esta bem-aventurada virgem, Santa Bárbara, recebeu a coroa do martírio com Santa Juliana, no segundo dia das nonas de dezembro. Um nobre chamado Valentino sepultou os corpos das duas mártires em uma pequena aldeia, onde realizaram muitos milagres para glória e louvor de Deus Todo-Poderoso.”
Assim narra a “Legenda Áurea” a história de uma das santas mais populares da Idade Média. Contudo, é muito duvidoso que a virgem e mártir Bárbara tenha realmente existido, e é certo que a lenda é espúria. Os antigos martirológios não mencionam Santa Bárbara; sua lenda não é anterior ao século VII, e seu culto só se popularizou a partir do século IX. A época e o lugar do martírio variam conforme as diferentes versões, que falam da Toscana, Roma, Antioquia, Heliópolis e Nicomédia. Santa Bárbara é uma das Quatorze Santas Auxiliadoras. É invocada contra o raio e o fogo. Por associação, é também Padroeira dos Artilheiros, Engenheiros Militares e Mineiros, possivelmente em razão do tipo de morte de seu pai. O episódio das três janelas que mandou abrir nas termas, bem como a torre que costuma aparecer nas representações pictóricas de Santa Bárbara, fizeram dela a Padroeira dos Arquitetos, Construtores e Pedreiros. A oração que a santa fez no momento de sua morte deu origem à crença de que ela protege de modo especial aqueles que se encontram em perigo de morrer sem os sacramentos.

Quase todos os autores concordam em afirmar que o original da lenda foi escrito em grego. Não existem vestígios de culto antigo à santa, razão pela qual se deve considerar a lenda como uma simples novela. Existem numerosas versões em latim, siríaco e outros idiomas. O texto siríaco pode ser visto na obra da Sra. Agnes Smith-Lewis, Studia Sinaitica, vols. IX e X (1900), juntamente com uma tradução inglesa. Cf. também W. Weyh, Die syrische Barbara Legende (1912). Os textos latinos encontram-se em N. Müller, Acta S. Barbarae (1703), e em P. Paschini, Santa Barbara, note agiografiche (1927). Talvez a recensão mais antiga seja a publicada por A. Wirth, Danae in christlichen Legenden (1892), pp. 105-111; porém, o editor tende a exagerar a origem pagã da lenda de Santa Bárbara e de outras semelhantes. Escreveu-se muito sobre a inclusão de Santa Bárbara entre as Quatorze Santas Auxiliadoras, bem como sobre os diferentes aspectos de seu patronato. Vejam-se, por exemplo, H. Marchesi, Santa Barbara protettrice dei cannonieri (1895); Peine, St. Barbara, die Schutzheilige der Bergleute und der Artillerie (1896); J. Moret, Ste Barbe, patronne des mineurs (1876); mas até hoje não se explicou satisfatoriamente como a santa veio a ser padroeira de corporações tão diversas. O nome de Santa Bárbara já figura em um calendário inglês (Bodleian MS., Digby 63), do fim do século IX, no dia 4 de dezembro. O emblema mais característico da santa na arte é a torre. Vede Künstle, Ikonographie, vol. II, pp. 112-115. Sobre Santa Bárbara no folclore, veja-se Bächtold-Stäubli, Handwörterbuch des deutschen Aberglaubens, vol. I, cc. 905-910.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 481-483.
2. Ibid. pp. 483-485.


























Comentários