Vida de Santo Antelmo de Belley e Santos João e Paulo, Mártires (26 de junho)
- 26 de jun. de 2025
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Além de seus nomes e do fato de terem sido dois cristãos martirizados em Roma, pouco se conhece com certeza sobre a vida dos Santos João e Paulo, venerados juntos pela Igreja. No século IV, suas relíquias foram depositadas em uma casa situada na Colina Célio, que Bizâncio, ou seu filho São Pamáquio, amigo de São Jerônimo, transformou em igreja cristã. É possível que a basílica construída sobre os alicerces da antiga edificação, no século V, tenha sido originalmente dedicada aos Apóstolos São João e São Paulo; o certo, porém, é que passou a ser identificada com os santos mártires João e Paulo, cujas relíquias ali eram veneradas. Seu culto difundiu-se amplamente, favorecido também pela circulação de antigas atas de seu martírio, posteriormente reconhecidas como não autênticas. Como resultado dessa veneração, os nomes dos santos João e Paulo foram inseridos no Cânon da Missa e na Ladainha de Todos os Santos; receberam ainda missa e ofício próprios nos sacramentários Gelasianum e Gregorianum, passando depois à liturgia galicana. No Gelasianum, sua festa era precedida de vigília e jejum, práticas que mais tarde foram suprimidas, provavelmente por sua proximidade com os jejuns das festas da Natividade de São João Batista e dos Apóstolos São Pedro e São Paulo.
A fama dos dois irmãos estendeu-se amplamente: entre os diversos itinerários que se traçaram a partir da basílica da Colina Célio durante a Idade Média — marcados por altares, capelas, inscrições e escritos nascidos da devoção dos peregrinos que visitavam Roma — figura um, descoberto na localidade inglesa de Salisbury, na forma de uma coletânea de manuscritos do século X. Também Guilherme de Malmesbury, que escreveu durante o reinado de Estêvão, faz menção aos santos, e o Concílio de Oxford, em 1222, determinou que a comemoração dos santos João e Paulo fosse celebrada como festa de terceira classe, com a obrigação, para os fiéis, de assistirem à missa antes de irem trabalhar.

Na edição de 1965, Butler afirma que "as atas não passam de uma fábula piedosa que afirma ter sido escrita com base nos relatos de Terenciano, o capitão da guarda encarregado de executar os dois mártires". Segundo essa história, os irmãos João e Paulo eram oficiais do exército, a quem o imperador Constantino confiara a guarda que velava pela segurança de sua filha, Constância. Esta lhes tinha grande estima, e nomeou um deles como seu acompanhante e o outro como seu mordomo. Mais tarde, o imperador os convocou para servir ao general Gallicano, em uma expedição enviada à Trácia para repelir uma invasão dos citas. Os bárbaros invasores eram inimigos formidáveis, e, em certo momento, a derrota das forças imperiais parecia iminente. Uma das alas da vanguarda fora isolada, vários oficiais haviam se rendido, e, nesse instante, os dois irmãos aproximaram-se de Gallicano para assegurar-lhe que alcançaria a vitória, se se comprometesse a abraçar a religião cristã. O general fez a promessa exigida e, em seguida, apareceu uma legião de anjos que pôs os inimigos em fuga.
Enquanto Constantino e seus filhos viveram, João e Paulo permaneceram a seu serviço e foram honrados pela família imperial; mas, tão logo o imperador Juliano proclamou sua apostasia, eles lhe demonstraram oposição. Em consequência, Juliano os mandou comparecer diante de seu tribunal, onde se recusaram terminantemente a obedecer à ordem de oferecer sacrifícios aos deuses e proclamaram sua firme adesão à fé cristã e sua abominação pela apostasia do imperador. Foi-lhes concedido um prazo de dez dias para reconsiderar sua recusa. Ao final desse tempo, Terenciano, capitão da guarda imperial, chegou com alguns de seus homens à casa onde os irmãos estavam sob vigilância. Ali mesmo foi realizada a execução, sem outras testemunhas além dos quatro ou cinco guardas presentes. Os cadáveres foram sepultados no jardim da residência sobre a Colina Célio, mas Terenciano e seus homens juraram guardar silêncio e fazer crer que os dois cristãos haviam sido enviados ao exílio. A lenda acrescenta que o imperador Joviano construiu a igreja dedicada em sua honra no exato local onde ficava a casa.

A atual Basílica dos Santos João e Paulo, com sua fachada de estilo românico-lombardo, foi entregue pelo Papa Clemente XIV a São Paulo da Cruz e, até hoje, está sob os cuidados dos passionistas. As escavações realizadas em 1887, sob os alicerces da basílica, revelaram a existência de cômodos da antiquíssima casa, com restos de afrescos, alguns dos quais pertencem ao século III.
O Pe. Delehaye discute o caso desses santos de maneira bastante completa em seu CMH, pp. 336–337. A paixão espúria dos mártires encontra-se impressa no Acta Sanctorum, junho, vol. VI (cf. São Gallicano, 25 de junho). Ver também P. Franchi de Cavallieri, em Studi e Testi, vol. IX, pp. 55–65 e XXVII, pp. 41–63; J. P. Kirsch, Die Römischen Titelkirchen, pp. 26–33, 120–134, 156–158; Lanzoni, I Titoli Presbiterali di Roma antica, p. 46; Analecta Bollandiana, vol. XVII (1930), pp. 11–16; e DAC, vol. II, cc. 2382–2870, onde se encontram boas descrições da suposta casa de João e Paulo na Colina Célio.1

A santo Antelmo se considera, com justiça, como um dos eclesiásticos mais importantes de sua época, devido aos serviços que prestou à Igreja como bispo de Belley, como ministro geral da Ordem dos Cartuxos em uma etapa crítica de seu desenvolvimento, e como um destacado defensor do verdadeiro Papa contra um pretendente ao Pontificado que contava com o apoio de todas as forças do imperador.
Antelmo nasceu no ano de 1107, no castelo de Chignin, a cerca de doze quilômetros de Chambery. Ao receber as ordens, era um jovem sacerdote de princípios sólidos, hospitaleiro e generoso, mas que se interessava demasiado pelas coisas deste mundo. No entanto, suas frequentes visitas ao convento dos cartuxos, em Portes, onde tinha parentes, transformaram radicalmente suas ambições. O que presenciou da vida em comunidade dos monges e o que aprendeu em suas conversas com o prior, bastou para mostrar-lhe sua verdadeira vocação e, consequentemente, abandonou o mundo para tomar o hábito de São Bruno, por volta de 1137. Antes que tivesse terminado o noviciado, foi enviado à Grande Cartuxa, que acabara de perder boa parte de seu edifício, destruído por uma avalanche. No grande centro cartuxo, Antelmo, com seu exemplo e suas qualidades naturais de homem prático, favoreceu o renascimento do fervor e a retomada da prosperidade do mosteiro. Após a renúncia de Hugo I, em 1139, foi eleito como o sétimo prior da “Grande Chartreuse.”
Seu primeiro cuidado foi reparar o edifício danificado, que, uma vez renovado, cercou com uma muralha. Mandou construir um aqueduto e impulsionou a agricultura e o pastoreio nos campos da abadia; enquanto isso, não cessava de pregar sobre a obediência à regra em sua simplicidade original. Logo teve a satisfação de ver seus esforços coroados de êxito. Até então, os monges cartuxos haviam sido independentes uns dos outros e cada qual estava sujeito unicamente ao bispo. Antelmo foi quem convocou o primeiro capítulo geral, pelo qual a Grande Cartuxa foi constituída como casa-mãe. Dessa forma, ele mesmo foi de fato, embora não de nome, o primeiro ministro geral da ordem.

Não é de surpreender que a reputação de sua santidade e de sua sabedoria atraíssem numerosos candidatos; entre estes, que receberam o hábito de suas mãos, figuravam seu próprio pai, um de seus irmãos e o conde Guilherme de Nivernais, que não passou de irmão leigo. Também foi Santo Antelmo quem comissionou o Beato João, o Espanhol, para redigir a constituição para a comunidade de mulheres que desejassem submeter-se à regra dos cartuxos.
Após governar sabiamente durante doze anos a Grande Cartuxa, pôde renunciar, em 1152, para grande satisfação própria, a um cargo que nunca havia desejado. Imediatamente retirou-se a uma cela para viver em solidão, mas não foi por muito tempo. Bernardo, o fundador e primeiro prior do mosteiro de Portes, obrigado pela idade avançada, delegou seu encargo e, a seu pedido, Antelmo foi seu sucessor. O trabalho dos monges havia trazido uma prosperidade incomum ao mosteiro, cujos cofres e celeiros estavam cheios a ponto de transbordar. O novo prior considerava que tamanha abundância era incompatível com a pobreza evangélica e, diante da escassez que prevalecia na região circundante, ordenou a livre distribuição de grãos e dinheiro a todos os que viessem pedir ajuda. Os necessitados foram tantos que o prior vendeu alguns dos ornamentos da igreja para dar esmolas. Dois anos mais tarde, regressou à Grande Cartuxa para entregar-se, durante algum tempo, à vida de contemplação como simples monge. Foi então que lhe ocorreu a ideia de ocupar-se dos assuntos da Igreja fora de sua ordem.
No ano de 1159, a cristandade ocidental estava dividida em dois campos: um favorecia as reivindicações do verdadeiro Papa, Alexandre III, o outro apoiava o antipapa “Vítor IV”, protegido pelo imperador Frederico Barba-Ruiva. Antelmo lançou-se à luta, juntamente com Godofredo, o sábio abade cisterciense de Hautecombe. Ambos tiveram êxito no recrutamento de sua própria comunidade de monges escolhidos de diversas ordens, mas que apoiavam o Papa Alexandre, e organizaram sua causa, na França, na Espanha e até mesmo na Inglaterra.

Sem dúvida, ao menos em parte por gratidão por esses esforços, o Papa Alexandre atendeu a um apelo que lhe foi feito para que ocupasse a sé vacante da diocese de Belley com um partidário seu, e afastou todos os outros candidatos para nomear Antelmo. Foi em vão que o cartuxo suplicou, até com lágrimas nos olhos, que fosse dispensado; o Papa insistiu, e Antelmo viu-se obrigado a aceitar. Foi consagrado bispo em 8 de setembro de 1163.
Na sua diocese havia numerosos aspectos que necessitavam de reforma, e Antelmo começou a trabalhar nisso com sua característica energia. No primeiro sínodo que convocou, fez um impressionante apelo a seus clérigos para que cumprissem com a grande missão que lhes fora confiada: a observância do celibato eclesiástico era negligenciada, e não poucos sacerdotes viviam ostensivamente como homens casados. A princípio, o bispo recorreu apenas a advertências e medidas de persuasão, mas ao fim de dois anos, vendo que as coisas permaneciam mais ou menos as mesmas em certos círculos, impôs um castigo exemplar aos renitentes, privando-os de seus benefícios eclesiásticos. Com igual firmeza tratou do desregramento e da opressão entre os leigos; nenhum dos anteriores bispos de Belley havia sido tão valente e ousado. Quando Humberto III, conde de Maurienne, em violação aos direitos de jurisdição da Igreja sobre os clérigos, prendeu um sacerdote acusado de malversação, Antelmo enviou um prelado para pôr o prisioneiro em liberdade. Na refrega que se seguiu, quando o conde Humberto tentou impedir que o prelado levasse o réu, este acabou morto. Nem mesmo por expressa solicitação do Papa o bispo Antelmo suavizou seu rigor: ao saber que Alexandre III, com quem o conde Humberto mantinha relações amistosas, havia anulado a acusação, retirou-se indignado ao mosteiro de Portes e protestou energicamente, alegando que o Papa havia agido ultra vires, pois nem o próprio São Pedro teria poderes para declarar livre de culpa, de pena e até de censura um pecador impenitente. Com dificuldade, foi convencido a retornar à sua diocese, mas nada serviu para induzi-lo a aceitar Humberto em comunhão. Entretanto, suas relações com Roma permaneciam no mesmo nível de excelência, e não tardou a ser-lhe confiada uma missão como legado na Inglaterra, com o objetivo de tentar reconciliar o rei Henrique II com São Tomás Becket; mas as circunstâncias impediram sua partida.

Ainda mais notável foi a amizade e o favor que lhe demonstrou seu antigo antagonista, o imperador. Mas nem as honrarias dos mais altos dignitários da Igreja e do Estado, nem os deveres pastorais que cumpriu com tanta prudência e sabedoria, afastaram seu coração de sua amada comunidade, e nunca viveu de maneira diferente do mais humilde dos monges cartuxos. O tempo que suas tarefas lhe deixavam livre, ele o dedicava a visitar a Grande Cartuxa ou outra das casas da ordem. Tinha grande afeto por outras duas instituições: uma comunidade de mulheres eremitas num lugar chamado Bons, e uma casa para leprosos, onde costumava cuidar pessoalmente dos enfermos. O curso dos anos não diminuiu sua atividade; mas em certa ocasião, quando distribuía víveres durante um período de fome, foi subitamente acometido por uma febre que lhe seria fatal. Pouco antes de entrar em agonia, teve a satisfação de receber a visita do conde Humberto, que vinha pedir seu perdão e prometer emenda. Santo Antelmo morreu em 26 de junho de 1178, com setenta e dois anos de idade. São Hugo de Lincoln, ao retornar de sua última visita à Grande Cartuxa, pouco antes de morrer, passou por Belley e deteve-se para prestar tributo de veneração aos restos de seu velho amigo Antelmo, cuja fama de santidade se espalhava rapidamente pelos milagres realizados em sua tumba.
Nos Acta Sanctorum, junho, vol. VII, os bolandistas publicaram uma vida de Santo Antelmo que, ao que parece, foi escrita em sua época e cuja cópia foi obtida na Grande Cartuxa. As virtudes e obras do santo são discutidas detalhadamente nos Annales Ordinis Cartusiensis, compilados por Dom Le Couteulx, vols. I e II; também nos Ephemerides Ordinis Cartusiensis, vol. III, pp. 375–406, de Le Vasseur. Há uma boa biografia do santo, em francês: Vie de St. Anthelme, pelo Pe. C. Marchal (1878). Veja-se o Dictionnaire d’Histoire et de Géographie Ecclésiastiques, vol. III, col. 523–525.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, pp. 654-655.
2. Ibid. pp. 659-662.
†REZE O ROSÁRIO DIARIAMENTE!†






















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