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Vida de São Josafá Kuncewicz e São Lourenço O’Toole (14 de novembro)



São Josafá Kuncewicz, por Mykola Swarnyk
São Josafá Kuncewicz, por Mykola Swarnyk

Em outubro de 1595, o metropolita dos ortodoxos dissidentes de Kiev e outros cinco bispos, que representavam milhões de rutenos (hoje chamados ucranianos), reunidos em Brest-Litovsk, cidade da Lituânia (sobre a qual tanto se falaria na Europa 222 anos depois, embora por razões muito diferentes), decidiram submeter-se à Sé Romana. As controvérsias daí surgidas provocaram excessos e violências deploráveis.


O grande defensor da unidade cristã, cuja festa celebramos hoje, derramou seu sangue pela causa que defendia e foi o protomártir da reunião da cristandade. Mas, na data que acabamos de citar, ele era ainda criança, pois nascera em 1580 ou 1584 em Vladimir da Volínia. Seu nome de batismo era João. Seu pai, católico de boa família, colocou o filho a estudar na escola de sua terra natal. Depois João entrou como aprendiz em uma loja de Vilna, mas como o comércio não o interessava muito, passava o tempo livre aprendendo o eslavônico eclesiástico para compreender melhor os ofícios divinos e poder recitar diariamente uma parte do longo ofício bizantino. João conheceu então Pedro Arcudius, reitor do colégio oriental de Vilna, assim como os jesuítas Valentim Fabricius e Gregório Gruzevsky, que se interessaram por ele e o encorajaram a seguir adiante. No início, o patrão de João não via com bons olhos suas inquietações religiosas; mas o jovem cumpriu tão bem suas obrigações, que o comerciante acabou por oferecer-lhe associação no negócio e a mão de uma de suas filhas. João recusou ambas as propostas, pois estava decidido a tornar-se monge. Com efeito, em 1604, ingressou no mosteiro da Santíssima Trindade de Vilna. O santo induziu também a seguir seu exemplo José Benjamim Rutsky, homem muito culto, convertido do calvinismo, a quem o Papa Clemente VIII havia mandado abraçar, contra sua vontade, o rito bizantino. Os dois jovens monges começaram juntos a traçar planos para promover a união e reformar a observância nos mosteiros rutenos.


João Kunsevich, que desde então tomou o nome de Josafat, recebeu o diaconado e depois o sacerdócio, adquirindo logo grande fama por seus sermões sobre a união com Roma. Sua vida pessoal era muito austera, pois acrescentava às penitências habituais das regras monásticas orientais outras mortificações tão severas que, mais de uma vez, lhe valeram críticas até dos monges mais ascéticos. No processo de beatificação, o burgomestre de Vilna declarou que “não havia no povo nenhum religioso melhor que o Pe. Josafat.” Como o abade do mosteiro da Santíssima Trindade manifestasse tendência separatista, João foi eleito para substituí-lo e, sob seu governo, o mosteiro voltou a florescer. Isso levou seus superiores a afastá-lo do estudo dos Padres orientais para que fundasse outros mosteiros na Polônia. Em 1614, Rutsky foi eleito metropolita de Kiev, e Josafat lhe sucedeu como abade de Vilna. Quando o novo metropolita foi tomar posse de sua catedral, João o acompanhou na viagem e aproveitou a ocasião para visitar o famoso mosteiro das Grutas de Kiev. Mas a comunidade daquele mosteiro, composta de mais de 200 monges, estava relaxada, e o reformador católico esteve a ponto de ser lançado ao rio Dnieper. Embora seus esforços para trazer a comunidade de volta à unidade tenham fracassado, seu exemplo e suas exortações conseguiram mudar um pouco a atitude dos monges e colocá-los em disposição de boa vontade.


São Josafá Kuncewicz, gravura em cobre dos séculos XVII-XVIII, de autoria de Aleksander Tarasowicz
São Josafá Kuncewicz, gravura em cobre dos séculos XVII-XVIII, de autoria de Aleksander Tarasowicz

O arcebispo de Polotsk era então um homem muito idoso que favorecia os dissidentes. Em 1617, Pe. Josafat foi consagrado bispo de Vitebsk, com direito de sucessão à sé de Polotsk. Poucos meses depois, morreu o velho arcebispo. Assim, Josafat encontrou-se à frente de uma eparquia tão extensa quanto pouco fervorosa. Os que praticavam mais profundamente a religião inclinavam-se ao cisma, pois temiam que Roma interferisse arbitrariamente em seus ritos e costumes. As igrejas estavam em ruínas e nas mãos dos leigos. Muitos membros do clero secular tinham contraído matrimônio duas ou até três vezes,[a] e a vida monástica estava em decadência. Josafat pediu ajuda a alguns dos irmãos de Vilna e iniciou a tarefa: reuniu sínodos nas principais cidades, publicou e impôs um texto de catecismo, redigiu uma série de ordenações sobre a conduta do clero e combateu a interferência dos “senhores” nos assuntos das igrejas locais. A tudo isso acrescentou o exemplo de sua vida, seu zelo pela instrução, a pregação, a administração dos sacramentos e a visita aos pobres, aos enfermos, aos prisioneiros e às aldeias mais remotas.


Por volta de 1620, praticamente toda a eparquia era já solidamente católica, a ordem estava restaurada e o exemplo daquele punhado de homens bons havia produzido um renascimento da vida cristã. Mas no mesmo ano foi instituída, no território abrangido pelo tratado da União de Brest, a hierarquia dos bispos dissidentes. Um certo Melecio Smotritsky foi nomeado arcebispo de Polotsk e dedicou-se energicamente a destruir a obra do arcebispo católico, dizendo que Josafat se tornara “latino”, que obrigaria seus fiéis a segui-lo e que o catolicismo não era a forma tradicional do cristianismo ruteno. Quando Melecio começou a espalhar tais rumores, São Josafat estava em Varsóvia. Ao voltar à sua diocese, encontrou-se com que, embora sua cidade episcopal permanecesse fiel, certos territórios da eparquia começavam a vacilar, pois um monge chamado Silvestre tinha conseguido ganhar as populações de Vitebsk, Mogilev e Orcha para a causa de Smotritsky. A nobreza e quase todo o povo eram favoráveis à união; mas São Josafat nada pôde fazer nas três localidades que acabamos de mencionar. Quando o rei da Polônia proclamou um decreto afirmando que Josafat era o único arcebispo legítimo de Polotsk, ocorreram desordens não só em Vitebsk, mas na própria Vilna. O decreto foi lido publicamente na presença do santo, e ele esteve a ponto de perder a vida.


O chanceler da Lituânia, Leão Sapieha, que era católico, temeroso dos resultados políticos da inquietação geral, deu ouvidos aos rumores espalhados pelos dissidentes que, fora da Polônia, acusavam São Josafat de ter sido o causador das desordens com sua política. Assim, em 1622, Sapieha escreveu ao santo acusando-o de empregar a violência para manter a união, de expor o reino ao perigo de uma invasão dos cossacos zaporogos por semear a discórdia entre o povo, de ter fechado à força certas igrejas não católicas e de outras coisas semelhantes. As acusações eram demasiado gerais, e os testemunhos ad hoc fornecidos por ambas as partes só serviram para demonstrar a injustiça do processo. O único ponto que realmente se podia censurar no santo era ter pedido auxílio do braço secular para recuperar a igreja de Mogilev, da qual os dissidentes se haviam apoderado. O arcebispo teve também de enfrentar a oposição, as críticas e a falta de compreensão de alguns católicos. Não há dúvida de que uma das causas da facilidade com que parte do povo havia voltado ao cisma era a firme disciplina e o rigor moral que o renascimento católico havia imposto. Infelizmente, São Josafat não encontrou entre os bispos latinos da Polônia o apoio que merecia nessa obra, porque sustentou valentemente o direito do clero e dos ritos bizantinos a serem considerados em Roma em pé de igualdade com os latinos. O santo prosseguiu sua luta com a mesma tenacidade e valentia. Em outubro de 1623, sabendo que Vitebsk era ainda o centro da oposição, decidiu ir pessoalmente até lá. Seus amigos não conseguiram dissuadi-lo nem convencê-lo a levar escolta militar. “Se Deus me julgar digno de merecer o martírio, não temo morrer”, respondeu São Josafat. Assim, durante duas semanas ele pregou nas igrejas de Vitebsk e visitou os fiéis sem distinção alguma. Seus inimigos o ameaçavam continuamente e provocavam seus acompanhantes para poder assassiná-lo no meio do tumulto. No dia da Festa de São Demétrio, uma turba enfurecida cercou o mártir, ao que ele disse:


“Sei que quereis matar-me e que me espreitais em toda parte: nas ruas, nas pontes, nos caminhos, na praça central. Mas estou entre vós como vosso pastor e quero que saibais que me consideraria muito feliz em dar a vida por vós. Estou pronto a morrer pela sagrada união, pela supremacia de São Pedro e do Romano Pontífice.”

Martírio de Josafá Kuntsevych (1861) por Józef Simmler, exposto no Museu Nacional de Varsóvia
Martírio de Josafá Kuntsevych (1861) por Józef Simmler, exposto no Museu Nacional de Varsóvia

Smotritsky, que era quem fomentava a agitação, provavelmente queria apenas obrigar o santo a deixar a cidade. Mas seus partidários, mais exaltados, começaram a tramar uma conspiração para assassinar Josafat no dia 12 de novembro, a menos que ele se desculpasse por ter empregado antes a violência. Um sacerdote chamado Elias recebeu a missão de entrar no pátio da casa do arcebispo e insultar seus criados por sua religião e ao amo que serviam. Como a cena se repetisse várias vezes, São Josafat deu permissão a seus criados para prender o sacerdote, caso ele voltasse. Na manhã de 12 de novembro, quando o arcebispo se dirigia à igreja para rezar o ofício da aurora, Elias apareceu-lhe no caminho e começou a insultá-lo. O santo então deu permissão ao seu diácono para mandar encerrar o agressor em um aposento da casa. Era exatamente isso o que seus inimigos desejavam. Imediatamente repicaram os sinos, e a multidão começou a clamar que soltassem Elias e punissem o arcebispo. Depois do ofício, São Josafat voltou para casa e libertou Elias, não sem antes o ter advertido. Apesar disso, o povo invadiu a casa, exigindo a morte de Josafat e espancando seus criados. O santo saiu ao encontro da turba e perguntou: “Por que bateis em meus criados, meus filhos? Se tendes algo contra mim, aqui estou; deixai-os em paz.” (É inútil acentuar o quanto estas palavras se parecem com as pronunciadas por Santo Tomás Becket em ocasião semelhante). A turba então começou a gritar: “Morra o papista!”, e São Josafat caiu atravessado por uma alabarda e ferido por uma bala. Seu corpo foi arrastado pelas ruas e lançado ao rio Divna.


São Josafat Kunsevich foi canonizado em 1867. Foi o primeiro santo da Igreja oriental canonizado com processo formal da Sagrada Congregação dos Ritos. Quinze anos mais tarde, Leão XIII fixou o dia 14 de novembro como data de celebração de sua Festa em toda a Igreja ocidental. Os ucranianos e outros a celebram em 12 de novembro, ou no domingo seguinte, segundo o calendário juliano. O martírio do santo produziu como resultado imediato um movimento em favor da unidade católica. Infelizmente, a controvérsia prolongou-se com violência muito pouco edificante, e os dissidentes tiveram também uma morte, o abade Anastásio de Brest, executado em 1648. Por outro lado, o arcebispo Melecio Smotritsky reconciliou-se mais tarde com a Santa Sé. A grande união rutena existiu, com altos e baixos, até que, depois da partilha da Polônia, os soberanos russos obrigaram pela força os rutenos católicos a unirem-se à Igreja Ortodoxa da Rússia. Os poucos que não o fizeram viram-se repetir a história em nossos dias, como recorda a encíclica Orientales omnes, que Pio XII publicou em 1946, por ocasião do 350º aniversário da União de Brest.


Em 1874, Dom Alphonse Guépin publicou dois volumosos tomos em oitavo, com mais de mil páginas, intitulados Saint Josaphat, archevêque martyr, et l’Église grecque unie en Pologne. O autor fala no prefácio das fontes de sua obra. Em particular, agradece ao Pe. J. Martynov por ter colocado à sua disposição uma cópia do processo de beatificação e certo número de documentos copiados dos arquivos romanos. Cita também uma vasta coleção de documentos reunidos pelo monge basiliano Paulo Szymansky e menciona outra grande biblioteca de manuscritos do mesmo tipo, reunida pelo bispo Naruszewicz para suas pesquisas históricas. Dom Guépin pôde dispor de todo esse material e soube empregá-lo com tal discernimento, que a maioria dos escritores ocidentais que trataram do tema depois dele basearam-se em suas investigações. Entretanto, é preciso mencionar também os utilíssimos panfletos do Pe. G. Hofmann (Orientalia Christiana, nn. 6 e 12). A notícia da morte de São Josafat difundiu-se rapidamente por toda a Europa. No Museu Britânico conserva-se uma cópia de um panfleto publicado em 1625, em Sevilha, com o título Relação verdadeira da morte e martírio de... Josafat. Veja-se também O. Kozanewyc, Leben des hl. Josaphat (1931); e a revista Roma e Oriente, vol. X (1920), pp. 27-34. Os fatos históricos relacionados com a vida de São Josafat podem ser vistos em Cambridge History of Poland, vol. I (1950), pp. 507 ss. São Josafat e o metropolita Rutsky foram os iniciadores do movimento monástico ruteno que mais tarde se tornou a Ordem de São Basílio; por isso, desde 1932, esses monges receberam o nome oficial de Basilianos de São Josafat. Em 1952, publicaram em Roma o primeiro volume do texto latino dos documentos da beatificação de São Josafat.1




Vitral representando Lourenço O’Toole.
Vitral representando Lourenço O’Toole.

Lourenço O'Toole nasceu em 1128, provavelmente perto de Castledermot, em Kildare. Era filho de Murtagh, pequeno rei dos Murrays. Quando Lourenço tinha dez anos, o rei de Leinster, Dermot McMurrogh, fez uma incursão no território de Murtagh e levou o pequeno Lourenço como refém. Durante dois anos, o menino sofreu muitos maus-tratos, numa região pedregosa e árida das cercanias de Ferns, até que seu pai teve notícias da triste sorte do filho e obrigou Dermot, com ameaças e represálias, a confiar seu filho aos cuidados do bispo de Glendalough. Murtagh foi pessoalmente ver o bispo e pediu-lhe que lançasse sortes para saber qual de seus quatro filhos devia consagrar-se a Deus. Mas Lourenço soltou uma risada e disse: “Não há necessidade de lançar sortes, porque eu desejo que minha herança consista em servir a Deus em sua Igreja.” Então seu pai tomou-o pela mão e entregou-o ao bispo, como sinal de que o consagrava a Deus.


Quando tinha apenas vinte e cinco anos, Lourenço foi eleito abade de Glendalough. Pouco depois, conseguiu a muito custo evitar a dignidade episcopal, alegando que era necessário ter completado trinta anos para ocupar tal cargo. O santo governou sua comunidade com prudência e virtude. Durante a fome que reinou na região nos quatro primeiros meses de seu superiorato, salvou o povo da morte com suas generosíssimas esmolas. Fora do mosteiro teve que lutar contra malfeitores e bandoleiros que infestavam as colinas de Wicklow, e dentro do mosteiro enfrentou-se com maus monges que não podiam suportar a regularidade de sua conduta e o zelo com que condenava seus excessos. Às calúnias desses falsos irmãos, São Lourenço respondeu com silêncio e paciência. Em 1161, morreu Gregório, o primeiro arcebispo de Dublin. Lourenço foi eleito para sucedê-lo. Recebeu a consagração na catedral da Santíssima Trindade (que mais tarde se chamou Igreja de Cristo), das mãos de Gelásio, arcebispo de Armagh. Aquilo foi um símbolo da unidade que reinava na Igreja da Irlanda desde o sínodo de Kells em 1152, pois antes os bispos de Dublin dependiam de Cantuária. Infelizmente, o novo estado de coisas não sobreviveria muito tempo a São Lourenço.


O primeiro cuidado do santo foi reformar o clero e dar bons ministros à Igreja. Para isso obrigou os cônegos de sua catedral a adotar a regra dos cônegos regulares de Arrouaise. Essa abadia, fundada em Arras em 1090, gozava de tal fama de santidade e disciplina que se tornou modelo de muitas outras. O próprio São Lourenço tomou o hábito, comia com os religiosos, observava o silêncio como eles e com eles assistia ao ofício da meia-noite. Todos os dias alimentava trinta pobres, e às vezes muitos mais, sem contar aqueles que socorria em suas casas. Todos encontravam nele um pai em suas necessidades materiais e espirituais. Por outra parte, o santo era infatigável na pregação e no zelo pelo culto litúrgico. O rei Dermot havia imposto na sé de Glendalough um bispo tão indigno, que o povo o expulsou pouco depois. Para substituí-lo, foi eleito Tomás, sobrinho de São Lourenço. Esse jovem abade-bispo conseguiu restabelecer a disciplina e houve um reflorescimento da piedade. Desde então, São Lourenço, para fugir do bulício de Dublin, costumava retirar-se a Glendalough, onde tinha uma cela aberta na rocha de um penhasco do Lago Maior.


Vitral no deambulatório, representando São Lourenço O’Toole
Vitral no deambulatório, representando São Lourenço O’Toole

Dermot McMurrogh foi finalmente expulso da Irlanda por causa dos excessos que cometera. Para voltar a ocupar seus domínios, pediu ajuda a Henrique II da Inglaterra, que se apressou em autorizar seus nobres a unir-se a uma expedição que correspondia a seus desejos. O chefe dos voluntários foi Ricardo de Clare, conde de Pembroke, que em 1170 desembarcou em Waterford, invadiu parte de Leinster e marchou sobre Dublin. São Lourenço foi escolhido para negociar com os invasores, mas, enquanto se discutiam as condições, os aliados anglo-normandos de Dermot tomaram Dublin e a passaram a sangue e fogo. Lourenço voltou à cidade para socorrer os feridos, defender os sobreviventes e dar coragem a todos. Dermot pereceu no momento de seu triunfo. Ricardo de Clare, que era casado com Eva, filha de Dermot e sobrinha de São Lourenço, exigiu que lhe entregassem Leinster. Nessa época, o rei Henrique chamou seus vassalos, os irlandeses uniram-se sob o comando do rei Rory O'Connor e Ricardo de Clare se entrincheirou em Dublin. São Lourenço empreendeu novamente as negociações, mas estas voltaram a fracassar. Ricardo de Clare, num momento de desespero, atacou as forças irlandesas e derrotou-as, pondo fim às esperanças patrióticas de São Lourenço e dando início ao “problema irlandês”.


Uns quinze anos antes, o rei Henrique II havia obtido uma bula de Adriano IV, chamada “Laudabiliter”, pela qual este o autorizava a invadir a Irlanda, a fim de “submeter o povo à lei e arrancar o vício”.[b] Henrique aproveitou a oportunidade que então se lhe apresentou para realizar esse benéfico projeto. Em 1171, submeteram-se a ele em Dublin todos os chefes irlandeses, exceto os de Connaught, Tyrconnel e Tyrone. No ano seguinte, o monarca reuniu um sínodo em Cashel. Ali os bispos tomaram conhecimento da existência da bula de Adriano IV, adotaram medidas em favor da disciplina clerical, adotaram a forma inglesa da liturgia romana e pediram ao Papa que confirmasse suas decisões. Assim o fez o Pontífice. São Lourenço foi um dos que aceitaram a bula e dirigiram o sínodo. A partir de então, exerceu repetidas vezes o ofício de intermediário entre o rei Henrique e os príncipes irlandeses. Em 1175, negociou com sucesso um tratado em Windsor entre o soberano inglês e o rei Rory O'Connor. Nessa viagem visitou Cantuária e foi recebido pelos monges de Christ Church com as honras correspondentes à sua reputação e categoria. Passou aquela noite em oração diante das relíquias de São Tomás Becket. No dia seguinte, ao dirigir-se ao altar para oficiar, um louco que havia ouvido falar muito dele e queria que fosse mártir como São Tomás Becket, desferiu-lhe um bastonada na cabeça. O santo perdeu os sentidos, mas logo os recuperou, pediu que lhe lavassem a ferida e, em seguida, cantou a Missa. O rei condenou o louco à forca, mas Lourenço intercedeu por ele e obteve seu perdão.


O terceiro Concílio Ecumênico de Latrão teve lugar em Roma em 1179. São Lourenço assistiu a ele com outros cinco bispos irlandeses. Antes que partissem da Inglaterra, Henrique II obrigou-os a jurar que não fariam perante a Santa Sé nenhuma representação que pudesse prejudicar sua posição na Irlanda. São Lourenço expôs ao Papa o estado da Igreja na Irlanda e pediu-lhe que tomasse medidas eficazes contra muitos desordens e defendesse os direitos da Igreja. O Sumo Pontífice, agradado com as proposições do santo, confirmou todos os direitos de sua sede, deu-lhe jurisdição sobre cinco dioceses sufragâneas e nomeou-o seu legado na Irlanda. Assim que Lourenço voltou ao seu país, começou a exercer vigorosamente seus poderes de legado. Mas Henrique II, recordando o caso de Becket, olhava com receio a autoridade que Roma havia concedido a Lourenço. Assim, quando o santo foi vê-lo na Inglaterra, em 1180, para negociar a paz com Rory O'Connor, o monarca impediu-o de voltar ao seu país. Lourenço esperou três semanas em Abingdon e então decidiu ir ver Henrique II na Normandia. Com efeito, cruzou o Canal da Mancha e desembarcou num lugar próximo a Le Tréport, que atualmente se chama Saint-Laurent. O rei concedeu-lhe permissão para voltar à Irlanda. Mas o santo caiu gravemente enfermo durante a viagem. Pouco antes de chegar à abadia dos cônegos regulares de São Vítor de Eu, murmurou: “Haec requies mea in saeculum saeculi.” — “Esta é a minha morada de descanso pelos séculos dos séculos.” A morte não o surpreendia desprevenido. Como o abade lhe sugerisse que escrevesse seu testamento, São Lourenço respondeu com um sorriso: “Deus é testemunha de que não tenho nem um centavo.” Mais tarde, pensando em seu rebanho, exclamou em irlandês: “Ai, meu povo insensato e turbulento! Que farás agora? Quem olhará por ti em teus infortúnios? Quem te estenderá a mão?”


São Lourenço O'Toole morreu em 14 de novembro de 1180 e foi canonizado em 1225. A maior parte de suas relíquias encontra-se na cripta da igreja de Nossa Senhora de Eu. Toda a Irlanda, os cônegos regulares de Latrão e a diocese de Rouen (na qual se situa Eu) celebram sua Festa.


Certamente, a mais importante das biografias antigas de São Lourenço é a editada por C. Plummer, que a tomou do Codex Kilkenniensis da Biblioteca Marsh de Dublin. O texto, com uma introdução muito valiosa, encontra-se em Analecta Bollandiana, vol. xxxIII (1914), pp. 121-186. Existem outras biografias latinas, uma das quais foi publicada pelos bolandistas no Catalogus Cod. Hagiogr. Latin. Paris, vol. III, pp. 236-248; mas, embora tal biografia se baseie nos mesmos documentos que a primeira, os fatos aparecem em ordem diferente e acompanhados de reflexões morais e tediosas. Em suma, não parece ser um texto de grande valor histórico. No prefácio de Plummer a VSH., pp. xv-xxIII, encontram-se alguns comentários úteis acerca das fontes manuscritas sobre a vida de São Lourenço. A biografia publicada por Surio, ao menos no que se refere à primeira parte, concorda com a editada por Plummer; porém Surio modificou a seu gosto a fraseologia latina. Nas crônicas da época encontram-se também muitos dados sobre São Lourenço. A biografia francesa de A. Legris (1914) é breve e precisa; a de O'Hanlon (1857) já está ultrapassada. Veja-se J. F. O'Doherty, Laurentius von Dublin und das irische Normannentum (1933); e Dom Gougaud, Les Saints Irlandais hors d'Irlande (1936), pp. (sobre o papel de São Lourenço como legado pontifício, em Analecta Bollandiana, vol. lxxviii (1950), pp. 223-24). A obra de P. Carpentier, S. Laurent O'Toole (1953), é um resumo da de Legris, que infelizmente não foi atualizada.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 334-338.

2. Ibid. pp. 338-341.


Notas:


a. Segundo o direito canônico oriental, um homem casado pode ser ordenado sacerdote, mas, se sua esposa morrer, não tem direito de contrair matrimônio outra vez; tampouco pode casar-se, se era solteiro no momento de receber o sacerdócio.


b. E também para reunir “o denário de São Pedro. Tem-se discutido a autenticidade da bula, mas os argumentos não são convincentes. Um dos que defendem a autenticidade é Dom Gougaud, que escreve: “Embora a bula não esteja redigida em conformidade perfeita com os métodos então empregados pela chancelaria pontifícia, pode-se demonstrar, contudo, que ela concorda substancialmente com alguns testemunhos contemporâneos indiscutíveis.” (Christianity in Celtic Lands, p. 408).



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