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Vida de São João de Capistrano e São Tutilo (28 de março)

  • 28 de mar.
  • 7 min de leitura




São João de Capistrano, de Alonso del Arco (Museu do Prado).
São João de Capistrano, de Alonso del Arco (Museu do Prado).

Capistrano é uma pequena vila nos Abruzos que, em outro tempo, fez parte do reino de Nápoles. Ali, no século XIV, certo soldado — discute-se se de origem francesa ou alemã — estabeleceu-se após cumprir serviço militar sob as ordens de Luís I. Casou-se com uma mulher italiana e dessa união nasceu, em 1386, um filho chamado João, destinado a adquirir fama como uma das grandes figuras da ordem franciscana. Desde a infância, o menino se destacou por sua inteligência. Estudou direito em Perugia com tanto sucesso que, em 1412, foi nomeado governador da cidade e casou-se com a filha de um dos principais cidadãos. Durante as hostilidades entre Perugia e os Malatesta, foi feito prisioneiro e, nessa ocasião, decidiu mudar de vida e tornar-se religioso. Como resolveu a questão de seu casamento não está totalmente claro. Diz-se que atravessou Perugia montado de costas em um asno, com um grande chapéu de papel no qual estavam escritos seus piores pecados. Foi apedrejado pelos jovens e coberto de imundícies e, nessas condições, apresentou-se ao noviciado dos frades menores pedindo admissão. Naquela época (1416), tinha trinta anos e seu mestre de noviços considerou que, para um homem de vontade tão forte, acostumado a fazer tudo à sua maneira, era necessária uma disciplina rigorosa para provar a sinceridade de sua vocação (João ainda não havia feito a primeira comunhão). As provas às quais foi submetido foram extremamente humilhantes e, em algumas ocasiões, acompanhadas de manifestações sobrenaturais. Contudo, o irmão João perseverou e, anos depois, frequentemente expressava gratidão ao severo instrutor que o fez compreender que o domínio de si mesmo era o único caminho seguro para a perfeição.


São João de Capistrano
São João de Capistrano

Em 1420, João foi ordenado sacerdote. Ao mesmo tempo, fez extraordinários progressos nos estudos, levando uma vida de extrema austeridade: percorria caminhos descalço, dormia apenas três ou quatro horas por noite e usava constantemente uma áspera camisa de crina. Em seus estudos teve como companheiro São Tiago da Marca e como mestre São Bernardino de Sena, a quem dedicou profundo afeto e veneração. Logo, suas excepcionais qualidades oratórias se tornaram conhecidas. Toda a Itália daquela época atravessava uma grave crise de inquietação política e relaxamento dos costumes. Essas dificuldades eram causadas, ou ao menos agravadas, pela existência de três pretendentes ao papado e pelo acirrado antagonismo entre guelfos e gibelinos, que ainda persistia. Apesar disso, em suas pregações por toda a península, João encontrou respostas extraordinárias. Há, sem dúvida, certo exagero nas descrições de seus biógrafos, que falam de cem mil ou até cento e cinquenta mil ouvintes por sermão — algo improvável num país afetado por guerras, fome e pestes e com poucos meios de comunicação. Ainda assim, havia razão para o entusiasmo quando se dizia:


“Ninguém desejava tanto quanto João Capistrano a conversão de hereges, cismáticos e judeus; ninguém ansiava tanto pelo florescimento da religião, nem tinha maior poder de operar maravilhas. Ninguém desejava tão ardentemente o martírio, nem era tão famoso por sua santidade”.


São João de Capistrano, Museu Nacional de Áquila
São João de Capistrano pregando, Museu Nacional de Áquila

Era recebido com honra em todas as regiões da Itália, e multidões acorriam para ouvi-lo, como se os tempos apostólicos tivessem voltado. As cidades o convidavam insistentemente, por cartas, mensageiros ou por intermédio do Sumo Pontífice. Contudo, o que mais ocupava o santo era a pregação e a conversão das almas. Não cabe aqui detalhar as dificuldades internas da Ordem de São Francisco após a morte de seu fundador. Basta dizer que havia divergências entre os “Espirituais” e os chamados “relaxados” quanto à observância religiosa. A reforma dos observantes, iniciada no século XIV, enfrentava obstáculos tanto por parte de superiores quanto por exageros de austeridade que levaram às heresias dos “Fraticelli”. Essas questões exigiam solução, e Capistrano, em união com São Bernardino de Sena, assumiu grande parte desse encargo. Após o capítulo geral de Assis em 1430, foi encarregado de redigir as conclusões da assembleia; esses “Estatutos Martinianos”, confirmados pelo Papa Martinho V, tornaram-se dos mais importantes na história da ordem. Em várias ocasiões, a Santa Sé lhe confiou poderes inquisitoriais, como no combate aos “Fraticelli” e na investigação contra a Ordem dos Jesuatos, fundada pelo Beato João Colombini. Mais tarde, dedicou-se também à reforma das monjas franciscanas, inspiradas por Santa Coleta, e dos terciários. No Concílio de Ferrara, depois transferido para Florença, foi ouvido com atenção, mas entre as sessões teve de viajar a Jerusalém como comissário apostólico. Também contribuiu para a inclusão dos armênios no acordo com os gregos, infelizmente de curta duração, estabelecido em Florença.


Quando o imperador Frederico III, ao constatar que a vida religiosa dos países sob seu domínio sofria gravemente com as atividades dos husitas e de outros sectários hereges, pediu ajuda ao Papa Nicolau V, São João Capistrano foi enviado como comissário e inquisidor geral e partiu para Viena em 1451 com doze de seus irmãos franciscanos para auxiliá-lo. Não há dúvida de que sua chegada causou grande sensação. Silvio Eneias, “o futuro Papa Pio II, relata que, ao entrar em território austríaco,


“os sacerdotes e o povo saíram ao seu encontro levando relíquias sagradas. Saudaram-no como legado da Sé Apostólica, como pregador da verdade e como um grande profeta enviado por Deus. Desciam das montanhas para saudar João, como se fosse Pedro, Paulo ou algum dos outros apóstolos que chegasse. Beijavam com alegria a orla de sua veste, apresentavam-lhe seus doentes e aflitos, e diz-se que muitos foram curados. As autoridades da cidade saíram ao seu encontro e o conduziram a Viena. Não havia praça capaz de conter as multidões. Todos o contemplavam como um anjo de Deus”.


São João de Capistrano e o rei polonês Casimiro IV Jagelão
São João de Capistrano e o rei polonês Casimiro IV Jagelão

O trabalho de João como inquisidor e seus contatos com os husitas e outros hereges boêmios foi severamente criticado, mas não é este o lugar para tentar justificá-lo. Seu zelo era ardente e consumador, embora fosse misericordioso com os humildes e arrependidos. Estava adiantado em seu tempo quanto à sua atitude em relação à bruxaria e ao uso da tortura. Os milagres que o acompanhavam por onde passava, e que ele atribuía às relíquias de São Bernardino de Sena, foram atentamente observados por seus companheiros. Mais tarde, surgiu certo preconceito contra o santo devido aos relatos publicados sobre essas maravilhas. Viajou de um lugar a outro, pregando na Baviera, Saxônia e Polônia, e seus esforços eram acompanhados por um grande renascimento da fé e da devoção. Cocleu de Nuremberg relata que “os que o viram ali o descrevem como um homem de pequena estatura, magro, extenuado e com a pele colada aos ossos, mas entusiasta, forte e incansável no trabalho. Dormia com o hábito, levantava-se antes da aurora, recitava o ofício e celebrava a Missa. Depois disso, pregava em latim, sendo imediatamente traduzido ao povo por um intérprete.” Também visitava os doentes que aguardavam sua chegada, impondo-lhes as mãos, rezando e tocando-os com uma das relíquias de São Bernardino.



A aparição de São João de Capistrano a São Pedro de Alcântara, por Luca Giordano
A aparição de São João de Capistrano a São Pedro de Alcântara, por Luca Giordano

A queda de Constantinopla nas mãos dos turcos pôs fim a essa campanha espiritual. Capistrano foi chamado para encorajar os defensores do Ocidente e para pregar uma cruzada contra os infiéis. Seus primeiros esforços na Baviera e até mesmo na Áustria tiveram pouca resposta e, no início de 1456, a situação tornou-se desesperadora. Os turcos avançavam para sitiar Belgrado e o santo, que então havia viajado para a Hungria, reunido em conselho com o grande general Hunyadi, percebeu claramente que teriam de depender principalmente do esforço local. São João extenuou-se pessoalmente pregando e exortando o povo húngaro a levantar um exército capaz de enfrentar o perigo, e ele mesmo conduziu a Belgrado as tropas que conseguiu reunir. Logo os turcos estavam entrincheirados e o cerco começou. Animados pelas orações de Capistrano e por seu exemplo heroico no campo de batalha, e devidamente guiados pela experiência militar de Hunyadi, os soldados da guarnição alcançaram finalmente uma vitória esmagadora. O cerco foi levantado e a Europa ocidental ficou temporariamente salva, mas a decomposição de milhares de cadáveres insepultos ao redor da cidade provocou uma epidemia que vitimou primeiro Hunyadi e, um ou dois meses depois, o próprio Capistrano, exausto por anos de trabalho, austeridades e pelos sofrimentos do cerco. Morreu pacificamente em Villach, em 23 de outubro de 1456, e foi canonizado em 1724. Sua festa foi estendida a toda a Igreja ocidental em 1890 e então transferida para 28 de março.


O material biográfico mais importante para a história de São João Capistrano está publicado no Acta Sanctorum, outubro, vol. X. Ver BHL, nn. 4360-4368, mas além disso há uma considerável quantidade de novas informações relativas aos escritos de São João, suas cartas, reformas e outras atividades, publicada no século atual no Archivum Franciscanum Historicum, editado em Quaracchi; deve-se dar especial atenção aos estudos sobre São João e os husitas nos volumes XV e XVI da mesma publicação. Esse e outros materiais foram utilizados por J. Hofer em St. John Capistran, Reformer (1943), obra de grande valor e erudição.1




São Tutilo
São Tutilo

foi educado por Iso e Marcelo no célebre mosteiro beneditino de Saint-Gall, onde teve como companheiros os beatos Notker, Bábulo e Ratperto. Os três tornaram-se monges da abadia, sendo Tutilo nomeado chefe da escola claustral e Notker bibliotecário. Belo de aparência, eloquente e de mente ágil, São Tutilo foi um gênio universal, pois é descrito como poeta, orador, arquiteto, pintor, escultor, ourives e mecânico. No entanto, sua paixão era a música, e ele sabia tocar todos os instrumentos e ensinava isso aos alunos do mosteiro. Embora não tenha composto tropos litúrgicos, certamente os cultivou e esteve provavelmente associado ao seu amigo Notker na composição de sequências e na adaptação da letra do “Aleluia” final no gradual.


O rei Carlos, o Gordo, tinha grande admiração por São Tutilo e considerava uma pena que tal gênio estivesse escondido no mosteiro. O santo fugia da notoriedade e, quando foi obrigado a ir a grandes cidades como Metz e Mainz, onde seus talentos artísticos eram muito apreciados, esforçava-se para não ser notado e evitava elogios. Opunha-se a adornar suas pinturas e esculturas com epigramas ou lemas; ainda existem em Constança, Metz, Saint-Gall e Mainz pinturas atribuídas a ele, mas de suas obras poéticas e musicais somente foram publicadas três elegias e um hino. Morreu por volta do ano 915 e foi sepultado na capela de Santa Catarina, cujo nome foi depois mudado para o de São Tutilo em sua honra.


Ver Histoire Littéraire de la France, vol. V, pp. 071-073; Wagner, Einführung in die Gregor. Melod., vol. I, p. 282; L. Geuthier, Hist. Poét. Litur., vol. I (Europa), pp. 35-36.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 664-667.

2. Ibid. p. 667.



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