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Vida de Santa Inês e São Epifânio de Pavia (21 de janeiro)

  • 21 de jan.
  • 9 min de leitura




Santa Inês por Johann Schraudolph
Santa Inês por Johann Schraudolph

Santa Inês sempre foi considerada na Igreja como padroeira da pureza. É uma das mais populares santas cristãs, e o seu nome está incluído no cânon da missa. Roma foi o cenário do seu triunfo, e Prudêncio nos diz que o seu túmulo podia ser visto desde a cidade. Provavelmente, foi martirizada no início da perseguição de Diocleciano, que publicou seus cruéis éditos em março do ano 303. Santo Ambrósio e Santo Agostinho nos informam que Santa Inês tinha apenas treze anos quando foi martirizada. Suas riquezas e beleza faziam com que os jovens das principais famílias romanas rivalizassem por sua mão; mas Inês respondia a todos que havia consagrado sua virgindade a um esposo celeste, invisível aos olhos do corpo. Não podendo fazê-la vacilar em sua resolução, seus pretendentes a denunciaram como cristã ao governador, certos de que as ameaças e torturas seriam mais eficazes com uma jovenzinha que não se deixava vencer pelos afagos. O juiz empregou a princípio palavras bondosas e lhe fez grandes promessas; mas Inês permaneceu inconmovível, declarando que seu único esposo era Jesus Cristo. Então o juiz recorreu às ameaças, que não conseguiram mais do que pôr em evidência a coragem da jovem e sua decisão de aceitar os tormentos e a morte. O juiz mandou então acender grandes fogueiras e expor diante dos olhos de Inês os ganchos de ferro e outros instrumentos de tortura, ameaçando-a com a execução; mas ela estava tão longe de temer a tortura que, com o rosto resplandecente de alegria, oferecia-se para deitar-se no potro. O juiz ordenou que a arrastassem diante dos ídolos e que a obrigassem a oferecer-lhes incenso; mas, segundo nos diz Santo Ambrósio, os verdugos não conseguiram mover suas mãos, exceto para traçar o sinal da cruz.


Ao ver isso, o governador a ameaçou de enviá-la a uma casa de prostituição, onde sua virgindade, que tanto prezava, ficaria exposta aos insultos da brutal e licenciosa juventude romana.[a] Inês respondeu que Jesus Cristo era demasiado zeloso de sua pureza para permitir que esta fosse assim violada, pois Ele era seu defensor e protetor. “Podes — disse-lhe — manchar tua espada com o meu sangue, mas jamais poderás profanar o meu corpo consagrado a Cristo”. O governador enfureceu-se tanto que mandou que a levassem imediatamente ao lupanar e que se desse a todos liberdade para abusar dela a seu bel-prazer. Muitos jovens licenciosos, cheios de maus desejos, acorreram ao local; mas a vista da santa lhes causou tal terror, que não se atreveram a aproximar-se dela, exceto um, que foi cegado por uma luz descida do céu e caiu tremendo por terra. Seus companheiros, aterrorizados, transportaram-no aos pés da santa que, ao vê-lo, começou a cantar hinos de louvor a Cristo, seu protetor. A virgem obteve com suas orações que a vista e a saúde lhe fossem restituídas.


Santa Inês, por Domenichino (c. 1620)
Santa Inês, por Domenichino (c. 1620)

O principal acusador da santa, que a princípio pretendia apenas satisfazer sua avareza e suas paixões baixas, incitava agora furiosamente contra ela o governador, possuído pelo espírito de vingança. Mas o governador não precisava ser instigado, pois estava no auge da ira ao ver-se ridicularizado por uma simples jovencinha. Assim, condenou-a à decapitação. Transportada de alegria ao ouvir a sentença, “Inês foi ao lugar da execução com mais alegria do que uma jovem vai ao matrimônio”, segundo a expressão de Santo Ambrósio. O verdugo tinha instruções de empregar todos os meios para dobrá-la, mas Inês permaneceu inconmovível e, após uma breve oração, estendeu o pescoço à espada. Os espectadores choravam ao ver a bela jovem carregada de correntes e oferecendo o pescoço ao verdugo. Finalmente, este desferiu o golpe com a mão trêmula. O corpo da santa foi sepultado a curta distância de Roma, junto à Via Nomentana.


Convém acrescentar a esta narração de Alban Butler, que se baseou principalmente em Prudêncio, que os historiadores modernos inclinam-se a pensar que os detalhes do relato não são fidedignos. Como o fazem notar as “actas” de Santa Inês, atribuídas sem razão suficiente a Santo Ambrósio, não podem ser anteriores ao ano 415 e constituem simplesmente uma tentativa de síntese e harmonização dos dados das diversas tradições. Santo Ambrósio, em seu sermão “De Virginibus” (377 p.C.), diz que Santa Inês, em seu martírio, “cervicem inflexit” (“dobrou o pescoço”), e daí se deduziu que foi decapitada. Essa suposição encontra apoio na afirmação explícita de Prudêncio de que a cabeça de Santa Inês caiu ao primeiro golpe. Por outro lado, o epitáfio escrito pelo Papa São Dâmaso fala de “chamas”, mas sem acrescentar mais detalhes sobre a morte; e o belo hino “Agnes beatae virginis” (que Walpole, Dreves e outros autores consideram obra genuína de Santo Ambrósio) deixa claramente entender que a santa não foi decapitada, pois nesse caso não teria podido cobrir-se modestamente após receber o golpe (“percussa”), nem levar as mãos ao rosto. Parece evidente que o autor do hino supõe que Santa Inês recebeu uma ferida no pescoço ou no peito. Dessas aparentes contradições, muitos autores deduzem que já na segunda metade do século IV se havia perdido a memória das circunstâncias exatas do martírio, restando apenas uma tradição vaga.


Em todo caso, não há dúvida possível de que Santa Inês foi realmente martirizada e sepultada junto à Via Nomentana, no cemitério que viria a tomar seu nome. Constantina, filha de Constantino e esposa de Galo, ergueu ali uma basílica em honra da santa antes do ano 354. Conserva-se ainda a inscrição do ábside, em versos acrósticos, mas ela apenas diz sobre Santa Inês que foi “virgem” e “vitoriosa”. O nome de Santa Inês encontra-se na “Depositio martyrum” do ano 354, no dia 21 de janeiro, e ali mesmo se indica o local de sua sepultura. Existem também muitas provas do antiquíssimo culto prestado à santa, tanto nos objetos de arte quanto nas importantes e frequentes menções de seu nome na literatura cristã. “Inês, Tecla e Maria estavam comigo”, disse São Martinho a Sulpício Severo. Como dissemos acima, Santa Inês é um dos santos nomeados no cânon da Missa.


Arca com as relíquias de Santa Inês na Igreja de Santa Inês in Agone, Roma
Arca com as relíquias de Santa Inês na Igreja de Santa Inês in Agone, Roma

É muito possível que o P. Jubaru tenha razão em seu ensaio de harmonização entre os dados de São Dâmaso e de São Jerônimo, mas disso não se segue necessariamente que seja exata a sua teoria de que as “actas” gregas constituem uma amálgama da biografia de duas Ineses diferentes. No que se refere à nossa santa, o P. Jubaru sustenta que ela viveu em Roma, que consagrou desde tenra idade a sua virgindade a Deus e que rejeitou todos os seus pretendentes. Ao eclodir a perseguição, Inês abandonou os seus pais e entregou-se voluntariamente ao martírio. O juiz a ameaçou com a fogueira, mas, como a santa permanecesse inconmovível na sua fé, morreu finalmente apunhalada no pescoço. Em sua complicada monografia, o P. Jubaru afirma ainda ter descoberto o relicário que continha uma grande parte do crânio da santa, no tesouro do “Sancta Sanctorum” do Latrão. Esse tesouro foi aberto em 1903, depois de ter permanecido fechado durante vários séculos, por ordem do Papa Leão XIII. O P. Grisar, S. J., e muitos outros arqueólogos consideram a relíquia como provavelmente autêntica, visto que no século IX se tornou costume separar o crânio dos demais ossos para conservar os restos dos santos nas igrejas. Também parece certo que o corpo de Santa Inês se conservava até essa época sob o altar de sua basílica, e que, em 1605, se verificou que o crânio não estava com os demais ossos. Em consequência de um exame médico dos fragmentos de crânio descobertos no “Sancta Sanctorum”, o Dr. Lapponi concluiu que os dentes demonstravam com absoluta evidência que o crânio era de uma menina de cerca de treze anos de idade. Todos os autores atuais afirmam que os extravagantes milagres narrados nas chamadas “actas” são uma invenção do biógrafo. Assim, o caso de Santa Inês constitui a melhor prova de que as absurdas lendas inventadas por biógrafos desejosos de glorificar os seus biografados não podem servir, por si mesmas, de base para demonstrar que se trata necessariamente de martírios fabulosos e que tais santos não existiram.


As representações artísticas pintam Santa Inês com um cordeiro e uma palma. A origem do cordeiro é, sem dúvida, a semelhança entre as palavras latinas “agnus” (cordeiro) e “Agnes” (Inês). Na igreja de Santa Inês, em Roma, oferecem-se todos os anos dois cordeirinhos no dia da festa da santa, no momento em que o coro entoa a antífona “Stans a dextris ejus agnus nive candidior”. Esses animais são alimentados até chegar o momento de usar a sua lã para tecer os pálios que são colocados no altar da Confissão, sobre o corpo do Apóstolo São Pedro, na vigília da festa de São Pedro e São Paulo. Esses pálios são depois enviados a todos os bispos do Ocidente, em sinal de que a sua jurisdição provém, em última instância, da Santa Sé, centro da autoridade religiosa.


Santa Inês, por Cesare Dandini
Santa Inês, por Cesare Dandini

Até a época em que a festa de São Pedro Nolasco, mais tarde deslocada pela de São João Bosco, ficou fixada em 28 de janeiro, o calendário ocidental celebrava uma segunda festividade de Santa Inês (cuja comemoração persiste ainda na missa e no ofício do dia 28). Esse costume é tão antigo quanto os sacramentários gelasiano e gregoriano, e a sua origem é difícil de explicar. As palavras “de nativitate” ou “in genuinum”, que aparecem em alguns textos litúrgicos dos séculos VII e VIII, parecem indicar que Santa Inês morreu em 28 de janeiro, enquanto a festa do dia 21 coincide com o dia em que a mártir foi levada a julgamento e ameaçada com a tortura. Contudo, dada a importância que a “oitava” adquiriu na liturgia cristã, é curioso que a segunda festa ocorra exatamente oito dias depois da primeira. Existem provas de que já no século VI se conhecia a festividade da Circuncisão com o nome de “octava Domini”. Por outro lado, convém recordar que o nosso atual missal, seguindo um antiquíssimo costume de origens pré-cristãs, indica que se faça especial comemoração dos defuntos “in die septimo, trigesimo et anniversario”, isto é, uma semana, um mês e um ano após a morte. Dom Bäumer fez notar que a primitiva oitava supunha apenas uma comemoração da festa ao fim da semana, e que não se fazia menção dela nos dias intermediários.


As “actas” de Santa Inês encontram-se em Acta Sanctorum, 21 de janeiro. As “actas” gregas foram editadas pela primeira vez por P. Franchi de Cavalieri, S. Agnese nella tradizione e nella legenda (1899), juntamente com uma séria discussão de toda a questão. Ver também a monografia do P. Jubaru, Sainte Agnès d’après de nouvelles recherches (1907), e Sainte Agnès, vierge et martyre (1909); DAC, vol. I, cc. 905-965; Analecta Bollandiana, vol. XIX (1900), pp. 227-228; P. Franchi, em Studi e Testi, vol. XIX, pp. 141 ss.; Bessarione, vol. VII (1911), pp. 218-245; Liber Pontificalis (ed. Duchesne), vol. I, p. 196; CMH, pp. 52-53, 66; S. Bäumer, Geschichte des Breviers (1895), p. 325; sobre as relíquias, cf. Grisar, Die römische Kapelle Sancta Sanctorum und ihr Schatz (1908), p. 103; ver igualmente S. Ambrósio, De Virginibus, em Migne, PL., vol. XVI, cc. 200-202; e Prudêncio, Peristephanon, 14.1



SÃO EPIFÂNIO, BISPO DE PAVIA (496 d.C.)


Gravura de São Epifânio de Pavia
Gravura de São Epifânio de Pavia

A fama da santidade e dos milagres de Epifânio granjeou-lhe as simpatias dos fracos imperadores romanos de seu tempo, assim como o favor dos reis Odoacro e Teodorico, embora os interesses de tão grandes e poderosos senhores fossem totalmente opostos. Epifânio conquistou, com sua eloquência e caridade, os bárbaros selvagens, obteve a vida e a liberdade de milhares de cativos e a abolição de muitas leis opressivas, bem como a diminuição dos elevados impostos públicos. Sua generosa caridade salvou a vida de muitas pessoas castigadas pela fome, e seu zelo ajudou a mitigar o torrente de iniquidades naqueles tempos agitados. Epifânio desempenhou uma embaixada junto ao imperador Antêmio e outra junto ao rei Eurico, em Toulouse, com a esperança de evitar a guerra.


Reconstruiu Pavia, que havia sido destruída por Odoacro, e mitigou o ímpeto de Teodorico em suas vitórias. Epifânio empreendeu uma viagem à Borgonha para resgatar os cativos de Gondebaldo e Godegisilo, e morreu de febre e de frio, em seu regresso a Pavia, à idade de cinquenta e oito anos. Sua morte foi a de um mártir da caridade. Em vida, seu rebanho o honrava com profusão de nomes de afeto e elogio: “o pacificador”, “a glória da Itália”, “luz dos bispos”, e também “papa”, isto é, “pai”. Seu corpo foi trasladado para Hildesheim, na Baixa Saxônia, no ano de 963. Brower opina que suas relíquias se encontram no caixão de prata próximo ao altar.


Ver o seu panegírico em verso, escrito por seu sucessor Enódio, que é considerado a obra-prima desse autor, em Acta Sanctorum e em MGH, Auctores Antiquissimi, vol. VIII, pp. 84-110. Cf. Analecta Bollandiana, vol. XVI (1898), pp. 124-127.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 138-141.

2. Ibid. pp. 142-143.



Notas:


a. Tertuliano faz o seguinte comentário sobre essa forma de tortura: “Ao condenar uma donzela cristã aos abusos de uma juventude licenciosa, em vez de aos suplícios, nada mais fazeis do que reconhecer que nós tememos mais uma mancha da pureza do que qualquer tormento e até mesmo do que a própria morte. O vosso proceder cruel não vos serve de nada, porque antes conquista adeptos para a nossa santa religião”.



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