Vida de São Bartolomeu, Apóstolo e Os Mártires de Útica (24 de agosto)
Atualizado: 24 de ago.

Provavelmente o nome de Bartolomeu não é propriamente o do Apóstolo, mas simplesmente um patronímico que significa “filho de Tolomai”. Muitos estudiosos afirmam que ele se identifica com Natanael, natural de Caná da Galileia, de quem disse o Senhor: “Eis um verdadeiro israelita em quem não há dolo algum”. As principais razões dessa identificação são que o nome de Natanael não aparece em três dos Evangelhos, onde sempre se citam juntos Filipe e Bartolomeu, enquanto, no de São João, se diz que Filipe e Natanael conheceram juntos o Senhor. Por outro lado, o nome de Natanael figura entre os Apóstolos a quem Cristo apareceu às margens do mar da Galileia, depois de sua Ressurreição (João XXI, 2).
Depois que o Espírito Santo desceu sobre os Santos Apóstolos e eles se dispersaram para pregar o Evangelho ao mundo inteiro, São Bartolomeu foi enviado à Índia Oriental e aos países vizinhos. Enfrentando grandes dificuldades, percorreu cidades e aldeias, convertendo por todos os lados grande número de pagãos.
Após ter providenciado sacerdotes para todos esses lugares, Bartolomeu viajou para a Grande Armênia. Chegando à capital deste país, dirigiu-se primeiramente ao grande templo do ídolo Astarote, onde encontrou um grande número de cegos, surdos, coxos e outros deficientes, que rezavam a esse deus para que lhes restituísse a saúde. Alguns eram socorridos, outros não. Este demônio — como confessou depois, por ordem de São Bartolomeu —, primeiro tornava essas pessoas cegas, surdas ou coxas, por meio de feitiçaria ou outros meios, e quando elas procuravam ajuda em seu templo, destruía o feitiço lançado sobre elas; ou simplesmente usava meios naturais para restaurar sua saúde, enquanto elas acreditavam que seu deus as tinha ajudado.
Satanás também costumava falar por meio da imagem desse ídolo e responder àqueles que o questionavam. Mas bastou o Santo Apóstolo entrar no templo para que o demônio se calasse e não dissesse uma só palavra. Este silêncio era incompreensível para os armênios, que foram perguntar ao ídolo de outro templo a sua causa.

Pela boca da outra imagem, Satanás disse que Bartolomeu, um Apóstolo do verdadeiro Deus, era o responsável por calar o ídolo anterior, e que o mesmo lhe aconteceria assim que o santo entrasse em seu templo. O sacerdote idólatra desejava saber por que meios poderiam reconhecer aquele homem, e o diabo descreveu-o minuciosamente, acrescentando que ele rezava cem vezes durante o dia e o mesmo número de vezes durante a noite.
Os pagãos foram imediatamente à procura de São Bartolomeu, e o encontraram logo depois de ele ter libertado um homem possuído pelo demônio: enquanto era exorcizado, Satanás gritava bem alto que as orações do Apóstolo o atormentavam e, assim, era obrigado a ceder. Depois que os idólatras conheceram o santo, começaram a pensar no que fazer com ele.
Enquanto isso, o rei Polímio, cuja filha também estava possuída pelo Maligno, e que tinha ouvido falar da libertação da pessoa mencionada acima, enviou uma mensagem ao Apóstolo, pedindo-lhe humildemente que viesse libertar sua filha da mesma forma. Bartolomeu fez uma breve oração, e depois ordenou a Satanás, em nome de Jesus Cristo, que deixasse o corpo do possesso, o que aconteceu instantaneamente.
A alegria do rei e de toda a corte, assim como o espanto do povo da cidade, foram indescritivelmente grandes. Em sinal de gratidão para com o santo, o rei ofereceu-lhe uma grande soma de dinheiro e muitos outros presentes. São Bartolomeu não aceitou nada, e disse: “Não estou aqui para procurar ouro e prata, mas para converter o povo e levar as almas ao conhecimento da verdadeira fé e ao Céu.”

Depois disso, começou a falar ao rei e aos cortesãos sobre o único Deus verdadeiro, e explicou-lhes como o Filho unigênito de Deus havia redimido o mundo com seus sofrimentos e sua morte. Disse-lhes, sem medo, que os deuses que todos adoravam eram falsos, ou melhor, não passavam de espíritos do Inferno e, para provar isso, propôs obrigar o próprio demônio, que até então lhes falava por meio do ídolo, a confessá-lo publicamente.
No dia seguinte, o rei foi ao templo com todos os seus cortesãos. São Bartolomeu foi também e pediu ao ídolo Astarote, em nome de Jesus Cristo, que dissesse quem ele era. O demônio começou a lamentar-se e a uivar, mas por fim, coagido pelo poder divino, confessou que era um dos espíritos infernais que até então enganara maldosamente o rei e o povo. Disse também que só existia um Deus verdadeiro, Aquele que São Bartolomeu, seu Apóstolo, pregava e adorava.
Todos os presentes olhavam uns para os outros e não sabiam o que pensar nem o que dizer. Então, o santo Apóstolo ordenou ao demônio que deixasse os ídolos e destruísse todos eles, sem exceção, na cidade inteira. O demônio obedeceu, e os ídolos da cidade caíram dos seus altares e foram despedaçados. Isto bastou para convencer o rei de que São Bartolomeu era um anunciador da verdade e, depois de ter sido instruído na fé cristã, ele, a mulher e os filhos foram batizados.
O exemplo do rei foi seguido por toda a corte e pela maioria dos habitantes da capital e, pouco tempo depois, as doze principais cidades do Estado converteram-se ao cristianismo. Para conseguir preservar um tão grande número de fiéis na Igreja, São Bartolomeu ordenou muitos sacerdotes e nomeou-os para se encarregarem dos novos convertidos.

Após essa gloriosa vitória do Evangelho, somente os sacerdotes idólatras permaneceram obstinados em seu erro, e como depois da queda de seus ídolos foram desprezados e ridicularizados, pensaram em meios de se vingar do santo Apóstolo. E depois do fracasso de muitos planos, voltaram os olhos para Astíages, irmão do rei Polímio, que reinava em outra parte da Armênia, e acusaram São Bartolomeu diante dele como inimigo e perturbador do país, pois conseguira seduzir o rei e toda a corte e pretendia exterminar completamente o antigo culto aos deuses.
Astíages, em cuja mente fraca a idolatria havia criado profundas raízes, decidiu vingar o mal que fora infligido aos deuses. Então, chamou o santo Apóstolo à sua corte, com o pretexto de ouvir suas instruções. Porém, tão logo o santo homem apareceu, o tirano ameaçou puni-lo com os mais cruéis tormentos e a mais terrível morte, se ele não oferecesse imediatamente um sacrifício aos deuses. São Bartolomeu esforçou-se por convencê-lo da insignificância de seus deuses, mas o tirano não lhe deu ouvidos: ordenou aos carrascos que capturassem o santo e lhe arrancassem a pele de todo o corpo, para assim o matarem lentamente.

A ordem foi cumprida, e o santo Apóstolo foi esfolado vivo. Durante este suplício desumano, o santo não cessou de louvar a Deus e de proclamar a verdadeira fé. Deus preservou-lhe a vida milagrosamente até que a pele lhe foi arrancada de todo o corpo e, como continuasse a proclamar a verdadeira fé, o tirano mandou-o decapitar. No entanto, o Todo-Poderoso castigou visivelmente o rei e os sacerdotes idólatras, que instigaram essa terrível crueldade. Todos eles ficaram possuídos pelo Maligno e, depois de serem atormentados por ele durante trinta dias, foram estrangulados.
Os cristãos colocaram o corpo santo do mártir num caixão de chumbo e o sepultaram com todas as honras. Posteriormente, os pagãos jogaram no mar o caixão de chumbo com as relíquias de São Bartolomeu. Porém, as ondas o sustentaram milagrosamente e o levaram até a ilha de Lipari, onde os cristãos receberam com alegria os sagrados restos mortais e os colocaram numa igreja erguida para esse fim. Em seguida, esse tesouro sagrado foi levado para Benevento e, finalmente, no reinado de Otão II, foi transportado para Roma, onde é guardado até hoje com grande honra.1
O Martirológio Romano resume a tradição popular sobre São Bartolomeu, e diz que
“pregou o Evangelho na Índia; tendo ido depois à Armênia Maior, converteu muitas gentes, pelo que os bárbaros o esfolaram vivo, e o rei Astíages mandou decapitá-lo...”

Segundo a tradição, o martírio ocorreu em Albanópolis (atualmente Derbend, na costa ocidental do Mar Cáspio). Bartolomeu pregou também na Mesopotâmia, Pérsia, Egito e outros países. Eusébio (século IV) é o primeiro que faz menção da Índia. Com efeito, esse autor refere que São Panteno havia ido à Índia cerca de cem anos antes* (“para pregar aos brâmanes”, segundo acrescenta São Jerônimo) e encontrou alguns indígenas que conheciam o nome de Cristo; esses indígenas lhe mostraram uma cópia do Evangelho de São Mateus, em caracteres hebraicos, e lhe disseram que era a que levava São Bartolomeu consigo quando fora evangelizar o país. Mas deve advertir-se que os escritores gregos e latinos da época aplicavam o nome de “Índia” à Arábia, Etiópia, Líbia, Pártia, Pérsia e às terras dos medos. Provavelmente o lugar em que esteve Panteno foi a Etiópia ou a Arábia Feliz, ou ambas. Outra lenda oriental afirma que São Bartolomeu encontrou São Filipe em Hierápolis da Frígia e foi com ele à Licaônia; São João Crisóstomo sustenta que São Bartolomeu evangelizou os licaônios. Não é impossível que São Bartolomeu tenha morrido realmente na Armênia, como afirmam unanimemente todos os historiadores posteriores desse país; mas o certo é que os escritores armênios primitivos quase não mencionam São Bartolomeu quando falam da evangelização de seu país. A lenda das transladações de seus restos é ainda mais complicada que a de suas viagens. As relíquias do Apóstolo encontram-se atualmente em Benevento e na igreja romana de São Bartolomeu, junto ao Tibre.2
O nome de São Bartolomeu não é tão famoso nos apócrifos como os de Santo André, São Tomé e São João. Contudo, um escrito apócrifo, do qual se conserva um texto grego e várias traduções latinas, narra o apostolado e o martírio do santo. Segundo Max Bonnet (Analecta Bollandiana, vol. XIV, 1895, pp. 353-366), o original desse documento estava redigido em latim; com menos probabilidade, Lipsius se inclina a pensar que o original era grego. Não é impossível que o texto grego e o latino derivem de um original sírio. Podem-se ver os textos em Acta Sanctorum, agosto, vol. V; em Tischendorf, Acta Apostolorum Apocrypha, pp. 243-260; e em Bonnet, Act. Apocryph., vol. II, parte I, pp. 128 ss. Existem também importantes fragmentos de um evangelho apócrifo de São Bartolomeu (cf. Revue Biblique, 1913, 1921 e 1922), e conservam-se vestígios de alguns Atos de André e Bartolomeu em copta. O Evangelho apócrifo de São Bartolomeu é um dos textos condenados pelo decreto pseudo-gelasiano. O relato do martírio de São Bartolomeu não diz que ele tenha sido esfolado vivo antes de ser decapitado, mas esse dado se encontra no Breviarium Apostolorum, incluído em certos manuscritos do Hieronymianum. Provavelmente, a faca que aparece em tantas representações de São Bartolomeu alude ao esfolamento. Sobre São Bartolomeu na arte, cf. Kinstle, Ikonographie, vol. II, pp. 116-120. Sobre a permanência de São Bartolomeu na Índia, cf. A. C. Perumalil, The Apostles in India (Patna, 1953).

O poeta Prudêncio popularizou em um de seus hinos a história desses mártires, tal como havia chegado aos seus ouvidos. O Martirológio Romano a resume nos seguintes termos:
“Em Cartago, a paixão de trezentos santos mártires na época de Valeriano e Galieno. O governador, entre outros tormentos, mandou acender um braseiro e trazer incenso e carvão. Depois disse aos mártires: ‘Escolhei entre oferecer incenso a Júpiter ou ser lançados às chamas.’ Os mártires, armados com a fé e confessando que Cristo era o Filho de Deus, atiraram-se espontaneamente às chamas e foram reduzidos a cinzas. Dessa forma, os confessores de Cristo, que estavam vestidos de branco, ganharam o título de Massa Cândida.”
Esse nome faz alusão à brancura das cinzas dos mártires, que se misturaram em uma só massa. Santo Agostinho diz que os fatos ocorreram em Útica, a quarenta quilômetros de Cartago, e que os mártires não eram trezentos, mas cento e cinquenta e três. Prudêncio comenta: “A brancura (candor) recobre seus corpos, e a pureza (candor) de suas almas brilha no céu. Por isso mereceram ser eternamente chamados Massa Cândida.”
Entretanto, como observa o Pe. Delehaye em seu comentário ao Hieronymianum, a descrição poética de Prudêncio carece de fundamento, pois “Massa Cândida” é, na realidade, o nome do local onde os mártires foram sepultados. Não existe nenhuma prova de que tenham morrido na perseguição de Valeriano. Provavelmente foram decapitados, já que um sermão, antigamente atribuído a Santo Agostinho sem razão suficiente, fala de rios de sangue e da generosidade com que os mártires apresentaram o pescoço ao carrasco. Por outro lado, também não há provas de que tenham sido 300 ou 153, pois Santo Agostinho citou esse número simplesmente para compará-lo com o dos peixes da pesca milagrosa (João, XXI, 11).3
Prudêncio, Peristephanon, XIII, 76-87; P. Franchi de Cavalieri, em Studi e Testi, vol. IX (1902), pp. 37-51; G. Morin, em Miscellanea Augustiniana, vol. I (1930), p. 647; H. Delehaye, CMH, pp. 449-450, e Origines du culte des martyrs (1933), pp. 384-385.
Referências:
1. Pe. Franz X. Weninger. Lives of the saints: compiled from authentic sources with a practical instruction on the life of each saint, for every day in the year, v. 2. New York: P. O’Shea, 1876, p. 245. Do artigo “O santo que sentiu na pele a fidelidade a Cristo” .
2. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, pp. 397–398.
3. Ibid. p. 399.






















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