Vida de São Eusébio de Cremona e São Gerásimo (5 de março)
- há 2 dias
- 5 min de leitura

São Eusébio conheceu São Jerônimo em Roma, durante uma viagem que fez à cidade, sendo muito jovem. A partir de então uniu-os uma grande amizade, tão longa quanto sua vida. Eusébio decidiu acompanhar Jerônimo à Terra Santa. Em Antioquia juntaram-se a eles Santa Paula e Santa Eustóquio, e todos juntos foram visitar os Lugares Santos, antes de se estabelecerem definitivamente em Belém. Vendo a quantidade de peregrinos que chegavam, São Jerônimo decidiu construir um albergue e, provavelmente com o fim de arrecadar fundos para a obra, enviou Eusébio e Pauliniano à Dalmácia e à Itália, onde, ao que parece, São Eusébio vendeu suas propriedades em Cremona e a casa que Santa Paula possuía em Roma.
Em Roma, Eusébio viu-se envolvido numa violenta disputa com Rufino, um sacerdote de Aquileia que era acusado de ter feito uma tradução tendenciosa das obras de Orígenes e de pregar falsas doutrinas. São Jerônimo havia manifestado sua oposição às doutrinas de Rufino, e Eusébio tomou o partido de seu mestre. Rufino atacou violentamente Eusébio, acusando-o de ter roubado sua tradução de Orígenes para introduzir os trechos tendenciosos. Pouco depois, São Jerônimo acusou Rufino de ter pago a um monge para que se apoderasse de uma carta de São Epifânio a João de Jerusalém; Eusébio havia confiado essa carta ao monge para que a traduzisse ao latim, pois, embora fosse muito bom latinista, não conhecia o grego. Os detalhes dessa longa controvérsia são bastante obscuros e pouco edificantes. Parece que Eusébio foi um dos que mais influíram para que o Papa São Anastásio condenasse os escritos de Orígenes.
No ano 400, Eusébio visitou novamente sua terra natal e parece que permaneceu na Itália. Em todo caso, o relato que se lhe atribui sobre a morte de São Jerônimo é certamente falso. São Jerônimo dedicou a seu amigo vários de seus escritos. Diz-se que São Eusébio foi enterrado em Belém, junto a São Jerônimo, mas o fato é muito duvidoso. Um dos altares na cripta da igreja da Natividade está dedicado a São Eusébio. Segundo uma tradição, foi o fundador do mosteiro de Guadalupe, na Espanha, e introduziu na península a Ordem dos Jerônimos; mas tal lenda carece de fundamento.
Quase todos os dados fidedignos que possuímos sobre São Eusébio de Cremona provêm das obras e cartas de São Jerônimo. Francisco Ferrari utilizou essa fonte, infelizmente com pouco senso crítico, para escrever a biografia publicada na Acta Sanctorum, março, vol. I. Ver também DCB, vol. II, pp. 376-377, e Cavallera, St Jérôme, sa vie et son oeuvre (1922).1

São Gerásimo nasceu na Lícia, na Ásia Menor, onde abraçou a vida eremítica. Depois passou à Palestina e, durante algum tempo, caiu nos erros eutiquianos, mas São Eutímio o reconduziu à verdadeira fé. Mais tarde, parece que esteve em várias comunidades da Tebaida e finalmente retornou à Palestina, onde se tornou íntimo amigo de São João o Silencioso, de São Sabas, de São Teoctisto e de Santo Atanásio de Jerusalém. Tão numerosos foram seus discípulos que o santo fundou uma “laura” de sessenta celas, perto do Jordão, e um convento para os noviços. Seus monges guardavam quase completo silêncio, dormiam em leitos de junco e jamais acendiam fogo dentro das celas, embora as portas devessem permanecer sempre abertas. Alimentavam-se ordinariamente de pão, tâmaras e água e dividiam o tempo entre a oração e o trabalho manual. A cada monge era atribuído um trabalho determinado, que devia estar concluído no sábado seguinte. Embora a regra já fosse severa, São Gerásimo tornava-a ainda mais rigorosa para si mesmo e nunca deixou de fazer penitência por sua queda na heresia eutiquiana. Conta-se que, durante a quaresma, seu único alimento era a Sagrada Eucaristia. São Eutímio tinha por ele tal estima que lhe enviava, por meio dos discípulos, aqueles de seus seguidores que considerava chamados à mais alta perfeição. A fama de São Gerásimo só cedia à de São Sabas. No ano 451, durante o Concílio de Calcedônia, seu nome tornou-se conhecido em todo o Oriente. A “laura” que ele havia fundado florescia ainda um século depois de sua morte.
No “Prado Espiritual”, João Mosco deixou-nos uma anedota encantadora. Um dia, quando o santo se encontrava às margens do Jordão, aproximou-se dele, mancando dolorosamente, um leão. Gerásimo examinou a pata ferida, retirou dela um agudo espinho e lavou e enfaixou a pata da fera. Desde então o leão permaneceu com o santo e tornou-se tão manso quanto qualquer animal doméstico. No mosteiro havia um jumento que os monges utilizavam para buscar água, e faziam com que o leão cuidasse do jumento quando ia pastar; mas certo dia alguns mercadores árabes o roubaram, e o leão voltou sozinho e muito abatido ao convento. Às perguntas dos monges, o leão respondia com olhares lastimosos. O abade lhe disse: “Tu comeste o jumento. Bendito seja Deus por isso. Mas de agora em diante farás o trabalho do jumento.” O leão passou a transportar água para a comunidade. Pouco tempo depois, os mercadores árabes passaram de volta com o jumento e três camelos; o leão os pôs em fuga, tomou entre os dentes a rédea do jumento e o levou triunfalmente ao mosteiro, junto com os camelos. São Gerásimo reconheceu seu erro e deu ao leão o nome de Jordão. Quando o ancião abade morreu, o leão ficou inconsolável. O novo abade lhe disse: “Jordão, nosso amigo nos deixou órfãos para ir reunir-se ao Senhor a quem servia; mas tu precisas continuar a comer.” Contudo, o leão continuou a rugir tristemente. Finalmente o abade, chamado Sabácio, conduziu o leão ao túmulo de Gerásimo e, ajoelhando-se junto dele, disse: “Aqui está enterrado teu amo.” O leão deitou-se sobre a tumba e começou a bater a cabeça contra a terra; ninguém pôde afastá-lo dali e poucos dias depois o encontraram morto. Segundo alguns autores, o leão que se tornou símbolo de São Jerônimo era na realidade o de São Gerásimo. A confusão provavelmente se originou da grafia “Geronimus” em certos documentos.

O Acta Sanctorum, março, vol. I, cita alguns trechos da Vida de São Eutímio escrita por Cirilo de Escitópolis, na qual Gerásimo é mencionado com frequência; também cita alguns parágrafos de João Mosco. Além dessas fontes, existe uma biografia grega de Gerásimo, publicada por Papadópulos Kerameus no quarto volume de seus Analecta. Esse autor atribui a biografia a Cirilo de Escitópolis, mas H. Grégoire, na Byzantinische Zeitschrift (vol. XI, pp. 114-135), demonstrou que a opinião de Papadópulos é insustentável.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 466-467.
2. Ibid. pp. 467-468.






















Comentários