Vida de São Tomás de Aquino e São Paulo, o Simples (7 de março)
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A família dos condes de Aquino descendia em linha direta dos lombardos. Landulfo, o pai de Tomás, era cavaleiro; sua mãe, Teodora, era de ascendência normanda. Por seu físico, Tomás era mais nórdico que meridional: estatura imponente, ombros largos e tez clara. Não conhecemos com exatidão o ano de seu nascimento (deve ter sido por volta de 1225), no castelo de Rocca Secca, cujas ruínas ainda dominam, de um alto penhasco, a planície da Campania Felice e o pequeno povoado de Aquino. Tomás era o mais jovem dos quatro filhos. Tinha também algumas irmãs, a mais nova das quais morreu fulminada por um raio no mesmo quarto que o santo ocupava; este escapou ileso. Diz-se que durante toda a sua vida teve muito medo das tempestades e que costumava refugiar-se em alguma igreja quando caíam raios. Daí nasceu o costume popular de venerar Santo Tomás como advogado contra as tempestades e a morte repentina.
A poucos quilômetros ao sul de Rocca Secca ergue-se, sobre uma planície, a abadia de Monte Cassino, berço da vida monástica e um dos lugares mais veneráveis da Europa. Ali esteve Santo Tomás como oblato, dos cinco aos doze anos (cf. cap. LIX da Regra de São Bento), quando era abade um parente seu, Landulfo Sinibaldo, e ali recebeu a primeira instrução. Seus pais o retiraram da abadia, provavelmente devido à turbulência do momento, e o enviaram à Universidade de Nápoles, onde estudou durante cinco anos e fez seus primeiros discípulos. Em Nápoles sentiu-se atraído pela Ordem dos Pregadores, a cuja igreja ia com frequência. Seus amigos, os frades, o viram muitas vezes absorto em oração, com o rosto resplandecente; um deles, o Pe. de São Julião, exclamou certa vez: “O Senhor te tem reservado para nossa ordem”. Santo Tomás confiou ao prior que tinha ardentes desejos de ingressar no convento. Levando em conta a oposição de sua família, o prior aconselhou que cultivasse sua vocação e esperasse três anos. O tempo não fez senão confirmar a vocação de Tomás, que tomou o hábito de São Domingos por volta dos dezenove anos de idade.
A notícia causou grande indignação em Rocca Secca. Sua mãe não teria se oposto a que entrasse na Ordem de São Bento, pois provavelmente já o imaginava abade de Monte Cassino, mas não podia aceitar que tivesse abraçado uma ordem de mendicantes. Assim, partiu para Nápoles com a intenção de dissuadir o filho, mas os frades enviaram rapidamente Tomás ao convento de Santa Sabina, em Roma, e quando Teodora chegou já não encontrou ali seu filho. O superior geral da ordem decidiu que Tomás o acompanhasse a Bolonha junto com outros religiosos, mas Teodora não estava disposta a ser enganada desse modo e avisou seus filhos mais velhos, que serviam no exército do imperador na Toscana, para que impedissem a partida de Tomás. Quando o jovem religioso estava descansando à beira do caminho de Aquapendente, perto de Siena, seus irmãos apareceram com um pelotão de soldados. Em vão tentaram arrancar-lhe o hábito, mas o levaram prisioneiro para Rocca Secca e depois para o castelo de Monte San Giovanni, a quatro quilômetros de distância, onde o encerraram sem permitir outras visitas além das de sua irmã Marotta, que não era precisamente devota. No início trataram de fazê-lo mudar de ideias por todos os meios de persuasão possíveis; depois começaram a suavizar pouco a pouco a severidade da prisão. Santo Tomás aproveitou o cativeiro para estudar as “Sentenças” de Pedro Lombardo e aprender de memória grande parte da Sagrada Escritura. Diz-se que foi então que escreveu um tratado sobre os sofismas de Aristóteles.

Ao ver fracassados todos os seus intentos, os irmãos de Tomás conceberam o infame projeto de introduzir em seu quarto uma mulher de má vida. Mas o santo tomou uma tocha ardente para expulsá-la. Conta-se que imediatamente depois adormeceu e teve um sonho no qual viu dois anjos que lhe cingiram o peito com uma corda que simbolizava a castidade.
O cativeiro durou dois anos, até 1245, quando pôde voltar ao convento. Seus superiores determinaram enviá-lo para estudar sob a direção de Santo Alberto Magno. Tomás partiu com o superior geral, João o Teutônico, que ia a Paris, e dali prosseguiu viagem até Colônia. As universidades estavam então cheias de jovens clérigos ansiosos por aprender e discutir. Nem os professores nem os outros estudantes apreciaram a princípio, em seu justo valor, o humilde e tímido religioso. Seu silêncio nas discussões e sua gigantesca estatura lhe valeram o apelido de “o boi silencioso”. Um companheiro bem-intencionado, compadecido da aparente estupidez de Tomás, ofereceu-se para preparar com ele as lições de cada dia, o que o santo aceitou com humildade e gratidão; mas, quando se depararam com uma passagem difícil que o condiscípulo de Tomás não entendia, este a explicou com uma clareza que o deixou atônito. Pouco depois, outro condiscípulo mostrou ao mestre uma folha das anotações do santo, e este não pôde deixar de admirar sua profundidade. No dia seguinte, Santo Alberto examinou publicamente Santo Tomás e finalmente exclamou: “Até agora chamamos o irmão Tomás de ‘boi silencioso’; pois bem, eu vos asseguro que seus mugidos se ouvirão em todo o mundo.” Mas ainda maior que sua ciência era sua piedade. A ordenação sacerdotal não fez senão aumentar sua união com Deus. Seu discípulo e biógrafo, Guilherme de Tocco, diz-nos que passava horas inteiras em oração, de dia e de noite. “Ao chegar na missa ao momento da consagração, observou-se que Tomás, absorto nos divinos mistérios e alimentado por seus frutos, desfazia-se em lágrimas”.
É bastante incerta a cronologia da vida de Santo Tomás nessa época. Sabe-se positivamente apenas que em 1252, quando ainda não era mais que bacharel, ensinava na Universidade de Paris, a pedido de Santo Alberto e do cardeal Hugo de Saint-Cher. Convém notar que o sistema de graus acadêmicos não era então o mesmo de agora; geralmente eram conferidos segundo os méritos alcançados no ensino. Santo Tomás comentou em Paris a Sagrada Escritura e o Liber Sententiarum de Pedro Lombardo. A esse propósito escreveu seus comentários sobre o “Livro das Sentenças”, sobre Isaías e sobre o Evangelho de São Mateus. Quatro anos mais tarde, foi-lhe confiada a cátedra de doutor, encarregado de ensinar, discutir e pregar. Perto do fim desse período começou a escrever a Summa contra Gentiles. De 1259 a 1268, o santo, que já era o professor mais popular de Paris, esteve na Itália, onde foi nomeado pregador geral e professor da escola da corte pontifícia para alunos seletos. Santo Tomás percorreu toda a Itália e teve ocasião de ensinar e pregar em muitas cidades. Por volta de 1266 começou a escrever a mais famosa de suas obras: a “Summa Theologiae”.

Em 1269 voltou a Paris. São Luís da França lhe professava tanta estima que o consultava em todos os assuntos de importância. Mas nada pode dar-nos uma ideia mais precisa da fama do santo do que a decisão da Universidade de ater-se à sua opinião sobre uma questão muito debatida até então: se no Santíssimo Sacramento os acidentes permaneciam realmente ou apenas em aparência. Santo Tomás, após fervorosa oração, escreveu sua resposta em forma de tratado e o depositou sobre o altar antes de torná-lo público. A Universidade aceitou sua decisão, que a Igreja adotou mais tarde, e o tratado ainda se conserva. Pelo que sabemos, esta foi a primeira ocasião em que o Senhor manifestou sensivelmente a Santo Tomás sua aprovação pelo que havia escrito, dizendo-lhe em uma aparição: “Falaste bem do Sacramento do meu Corpo.” Ao ouvir isso, o santo entrou em um êxtase tão longo que os frades tiveram tempo de reunir-se para vê-lo elevado do chão. Então ouviu-se uma voz que vinha do crucifixo e repetia: “Falaste bem de mim, Tomás. Que queres como recompensa?” O santo respondeu: “Não quero nenhuma outra recompensa senão a Ti, Senhor”.
Conta-se também uma história muito diferente ocorrida um dia em que o santo foi convidado para comer com o rei São Luís. Durante a refeição teve uma inspiração repentina acerca de uma questão sobre a qual estava escrevendo e, dando um soco na mesa, exclamou em voz alta: “Este é o fim da heresia maniqueia!” Ao ver o santo absorto, o prior puxou-lhe o manto e lembrou-lhe que estava comendo com o rei; Tomás voltou a si de sua distração e pediu perdão ao monarca.
Durante os dois períodos de seu ensino em Paris, a Universidade foi sacudida por diversas agitações. Em 1272 estourou uma espécie de “greve geral” nas faculdades. Justamente nesse momento Santo Tomás foi chamado à Itália e nomeado reitor da casa de estudos de Nápoles. Esse foi o último cargo que ocupou. No ano seguinte, quando celebrava a Missa da festa de São Nicolau, teve uma visão que o afetou tão profundamente que deixou de escrever e ensinar, sem sequer terminar a Summa theologiae. Aos rogos do irmão Reginaldo, respondeu o santo: “Já não é tempo de escrever. Tudo o que escrevi me parece não passar de palha, em comparação com o que me foi revelado”.

Já se encontrava doente quando o papa Gregório X lhe pediu que assistisse ao Concílio ecumênico de Lyon para a reunião das Igrejas grega e latina e que levasse consigo seu tratado “Contra os erros dos gregos”. Sua enfermidade agravou-se tanto durante a viagem que seus acompanhantes o transferiram para a abadia cisterciense de Fossanova, perto de Terracina, onde o abade lhe cedeu sua própria cela e os monges se puseram a seu serviço. Cedendo aos pedidos dos religiosos, o santo começou a explicar-lhes o “Cântico dos Cânticos”, mas a morte o surpreendeu antes de terminar. Fez a última confissão com o Pe. Reginaldo de Priverno e, ao receber das mãos do abade o Santo Viático, pronunciou as famosas palavras:
“Agora vou receber-Te a Ti, que és o preço da redenção da minha alma. Todos os meus estudos, vigílias e trabalhos foram por teu amor. Ensinei e escrevi muito sobre o Sagrado Corpo de Jesus Cristo. Todos os ensinamentos que escrevi manifestam minha fé em Jesus Cristo e na Santa Igreja Católica, a cujo juízo ofereço e submeto tudo.”
Dois dias depois entregou a alma a Deus, na madrugada de 7 de março de 1274, quando não tinha mais que cinquenta e cinco anos de idade. A Santo Alberto, que naquele momento se encontrava em Colônia, correram-lhe lágrimas diante de toda a comunidade e disse: “O irmão Tomás de Aquino, meu filho em Cristo, a luz da Igreja, morreu. Deus me revelou.”
Santo Tomás foi canonizado em 1323, mas seu corpo não voltou ao poder dos frades de São Domingos senão em 1368. Foi trasladado com grande pompa para a catedral de Toulouse, onde descansa até hoje. São Pio V conferiu a Santo Tomás o título de Doutor da Igreja e, em 1880, Leão XIII declarou-o patrono das universidades, colégios e escolas. Não podemos falar aqui em detalhe dos escritos filosóficos e teológicos do santo, que compreendem vinte grossos volumes. Grande parte de sua obra é formada por comentários de Aristóteles, cujos escritos utilizou para construir uma síntese cristã da filosofia. Disse-se que seu método consistia em aplicar a geometria à teologia, pois primeiro expõe o problema ou teorema e depois as dificuldades. Abundam em seus escritos citações da Sagrada Escritura, da Tradição da Igreja e das principais obras teológicas, e a conclusão consiste sempre em uma resposta categórica a cada uma das objeções enunciadas no início.

Santo Tomás escreveu também dissertações sobre o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Símbolo dos Apóstolos, além de comentários sobre numerosos livros da Sagrada Escritura e tratados sobre questões que lhe eram consultadas. A mais importante de suas obras é a Summa theologiae, que constitui uma exposição muito completa da doutrina teológica de seu tempo. Trata-se sem dúvida de um dos maiores monumentos teológicos de sua época. Das três obras que estavam sobre a mesa no Concílio de Trento, uma era a “Summa” de Santo Tomás e as outras duas eram a Bíblia e os Decretos dos Papas. O tempo que passou torna muito difícil compreender a influência que Santo Tomás exerceu sobre a mentalidade teológica de seus contemporâneos e de seus sucessores imediatos. Além disso, os trabalhos do santo não se limitaram simplesmente ao dogma, à apologética e à filosofia. Quando o papa Urbano IV decidiu estabelecer a festa de Corpus Christi, movido pelas visões da Beata Juliana de Liège, pediu a Santo Tomás que compusesse o ofício litúrgico e a missa do dia. Neles o santo mostra seu extraordinário domínio da língua, não menos que sua exatidão doutrinal e sua ternura de sentimentos. Todos os católicos conhecem os hinos “Verbum Supernum” e “Pange lingua”, com suas estrofes finais “O Salutaris” e “Tantum ergo”, que se cantam durante a Bênção com o Santíssimo Sacramento. Também outros hinos do santo, particularmente o “Lauda Sion” e o “Adoro te devote”, são muito populares.
Entre as qualidades características de Santo Tomás deve-se mencionar o espírito de oração e a humildade. Como ele afirmava constantemente, havia aprendido mais aos pés do crucifixo do que estudando nos livros. O irmão Reginaldo escreve:
“Sua maravilhosa ciência provinha menos de seu gênio do que da eficácia de suas orações. Tomás orava com muitas lágrimas para obter de Deus luz sobre Seus mistérios, e o Senhor lha concedia em abundância”.
A modéstia com que Santo Tomás considerava seu gênio era extraordinária. Certa vez perguntaram-lhe se tinha tentações de orgulho e vanglória; respondeu: “não”. Em seguida acrescentou que, nas raras vezes em que tais pensamentos lhe vinham, o bom senso lhe mostrava imediatamente quão vãos eram. Além disso, tinha tendência a considerar que os outros eram melhores do que ele. Expunha suas opiniões com incrível modéstia; jamais se deixou levar pela cólera nas discussões, por mais que o provocassem, e nunca se ouviu dele alguma palavra que pudesse ferir a um terceiro.

Não possuímos sobre a vida de Santo Tomás uma informação tão completa quanto seria desejável, sobretudo acerca de seus primeiros anos. No entanto existe uma boa quantidade de documentos contemporâneos. Guilherme de Tocco, autor da biografia que se encontra em Acta Sanctorum, foi seu discípulo; também o foi Ptolomeu de Lucca, que lhe dedicou muitas páginas de sua História Eclesiástica. Conservam-se e foram publicados pelos bolandistas muitos dos testemunhos recolhidos com vistas à canonização. Nas cartas e crônicas da época, assim como na grande obra de Denifle, Chartularium Universitatis Parisiensis, encontram-se muitas informações complementares. Para maior detalhe, veja-se a Bibliographie thomiste (1921), reunida pelos padres Mandonnet e Destrez. Em inglês existem várias obras: Life and Labours of St. Thomas of Aquin (1871), de R. B. Vaughan, e as duas biografias mais breves dos padres Conwey e Kavanagh. Sobre o aspecto filosófico, veja-se a obra de Grabmann, traduzida do alemão para o inglês com o título Thomas Aquinas, his Personality and Thought (1928), e M. C. d'Arcy, Thomas Aquinas (1930). Para conhecer mais a fundo a espiritualidade de Santo Tomás e sua vida de santidade, consulte-se a admirável obra de L. H. Petitot, Saint Thomas d’Aquin: la vocation, l’oeuvre, la vie spirituelle (1923), que se baseia nas pesquisas do padre Mandonnet, particularmente em Siger de Brabant. Tampouco se devem esquecer os modernos estudos dos historiadores alemães Endres e Grabmann. Entre as publicações mais recentes, traduzidas ou publicadas em inglês, contam-se J. Maritain, The Angelic Doctor (1931); G. K. Chesterton, Saint Thomas Aquinas (1933); A. Sertillanges, St. Thomas Aquinas and his Work (1933); G. Vann, St. Thomas Aquinas (1940); R. Coffey, The Man from Rocca Secca (1944). A obra mais equilibrada, na qual a unção se une à erudição crítica, é a de Angelo Walz, St. Thomas Aquinas (1945); ali se encontrará uma extensa bibliografia. Existem duas antologias das obras de Santo Tomás, publicadas pelo Pe. d’Arcy (1939) e pelo Pe. Thomas Gilby (1951 e 1955).1

Não se deve confundir São Paulo, chamado “o simples” por sua simplicidade de criança, com São Paulo, o eremita, cuja festa se celebra em 15 de janeiro. São Paulo, o simples, que também era anacoreta, foi um dos mais eminentes discípulos de Santo Antônio (ou Santo Antão), na Tebaida do Egito. Até os sessenta anos havia sido lavrador; mas a infidelidade de sua esposa, a quem surpreendeu em flagrante delito, ajudou-o a desprender-se do mundo. Abandonou a esposa sem uma palavra de reprovação e empreendeu uma viagem de oitenta dias pelo deserto em busca de Santo Antônio, para rogar-lhe que o aceitasse como discípulo e lhe ensinasse o caminho da salvação. O santo, julgando-o já muito velho para empreender a vida de eremita, aconselhou-o a voltar ao mundo para servir a Deus no trabalho ou a entrar em algum mosteiro em que sua simplicidade não constituísse obstáculo. Em seguida, fechou-lhe a porta. Em vez de obedecer, Paulo permaneceu ali quatro dias, entregue ao jejum e à oração, até que Santo Antônio o viu ao abrir a porta. “Vai-te daqui, ancião”, disse-lhe o patriarca. “Por que és tão teimoso? Não podes ficar aqui toda a vida.” São Paulo respondeu: “Neste lugar vou morrer.” Vendo que ele não tinha alimentos e temendo que sua morte lhe pesasse na consciência, Santo Antônio teve de admiti-lo no mosteiro contra a própria vontade. “Para te salvares, tens de ser obediente e fazer tudo o que eu te mandar”, recomendou-lhe. “Farei tudo o que me mandares.”
O patriarca submeteu seu discípulo a um noviciado que teria assustado a outro menos decidido. Primeiramente mandou-o permanecer orando, fora da cela, até nova ordem; São Paulo obedeceu fielmente, apesar do sol ardente e do jejum. Depois permitiu-lhe entrar na caverna para tecer esteiras, como ele próprio fazia; assim o fez o ancião, sem deixar de rezar. Quando já havia fabricado quinze esteiras, São Antônio disse-lhe que estavam mal feitas e ordenou que as desfizesse e recomeçasse o trabalho. São Paulo obedeceu sem murmurar. Quando terminou de tecer as esteiras pela segunda vez e ainda em jejum, Santo Antônio submeteu-o a outra prova: como o pão estava muito duro e seco, mandou que pusesse seis onças de pão de molho; mas, em vez de comer imediatamente, Santo Antônio sentou-se junto ao ancião sem tocar no pão, e ambos se puseram a cantar salmos até o entardecer, que era a hora de comer. Depois da refeição costumavam rezar algumas horas, tomavam um breve descanso e levantavam-se novamente para rezar até o amanhecer. Ao cair do sol, cada um tomava uma fatia de pão e Antônio perguntava ao discípulo: “Queres outra fatia?” “Sim”, respondia ele; “se tu também a tomares”. Antônio replicava: “Com uma basta; eu sou monge”. O ancião respondia: “Então para mim também basta uma, pois eu quero ser monge”. A cena repetia-se diariamente, embora às vezes a prova mudasse de forma.

Por exemplo, São Paulo recebia ordem de ir buscar água e despejá-la em um buraco, ou tecer cestos de juncos para depois desmanchá-los, ou coser e descoser suas vestes; mas, por mais absurdas que fossem as ordens de São Antônio, São Paulo obedecia prontamente e com alegria. Em certa ocasião, Santo Antônio derramou um jarro de mel no chão e mandou que São Paulo o recolhesse sem apanhar um grão de pó. Em outra ocasião, com alguns hóspedes na ermida, São Paulo interrompeu a conversa para perguntar se os profetas haviam precedido a Jesus Cristo ou se este havia precedido os profetas. Santo Antônio, um tanto envergonhado pela ignorância do discípulo, ordenou-lhe asperamente que guardasse silêncio e saísse da ermida. Paulo obedeceu imediatamente e não voltou a abrir a boca até que alguns monges comunicaram o fato a Santo Antônio, que já havia esquecido o incidente. Compreendendo que o silêncio de Paulo era prova de perfeita obediência, exclamou: “Este pequeno monge nos deixa a todos para trás, pois obedece sem reclamar à menor indicação da vontade de um homem, enquanto nós frequentemente fechamos os ouvidos às palavras que vêm do Céu”. Quando Santo Antônio julgou que havia provado suficientemente São Paulo, destinou-lhe uma cela a uns cinco quilômetros de distância da sua e ia visitá-lo com frequência. Logo descobriu que São Paulo possuía singulares dons espirituais e um poder de curar e exorcizar maior que o seu. Assim, quando Santo Antônio não podia curar um doente, enviava-o a São Paulo, que o curava infalivelmente. Outro de seus dons era o de ler os corações; ao ver um homem na igreja, apenas olhando seu rosto, podia dizer se suas intenções eram boas ou más. Guiado por esses sinais da predileção divina, Santo Antônio chegou a estimar seu velho discípulo mais do que a qualquer outro e frequentemente o propunha como modelo.
Quase todos os dados deste artigo foram tomados do capítulo 22 da História Lausíaca de Paládio; alguns outros da História dos Monges, traduzida por Rufino. Como Paládio escreveu cinquenta ou sessenta anos depois da morte de Paulo, o Simples, é muito possível que tenha embelezado seu relato com algumas lendas. Encontrar-se-á uma biografia detalhada do santo em J. Bremond, Les Pères du désert, vol. 1, pp. xix–xxiii e 94–96.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 485-489.
2. Ibid. pp. 489-491.






















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