Vida de São Paulo da Cruz e São Luís Maria Grignion de Montfort (28 de abril)
- 28 de abr.
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São Paulo da Cruz, fundador dos passionistas, nasceu em Ovada, na República de Gênova, em 1604, quase ao mesmo tempo que Voltaire. Paulo Francisco era o filho mais velho de Lucas Danei, comerciante de boa família. Tanto ele quanto sua esposa eram excelentes cristãos. Sempre que Paulo começava a chorar por qualquer motivo, sua mãe lhe mostrava o crucifixo e lhe falava dos sofrimentos de Cristo. Assim, foi formando pouco a pouco no menino a grande devoção à Paixão, que o distinguiria por toda a vida. O pai de Francisco lia em família as vidas dos santos e exortava os filhos a evitarem os perigos do jogo e das disputas. Embora Paulo fosse uma dessas almas escolhidas que se entregam a Deus desde a infância, aos quinze anos, um sermão que ouviu o convenceu de que não correspondia suficientemente à graça. Assim, depois de fazer uma confissão geral, iniciou uma vida de austeridade: dormia no chão, passava várias horas da noite em oração e praticava severas penitências. Nessas práticas era imitado por seu irmão João Batista, dois anos mais novo. Também fundou uma espécie de sociedade de santificação mútua com seus amigos, vários dos quais mais tarde entraram na vida religiosa.
Em 1714, Paulo partiu para Veneza para responder ao chamado do Papa Clemente XI, que havia pedido voluntários para a guerra contra os turcos; mas um ano depois deixou o serviço, convencido de que não era feito para a vida militar. Sentindo que Deus não o chamava tampouco para uma vida comum no mundo, recusou uma grande herança e um casamento vantajoso. Antes, porém, que ele ou seus diretores descobrissem plenamente sua vocação, viveu vários anos na casa de seus pais, em Castellazzo da Lombardia, onde, pela prática constante da oração, atingiu alto grau de contemplação.

Em três extraordinárias visões que teve em 1720, viu um hábito negro sobre o qual estava gravado o nome de Jesus em caracteres brancos, sob uma cruz, à altura do peito. Na terceira dessas visões, a Santíssima Virgem, vestida com esse hábito negro, ordenou-lhe que fundasse uma congregação cujos membros usassem tal hábito e meditassem continuamente na paixão e morte de Cristo. Paulo apresentou por escrito o relato de suas visões ao bispo de Alexandria, que consultou diversas autoridades, entre elas o capuchinho Columbano de Gênova, antigo diretor espiritual de Paulo. Conhecendo a vida de virtude e oração heroica do jovem desde a infância, todos reconheceram tratar-se de uma vocação verdadeiramente divina. O bispo então autorizou Paulo a seguir o chamado e lhe conferiu o hábito negro, reservando o distintivo da cruz até a aprovação pontifícia. Paulo começou imediatamente a redigir as regras da futura congregação. Durante quarenta dias retirou-se numa cela escura e úmida, junto à sacristia da igreja de São Carlos de Castellazzo, onde viveu a pão e água e dormiu sobre palha. As regras que escreveu então, sem consultar nenhum livro, são substancialmente as mesmas seguidas pelos passionistas até hoje.
Após esse retiro, permaneceu algum tempo com João Batista e outro discípulo nos arredores de Castellazzo, auxiliando o clero na catequese e pregando missões com grande fruto. Contudo, logo compreendeu que precisava da aprovação de Roma para cumprir plenamente sua missão. Assim, descalço, com a cabeça descoberta e sem dinheiro, partiu para a Cidade Eterna. Em Gênova deixou seu irmão. Ao chegar a Roma, apresentou-se no Vaticano, mas, sem credenciais, não pôde entrar. Interpretando isso como sinal de que ainda não era a hora de Deus, regressou tranquilamente. Passou pelas encostas solitárias do Monte Argentaro, que o mar quase separa da península, e ficou tão impressionado com o lugar que voltou depois com João Batista, decidido a viver ali vida semelhante à dos padres do deserto. Mais tarde estiveram em Roma, onde receberam as ordens sagradas; porém, em 1727, retornaram ao Monte Argentaro para fundar o primeiro noviciado, já autorizado pelo Papa.

Na fundação enfrentaram muitas dificuldades. Os primeiros candidatos consideravam a vida demasiado rigorosa e desistiam. Além disso, a ameaça de guerra impediu os benfeitores de cumprir promessas. Surgiu ainda uma grave epidemia nos arredores. Paulo e João Batista, com faculdades missionárias recebidas em Roma, dedicaram-se a administrar os sacramentos aos moribundos, cuidar dos doentes e reconciliar pecadores com Deus. As missões tiveram tanto êxito que começaram a ser chamados por outras localidades. Novos candidatos surgiram, e em 1737 foi concluído o primeiro “retiro” passionista. A partir daí, a congregação floresceu, apesar de provas e decepções. Em 1741, Bento XIV aprovou as regras, e o número de vocações aumentou rapidamente. Poucos anos depois, com várias casas fundadas, realizou-se o primeiro capítulo geral. A fama das missões e da austeridade dos passionistas espalhou-se por toda a Itália. O próprio São Paulo evangelizou quase todas as cidades dos Estados Pontifícios e da Toscana. O tema constante de sua pregação era a Paixão de Cristo. Com uma cruz na mão e os braços abertos, falava dos sofrimentos do Senhor de modo que comovia até os mais endurecidos. Ao praticar penitências públicas pelos pecados do povo, fazia chorar até soldados e bandidos. Um oficial confessou-lhe: “Padre, já estive em muitas batalhas sem tremer ao som do canhão, mas a voz de Vossa Reverência me faz tremer dos pés à cabeça.” No confessionário, tratava os penitentes com ternura, fortalecendo seus bons propósitos, exortando-os à conversão e oferecendo meios concretos para perseverar no bem.

Deus cumulou São Paulo da Cruz com dons extraordinários. O santo predisse o futuro, curou muitos doentes e, ainda em vida, apareceu em várias ocasiões a pessoas que se encontravam muito distantes do lugar onde ele estava. Nas cidades, as pessoas se aglomeravam ao seu redor, tentando tocá-lo e arrancar um fragmento do hábito para guardá-lo como relíquia, apesar de ele rejeitar toda demonstração de veneração. Em 1765, São Paulo teve a dor de perder seu irmão João Batista, de quem nunca se havia separado e com quem mantinha um afeto extraordinário. De temperamento muito diferente, ambos se completavam e lutavam juntos para alcançar a perfeição. Desde que haviam recebido a ordenação sacerdotal, confessavam-se mutuamente, exercendo alternadamente o papel de juiz. A única vez em que discordaram foi quando João Batista se atreveu a elogiar o irmão em sua presença. Isso feriu tão profundamente a humildade de São Paulo que ele proibiu o irmão de lhe dirigir a palavra, o que se tornou uma penitência muito dura para ambos. A tensão desapareceu ao terceiro dia, quando João Batista pediu perdão de joelhos. Nunca mais houve desentendimento entre eles. Em memória dessa amizade, o Papa Clemente XIV confiou, muitos anos depois, a São Paulo da Cruz a basílica romana de São João e São Paulo.
Em 1769, Clemente XIV aprovou definitivamente a nova congregação. São Paulo desejava então retirar-se para a solidão, pois sua saúde estava muito debilitada e considerava cumprida sua missão. No entanto, seus filhos espirituais recusaram-se a substituí-lo, e o Papa, que tinha grande estima pelo santo, quis que ele permanecesse algum tempo em Roma. Nos últimos anos de vida, São Paulo da Cruz dedicou-se à fundação das religiosas passionistas. Após muitas dificuldades, o primeiro convento foi inaugurado em Corneto, em 1771; porém, a saúde frágil do fundador impediu-o de assistir à cerimônia, e ele nunca chegou a ver suas filhas espirituais vestidas com o hábito. Sentindo-se gravemente enfermo, pediu a bênção do Papa, mas o Pontífice respondeu que a Igreja ainda precisava dele por alguns anos. São Paulo recuperou-se parcialmente e viveu ainda três anos. Sua morte ocorreu aos oitenta anos. Foi canonizado posteriormente, e sua festa foi fixada em 28 de abril.
Além dos testemunhos do processo de beatificação, a principal contribuição para a história de São Paulo da Cruz é a publicação de suas cartas em quatro volumes: Lettere di S. Paolo della Croce, organizadas e anotadas pelo P. Amedeo della Madre del Buon Pastore (1924). Destaca-se também o diário espiritual dos quarenta dias de retiro em Castellazzo, em 1720, que revela, mais do que qualquer outro documento, a ação da graça na alma do santo. Existem numerosas biografias em diversos idiomas. A primeira foi escrita por São Vicente Strambi, traduzida para o inglês em três volumes em 1853 e incluída na coleção do Oratório. Em 1924 apareceu uma edição revisada da obra do P. Pio do Espírito Santo; ver também Hunter of Souls (1946), do P. Edmund, C.P. Muitas outras biografias poderiam ser citadas, mas a extensão dos nomes religiosos de seus autores tornaria a lista excessivamente longa.1

São Luís Maria era o mais velho dos oito filhos de João Batista Grignion, modesto cidadão de Montfort, que pertencia então à diocese de Saint-Malo. Ali nasceu o santo. Depois de estudar no colégio dos jesuítas de Rennes, foi, aos vinte anos, para Paris preparar-se para o sacerdócio. Como era pobre demais para entrar no seminário de São Sulpício, ingressou em outra instituição dirigida pelo P. de la Barmondière. Após a morte deste, passou para um seminário ainda mais rigoroso, onde reinava grande pobreza. Os próprios seminaristas preparavam por turno a comida, “para ter o gosto de se envenenarem a si mesmos”, segundo a expressão irônica de um deles. Luís adoeceu gravemente, a ponto de ser levado ao hospital. Ao recuperar a saúde, conseguiu entrar no seminário de São Sulpício, onde permaneceu até concluir os estudos. Em certo ano, teve a honra de ser um dos dois melhores alunos que, segundo o costume, visitavam um santuário de Nossa Senhora. A peregrinação daquele ano foi à catedral de Chartres.
O êxito que obteve, durante os anos de seminário, na catequese das crianças mais abandonadas da cidade, não fez senão confirmar o seu desejo de dedicar-se ao apostolado. Depois de receber a ordenação sacerdotal, esteve algum tempo em Nantes com um sacerdote que preparava jovens para diversas formas de apostolado e, por fim, foi nomeado capelão do hospital de Poitiers. Logo iniciou as reformas necessárias naquela instituição de caridade e organizou, entre o pessoal feminino, o núcleo do que mais tarde se tornaria a Companhia das Filhas da Divina Sabedoria, cujas regras então redigiu. Porém, as reformas provocaram forte reação, e o santo teve de renunciar ao cargo. Em seguida, dedicou-se a pregar missões entre os pobres, que acorriam em massa para ouvi-lo; mas o bispo de Poitiers, influenciado por adversários do servo de Deus, proibiu-o de pregar na diocese. Sem se desanimar, São Luís empreendeu, a pé, viagem a Roma, onde foi recebido pelo Papa Clemente XI; ao retornar à França, trazia o título de missionário apostólico. Como Poitiers continuasse a rejeitá-lo, voltou à sua terra natal, a Bretanha, onde iniciou uma série de missões até a sua morte.

Embora a maioria das paróquias o recebesse de braços abertos, não faltavam críticas severas, a ponto de várias dioceses influenciadas pelo jansenismo lhe fecharem as portas. O santo exortava os fiéis a trazerem livros ímpios para serem queimados publicamente numa grande fogueira, sobre a qual colocava a figura de uma mulher mundana representando o demônio.
Em outras ocasiões, organizava encenações da agonia de um pecador, cuja alma era disputada pelo demônio e pelo anjo da guarda. Ele mesmo representava o pecador, enquanto outros dois sacerdotes faziam os papéis do demônio e do anjo. Apesar disso, sua pregação não era meramente emocional, mas produzia frutos concretos e duradouros, simbolizados pela restauração de igrejas em ruínas, pela ereção de grandes cruzes missionárias, por abundantes esmolas e por profunda reforma dos costumes.
Quase sessenta anos após sua morte, o pároco de Saint-Lô declarava que muitos fiéis ainda praticavam as devoções que Luís Maria havia inculcado em uma de suas missões. A principal delas era a recitação do Rosário, para cuja difusão fundou numerosas confrarias. Além disso, ensinava ao povo orações rimadas e hinos que ele próprio compunha e que ainda são cantados em muitas regiões da França. Ao que parece, seu amor ao Rosário foi o que o levou a ingressar na terceira ordem de São Domingos.

Mas o esforço de evangelização de São Luís não se limitava às missões, pois era dos que acreditavam que a Palavra de Deus deve ser pregada oportuna e inoportunamente. Em certa ocasião, enquanto navegava pelo rio, entre Dinant e Rouen, seus companheiros de viagem começaram a entoar canções obscenas; quando o santo os convidou a rezar o Rosário, zombaram dele, mas, por fim, todos acabaram ajoelhando-se para rezar e escutaram atentamente o sermão que se seguiu às orações.
Em outra ocasião, um baile ao ar livre terminou da mesma maneira. Mas talvez o santo tenha obtido seus maiores triunfos em La Rochelle, que era o centro do calvinismo, onde pregou uma série de missões famosas e reconciliou numerosos protestantes com a Igreja. São Luís tinha, desde há muito tempo, o projeto de fundar uma associação de sacerdotes missionários; mas somente poucos anos antes de sua morte conseguiu reunir os primeiros missionários da Companhia de Maria. A doença súbita que o levou à morte surpreendeu-o quando pregava uma missão em Saint-Laurent-sur-Sèvre. Entregou sua alma a Deus em 1716, aos quarenta e dois anos de idade.
Além de seus versos e hinos, a mais conhecida de suas obras é o tratado da “Verdadeira devoção à Santíssima Virgem”, que voltou a ser divulgado por ocasião de sua canonização, em 1947.
Além das biografias dos contemporâneos, como J. Grandet e o P. de Clorivière (1775), deve-se mencionar a obra de A. Laveille, Le b. L.-M. Grignion de Montfort d’après des documents inédits (1907). Mas existem muitas outras biografias em francês, como as mais recentes de G. Bernoville (1946) e a do P. Morineau (1947). Recomendamos também o volume de L. Jac, na coleção Les Saints. A obra mais completa em inglês é a de Cruikshank, Bd. Louis Marie Grignion de Montfort and His Devotion (2 vols., 1892); ver também a biografia mais breve escrita pelo P. E. C. Bolger (1952). Sobre o testamento que o santo ditou pouco antes de morrer, cf. Analecta Bollandiana, vol. LXVIII (1950), pp. 464-474.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, pp. 169-172.
2. Ibid. pp. 174-176.






















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