Vida de Santas Perpétua e Felicidade e Santa Coleta (6 de março)
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As Atas do martírio de Santa Perpétua, Santa Felicidade e seus companheiros constituem um dos maiores tesouros hagiográficos que chegaram até nós. No século IV, costumava-se ler publicamente essas atas nas igrejas da África. O povo lhes dedicava tão grande estima que Santo Agostinho se viu obrigado a publicar um protesto para evitar que fossem consideradas em pé de igualdade com a Sagrada Escritura. Trata-se, como é natural, de um documento puramente humano, mas que conserva de maneira singularmente vívida as palavras das duas mártires.
Durante a perseguição empreendida pelo imperador Severo, foram presos em Cartago cinco catecúmenos, no ano 203. Eram eles Revocato, Felicidade (sua companheira de escravidão, que estava grávida havia vários meses), Saturnino, Secúndulo e Víbia Perpétua. Esta última tinha vinte e dois anos de idade, era esposa de um homem de boa posição e mãe de um menino pequeno. Seus pais e dois de seus irmãos ainda viviam, enquanto o terceiro, chamado Dinócrates, havia morrido aos sete anos de idade. A esses cinco prisioneiros uniu-se Sáturo, que os havia instruído na fé e se recusou a abandoná-los. O pai de Perpétua, de quem ela era a filha predileta, era pagão e já de idade avançada; sua mãe era provavelmente cristã, assim como um de seus irmãos, enquanto o outro ainda era catecúmeno. Os prisioneiros foram colocados sob vigilância numa casa particular. Perpétua narra assim seus sofrimentos:
“Eu estava ainda com meus companheiros. Meu pai, que me amava muito, procurava convencer-me com razões para enfraquecer minha fé e afastar-me de meu propósito. Eu lhe respondi: ‘Pai, não vês esse cântaro ou jarro, ou como queiras chamá-lo?... Pode ele receber um nome que não corresponda ao que é?’ ‘Não’, replicou ele. ‘Pois também eu não posso chamar-me por um nome que não signifique o que sou: cristã.’ Ao ouvir a palavra ‘cristã’, meu pai lançou-se sobre mim e tentou arrancar-me os olhos, mas apenas me golpeou um pouco, pois meus companheiros o impediram... Dei graças a Deus pelo descanso de não ver meu pai por algum tempo... Nesses dias recebi o batismo e o Espírito me inspirou a não pedir outra coisa senão a graça de suportar o martírio. Pouco depois, fomos transferidos para a prisão, onde tive muito medo, pois nunca havia vivido em tal escuridão. Que dia horrível! O calor era insuportável, pois a prisão estava cheia. Os soldados nos tratavam brutalmente. Para completar, eu já sofria dores no ventre. Então Tércio e Pomponio, os dois santos diáconos que nos levavam os sacramentos, pagaram aos soldados para que nos transferissem, por algumas horas, a um canto menos ruim da prisão e nos dessem algum alívio. Todos os homens se afastaram um pouco e eu amamentei meu filhinho, que estava muito fraco por falta de alimento. Manifestei a minha mãe a dor que isso me causava, animei meu irmão e pedi a ambos que cuidassem de meu filho. Dava-me muita pena vê-los sofrer por mim. Durante vários dias estive muito abatida; por fim, consegui que permitissem que meu filho ficasse comigo na prisão; isso me libertou de minha principal preocupação, e recobrei imediatamente as forças, de modo que a prisão começou a parecer-me um palácio, onde eu era mais feliz do que em qualquer outro lugar.
“Um dia, meu irmão me disse: ‘Irmã, agora gozas de grande favor no Céu; pede a Deus que te dê a conhecer se te espera o martírio ou a liberdade.’ Eu sabia que Deus não deixaria de me ouvir, pois eu sofria por Sua causa, e lhe respondi, cheia de confiança: ‘Amanhã te darei a resposta de Deus, irmão.’ Orei, então, a Deus, e sua resposta foi esta: vi uma escada de ouro, extraordinariamente longa, que subia até o céu, mas tão estreita que só uma pessoa podia subir. De ambos os lados havia toda espécie de armas penduradas: espadas, lanças, ganchos, punhais. Estavam dispostas de tal modo que quem subisse descuidadamente, sem olhar para o alto, recebia imediatamente uma multidão de ferimentos. Ao pé da escada havia um enorme dragão, que espreitava os que queriam subir e procurava impedi-los. O primeiro a subir foi Sáturo, que se havia entregue espontaneamente por nós, pois nos instruíra na fé e estava ausente quando fomos presos. Ao chegar ao alto da escada, Sáturo voltou-se para mim e disse: ‘Perpétua, aqui te espero; mas cuidado para que o dragão não te morda.’ Eu respondi: ‘Em nome de Jesus Cristo, ele não me morderá.’ No mesmo instante, o dragão abaixou a cabeça, como se tivesse medo de mim, e a colocou sobre o primeiro degrau, de modo que para dar o primeiro passo tive de pisar-lhe a cabeça. Continuei a subir e vi um grande jardim, em cujo centro estava um homem alto, de cabelos brancos, vestido como pastor, ordenhando suas ovelhas; ao redor havia milhares de pessoas vestidas de branco. O homem levantou a cabeça, fixou os olhos em mim e disse: ‘Bem-vinda, minha filha.’ Chamou-me e deu-me um pedaço de queijo; tomei-o em minhas mãos e o comi; e todos os que estavam ao redor diziam ‘Amém’ . Despertei ao ouvir essa palavra e minha boca conservava ainda um sabor muito agradável. Imediatamente contei o sucedido a meu irmão, e ambos compreendemos que nos esperava o martírio e renunciamos a toda esperança deste mundo.
“Pouco depois, correu o rumor de que seríamos julgados. Meu pai veio da cidade, muito angustiado, tentando afastar-me de minha resolução. Disse-me: ‘Minha filha, compadece-te de meus cabelos brancos! Tem piedade de teu pai, se sou digno de que me chames pai; tem piedade de mim, que te eduquei e sempre te preferi a teus irmãos. Não tens nada a reprochar-me. Pensa em tua mãe e na irmã de tua mãe; pensa sobretudo em teu filho, que não poderá sobreviver-te. Depõe teu orgulho e não nos arruines, pois jamais poderemos voltar a falar como homens livres, se algo te acontecer.’ Assim falou meu pai, cheio de amor, beijando minhas mãos e ajoelhado diante de mim; estava tão comovido que já não me chamava ‘filha’, mas ‘senhora’. Isso me fez sofrer, pois compreendia que ele seria o único dos meus que não se alegraria com meu martírio. Consolei-o como pude, dizendo: ‘As coisas acontecerão como Deus dispuser, pois estamos em Suas mãos e não nas nossas.’ E meu pai partiu muito angustiado. No dia seguinte, enquanto comíamos, fomos chamados de repente para o julgamento e conduzidos à praça do mercado. A notícia havia se espalhado rapidamente e uma grande multidão se reuniu. Colocaram-nos numa plataforma diante do juiz, que era Hilariano, procurador da província, pois o procônsul havia morrido. Todos os que foram julgados antes de mim confessaram a fé. Quando chegou minha vez, meu pai aproximou-se com meu filho nos braços e, fazendo-me descer da plataforma, suplicou-me: ‘Tem piedade de teu filho.’ O presidente Hilariano uniu-se aos rogos de meu pai, dizendo-me: ‘Tem piedade dos cabelos brancos de teu pai e da tenra idade de teu filho. Oferece sacrifícios pela prosperidade dos imperadores.’ Eu respondi: ‘Não!’ ‘És cristã?’, perguntou Hilariano. Respondi: ‘Sim, sou cristã.’ Como meu pai persistisse em tentar demover-me, Hilariano mandou que o expulsassem, e os soldados o golpearam com uma vara. Isso me doeu como se me tivessem golpeado a mim, pois era terrível ver maltratarem meu pai idoso. Então o juiz nos condenou a todos às feras e voltamos cheios de alegria à prisão. Como meu filho estava acostumado ao seio, pedi a Pomponio que o trouxesse à prisão, mas meu pai se recusou a deixá-lo vir. Contudo, Deus dispôs as coisas de tal modo que meu filho não sentiu falta do seio, e eu não sofri com o leite que me enchia os peitos.”

Segundo parece, Secúndulo havia morrido na prisão antes do julgamento. Antes de pronunciar a sentença, Hilariano mandara açoitar Revocato e Saturnino e dar bofetadas em Perpétua e Felicidade. Reservou-se os mártires para os espetáculos que se iam oferecer aos soldados durante as festas de Geta, a quem seu pai, Severo, havia nomeado César quatro anos antes, enquanto havia nomeado Augusto seu filho Caracala.
Santa Perpétua relata assim outra de suas visões:
“Poucos dias depois, enquanto eu estava orando, escapou-me o nome de Dinócrates. A coisa me surpreendeu muito, pois eu não estava pensando nele. Logo compreendi que devia orar por ele e assim o fiz com grande fervor e insistência. Naquela mesma noite tive uma visão. Vi Dinócrates sair, suado e sedento, de um lugar muito escuro em que havia muitas pessoas; em seu rosto pálido via-se a ferida que tinha ao morrer. Dinócrates era meu irmão segundo a carne e havia morrido aos sete anos, consumido por uma terrível gangrena no rosto. Por ele eu estava orando; mas entre nós dois havia um grande abismo, de modo que não podíamos aproximar-nos. Perto dele havia uma fonte; mas a borda era bastante alta, de sorte que Dinócrates teve de ficar na ponta dos pés para poder beber. Mas nem assim conseguiu alcançar a água, porque a borda era demasiado alta para ele; ao despertar, compreendi que meu irmão se achava em um lugar de sofrimentos. Contudo, senti grande confiança de que poderia ajudá-lo e pedi a Deus por ele até o dia em que fomos transferidos para a prisão do quartel, pois estávamos destinados a lutar com as feras durante as festas que se celebrariam no quartel em honra do César Geta. Continuei pedindo dia e noite por meu irmão, com muitas lágrimas. Quando se aproximava o dia do martírio tive uma visão. Vi o mesmo lugar onde antes estava meu irmão, mas agora estava cheio de luz. Dinócrates estava limpo, bem vestido e muito fresco; onde antes estava a ferida do rosto, havia agora apenas uma cicatriz; e a borda da fonte ficava agora à altura do peito; a água brotava constantemente e sobre a borda havia um vaso de ouro cheio de água. Dinócrates aproximou-se e começou a beber, e a água do vaso não se esgotava. Dinócrates bebeu até saciar-se e depois se afastou, brincando como uma criança. Despertei, certa de que já não sofria.
“Alguns dias depois, Pudente, o chefe da prisão, começou a mostrar-nos certa consideração e a permitir que nos visitassem, pois havia percebido nosso grande valor. Pouco antes do dia das festas, meu pai veio ver-me, esmagado de dor, e começou a puxar a barba, a lançar-se ao chão, a amaldiçoar sua velhice e a dizer coisas que teriam comovido o mais duro dos homens. Senti grande compaixão por ele.
“Na véspera do dia do martírio tive outra visão. Vi o diácono Pomponio aproximar-se e bater fortemente à porta da prisão. Fui abrir-lhe e encontrei-o vestido com uma túnica sem cinto e calçado com sapatos muito estranhos. Pomponio disse-me: ‘Perpétua, estamos esperando por ti; vem comigo.’ Então tomou-me pela mão e começamos a caminhar penosamente por um caminho áspero e desagradável, até chegarmos ao anfiteatro. Pomponio conduziu-me ao centro do circo e disse-me: ‘Não tenhas medo; eu estou contigo e sofrerei contigo.’ Depois afastou-se. Levantei os olhos e vi uma imensa multidão. Como eu sabia que estava condenada às feras, estranhei não ver nenhuma na arena. Então apareceu um egípcio desagradável com seus servidores para lutar contra mim. Mas ao mesmo tempo apareceu um grupo de jovens que vinham defender-me. Trocaram minhas roupas pelas de um homem e ungiram-me com óleo para o combate; e vi que o egípcio mordia o pó diante de mim. Então apareceu um homem tão alto que sua cabeça se erguia acima do anfiteatro; estava vestido com uma túnica de púrpura sem cinto e no centro do peito pendiam duas faixas; suas sandálias estavam curiosamente tecidas com ouro e prata; tinha um bastão como o dos chefes dos atletas e nas mãos trazia uma bandeja verde com maçãs de ouro. Ordenou à multidão que se calasse e disse: ‘Se o egípcio vencer Perpétua, terá o direito de decapitá-la com a espada; e se Perpétua vencer o egípcio, receberá como prêmio a bandeja.’ Depois de dizer isso, retirou-se. E o egípcio e eu começamos a lutar. O egípcio procurava agarrar-me pelos pés, mas eu não deixava de golpear-lhe o rosto com os calcanhares; e comecei a voar e a dar-lhe golpes por cima. Vendo que a luta diminuía, esfreguei as mãos. Consegui agarrar-lhe a cabeça e fazê-lo cair de bruços; então pus o pé sobre seu rosto. A multidão levantou grandes gritos, enquanto meus companheiros cantavam salmos. E eu me aproximei do chefe dos atletas, que me entregou a bandeja, beijou-me e disse: ‘A paz seja contigo, filha.’ E aproximei-me triunfalmente da Porta da Vida.[a] Nesse mesmo instante despertei. Então compreendi que meu combate não seria contra as feras, mas contra o demônio, e que sairia vitoriosa. Isto escrevi até a véspera dos jogos; o que aconteceu nos jogos o escreverá quem se sentir chamado a fazê-lo.”

São Sáturo deixou também escrita uma visão que teve. Os anjos conduziram-no, juntamente com seus companheiros, a um belo jardim, onde encontraram os mártires Jocundo, Saturnino e Artaxio, que haviam perecido recentemente na fogueira, e a Quinto, que havia morrido na prisão. Depois os anjos os levaram a um palácio luminoso, onde estava sentado um ancião de cabelos brancos e rosto jovem, “cujos pés não víamos”; à direita e à esquerda do Ancião estavam muitos outros anciãos que cantavam em uníssono: “Santo, Santo, Santo.” Sáturo e seus companheiros detiveram-se diante do trono e beijaram o Ancião, que passou a mão sobre seus rostos. [b] E os anciãos disseram-nos: “Levantai-vos.” E nos levantamos e demos o beijo da paz. Então os anciãos nos disseram: “Ide combater.” Sáturo disse a Perpétua: “Agora tens tudo o que podes desejar.” Perpétua respondeu: “Louvado seja Deus, que me deu felicidade no mundo e me deu aqui uma felicidade ainda maior.” Sáturo acrescenta que ao sair encontraram diante da porta seu bispo Optato e um sacerdote chamado Aspásio, que estavam sozinhos e tristes. Ambos se prostraram aos pés dos mártires e lhes pediram que os reconciliassem, pois tinham tido uma disputa. Quando Perpétua conversava com eles, “debaixo de uma roseira”, os anjos ordenaram aos dois clérigos que se reconciliassem e disseram a Optato que acabasse com as divisões em sua igreja. Sáturo acrescenta: “Então começamos a reconhecer muitos mártires e nos fortaleceu uma alegria indescritível e deliciosa. Despertei com a alma cheia de alegria.”
Provavelmente uma testemunha ocular completou as atas. Felicidade temia ser privada do martírio, porque geralmente não se condenava à pena capital as mulheres grávidas. Todos os mártires oraram por ela e ela deu à luz uma filha na prisão; um dos cristãos adotou a menina.
O chefe da prisão, temendo que os cativos empregassem algum conjuro mágico para escapar, tratava-os rudemente e havia proibido todas as visitas; mas Perpétua falou com ele e, como resultado dessa conversa, começou a tratar melhor os prisioneiros e permitiu que recebessem a visita de alguns de seus amigos. Por outra parte, o carcereiro Pudente, “que havia chegado à fé”, fazia quanto podia pelos mártires. Na véspera do martírio ofereceu-se-lhes, segundo o costume, uma refeição pública chamada “a festa gratuita”; os prisioneiros esforçaram-se por transformá-la em um ágape ou “festa de amor” e falaram a todos do juízo de Deus e da alegria com que iam ao martírio. Sua coragem assombrou os pagãos e produziu numerosas conversões.
No dia do martírio, os prisioneiros saíram da prisão como se fossem ao Céu. À frente marchavam os homens; atrás deles ia Perpétua “cujos olhos brilhavam de tal modo, que faziam baixar os olhares dos circunstantes”, junto com Felicidade, “a qual se sentia muito ditosa ao passar das mãos da parteira às do verdugo para receber, depois de suas dores, a purificação de um segundo martírio”. Às portas do anfiteatro, os guardas tentaram fazer com que os homens vestissem as túnicas dos sacerdotes de Saturno e as mulheres o vestido consagrado a Ceres; mas Perpétua resistiu tão vigorosamente que os guardas acabaram por deixá-los entrar na arena com suas próprias vestes. A multidão, furiosa ao ver a valentia dos mártires, pediu aos gritos que os açoitassem; assim, cada um deles recebeu um golpe de chicote ao passar diante dos gladiadores. Saturnino havia pedido que lhe lançassem diferentes feras para que sua coroa fosse mais gloriosa; de acordo com seu desejo, ele e Revocato tiveram de enfrentar primeiro um leopardo e depois um urso. Por sua parte, Sáturo, que tinha muito medo dos ursos, teria querido que um leopardo acabasse rapidamente com ele. Lançaram-lhe um javali, que se voltou contra o domador e o mordeu, de modo que este morreu poucos dias depois; em troca, a Sáturo apenas o arrastou pela arena. Então os guardas amarraram o mártir e o colocaram diante de um urso; mas este não quis sair de sua jaula e foi preciso deixar o martírio de Sáturo para mais tarde. Isso lhe proporcionou a oportunidade de falar com Pudente, o carcereiro, que se havia convertido. Sáturo animou-o, dizendo-lhe: “Já vês que, como eu havia desejado e predito, nenhuma fera se atreveu a tocar-me. Crê firmemente. Olha: da próxima vez vão lançar-me a um leopardo que acabará comigo com uma só mordida.” Assim aconteceu; um leopardo saltou sobre ele e o deixou coberto de sangue em um instante. A multidão dava alaridos e gritava: “Agora sim está bem batizado!” O mártir, já agonizante, disse a Pudente: “Adeus! Conserva a fé, lembra-te de mim, e que isto sirva para confirmar-te e não para confundir-te.” E, tomando o anel do carcereiro, molhou-o em seu próprio sangue, devolveu-o a Pudente e morreu. Assim foi esperar Perpétua, como esta havia predito.

Perpétua e Felicidade foram lançadas a uma vaca selvagem. A fera atacou primeiro Perpétua, que caiu de costas; mas a mártir sentou-se imediatamente, cobriu-se com sua túnica rasgada e arrumou um pouco os cabelos para que a multidão não pensasse que tinha medo. Depois foi reunir-se com Felicidade, que jazia também por terra. Juntas esperaram o seguinte ataque da fera; mas a multidão gritou que aquilo bastava; os guardas fizeram-nas sair pela Porta Sanavivaria, que era por onde saíam os gladiadores vitoriosos. Ao passar por ali, Perpétua voltou a si de uma espécie de êxtase e perguntou se logo iria enfrentar as feras. Quando lhe disseram o que havia acontecido, a santa não podia acreditar, até que viu sobre seu corpo e suas vestes os sinais da luta. Então chamou seu irmão e o catecúmeno Rústico e disse-lhes: “Permanecei firmes na fé e guardai a caridade entre vós; não deixeis que os sofrimentos se tornem pedra de escândalo.” Enquanto isso, a volúvel multidão pediu que as mártires comparecessem novamente; assim se fez, com grande alegria das duas santas. Depois de haverem dado o beijo da paz, Felicidade foi decapitada pelos gladiadores. O verdugo de Perpétua, que estava muito nervoso, errou o primeiro golpe, arrancando um grito da mártir; ela mesma estendeu o pescoço para o segundo golpe. “Talvez porque uma mulher tão grande... só podia morrer voluntariamente.”
Em 1907, o P. Delattre descobriu e restaurou uma antiga inscrição na basílica Majorum de Cartago. Nessa basílica haviam sido enterrados os corpos dos mártires, segundo o diz expressamente Vítor Vitense, um bispo africano do século V que havia visitado o túmulo. O conteúdo da inscrição é o seguinte: “Aqui repousam os mártires Sáturo, Saturnino, Revocato, Secúndulo, Felicidade e Perpétua, que sofreram nas nonas de março.” Contudo, não é possível afirmar com toda certeza que essa inscrição seja precisamente a da lápide sepulcral dos mártires. O dia em que se comemora seu martírio é o das nonas de março (7 de março); mas sua festa foi transferida para o dia 6 do mesmo mês para evitar que coincida com a de Santo Tomás de Aquino. Esses mártires aparecem em todos os calendários e martirológios antigos, como por exemplo no calendário filocaliano de Roma (354 p. C.) e no calendário sírio, redigido provavelmente em Antioquia, no fim do século IV.
Naturalmente existe uma literatura muito ampla sobre as atas das santas Felicidade e Perpétua. Os principais textos gregos e latinos encontram-se na edição de Armitage Robinson, Texts and Studies, vol. 1, parte 2. Entre as traduções inglesas citamos a de R. W. Muncey, The Passion of St. Perpetua (1927), e E. C. E. Owen, Some Acts of the Early Martyrs (1927). Porém, a melhor obra é a de W. H. Shewring, The Passion of Perpetua and Felicity (1931), com um texto latino e uma excelente introdução. Atualmente abandonou-se quase totalmente a teoria de que o texto primitivo era o grego, traduzido posteriormente ao latim. Nenhum autor admite a curiosa hipótese de Hilgenfeld de que as atas foram originalmente redigidas em língua púnica. Muitos historiadores, entre os quais se conta o P. Adhémar d’Ales, inclinam-se a crer que Tertuliano foi o editor das atas. Uma das razões em que se apoia essa teoria é que nas atas aparecem vestígios das doutrinas e da fraseologia montanistas; porém, como demonstrou Delehaye, esses vestígios são muito leves e não bastam para identificar as atas com qualquer espécie de doutrina herética. Ver Delehaye, Les Passions des martyrs et les genres littéraires (1921), pp. 63-72. Cf. Monceaux, Histoire littéraire de l’Afrique chrétienne I, pp. 70-96, e A. J. Mason, Historic Martyrs (1905), pp. 77-106.1

Todas as instituições humanas, por excelentes que sejam, podem degenerar facilmente depois da morte de seus fundadores ou de seus sucessores imediatos. Para sobreviver, precisam conservar o ideal primitivo ou submeter-se a uma reforma para recuperá-lo. Todas as ordens religiosas tiveram altos e baixos, períodos de grande atividade e de eclipse. A obra principal de Santa Coleta foi precisamente a reforma de uma das famílias religiosas mais austeras: as clarissas. A influência da santa sobre sua ordem foi imensa. Um dos ramos, o das coletinas, deve-lhe o nome.
Coleta era filha de um humilde carpinteiro da abadia de Corbie, na Picardia. Seu nome de batismo era Nicoleta, pois seus pais eram muito devotos de São Nicolau de Mira. Coleta, como todos a chamavam, era muito bonita e atraente, mas sua baixa estatura preocupava muito seu pai. A jovem pediu a Deus que a fizesse crescer e sua oração foi atendida. Quando jovem, levava em sua casa a vida de um eremita, dedicada à oração e ao trabalho manual. Seus pais lhe deixavam plena liberdade, certos de que era guiada pelo Espírito divino. Apesar do retiro em que vivia a jovem, sua beleza começou a chamar a atenção de todos. Vendo nisso um obstáculo para sua vida espiritual, Coleta pediu a Deus que lhe tirasse toda a beleza. Conta-se que seu rosto se tornou tão pálido e magro que as pessoas mal podiam reconhecê-la, mas a bondade e modéstia da santa conservaram todo o seu encanto.
Tanto o pai como a mãe de Coleta morreram quando a jovem tinha dezessete anos. Deixaram-na aos cuidados do abade de Corbie. A santa passou algum tempo no convento, distribuiu entre os pobres sua pequena herança e ingressou na Terceira Ordem de São Francisco. O abade de Corbie cedeu-lhe uma pequena ermida junto à igreja. A fama da austeridade de Coleta se espalhou e as pessoas vinham recomendar-se às suas orações e pedir-lhe conselho, até que Coleta decidiu não receber mais visitas e, durante três anos, viveu em absoluto silêncio. Sem dúvida, durante esse período Coleta refletiu muito sobre o estado de sua ordem e falou disso com seu confessor, Frei Henrique de Baume, pois este sonhou que Coleta tinha nas mãos um ramo de folhas de videira sem nenhum fruto, mas os cachos apareceram assim que a santa arrancou algumas folhas. Também Coleta teve várias visões, numa das quais o próprio São Francisco lhe apareceu e lhe ordenou que restabelecesse entre as clarissas a observância primitiva. Coleta sentia-se sem coragem suficiente para isso; mas recebeu um sinal do Céu, pois durante três dias esteve surda e durante outros três esteve cega. Encorajada por seu diretor, abandonou seu retiro em 1406 e foi expor sua missão em um ou dois conventos; mas logo compreendeu que, para ter êxito, precisava possuir autoridade. Descalça e vestida com um pobre hábito, Coleta partiu para Nice a fim de ver Pedro de Luna, a quem o povo francês reconhecia então como Papa com o nome de Bento XIII. Este a recebeu com muito afeto, confirmou sua profissão na Ordem de Santa Clara, nomeou-a superiora de todos os conventos de clarissas que reformasse ou fundasse e chegou até a estender sua missão à Ordem de São Francisco. Por outro lado, nomeou Henrique de Baume assistente da santa.

Com tais poderes, Coleta viajou de um convento a outro pela França, Sabóia e Flandres. No início encontrou uma violenta oposição e foi tratada de fanática e feiticeira; mas nada a afetou nem a fez recuar. Pouco a pouco foi se impondo, sobretudo na Sabóia, onde sua reforma despertou muita simpatia e depois na Borgonha, França, Flandres e Espanha. O convento das Clarissas Pobres de Besançon foi o primeiro que aceitou a reforma, em 1410. A fama dos milagres da santa espalhou-se por toda parte. A duquesa de Bourbon escrevia: “Morro de vontade de ver essa Coleta de quem tanto se fala, que ressuscita os mortos”. O desejo da duquesa foi satisfeito e a santa exerceu uma enorme influência sobre a família de Bourbon. Segundo parece, aquela religiosa de origem humilde impressionava especialmente os nobres deste mundo, como Branca de Genebra, a duquesa de Nevers, Amadeu II de Sabóia, a princesa de Orange e o duque de Borgonha, Filipe o Bom.
Conta-se que em 1429 Coleta conheceu em Moulins Santa Joana d’Arc, que passou por ali à frente de um exército para ir sitiar La Charité-sur-Loire. O encontro dessas duas extraordinárias mulheres de espírito tão semelhante, apesar de terem missões tão diferentes, deve ter sido muito interessante, se é que realmente aconteceu; mas na realidade não existe nenhuma prova de que tenha sido assim. Um lugar muito relacionado com o nome de Santa Coleta é a cidade de Le-Puy-en-Vélay, onde ainda existe o convento que a santa fundou, entre outros dezesseis sem contar os que reformou, entre os quais houve alguns mosteiros de frades franciscanos.
A vida de atividade exterior de Santa Coleta era sustentada por uma vida interior de oração. A santa teve uma visão da Paixão e morte de Cristo. Meditava a Paixão todas as sextas-feiras, das seis da manhã às seis da tarde, sem provar alimento nem bebida. Em todas as épocas do ano, mas particularmente na Semana Santa, entrava frequentemente em êxtase durante a Missa ou em suas orações na cela. Uma grande luz a rodeava nessas ocasiões e em seu rosto se refletia um resplendor celestial. Sobretudo depois de receber a comunhão era arrebatada em êxtase, que às vezes duravam várias horas.
Em uma de suas visões apareceu uma multidão cujos homens e mulheres, numerosos como os flocos de neve numa tempestade, caíam no pecado. Desde então, rezava todos os dias pela conversão dos pecadores e pelas almas do purgatório. Segundo se conta, morreu pedindo por eles e pela Igreja.

Como seu pai, São Francisco, Coleta amava muito os animais, sobretudo os mais indefesos e bons; os cordeiros e as pombas vinham a ela assim que aparecia e os passarinhos mais tímidos voavam para comer em suas mãos. Também amava muito as crianças; brincava com elas e as abençoava, como fizera Jesus Cristo.
Sua última enfermidade a surpreendeu em Flandres, onde havia fundado vários conventos. Predisse sua morte, recebeu os últimos sacramentos e descansou no Senhor no convento de Gante, aos sessenta e sete anos de idade. Quando o imperador José II suprimiu alguns dos conventos das clarissas em Gante, as religiosas trasladaram os restos de Santa Coleta para o convento de Poligny, a cinquenta quilômetros de Besançon. A canonização ocorreu em 1807.
Embora tenham desaparecido muitos dos documentos do século XVI sobre a santa, não faltam testemunhos de seus contemporâneos e fontes de primeira mão. Segundo parece, perdeu-se o relato que escreveu Henrique de la Baume, que durante trinta e três anos foi o confessor de Coleta, assim como as memórias de outro de seus guias espirituais, o P. Francisco Claret; mas ainda se conserva a narração de sua amiga e filha em religião, a irmã Perrine. Possuímos, além disso, muitas das cartas da santa e as memórias, um tanto desorganizadas, de Pedro de Vaux, que foi seu confessor durante os últimos anos. A duquesa Margarida de Borgonha, irmã de Eduardo IV da Inglaterra, mandou fazer uma bela cópia do texto de Pedro de Vaux, com ricas miniaturas, e a presenteou ao convento das coletinas. A dedicatória que escreveu com sua própria mão nesse exemplar foi a seguinte: “Vossa leal filha Margarida da Inglaterra; rogai por ela e por sua salvação”. O manuscrito conserva-se atualmente no convento das clarissas de Gante. O P. Ubaldo d’Alençon publicou em 1911 uma edição da tradução latina que os bolandistas fizeram das biografias da irmã Perrine e de Pedro de Vaux. Entre as biografias modernas contam-se as de Bizouart, Germain, Pidoux, Imle e Poirot. Ver também as interessantes notas do P. d’Alençon em Archivum Franciscanum Historicum, vols. 11 e 11 (1909-1910). A admirável biografia escrita pela Sra. Sainte-Marie Perrin (1923) foi traduzida para o inglês, assim como a biografia escrita pelo P. Sellier (1864).2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 471-477.
2. Ibid. pp. 482-484.
Notas:
a. “Porta da Vida”. Ver o penúltimo parágrafo deste artigo.
b. Cf. Apocalipse 6, 17: “E Deus enxugará toda lágrima de seus olhos.”






















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