Vida de São Paulo, Eremita e Santo Amaro, Abade (15 de janeiro)
- Sacra Traditio

- 15 de jan.
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Elias e São João Batista santificaram o deserto, e o próprio Jesus Cristo foi um modelo de vida eremítica durante seus quarenta dias de jejum. Mas, ainda reconhecendo que o Espírito Santo impelia na antiguidade os santos a viverem afastados dos homens, devemos considerar isso mais como uma vocação particular do que como um exemplo geral. Falando de modo geral, tal gênero de vida está cheio de perigos e só pode convir a homens muito bem firmados na virtude e familiarizados com a prática da contemplação.
São Paulo havia nascido no Egito, na baixa Tebaida, e havia perdido seus pais quando tinha catorze anos. Distinguia-se pelo conhecimento do grego e da cultura egípcia. Era bondoso, modesto e temente a Deus. A cruel perseguição de Décio perturbou a paz da Igreja no ano 250; o demônio procurava não tanto matar os corpos quanto as almas com seus sutis artifícios. Durante esses dias perigosos, Paulo permaneceu oculto na casa de um amigo; mas, ao saber que um cunhado seu, que cobiçava suas propriedades, se preparava para denunciá-lo, fugiu para o deserto. Ali encontrou algumas cavernas que, segundo a tradição, haviam sido o ateliê dos cunhadores de moeda na época de Cleópatra, rainha do Egito. Escolheu para morada uma dessas cavernas, perto da qual havia uma fonte e uma palmeira. As folhas da palmeira lhe forneciam a vestimenta, seu fruto o alimento, e a fonte lhe dava a água. Paulo tinha vinte e dois anos quando chegou ao deserto. Seu primeiro propósito havia sido o de gozar de liberdade para servir a Deus durante a perseguição; mas, tendo provado as doçuras da contemplação na solidão, resolveu nunca mais voltar à cidade e esquecer totalmente o mundo. Bastava-lhe saber que o mundo existia e orar por sua conversão. Paulo viveu do fruto da palmeira até os quarenta e três anos. Desde então até sua morte, foi milagrosamente alimentado, como Elias, pelo pão que um corvo lhe trazia todos os dias. Ignoramos de que modo viveu e se ocupou até sua morte, ocorrida quando tinha noventa anos; mas Deus encarregou-se de dar a conhecer seu servo após a morte.
O grande Santo Antão, que contava então noventa anos, foi assaltado por uma tentação de vaidade. O demônio lhe fazia crer que ninguém havia servido a Deus tantos anos quanto ele na solidão, levando-o a imaginar que fora o primeiro a adotar tão extraordinário gênero de vida. Mas Deus lhe revelou em sonho que estava enganado e lhe ordenou partir imediatamente em busca de um solitário de maiores perfeições que ele. O santo pôs-se a caminho ao romper da aurora. São Jerônimo relata que Santo Antão encontrou no caminho um centauro, metade cavalo e metade homem, e que o monstro ou fantasma (São Jerônimo não se atreve a determiná-lo) desapareceu quando o santo traçou o sinal da cruz, não sem antes lhe indicar o caminho que devia seguir. O mesmo autor acrescenta que Santo Antão encontrou pouco depois um sátiro, que lhe deu a entender que habitava no deserto e que era um dos seres que os pagãos adoravam como divindades.[a]

Após dois dias de busca, Santo Antão descobriu a morada de São Paulo, graças a uma luz que guiou seus passos até a entrada. Muitas vezes Santo Antão bateu à porta da cela, e São Paulo finalmente lhe abriu, com um sorriso nos lábios. Os dois santos se abraçaram e se chamaram pelos seus nomes, que conheceram por revelação divina. São Paulo perguntou se a idolatria ainda reinava no mundo. Enquanto conversavam, um corvo veio voando até eles e deixou cair um pedaço de pão. São Paulo disse: “Nosso bom Senhor nos manda o alimento. Durante os últimos sessenta anos recebi todos os dias meio pedaço de pão dessa forma. Como vieste visitar-me, Cristo dobrou a ração para que nada falte a seus servos”. Depois de darem graças a Deus, sentaram-se para comer junto à fonte. Surgiu, porém, uma leve discussão entre eles para decidir qual dos dois deveria partir o pão. Santo Antão alegava a maior idade de São Paulo, e este, por sua vez, afirmava que Santo Antão era seu hóspede. Por fim, decidiram partir o pão entre os dois. Terminada a refeição, beberam um pouco de água e passaram toda a noite em oração.
Na manhã seguinte, São Paulo anunciou a seu hóspede que se aproximava a hora de sua morte e que Deus o havia enviado para encarregar-se de lhe dar sepultura. “Vai buscar a túnica que te presenteou Atanásio, o bispo de Alexandria — disse-lhe —, porque quero que nela envolvas o meu cadáver”. Isso era provavelmente um simples pretexto para permanecer sozinho, em oração, até o momento em que Deus o chamasse a Si, e também para mostrar sua veneração por Atanásio e a grande estima em que tinha a fé e a comunhão da Igreja Católica, pela qual o santo bispo então sofria grandes provas. Santo Antão surpreendeu-se ao ouvi-lo mencionar essa túnica, cuja existência só podia conhecer por revelação. Qualquer que tenha sido o motivo pelo qual queria ser enterrado com ela, Santo Antão conformou-se com o seu desejo e partiu apressadamente para o seu mosteiro a fim de trazê-la. Mais tarde confessava a seus monges que ele não passava de um simples pecador que se dizia servo de Deus, mas que lhe fora concedido ver Elias e São João Batista no deserto. Tendo tomado a túnica, voltou às pressas, temeroso de encontrar Paulo já morto, como de fato aconteceu.

Quando ainda estava a caminho, Deus permitiu que visse subir ao céu a alma de São Paulo, acompanhada de coros de anjos, profetas e apóstolos. Embora se alegrasse pelo santo, não pôde deixar de entristecer-se por haver perdido um tesouro tão recentemente descoberto. Na caverna encontrou o cadáver do santo, ajoelhado, com as mãos estendidas em forma de cruz. Vendo-o nessa posição, julgou que ainda estivesse vivo e, cheio de alegria, ajoelhou-se para orar com ele. O completo silêncio de São Paulo fê-lo logo compreender que estava morto. Enquanto Santo Antão se perguntava como poderia cavar a sepultura, dois leões aproximaram-se mansamente, como se estivessem tristes, e abriram um buraco com suas garras. Santo Antão ali depositou o cadáver, cantando os salmos do ritual da Igreja daquele tempo. Depois voltou ao seu mosteiro louvando a Deus e contou a seus monges o que havia visto e feito. Até a sua morte conservou como um tesouro a vestidura de São Paulo, tecida com folhas de palmeira, e ele mesmo a vestia nas grandes festividades. São Paulo morreu no ano 342, aos cento e treze anos de idade e aos noventa de vida eremítica. É geralmente conhecido com o título de “o primeiro eremita”, para distingui-lo dos outros santos do mesmo nome. Os ritos copta e armênio o comemoram no Cânon da Missa.

O resumo da vida de São Paulo que Butler nos oferece neste artigo foi tomado da breve biografia editada em latim por São Jerônimo, muito conhecida no Ocidente. Embora seja questão muito discutida, não é impossível que São Jerônimo tenha praticamente se limitado a traduzir um texto grego, do qual existem versões em siríaco, árabe e copta, e que está repleto de dados fabulosos. Contudo, é certo que São Jerônimo considerava essa biografia como substancialmente histórica. O original grego parece ter sido um suplemento destinado a corrigir a Vida de Santo Antão escrita por Santo Atanásio. Sobre esse ponto, ver F. Nau, Analecta Bollandiana, vol. xx (1901), pp. 121-157. Os dois principais textos gregos foram editados por J. Bidez (1900), os textos siríaco e copta por Pereira (1904). Cf. também J. de Decker, Contribution à l’étude des vies de Paul de Thèbes (1905); Plenkers, em Der Katholik (1905), vol. 11, pp. 294-300; Schiwietz, Das morgenländische Mönchtum (1904), pp. 49-51; Cheneau d’Orléans, Les Saints d’Égypte (1923), vol. 1, pp. 76-86. R. Draguet, Les Pères du désert (1949), traduziu para o francês a vida de São Paulo escrita por São Jerônimo; cf. H. Waddell, The Desert Fathers (1936), pp. 35-53.1

Entre outros nobres que colocaram seus filhos nas mãos de São Bento para que os educasse na piedade e no saber, encontrava-se um certo Equício, que levou ao santo seu filho de doze anos. Mais tarde, São Bento fez do rapaz, chamado Mauro, seu assistente no governo de Subiaco.
Um menino chamado Plácido foi um dia buscar água e caiu no lago, onde foi arrastado à distância de um tiro de flecha. São Bento, que se encontrava em sua cela, teve uma visão do ocorrido e enviou Mauro para resgatar o menino. Mauro obedeceu, caminhou sobre as águas e retirou o menino, puxando-o pelos cabelos. Mauro atribuiu o milagre às orações de São Bento, mas o santo declarou que fora uma recompensa de Deus à obediência de seu discípulo. Pouco depois, o santo patriarca retirou-se para Monte Cassino, e parece que São Mauro lhe sucedeu como superior de Subiaco.
Esses dados que nos fornece São Gregório Magno são praticamente tudo o que sabemos sobre a vida de São Mauro. Contudo, uma suposta biografia, escrita pelo abade Odão de Glanfeuil, sob o pseudônimo de Fausto, afirma que São Mauro foi para a França; que, graças à liberalidade do rei Teodoberto, fundou a grande abadia de Glanfeuil, mais tarde chamada Saint-Maur-sur-Loire, e que a governou até os setenta anos. Depois, Mauro renunciou à sua dignidade abacial e passou o resto de sua vida na solidão, preparando-se para a "passagem à eternidade". Dois anos depois caiu enfermo e morreu em 15 de janeiro do ano 584. Foi sepultado na ala direita do altar da igreja de São Martinho. Em um rolo de pergaminho, depositado em seu túmulo, escreveu-se o seguinte epitáfio: “Mauro, monge e diácono, que veio à França nos dias do rei Teodoberto e morreu dezoito dias antes do início de fevereiro”. É provável que tal pergaminho tenha sido realmente descoberto em meados do século IX.

Desde a época de Bolando e Mabillon (que, em Acta Sanctorum O.S.B., vol. I, pp. 275-298, publicou como documento autêntico a Vida de São Mauro, escrita pelo pseudo-Fausto) até nossos dias, tem-se debatido muito a questão da relação de São Mauro com Glanfeuil. Bruno Krusch (Neues Archiv, vol. XXXI, pp. 245-247) afirma que não há nenhuma razão para sustentar que, na época merovíngia, tenha existido uma abadia em Glanfeuil, nem um monge chamado Mauro. Sem ir tão longe, o P. Poncelet, em numerosas notas de Analecta Bollandiana (por exemplo, vol. XV, pp. 355-356), e U. Berlière, na Revue Bénédictine (vol. XXII, pp. 541-542), estão de acordo em que a vida escrita por “Fausto” é pouco confiável. H. Leclercq, em DACL., s.v. Glanfeuil (vol. VI, col. 1283-1319), faz um admirável resumo de toda a discussão e conclui no mesmo sentido. Ver também J. McCann, St. Benedict (1938), pp. 274-281.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 100-102.
2. Ibid. pp. 102-104.
Notas:
a. Os cristãos da época não eram menos crédulos que os pagãos. Plutarco narra, em sua Vida de Sila, que um sátiro foi levado a Atenas para ser visto por esse general. São Jerônimo conta que em Alexandria existiu um sátiro vivo, que foi embalsamado depois de sua morte e enviado a Antioquia para ser visto por Constantino. Plínio e outros autores afirmam que houve pessoas que viram centauros.


























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