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Vida de São Tarcísio e Santo Arnulfo de Soissons (15 de agosto)

15 de ago. de 2025
5 min de leitura

Atualizado: 14 de ago.





São Tarcísio de Roma, mártir

“Em Roma, na Via Ápia, o martírio de São Tarcísio, acólito. Os pagãos o encontraram quando transportava o sacramento do Corpo de Cristo e lhe perguntaram o que levava. Tarcísio, não querendo lançar as pérolas aos porcos, recusou-se a responder; os pagãos o apedrejaram e espancaram até que exalou o último suspiro, mas não conseguiram encontrar o sacramento de Cristo nem em suas mãos, nem em suas vestes. Os cristãos recolheram o corpo do mártir e lhe deram honrosa sepultura no cemitério de Calisto”.


Assim resume o Martirológio Romano a forma que tomou posteriormente a história de São Tarcísio, “o mártir da Eucaristia”, em um poema do Papa São Dâmaso (século IV). O Pontífice conta que Tarcísio preferiu uma morte violenta nas mãos de uma turba, antes que “entregar o Corpo do Senhor* àqueles cães raivosos”, e o compara com Santo Estêvão, que morreu apedrejado pelos judeus.


Butler diz que “o martírio de São Tarcísio é histórico, mas não consta que fosse realmente um acólito ainda criança. Considerando que São Dâmaso o compara ao diácono Santo Estêvão, pode-se conjecturar que fosse mais provavelmente um diácono, já que estes tinham por ofício administrar o Santíssimo Sacramento em certas circunstâncias e transportá-lo de um lugar a outro. Assim, por exemplo, os diáconos levavam uma parte da Hóstia consagrada pelo Papa às principais igrejas de Roma, como símbolo da unidade do Santo Sacrifício e da união dos bispos com os fiéis. Mas naquela época, assim como na atual, podia-se confiar o Santíssimo Sacramento a qualquer cristão — clérigo ou leigo, jovem ou idoso, homem ou mulher — em caso de necessidade. A tradição afirma que Tarcísio era um acólito de tenra idade, a quem se confiou a missão de levar a Comunhão a alguns cristãos que estavam prisioneiros, na época da perseguição de Valeriano. O santo foi sepultado no cemitério de São Calisto. Nunca se conseguiu identificar sua sepultura; entretanto, a igreja de São Silvestre in Capite afirma possuir suas relíquias. O aumento que tomou, nos últimos tempos, a devoção ao Santíssimo Sacramento, fez crescer também a devoção a São Tarcísio.


Veja-se J. Wilpert, Die Papstgräber und di Cäciliengrufe (1909). Cf. também Maruechi em Nuovo Bullettino di arch. christ., vol. XVI (1910), pp. 205-225; e DAC., vol. IV, col. 174.1




Santo Arnulfo de Soissons
Santo Arnulfo de Soissons

Arnulfo nasceu na Flandres por volta de 1040. Em sua juventude, destacou-se nos exércitos de Roberto e Henrique I da França. Mas Deus o chamou para uma batalha mais nobre, e Arnulfo decidiu consagrar ao seu Criador as energias que até então havia empregado no serviço dos homens. Ingressou, portanto, no grande mosteiro de São Medardo de Soissons. Em seus três primeiros anos de vida consagrada, depois de exercitar sua virtude na vida comunitária, recolheu-se a uma estreita cela, na mais rigorosa solidão para viver como eremita, e entregou-se assiduamente à oração e à penitência. Um tempo depois foi chamado a retornar à comunidade, para assumir o posto de abade no monastério. Segundo a sua hagiografia, o santo recusou o título e tentou fugir, mas um lobo impediu a sua passagem, forçando-o a voltar.


Em 1081, a pedido do clero e do povo, um concílio o elegeu bispo de Soissons. Arnulfo disse aos mensageiros que foram anunciar-lhe a notícia: “Deixai este pecador oferecer a Deus alguns frutos de penitência; não obrigueis um insensato como eu a ocupar um cargo que exige tanta prudência”. Apesar de sua resistência, viu-se obrigado a aceitar a sé. Desde o primeiro momento, dedicou-se com grande zelo ao cumprimento de seu dever, mas, ao ser expulso de sua diocese por um usurpador, obteve permissão para renunciar ao cargo, pois interpretou a situação como um sinal.


Mais tarde, fundou um mosteiro de São Pedro, em Oudenburg, onde começou a fabricar cerveja — naquele tempo uma bebida vital, já que a Europa sofria com a epidemia da Peste Negra e nem sempre a água era própria para consumo. A partir de então, Santo Arnolfo começou a promover o consumo de cerveja entre os camponeses da região, devido ao “dom da saúde” que tal bebida evocava. Seus esforços salvaram muitas vidas e sua fama em relação à cerveja começou a crescer.


Vitral de Santo Arnulfo de Soissons, artista desconhecido (1942), na cervejaria Huyghe, em Melle, Bélgica.
Vitral de Santo Arnulfo de Soissons, artista desconhecido (1942), na cervejaria Huyghe, em Melle, Bélgica.

Em um de seus milagres mais conhecidos, o teto da cervejaria da abadia desabou, comprometendo boa parte do abastecimento. O santo, então, pediu a Deus que multiplicasse o que havia restado da bebida, e suas preces foram prontamente atendidas, para alegria dos monges e da comunidade. Além disso, o santo também é lembrado por introduzir novas técnicas no processo de fabricação. Enquanto montava um cesto para a formação de colmeias, percebeu que os cones de palha poderiam servir como filtros. Por isso, em memória de sua contribuição para a arte de fabricar cerveja, o santo é muitas vezes retratado segurando um desses cestos, na companhia de abelhas. Em outras representações, como nesta que ilustra o artigo, ele aparece segurando uma espécie de pá utilizada para macerar o malte.2


O santo morreu no mosteiro de São Pedro, em Oudenburg, em 1087. Em um sínodo realizado em Beauvais em 1120, o bispo que então ocupava a sé de Soissons apresentou uma biografia de Santo Arnulfo à assembleia e pediu que seu corpo fosse trasladado para a igreja, dizendo: “Se o corpo de meu predecessor estivesse em minha diocese, há muito o teríamos trasladado do átrio para o interior da igreja”. No ano seguinte, realizou-se a trasladação dos restos do santo para a igreja abacial de Aldenburgo.


Os bolandistas e Mabillon editaram a biografia escrita por Hariulfo; mas é melhor a edição crítica que se encontra em MGH, Scriptores, vol. XV, parte 2, pp. 872–904. Ver também E. de Moreau, Histoire de l'Église en Belgique, vol. II (1945), pp. 433–437.3



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, p. 339.

2.  Tirado e modificado de Santos Cervejeiros: Santo Arnaldo de Soissons, por Guilherme Mattoso.

3. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, p. 340.



Notas:


* Tarcisitum sanctum Christi sacramenta gerentem, cum male sana manus peteret vulgare profanis; ipse animam potius voluit dimittere caesus prodere quam canibus rabidis caelestia membra. (O santo Tarcísio, carregando os sacramentos de Cristo, quando uma mão insana quis expô-los aos profanos, preferiu entregar a alma, sendo morto a golpes, a entregar aos cães raivosos os membros celestiais.)


O cardeal Wiseman, que conta a lenda em “Fabiola”, diz que as palavras caelestia membra, “aplicadas à Eucaristia, constituem uma prova casual, mas muito convincente, da maneira de pensar da Igreja antiga, e têm mais peso que as provas derivadas de frases estudadas ou convencionais”.



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