Vida de São Matias, Apóstolo e Santo Etelberto de Kent (24 de fevereiro)
- 23 de fev.
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Clemente de Alexandria, baseando-se na tradição, afirma que São Matias foi um dos setenta e dois discípulos que o Senhor enviou a pregar durante seu ministério; Eusébio e São Jerônimo confirmam tal tradição. Os Atos dos Apóstolos nos dizem que Matias acompanhou o Salvador, desde o Batismo até a Ascensão.
Quando São Pedro decidiu proceder à eleição de um novo Apóstolo para substituir Judas, os candidatos, escolhidos entre os mais dignos, foram José, chamado Barnabé, e Matias. Depois de pedir a Deus que dirigisse a eleição, os Apóstolos sortearam os dois nomes; a eleição recaiu sobre Matias, que passou a fazer parte do grupo dos doze.
O Espírito Santo também desceu sobre ele no Pentecostes e Matias se entregou zelosamente à sua missão. Clemente de Alexandria afirma que se distinguiu principalmente pela insistência com que pregava a necessidade de mortificar a carne para dominar a sensualidade, e ele mesmo praticava essa lição que havia aprendido de Jesus Cristo.
Segundo a tradição, São Matias pregou primeiro na Judeia e depois em outros países. Os gregos sustentam que evangelizou a Capadócia e as costas do Mar Cáspio, que sofreu muitas perseguições e vexações por parte dos povos bárbaros onde missionou e que obteve finalmente a coroa do martírio na Cólquida.

Não existem dados certos sobre a forma como foi martirizado, mas os “Menaia” gregos e outras fontes lendárias sustentam que foi crucificado. Outra versão diz que foi apedrejado e decapitado. Diz-se que seu corpo esteve muito tempo em Jerusalém e que Santa Helena o trasladou para Roma.
Além do breve trecho dos Atos dos Apóstolos, não existe nenhuma outra fonte fidedigna sobre São Matias, mas seu nome aparece frequentemente na literatura apócrifa. Os Atos de André e Matias na cidade dos canibais é um romance grego que data, segundo alguns autores, do século II, e alcançou grande difusão. Existem traduções dessa obra em siríaco, armênio e copta. Orígenes conheceu ainda um evangelho apócrifo de Matias; tem-se discutido muito acerca da identidade desse evangelho com as “Tradições de Matias”, das quais Clemente de Alexandria cita uma ou duas frases. Ver, por exemplo, Hennecke, Handbuch zu den Neutestamentlichen Apokryphen, pp. 90-91, 238, 544.1
SANTO ETELBERTO DE KENT (616 d.C.)

Eteleberto, rei de Kent, casou-se com uma princesa cristã chamada Berta, que era a filha única de Cariberto, rei de Paris. Etelberto concedeu à sua esposa plena liberdade para praticar sua religião e Berta levou consigo para a Inglaterra Liudardo, um bispo francês, que oficiou na dedicação da igreja de São Martinho de Canterbury. A tradição fala da piedade e das amáveis virtudes de Berta, que indubitavelmente impressionaram muito seu marido. No entanto, Etelberto não se converteu até a chegada de Santo Agostinho e seus companheiros. Os missionários, enviados por São Gregório Magno, desembarcaram em Thanet, de onde se comunicaram com o rei Etelberto, anunciando-lhe sua chegada e as razões de sua viagem.
Etelberto lhes rogou que permanecessem na ilha e poucos dias depois, foi pessoalmente ouvi-los. Sua primeira conversa com eles realizou-se ao ar livre, pois o rei temia que empregassem alguma magia ou encanto, e naquela época acreditava-se que a magia não produzia nenhum efeito a céu aberto. Etelberto sentou-se sob um carvalho e recebeu amavelmente os missionários; depois de ouvi-los, deu-lhes permissão para pregar ao povo e converter quantos pudessem. Igualmente lhes disse que ele não podia abandonar por enquanto seus deuses, mas que zelaria para que os missionários fossem bem tratados e nada lhes faltasse. Beda conta que lhes entregou a igreja de São Martinho para que pudessem “cantar salmos, orar, oferecer a missa, pregar e batizar.” As conversões começaram a se multiplicar, e Etelberto e a corte não resistiram por muito tempo à pregação. Foram batizados no Pentecostes do ano 597. À conversão do rei seguiu-se a de milhares de seus súditos.

O rei deu permissão a Santo Agostinho e seus companheiros para reconstruir as antigas igrejas e construir outras novas; mas, apesar de seu zelo pela propagação da fé, não obrigou seus súditos a mudar de religião. Como o diz expressamente Beda, Etelberto havia aprendido com seus mestres que o serviço a Cristo tinha que ser voluntário. Etelberto tratava todos os seus súditos com a mesma bondade, embora sentisse especial afeto por aqueles que se haviam convertido ao cristianismo. Seu governo destacou-se pelo empenho em melhorar as condições de vida de seus súditos; suas leis lhe garantiram o apreço da Inglaterra em épocas posteriores. Em Canterbury, doou terras e edifícios ao arcebispo, que ali construiu a catedral chamada “Christ Church” e, fora das muralhas, a abadia e a igreja de São Pedro e São Paulo, que mais tarde passou a se chamar de Santo Agostinho. Etelberto fundou a nova diocese de Rochester em seus domínios e construiu a igreja de Santo André. Em Londres, que fazia parte do território do rei dos saxões do leste, construiu a primeira catedral de São Paulo. Por seu intermédio abraçaram a fé cristã Saberto, rei dos saxões do leste, e Redvaldo, rei dos anglos do leste, embora Redvaldo tenha recaído mais tarde na idolatria.
Após cinquenta e seis anos de reinado, Etelberto morreu no ano 616 e foi sepultado na igreja de São Pedro e São Paulo, onde descansavam os restos da rainha Berta e de São Liudardo. Até a época de Henrique IV, havia sempre uma lâmpada acesa diante de seu túmulo. As dioceses de Westminster, Southwark e Northampton celebram sua festa; a diocese de Nottingham e o Martirológio Romano comemoram seu nome.

São Etelberto é um modelo pela nobreza de sua conversão. A acolhida que deu aos missionários e seu gesto de ouvi-los sem preconceitos são um caso extraordinário na história. Com sua atitude de não impor a fé a seus súditos, apesar de seu zelo por propagá-la, favoreceu enormemente a obra dos missionários. A violência sempre foi inimiga da fé, mesmo nos casos em que parece favorecê-la momentaneamente, pois está em oposição ao espírito do Senhor e à própria essência do cristianismo. O mundo será evangelizado pela oração, pela pregação e pelo exemplo, não pela violência, perseguição e tirania.
A História Eclesiástica de Beda é praticamente nossa única fonte sobre a vida de São Etelberto (a quem ele chama Edilcberto). São Gregório de Tours faz duas alusões ao casamento de Berta com o príncipe de Kent, mas sem chamá-lo pelo nome. Os Juízos de Etelberto, com glosas e notas, encontram-se em Libermann, Gesetze der Angelsachsen. Entre as obras de caráter geral mencionaremos a de F. M. Stenton, Anglo-Saxon England (1943). Segundo o beneditino S. Brechter, Etelberto não recebeu o batismo senão no ano 601.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, p. 407.
2. Ibid. pp. 412-413.






















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