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Vida de Santo Osvaldo da Nortúmbria e Santa Afra (5 de agosto)

  • 5 de ago. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: 4 de ago.





Santa Afra, mártir, por Master of Messkirch (fl. 1520–1540)
Santa Afra, mártir, por Master of Messkirch (fl. 1520–1540)

Maximiano, colega de Diocleciano, continuou com grande ferocidade a perseguição nas províncias que lhe couberam quando o Império foi dividido. Segundo as atas, Afra, que havia sido prostituta, foi presa em Augsburgo depois de abandonar sua vida de pecado e converter-se ao cristianismo. Uma versão posterior afirma que foi convertida por São Narciso, bispo de Girona, na Espanha, sobre o qual pouco se sabe. O juiz Caio, que conhecia bem Afra, disse-lhe: “Oferece sacrifícios aos deuses; é melhor viver do que morrer entre tormentos.” Afra respondeu: “Fui uma grande pecadora antes de conhecer a Deus. Mas não quero acrescentar novos crimes à minha vida passada; por isso, não farei o que me ordenas.” Caio replicou: “Disseram-me que és uma prostituta. Portanto, o melhor é que ofereças sacrifícios, pois estás longe do Deus dos cristãos e Ele não quererá aceitar-te.” Afra respondeu: “Meu Senhor Jesus Cristo disse que veio do Céu para salvar os pecadores. O Evangelho conta que uma pecadora Lhe lavou os pés com suas lágrimas e obteve o perdão. Cristo jamais rejeitou os miseráveis; antes, conviveu com eles.” Vendo que não conseguiria convencê-la, Caio pronunciou a sentença de morte. A santa respondeu: “É justo que sofra o corpo que pecou. Não perderei minha alma adorando falsos deuses.” Os verdugos conduziram Afra a uma ilha do rio Lech. Depois de despi-la, amarraram-na a uma estaca e atearam fogo aos galhos amontoados ao seu redor. Suas últimas palavras foram: “Graças Te dou, Senhor Jesus, pela bondade com que Te dignas aceitar este holocausto consumado em Teu nome. Tu Te ofereceste na cruz pelos pecados do mundo. Eu me ofereço como vítima Tua, que vives e reinas com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.” Com essas palavras, entregou sua alma a Deus, sufocada pela fumaça.


O Martírio de Santa Afra, círculo de Leandro Bassano, segundo Paolo Veronese
O Martírio de Santa Afra, círculo de Leandro Bassano, segundo Paolo Veronese

As servas da mártir — Digna, Eunômia e Euprepa —, que haviam acompanhado sua senhora na vida de pecado, mas que se converteram e receberam o batismo juntamente com ela, presenciaram seu martírio. Acompanhadas por Hilária, mãe de Afra, recolheram o corpo durante a noite e lhe deram sepultura. Enquanto ainda permaneciam junto ao túmulo, Caio soube do ocorrido. Imediatamente enviou um destacamento de soldados com ordem de obrigá-las a sacrificar aos deuses; caso se recusassem, deveriam ser queimadas ali mesmo. Os soldados recorreram tanto a promessas quanto a ameaças, mas, vendo que tudo era inútil, amontoaram lenha no interior do sepulcro, fecharam a entrada e queimaram vivas as quatro mulheres.


Não há dúvida de que existiu em Augsburgo uma mártir chamada Afra, venerada desde tempos muito antigos. O que permanece em debate é o valor histórico das atas mencionadas. Alguns historiadores rejeitam integralmente seu conteúdo; outros sustentam que o relato do julgamento e do martírio constitui uma versão ampliada de um documento mais antigo. Quanto à vida pecadora de Afra, à sua conversão e ao martírio de sua mãe e de suas servas, esses estudiosos consideram tratar-se de uma tradição surgida na época carolíngia. Venâncio Fortunato menciona Santa Afra, que ainda hoje é venerada em Augsburgo e em outras regiões da Alemanha.


B. Krusch publicou, na MGH, Scriptores Merovingici, vol. III, pp. 56–64, e vol. VII, pp. 192–204, os dois principais textos latinos sobre Santa Afra. Segundo Duchesne, o texto original das atas é um documento merovíngio; para Krusch, trata-se apenas de um comentário ao texto do Hieronymianum: In provincia Raetia, civitate Augusta, Afrae veneriae. A. Bigelmair, A. Poncelet e O. Riedner inclinam-se pela opinião de Krusch. Já o CMH, p. 423, apresenta a posição contrária, indicando também bibliografia mais ampla sobre a questão.1




Santo Osvaldo da Nortúmbria
Santo Osvaldo da Nortúmbria

Quando Santo Eduíno (ou Edwino) pereceu no ano de 633 numa batalha contra Penda e Cadwallon, seu sobrinho Osvaldo decidiu prosseguir a obra de Eduíno e tomar posse das regiões da Nortúmbria. Osvaldo havia se convertido sinceramente ao cristianismo; assim, em vez de trair a Cristo para conquistar seus súditos, como haviam feito seus desventurados irmãos, fez tudo quanto pôde para ganhá-los à causa de Cristo. Enquanto Cadwallon saqueava as províncias da Nortúmbria, Osvaldo reuniu um exército relativamente pequeno e saiu valentemente ao encontro do inimigo. O confronto entre os dois exércitos teve lugar no ano 634, a cerca de cinco quilômetros de Hexham, perto de Rowley Burn. Na véspera da batalha, Osvaldo mandou fazer uma grande cruz de madeira, fincou-a na terra e a segurou enquanto seus homens enchiam de terra o buraco onde ela fora colocada. Uma vez feito isso, Santo Osvaldo gritou a seus soldados, entre os quais havia apenas um punhado de cristãos: “Prostremo-nos juntos para pedir ao Deus verdadeiro e onipotente que nos defenda misericordiosamente de nossos inimigos, já que lutamos pela defesa de nossa vida e de nossa pátria”. Todos os soldados se ajoelharam. Naquela mesma noite, Osvaldo sonhou que São Columba de Iona estendia seu manto sobre os soldados adormecidos e lhe prometia a vitória para o dia seguinte. E assim aconteceu, de fato. Deus abençoou Osvaldo, cujas tropas derrotaram o numeroso exército de Cadwallon; este último pereceu na refrega.


Como observa Beda, foi um bom sinal que se chamasse ao lugar onde se havia plantado a cruz de “Campo Celeste”, (embora tal nome date de uma época posterior). A cruz foi o primeiro sinal de cristianismo na região, pois até então jamais se havia visto um altar ou uma igreja no reino dos Bernícios. Com o tempo, tornou-se muito famosa a cruz de Santo Osvaldo. Na época de São Beda, os enfermos costumavam beber água na qual havia sido mergulhado um fragmento dessa cruz, e muitos recuperavam a saúde. Após a morte do rei Osvaldo, os monges de Hexham tinham o costume de ir ao “Campo Celeste” na véspera do aniversário da morte do monarca; cantavam ali, à noite, o ofício divino e, no dia seguinte, celebravam a Missa. Pouco depois de que Beda escreveu esses detalhes, ergueu-se ali uma igreja.


Santo Osvaldo da Nortúmbria erguendo a cruz após a Batalha de Heavenfield, por F. H. Townsend (1868–1920)
Santo Osvaldo da Nortúmbria erguendo a cruz após a Batalha de Heavenfield, por F. H. Townsend (1868–1920)

Santo Osvaldo consagrou-se imediatamente a restabelecer a ordem em seus domínios e a implantar neles o cristianismo. Como era natural, para a obra de evangelização, pensou na Escócia e não em Cantuária, pois foi ali que se converteu ao cristianismo. Da Escócia lhe enviaram, portanto, um bispo e vários sacerdotes para que pregassem e batizassem seu povo. Santo Aidano, um monge de Iona originário da Irlanda, foi o escolhido para essa árdua empresa. Esse santo conseguiu reparar, com sua mansidão, o mal causado por outro monge que o precedera, o qual tratava o povo com tanta rudeza que, em vez de atraí-lo, o afastara da fé que pregava. O rei fixou a sede de Aidano na ilha de Lindisfarne. Como o novo bispo não conhecia suficientemente o inglês, o monarca serviu-lhe pessoalmente de intérprete, a princípio, traduzindo ao povo seus sermões e instruções.


“A partir de então, muitos escoceses (irlandeses) foram à Inglaterra pregar com grande fervor nos domínios do rei Osvaldo... Construíram-se numerosas igrejas; o povo se reunia para escutar os pregadores; o rei doava terras e dinheiro para a construção de mosteiros, e os ingleses, tanto nobres como plebeus, aprenderam as regras e os costumes da disciplina regular, pois quase todos os pregadores eram também monges”. (Beda)


Santo Osvaldo da Nortúmbria, rei e mártir
Santo Osvaldo da Nortúmbria, rei e mártir

Ao mesmo tempo em que governava seu reino temporal, Osvaldo orava e trabalhava por ganhar a coroa eterna, e como orava e dava graças continuamente, dizia-se que se sentava sempre com as mãos sobre os joelhos e as palmas voltadas para o Céu. O reino da Nortúmbria se estendia naquela época até Firth of Forth, e o poder de Osvaldo chegou a ser tão grande, que os outros reis da Inglaterra o consideravam nominalmente como seu senhor. Por isso, Santo Adamnán, em sua vida de São Columba, chama Osvaldo de “Imperador da Grã-Bretanha”. Beda narra o seguinte exemplo da caridade do monarca em meio a tanta prosperidade: num dia de Páscoa, no momento em que se sentava para comer, um oficial lhe disse que havia à porta uma grande multidão de pobres pedindo esmolas. O rei mandou dar-lhes uma enorme bandeja de prata cheia de carne e ordenou que se desse a cada um uma porção da carne e um fragmento do prato. Então Santo Aidan, que estava com o rei, tomou-lhe a mão direita e disse: “Guarde Deus para sempre esta mão”. Depois da morte de Santo Osvaldo, cortaram-lhe o braço direito, o qual permaneceu incorrupto, pelo menos até a época de Simeão de Durham († c. 1136), no mosteiro de Peterborough. Santo Osvaldo casou-se com Cineburga, filha de Cinigildo, o primeiro rei cristão de Wessex. Osvaldo fora padrinho de batismo de seu sogro. Cineburga e Osvaldo tiveram um filho, Etelwoldo, que foi rei de Deira e pouco honrou a memória de seu pai.


Ícone de Santo Osvaldo da Nortúmbria, rei e mártir
Ícone de Santo Osvaldo da Nortúmbria, rei e mártir

Alguns anos depois da ascensão de Osvaldo ao trono, estourou uma guerra contra o pagão Penda da Mércia e seus aliados. O conflito prolongou-se até a batalha de Maserfield, onde foi derrotado o pequeno exército de Santo Osvaldo, que pereceu na luta. Quando se viu cercado de inimigos, Osvaldo fez a última oração pelas almas de seus soldados. Tal foi a origem do provérbio que diz: “Senhor, tende misericórdia de suas almas, como disse São Osvaldo ao morrer”. A batalha de Maserfield teve lugar em 5 de agosto de 642; Osvaldo tinha trinta e oito anos. Suas relíquias foram distribuídas entre diversos santuários. Beda conta alguns dos milagres que lhes eram atribuídos. Era muito natural que aquele monarca que tanto se preocupara em vida com os pobres e os enfermos lhes restituísse a saúde depois de sua morte. Antigamente venerava-se Santo Osvaldo como herói nacional da Inglaterra, e seu culto se popularizou na Escócia, Irlanda, Portugal, norte da Itália, Boêmia, sul da Alemanha e Suíça. O santo é padroeiro de Zug, na Suíça. Seu culto decaiu um tanto, mas sua festa ainda é celebrada em várias dioceses da Inglaterra. Em Argyll, possui Missa própria. Em Meissen e Tréveris, assim como na Inglaterra, sua festa se celebra em 9 de agosto; mas o Martirológio Romano o menciona no dia 5.


Praticamente tudo o que sabemos sobre Santo Osvaldo procede da História Eclesiástica de Beda. No entanto, C. Plummer enumera várias biografias posteriores (vol. II, p. 161). Nos Acta Sanctorum, agosto, vol. II, pode-se ver a que escreveu Drogo no século XI; a de Reginaldo de Durham encontra-se na edição feita por Arnold das obras de Simeão de Durham (Rolls Series). Plummer (pp. 159–160) estuda o culto de Santo Osvaldo na Europa Central. As notas do mesmo autor ao texto de Beda são importantes, assim como as da edição feita por Mayor e Lumby (1881). Sobre o culto do santo na Suíça, cf. o artigo de E. P. Baker em Archaeologia, vol. XCIII (1949), pp. 103–123; quanto ao norte da Itália, veja-se outro artigo do mesmo autor em Archaeologia, vol. XCIV (1951), pp. 167–194.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, pp. 267.

2. Ibid. pp. 270-272.



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