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Vida São Vicente de Saragoça e São Anastásio, Mártires (22 de janeiro)

  • 22 de jan.
  • 10 min de leitura




São Vicente, diácono e mártir, com doador, por Tomás Giner
São Vicente, diácono e mártir, com doador, por Tomás Giner

São Valério, bispo de Saragoça, instruiu este glorioso mártir nas ciências sagradas e na piedade cristã. O mesmo bispo o ordenou diácono para que fizesse parte de seu séquito e lhe confiou a missão de instruir e pregar ao povo, apesar de ainda ser muito jovem. O cruel perseguidor Daciano era então governador da Espanha. No ano 303, os imperadores Diocleciano e Maximiano publicaram o segundo e o terceiro éditos contra o clero, e no ano seguinte os estenderam aos leigos. Parece que pouco antes da publicação desses decretos, Daciano mandou executar os dezoito mártires de Saragoça, mencionados por Prudêncio e pelo Martirológio Romano (16 de janeiro), e mandou prender Valério e Vicente. Esses dois mártires foram pouco depois trasladados para Valência, onde o governador os manteve por longo tempo na prisão, sofrendo fome e outros tormentos. O procônsul esperava que isso enfraquecesse a constância das testemunhas de Cristo. Contudo, quando compareceram diante dele, não pôde deixar de se surpreender ao vê-los tão intrépidos e vigorosos, e chegou até a castigar os soldados por não os terem tratado com o rigor que ele havia ordenado. O procônsul empregou ameaças e promessas para conseguir que os prisioneiros oferecessem sacrifícios aos deuses. Como Valério, que tinha dificuldade na fala, não pudesse responder, Vicente lhe disse: “Pai, se me ordenares, falarei eu”. “Meu filho — respondeu Valério —, já te confiei a distribuição da palavra divina, e agora te peço que respondas em defesa da fé pela qual sofremos”. O diácono declarou então ao juiz que estavam dispostos a sofrer tudo pelos ídolos e que não cederiam nem às ameaças nem às promessas. Daciano contentou-se em desterrar Valério, mas decidiu fazer vacilar Vicente por meio de todas as torturas que seu temperamento cruel podia imaginar. Santo Agostinho nos assegura que Vicente sofreu tormentos que nenhum homem poderia suportar sem a ajuda da graça, e que, no meio deles, conservava uma paz e tranquilidade que surpreendiam os próprios verdugos. A fúria do procônsul manifestava-se no rictus da boca, no fogo dos olhos e na insegurança da voz.


Martírio de São Vicente no ecúleo, por León Picardo
Martírio de São Vicente no ecúleo, por León Picardo

Vicente foi primeiro atado de mãos e pés ao cavalete, onde foi dilacerado com ganchos. O mártir, sorridente, acusava os verdugos de fraqueza, o que fez Daciano crer que não o atormentavam suficientemente; por isso mandou que o açoitassem. Isso, na realidade, deu algum alívio ao santo, mas os verdugos logo retomaram a tortura, decididos a satisfazer a crueldade do procônsul. Contudo, quanto mais o atormentavam, tanto mais o Céu o consolava. O juiz, vendo o sangue correr em abundância e o lastimável estado em que se encontrava o corpo de Vicente, não pôde deixar de reconhecer que o valor do jovem clérigo havia vencido sua crueldade. Ordenou então que cessassem os tormentos e disse a Vicente que, se não conseguira induzi-lo a sacrificar aos ídolos, ao menos esperava que entregasse às chamas as Sagradas Escrituras, para cumprir o édito imperial. O mártir respondeu que temia menos os tormentos do que a falsa compaixão. Daciano, mais furioso do que nunca, condenou-o ao que as actas chamam de “quaestio legitima” (“a tortura legal”), que consistia em ser queimado sobre uma espécie de grelha. Vicente colocou-se com alegria sobre a grade de ferro, cujas barras estavam cobertas de pontas incandescentes. Os verdugos o estenderam e lançaram sal sobre suas feridas; com o calor do fogo, o sal penetrava até o fundo. Santo Agostinho diz que as chamas, em vez de atormentar o santo, pareciam infundir-lhe novo vigor e ânimo, pois Vicente se mostrava tanto mais cheio de alegria e consolo quanto mais sofria. A raiva e a confusão do tirano foram incríveis; perdeu completamente o domínio de si mesmo e perguntava continuamente o que Vicente fazia e dizia, mas a resposta era sempre que o santo não fazia mais do que afirmar-se em sua resolução.


Martírio de São Vicente de Saragoça (1535), por Filippo de Varallo
Martírio de São Vicente de Saragoça (1535), por Filippo de Varallo

Por fim, o procônsul ordenou que lançassem o santo em um calabouço coberto de cacos de vidro, com as pernas abertas e presas a estacas, e que o deixassem ali sem comer e sem receber visitas. Mas Deus enviou seus anjos para confortá-lo. O carcereiro, que viu através da grade o calabouço cheio de luz e Vicente caminhando nele e louvando a Deus, converteu-se subitamente ao cristianismo. Ao saber disso, Daciano chorou de raiva; contudo, ordenou que se concedesse algum descanso ao prisioneiro. Os fiéis foram visitar Vicente, enfaixaram suas feridas e recolheram seu sangue como relíquia. Quando o deitaram no leito que lhe haviam preparado, Vicente entregou sua alma a Deus. Daciano ordenou que seu corpo fosse lançado em um pântano, mas um abutre o defendeu dos ataques das feras e aves de rapina. As “actas” e um sermão atribuído a São Leão acrescentam que o cadáver de Vicente foi então lançado ao mar, mas que as ondas o devolveram à praia, onde dois cristãos o recolheram, por revelação do céu.


O relato das trasladações e da difusão das relíquias de São Vicente é muito confuso e pouco fidedigno. Fala-se de suas relíquias não só em Valência e Saragoça, mas também em Castres da Aquitânia, Le Mans, Paris, Lisboa, Bari e outras cidades. É absolutamente certo, porém, que seu culto se difundiu muito cedo por todo o mundo cristão e chegou até algumas regiões do Oriente. A Missa do rito milanês (ou ambrosiano) o menciona no cânon. O emblema mais característico do santo nas representações artísticas mais antigas é o abutre, representado em algumas pinturas sobre uma rocha. Quando se trata de uma pintura que representa um diácono revestido com a dalmática e levando uma palma na mão, é impossível determinar se se trata de uma imagem de São Vicente, de São Lourenço ou de Santo Estêvão. Na Borgonha, São Vicente é venerado como padroeiro dos cultivadores da vinha, provavelmente porque seu nome sugere certa relação com o vinho.


São Vicente morre de seus ferimentos, por Guillaume Perrier
São Vicente morre de seus ferimentos, por Guillaume Perrier

Alban Butler baseia principalmente seu relato na narração do poeta Prudêncio (Peristephanon, 5). Embora Ruinart inclua as “actas” de São Vicente entre seus Acta Sincera, é evidente que o compilador, que viveu provavelmente vários séculos depois dos fatos, deixou nelas livre curso à imaginação. Contudo, Santo Agostinho afirma em um de seus sermões sobre o santo que ele próprio manuseou as actas, o que leva a supor que o resumo muito mais conciso das Analecta Bollandiana (vol. 1, 1882, pp. 259-262) representa, em substância, o documento ao qual se refere Santo Agostinho. Do que estamos absolutamente certos é do nome de São Vicente, do lugar e da época de seu martírio e do local de sua sepultura. Ver P. Allard, Histoire des persécutions, vol. IV, pp. 237-250; Delehaye, Les origines du culte des martyrs (1933), pp. 367-368; H. Leclercq, Les martyrs, vol. II, pp. 437-439; Römische Quartalschrift, vol. XXV (1907), pp. 135-138. Existe um bom resumo histórico, o de L. de Lacger, St. Vincent de Saragosse (1927), e um estudo de sua “paixão” pela marquesa de Maillé, Vincent d’Agen et Vincent de Saragosse (1949); sobre este último, cf. os diversos estudos de Fr. B. de Gaiffier, em Analecta Bollandiana. Sobre o bispo São Valério, ver Acta Sanctorum, 28 de janeiro.1




São Anastásio Persa
São Anastásio Persa

A Cruz de Jesus Cristo, levada à Pérsia por Cosroes, no ano 614, depois do cerco e saque de Jerusalém, continuou obtendo vitórias. O troféu visível de uma delas foi São Anastásio, um jovem soldado do exército persa. Ao saber que o rei havia trazido a Cruz de Jerusalém, Anastásio começou a informar-se sobre a religião cristã. As verdades da fé impressionaram-no de tal maneira que, ao regressar à Pérsia depois de uma expedição, abandonou o exército e retirou-se para Hierápolis. Ali hospedou-se na casa de um ferreiro, cristão persa muito devoto, com o qual orava frequentemente. As imagens sagradas que o ferreiro lhe mostrava impressionavam-no profundamente e lhe davam ocasião de se instruir mais e de admirar o valor dos mártires, cujos sofrimentos estavam representados nas igrejas. Anastásio foi depois a Jerusalém, onde foi batizado pelo bispo Modesto. Ali recebeu de fato o nome de Anastásio, para lhe recordar, segundo o significado da palavra grega, que havia ressuscitado dos mortos para uma vida espiritual, pois seu nome persa era Magundat. Para cumprir plenamente seus votos e obrigações batismais, Anastásio pediu para ser recebido em um convento de Jerusalém. O abade ordenou-lhe que estudasse o grego e aprendesse de memória o saltério; depois, cortou-lhe os cabelos e concedeu-lhe o hábito monástico, em 621.


Os primeiros passos do futuro mártir na vida monástica não foram fáceis. O demônio o assaltou com toda espécie de tentações, recordando-lhe as práticas supersticiosas que seu pai lhe havia ensinado. Anastásio defendeu-se, manifestando ao seu confessor todas as suas dificuldades e insistindo na oração e no cumprimento de seus deveres. Movido por um grande desejo de dar a vida por Cristo, Anastásio foi para Cesareia, que se encontrava então sob o domínio persa. Tendo atacado audaciosamente os ritos e superstições da religião de seus compatriotas, foi preso e levado diante do governador Marzabanes, a quem declarou que era persa de nascimento e que se havia convertido ao cristianismo. Marzabanes condenou-o a ser acorrentado pelo pé a outro criminoso, a levar uma corrente do pescoço até o outro pé e a transportar pedras. Mais tarde, o governador mandou chamá-lo novamente, mas não conseguiu que Anastásio abjurasse da fé. O juiz ameaçou escrever ao rei se ele não cedesse, ao que o santo respondeu: “Escreve a quem quiseres; eu sou cristão, e não me cansarei de repeti-lo; sou cristão”. O juiz sentenciou-o a ser açoitado. Os verdugos preparavam-se para amarrá-lo ao chão, mas o santo declarou que se sentia com coragem suficiente para resistir ao suplício sem ser amarrado. Apenas pediu permissão para tirar o hábito de monge, para que não fosse tratado com o desprezo que apenas seu corpo merecia. Retirando, pois, o hábito, estendeu-se no chão e permaneceu imóvel durante a tortura. O governador ameaçou-o novamente com informar o rei sobre sua obstinação. Anastásio respondeu: “A quem devo temer: a um homem mortal ou ao Deus que fez todas as coisas do nada?” O juiz repetiu-lhe que sacrificasse ao fogo, ao sol e à lua. O santo replicou que jamais reconheceria como deuses as criaturas que Deus havia feito para o serviço do homem. O governador mandou-o novamente para a prisão.


Martírio de Santo Anastácio, iluminura do Menológio de Basílio II
Martírio de Santo Anastácio, iluminura do Menológio de Basílio II

O abade de Anastásio, ao receber a notícia de seu martírio, enviou-lhe dois monges e ordenou que se fizessem orações por ele. O santo, que passava o dia carregando pedras, ainda tinha forças para empregar grande parte da noite na oração. Um de seus companheiros surpreendeu-o orando e maravilhou-se ao vê-lo resplandecente como um espírito glorioso e rodeado de anjos, e chamou outros prisioneiros para mostrar-lhes. Anastásio estava acorrentado a um malfeitor condenado por um crime público. Para não incomodá-lo, o santo orava com a cabeça inclinada e com o pé junto ao de seu companheiro. Marzabanes fez saber ao mártir que o rei estava disposto a contentar-se com uma simples abjuração oral, e que depois o santo ficaria livre para escolher entre a corte ou o convento. O governador fazia-o notar que podia conservar em seu coração a fé em Jesus Cristo, pois bastava que renunciasse a Ele de palavra em sua presença, de forma totalmente privada, “de modo que não seria uma grande injúria a Jesus Cristo. Anastásio respondeu que jamais representaria a comédia de renegar a Deus em aparência. Então o governador lhe disse que tinha ordem de enviá-lo acorrentado à Pérsia para comparecer diante do rei. “Não é necessário que me acorrentes — replicou o santo —, pois irei voluntária e alegremente sofrer por Cristo”. No dia marcado, o mártir partiu de Cesareia com outros dois prisioneiros cristãos, seguido por um dos monges que seu abade havia enviado. Esse monge foi quem mais tarde escreveu as actas de seu martírio.


Cabeça de São Vicente de Saragoça, Ordem Carmelita
Cabeça de São Vicente de Saragoça, Ordem Carmelita

Uma vez chegados a Betsaloe da Assíria, perto do Eufrates, onde se encontrava o rei, os prisioneiros foram encerrados em um calabouço, enquanto chegava a ordem para comparecer diante do soberano. Um legado do rei foi interrogar o santo, que respondeu assim às suas magníficas promessas: “Meu pobre hábito religioso é uma prova de que desprezo de todo o coração as vãs pompas do mundo. As honras e riquezas que me oferece um rei que morrerá em breve não me tentam”. No dia seguinte, o legado retornou e tentou dobrar o santo com ameaças, mas este lhe disse tranquilamente: “Senhor, não gasteis inutilmente o vosso tempo comigo. Pela graça de Cristo espero permanecer inabalável. Fazei, pois, a vossa vontade sem demora”. O legado sentenciou-o a ser açoitado à maneira persa. O castigo repetiu-se durante três dias; no terceiro dia, o juiz ordenou que deitassem o mártir de costas e que descarregassem sobre ele uma pesada prancha sobre a qual se encontravam dois soldados. O corpo do mártir foi macerado até os ossos. O legado de Cosroes, admirado diante da paciência e tranquilidade do santo, foi informar novamente o soberano. Durante a ausência do legado, o carcereiro, que era cristão, mas carecia de coragem suficiente para renunciar ao cargo, deixou entrar na prisão todos os que o desejavam. Os cristãos acorreram imediatamente; todos queriam beijar os pés e as correntes do mártir e conservar como relíquias todos os objetos que haviam tocado seu corpo. O santo, confuso e indignado, tentou impedir isso, mas não conseguiu. Depois de lhe infligir novos suplícios, Cosroes ordenou finalmente que Anastásio e todos os prisioneiros cristãos fossem executados. Os dois companheiros de Anastásio e outros sessenta e seis cristãos foram estrangulados em sua presença, um após o outro. Anastásio, com os olhos fixos no céu, deu graças a Deus pela morte tão feliz que o esperava e declarou que teria desejado um suplício mais longo; mas, vendo que Deus havia reservado para ele esse ignominioso castigo de escravo, aceitou-o com alegria. Os verdugos o estrangularam e depois o decapitaram.


O martírio teve lugar em 22 de janeiro do ano 628. O cadáver de Anastásio e os de seus companheiros foram lançados aos cães, mas estes deixaram intacto o corpo do mártir. Os cristãos o recolheram mais tarde e lhe deram sepultura no mosteiro de São Sérgio, a um quilômetro e meio do lugar de seu martírio. O local chamava-se Sergiópolis (atualmente Rasapha, na Trácia). O monge que o havia assistido durante o seu martírio levou consigo o “colóbio” do santo, isto é, a sua túnica de linho sem mangas. Mais tarde, as relíquias de São Anastásio foram trasladadas para a Palestina, depois para Constantinopla e, finalmente, para Roma, onde ficaram depositadas na igreja de São Vicente. Esta é a razão pela qual os dois mártires são celebrados no mesmo dia.


O sétimo Concílio Ecumênico, reunido contra os iconoclastas, aprovou o uso das imagens deste mártir que se conservavam e eram veneradas em Roma, juntamente com a sua cabeça. Diz-se que essas imagens ainda se encontram na igreja dos santos Vicente e Anastásio.


O texto grego da Vida de São Anastásio foi publicado por H. Usener em 1894; nos Acta Sanctorum, 22 de janeiro, encontra-se uma antiga versão latina. Hefele-Leclercq, Concílios, vol. III, p. 766, oferece um breve resumo dos documentos da quinta sessão do sétimo Concílio Ecumênico; o texto completo pode ser lido em Mansi, Concilia, vol. XI, pp. 21-24; BHG., n. 6; BHL., n. 68. É difícil saber em que motivos se baseia o calendário dos carmelitas para afirmar que São Anastásio foi “um monge da ordem carmelita”.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 145-147.

2. Ibid. pp. 147-150.



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