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Vida de Santa Hildegarda de Bingen e São Lamberto de Maastricht (17 de setembro)

há 12 minutos
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O assassinato de São Lamberto  (por Jan van Brussel, C. 1490), detalhe do 'Palude Diptych' no Museu Grand Curtius em Liège.
O assassinato de São Lamberto (por Jan van Brussel, C. 1490), detalhe do 'Palude Diptych' no Museu Grand Curtius em Liège.

Landeberto era o nome deste santo a quem todo o mundo chama Lamberto. Era natural de Maastricht e nasceu em uma família nobre e muito rica, entre os anos de 633 e 638. Seu pai o enviou a São Teodardo para aperfeiçoar sua educação, e aquele santo bispo teve tamanha estima por seu pupilo, que não omitiu esforço nem sacrifício para instruí-lo e exercitá-lo nas ciências e na prática das virtudes cristãs. E, por certo, o aluno foi honra para o mestre. Seu biógrafo, que nasceu pouco depois da morte de Lamberto, descreve-o como “um jovem prudente e virtuoso, de agradável presença, cortês e de fina educação e cultura em sua fala e em seus modos; era alto e forte, resoluto na luta, cheio de bom senso, amável, puro, humilde e muito dedicado à leitura. Quando São Teodardo, bispo de Tongres-Maastricht, pereceu assassinado, Lamberto foi indicado para sucedê-lo. Apenas assumira a sede, em 674, quando se instalou como prefeito da cidade o tirano Ebroin e, quase imediatamente depois, Quildeberto II, o rei da Austrásia, foi assassinado, o que deu ocasião a Ebroin para tomar represálias contra todos os que haviam apoiado seu inimigo Quildeberto. A vingança coletiva alcançou Lamberto, que foi expulso de sua sede e retirou-se ao mosteiro de Stavelot. Durante os sete anos em que ali permaneceu, submeteu-se às regras tão estritamente quanto o mais fervoroso dos noviços. Basta mencionar um dos episódios que lhe ocorreram no convento para compreender quanta devoção havia em seu coração por servir a Deus com perfeição em seu estado temporal.


Certa noite de inverno, quando estava prestes a deitar-se para dormir, deixou cair um de seus sapatos e fez grande ruído que chegou aos ouvidos do abade. Este ordenou que o autor daquele estrondo fosse orar aos pés da grande cruz que se encontrava diante da porta da igreja. Imediatamente, saiu Lamberto de sua cela tal como estava, descalço e apenas coberto com sua túnica fina, para ajoelhar-se aos pés da cruz e orar durante horas e horas. Antes do alvorecer, terminada a recitação dos maitines, os monges reuniram-se em torno do fogo e o abade perguntou se não faltava alguém; responderam-lhe que um dos irmãos saíra durante a noite para orar diante da cruz e ainda não havia regressado. Ordenou o abade que chamassem aquele irmão e ficou surpreendido ao ver aparecer o bispo de Maastricht em túnica, descalço e tremendo de frio.


Santa Landrada, por Charles-Antoine  (1747)
Santa Landrada, por Charles-Antoine (1747)

No ano de 681, Ebroin foi assassinado e nomeou-se prefeito do lugar Pepino de Herstal, que expulsou todos os bispos usurpadores e fez retornar os prelados exilados, entre os quais estava São Lamberto de Maastricht. O santo pastor voltou a encarregar-se de seu rebanho com renovado fervor e desempenhou seus deveres episcopais com extraordinário zelo e muito fruto. Ao descobrir que ainda havia numerosos pagãos nas regiões de Kempenland e Brabante, dedicou-se à tarefa de convertê-los pessoalmente: pregou-lhes a fé de Cristo, com sua infinita paciência suavizou o temperamento bárbaro dos pagãos, regenerou-os com a água do batismo e acabou com muitas de suas superstições e más práticas. Junto com Santa Landrada, fundou nas vizinhanças de sua própria sede o mosteiro de Munsterbilzen para monjas.


Entretanto, Pepino de Herstal, depois de viver muitos anos casado com Santa Plectrude, manteve relações adúlteras com Alpaís, irmã da santa (relações das quais nasceu Carlos Martel), e Lamberto não cessou de repreender o casal culpado. Tais censuras irritaram de tal modo Alpaís, que ela foi pedir proteção, amparo e vingança a seu irmão Dodo. Tanto o importunou, que este, com um grupo de seus asseclas, foi em busca de São Lamberto, a quem encontrou ajoelhado em oração diante do altar, na igreja dos Santos Cosme e Damião, em Liège. Ali mesmo se precipitaram todos sobre ele e o assassinaram a punhaladas e golpes de espada. Tal é a nova versão das circunstâncias em que São Lamberto encontrou a morte, mas seus primeiros biógrafos, que escreveram entre os séculos VIII e X, relataram uma história muito diferente. De acordo com eles, dois homens aparentados com Lamberto, Pedro e Andolet, mataram traiçoeiramente outros dois homens que molestavam e perseguiam continuamente o bispo. Dodo, que por sua vez era parente dos assassinados, reuniu seus partidários para tomar vingança e foi pedir contas a Lamberto. O santo bispo admitiu que tanto Pedro como Andolet deviam expiar seu crime e, então, os homens de Dodo precipitaram-se sobre eles e os mataram sem mais demora. Depois foram em busca de Lamberto e, ao descobrir que a porta de seu quarto estava fechada e trancada, um dos homens de Dodo subiu até a janela e lançou uma lança contra Lamberto, que orava ajoelhado, atravessando-o de parte a parte. Aqueles assassinatos ocorreram em uma casa que se situava no que hoje é a cidade de Liège.


Relicário de São Lamberto na Catedral de Liège.
Relicário de São Lamberto na Catedral de Liège.

A trágica morte que Lamberto suportou com resignação e paciência, unida à eminente santidade de sua vida, fizeram com que fosse venerado como mártir. Seu corpo foi trasladado a Maastricht. Os milagres que se sucederam em seu túmulo incitaram o povo a construir uma igreja no lugar onde se achava a casa em que foi assassinado, e o bispo que lhe sucedeu na sede, São Huberto, trasladou suas relíquias ao novo santuário. Ao mesmo tempo, transferiu para o mesmo lugar o centro da sede de Tongres-Maastricht e, em torno da catedral que guardava os restos de São Lamberto, edificou-se a cidade de Liège. O santo é hoje o principal padroeiro do lugar.


Várias biografias de São Lamberto foram escritas durante a Idade Média, e a maioria delas encontra-se impressa no Acta Sanctorum, setembro, vol. V. A primeira por sua data e por sua importância foi editada com comentários críticos por Bruno Krusch em MGH., Scriptores Merov., vol. VI, onde o texto está complementado com os parágrafos extraídos de biografias posteriores escritas por Estêvão, Sigeberto de Gembloux e Nicholas. A extensa controvérsia em relação às causas precisas do assassinato de São Lamberto acha-se claramente exposta na Analecta Bollandiana, vol. XXX (1914), pp. 247-249; ver também pp. 219-347 no segundo volume dos Études Franques (1919). Vários anos antes, esse mesmo autor comentou a controvérsia sob um novo aspecto nos Annales de l’Académie archéologique de Belgique, vol. XXXII (1876). Cf. ainda a Kirchengeschichte Deutschlands, vol. I, pp. 400-401, e Vie la Plus ancienne de S. Lambert (1890), de J. Temarteau.1




Santa Hildegarda de Bingen. Iluminação das Scivias (1151) mostrando a santa recebendo uma visão e ditando ao professor Volmar
Santa Hildegarda de Bingen. Iluminação das Scivias (1151) mostrando a santa recebendo uma visão e ditando ao professor Volmar

Santa Hildegarda, abadessa de Rupertsberg, chamada em seu tempo de “Sibila do Reno”, foi uma das grandes figuras do século XII e uma das mulheres mais notáveis da história. Foi a primeira do grupo dos grandes místicos alemães, poetisa e profetisa, médica e moralista política que enfrentou papas e príncipes, bispos e homens de ciência, com uma coragem à toda prova e uma justiça invencível. Veio ao mundo em 1098, na localidade de Bóckelheim, na região do Nahe e, apenas tendo completado oito anos de idade, seus pais a confiaram aos cuidados da Beata Jutta, irmã do conde Meginhardo de Spanheim, que vivia reclusa em uma cabana vizinha à igreja da abadia fundada por São Disibodo em Diessenberg, não muito longe de sua própria casa. A menina era enfermiça, mas isso não impediu que continuasse sua educação e aprendesse a ler e a cantar em latim, todas as ciências cultivadas pelas monjas daqueles tempos, assim como todos os ofícios e artes que adornavam as mulheres da Idade Média, desde as rainhas até as camponesas. Quando Hildegarda atingiu a idade necessária para receber o véu monástico, a ermida da Beata Jutta já contava com número suficiente de noviças para formar uma comunidade, que adotou a regra de São Bento. Nela Hildegarda recebeu o hábito quando tinha quinze anos e, durante mais dezessete anos, levou no convento uma existência tranquila, desprovida de acontecimentos transcendentais, mas apenas no aspecto exterior, porque interiormente cresceu na graça de Deus, aumentaram e se multiplicaram as extraordinárias experiências espirituais que tivera desde pequena e, como ela mesma diz,


tornou-se natural para mim prever o futuro no curso das conversas e, muitas vezes, quando estava completamente absorvida pelo que pensava ou via, costumava dizer muitas coisas que pareciam estranhas ou sem sentido aos que me escutavam. Nessas ocasiões, eu costumava me perturbar, começava a chorar e, muitas vezes, teria desejado morrer de vergonha. Tinha medo de revelar a alguém o que via e não confiava isso a ninguém, exceto à nobre mulher aos cuidados de quem havia sido entregue, e ela, por sua vez, contou a um monge que conhecia”.


No ano de 1136, morreu a Beata Jutta, e então Hildegarda ocupou seu lugar como prioresa.


Santa Hildegarda de Bingen
Santa Hildegarda de Bingen

A partir de então, suas revelações e visões a assediavam continuamente. Uma voz interior a instava a escrever sobre elas, mas sempre se sentia inibida pelo que as pessoas poderiam dizer, pelas possíveis zombarias e por sua própria incapacidade de se expressar por escrito. Contudo, a voz de Deus insistia e parecia dizer-lhe: “Eu sou a vida e a luz inacessível com a qual iluminarei quem for de minha vontade. Segundo minha vontade, posso mostrar, através de qualquer um dos seres humanos, maravilhas maiores do que as que foram vistas nos tempos passados”. Finalmente, Hildegarda decidiu abrir o coração ao seu confessor, o monge Godofredo, e autorizou-o a comunicar o assunto ao seu abade Conon, que, depois de um cuidadoso estudo, ordenou a Hildegarda que pusesse por escrito aquilo que acreditasse que Deus lhe dizia. Assim fez a monja e começou a escrever sobre a caridade de Cristo, a continuidade do Reino de Deus, os santos anjos, o demônio e o inferno. O abade Conon submeteu esses escritos à atenção do arcebispo de Mainz, que os examinou juntamente com seus teólogos para chegar a um veredicto favorável: “Essas visões provêm de Deus”. O abade escolheu então um monge chamado Volmar para atuar como secretário de Hildegarda, que, em seguida, começou a ditar sua principal obra: um livro que intitulou “Scivias”, formando um apócope das palavras latinas “Nosce vias” (Domini). Hildegarda nos diz que, no ano de 1141,


“um raio de luz de brilho deslumbrante desceu do céu para iluminar minha mente e penetrar em meu coração como uma chama que aquece sem queimar, como o sol que nos dá o calor de seus raios. E subitamente soube e compreendi as explicações dos Salmos, dos Evangelhos e de outros livros da Igreja Católica e do Antigo e do Novo Testamento, mas nã a interpretação dos textos e das palavras, nem a divisão das sílabas ou os tempos das frases”.


Levou dez anos para completar o livro das “Scivias”, que compreende vinte e seis visões sobre as relações entre Deus e os homens pela Criação, a Redenção e a Igreja, juntamente com algumas profecias apocalípticas, advertências e louvores, expressos de forma simbólica. Repetidamente afirma que contemplava todas essas coisas em visões sucessivas que eram a inspiração de toda a sua obra e de seu trabalho ativo. Em 1147, o Papa Beato Eugênio III visitou Tréveris, e o arcebispo de Mainz entregou-lhe os escritos de Santa Hildegarda. O Pontífice nomeou uma comissão para examinar os escritos e a autora e, assim que recebeu um relatório favorável, leu-os pessoalmente e discutiu-os com seus conselheiros, entre os quais figurava São Bernardo de Claraval, que manifestou seu desejo de que o Papa aprovasse as visões da santa e as declarasse genuínas. O Pontífice escreveu uma carta a Hildegarda para expressar sua admiração e contentamento pelos favores que o Céu lhe havia concedido e para aconselhá-la a não se deixar levar pelo orgulho.


Santa Hildegarda de Bingen , por Wilhelm Fassbinder
Santa Hildegarda de Bingen , por Wilhelm Fassbinder

Além disso, autorizava-a a escrever e publicar, com prudência, tudo aquilo que o Espírito Santo lhe inspirasse, e terminava com uma exortação para que continuasse vivendo com suas irmãs no lugar que havia escolhido e na fiel observância da regra de São Bento. Santa Hildegarda escreveu uma extensa carta de resposta, cheia de alusões parabólicas sobre as calamidades dos tempos e com certas advertências ao Papa Eugênio a respeito das ambições de seus próprios colaboradores e servidores.


O lugar a que o Papa se referia em sua carta era a nova casa que Hildegarda havia escolhido para abrigar sua comunidade, muito mais ampla e confortável que o local de Diessenberg. Os monges de São Disibodo, cujo mosteiro havia adquirido importância graças à proximidade com o convento de Hildegarda, suas relíquias da Beata Jutta e a crescente reputação da abadessa, opuseram-se energicamente à transferência das monjas. O abade chegou a acusar Hildegarda de ter se deixado dominar pelo orgulho; entretanto, ela sustentou em todo momento que Deus lhe havia revelado a necessidade de transferir sua comunidade e o lugar para onde deveriam ir. Esse lugar era o Rupertsberg, um monte solitário e árido às margens do Reno, perto de Bingen. No curso da disputa com os monges de São Disibodo, Hildegarda sofreu muito, perdeu a saúde e enfraqueceu grandemente. O abade Conon, talvez suspeitando que ela não estivesse realmente doente, fez-lhe uma visita de surpresa e, ao comprovar que ela não fingia, disse-lhe que, assim que se recuperasse, iria com ela visitar Rupertsberg. Imediatamente sentiu-se curada e levantou-se para ir com o abade. Isso bastou para que Conon retirasse suas objeções, mas não o restante dos monges, que permaneciam firmes em sua atitude, apesar de o chefe da oposição, um monge chamado Arnoldo, ter se colocado a favor de Hildegarda depois de haver sido curado de uma dolorosa enfermidade após rezar na igreja da abadessa. A transferência ocorreu entre os anos de 1147 e 1150, quando as monjas abandonaram a casa, o jardim e a horta de Diessenberg para habitar uma construção maior, porém inacabada, com sua igreja quase em ruínas e situada em um lugar deserto.


Santa Hildegarda de Bingen e suas freiras
Santa Hildegarda de Bingen e suas freiras

Mas, graças à inesgotável energia de Santa Hildegarda, não tardou a surgir em Rupertsberg um verdadeiro mosteiro, “com água corrente em todas as dependências”, segundo dizem as crônicas, com capacidade para alojar confortavelmente cinquenta monjas. Para sua recreação, a versatilidade de Hildegarda proporcionou-lhes uma série de novos hinos, cânticos e motetos, para os quais ela escrevia letra e música, assim como uma espécie de jogo moral ou cantata sacra, chamada Ordo Virtutum, e também escreveu cerca de cinquenta homilias alegóricas para serem lidas na sala capitular e no refeitório. Quando escreveu as biografias de São Disibodo e de São Ruperto, dizia-se que o havia feito por revelação (o mesmo que para muitas outras de suas obras que, provavelmente, foram escritas de maneira natural), embora isso possa ser facilmente desmentido ao demonstrar que as duas biografias contêm todos os dados comuns às tradições que circulavam naquela época. Entre as diversões às quais se entregava em suas horas de ócio — é difícil imaginar que Santa Hildegarda tivesse horas de ócio — encontra-se o jogo chamado “linguagem desconhecida”, uma espécie de esperanto do qual se conservam até hoje cerca de novecentas palavras e um alfabeto. Parece que essas palavras são simplesmente versões assonantes de termos latinos e de alguns alemães, com a agregação de sufixos formados com a letra “z”. De Rupertsberg, a abadessa manteve abundante correspondência, e cerca de trezentas de suas cartas foram reunidas e impressas, embora os pesquisadores tenham manifestado dúvidas quanto à autenticidade de algumas das que supostamente escreveu ou recebeu. Além das epístolas dirigidas a uma ou outra das muitas abadessas que a consultavam, o restante de suas cartas parece constituir-se de homilias, profecias ou tratados alegóricos. Eram destinadas a papas, imperadores e reis (inclusive Henrique II da Inglaterra, antes que assassinasse São Tomás Becket), a bispos e abades. Certa vez, escreveu a São Bernardo e recebeu resposta; também enviou cartas a São Eberardo de Salzburgo e, com muita frequência, à mística cisterciense Santa Isabel de Schönau. Em duas cartas dirigidas aos clérigos de Colônia e de Tréveris, refere-se à indiferença, ao descuido e à avareza de numerosos sacerdotes e prediz, em termos que para ela devem ter sido claros, as calamidades que haveriam de ocorrer por causa disso.


Santa Hildegarda de Bingen no Museum am Strom (Museu Histórico do Rio)
Santa Hildegarda de Bingen no Museum am Strom (Museu Histórico do Rio)

Suas cartas estão cheias dessas profecias e advertências, razão pela qual adquiriu grande fama e popularidade em pouco tempo. Pessoas de todas as classes sociais e das mais diversas condições, vinham de todas as partes para consultá-la; contudo, outras pessoas a denunciaram como fraudulenta, bruxa e demoníaca. Embora o que dizia estivesse quase sempre envolto em complicados simbolismos, quando elogiava ou reprovava (o que era muito frequente), recorria à mais absoluta clareza. Certa vez, Henrique, o arcebispo de Mainz, escreveu-lhe em tom seco e autoritário para que autorizasse uma de suas monjas, uma tal Richardis, a tornar-se abadessa de outro mosteiro. Ela respondeu com estas palavras: “Todas as razões que me forem apresentadas para a promoção dessa jovem mulher carecem de valor diante de Deus. O espírito desse Deus que nos vigia com zelo diz: ‘Chorai e gemei, vós, pastores, por não saberdes o que fazeis ao distribuir os cargos sagrados para satisfazer vossos próprios interesses e os arruinais ao entregá-los a homens perversos, desprovidos de virtude’... Quanto a vós, ficai alerta! Vossos dias estão contados”. Com efeito, o arcebispo foi deposto e morreu pouco depois. Ao bispo de Speyer escreveu para adverti-lo de que seus atos encerravam tamanha maldade que sua alma se encontrava agonizante, e ao imperador Conrado III aconselhou que reformasse sua vida antes que tivesse de se envergonhar por causa dela. Mas Hildegarda não pretendia fazer tais declarações por iniciativa ou ideias próprias. “Eu não sou mais que um pobre vaso de terra e, se digo essas coisas, não é por mim mesma, mas pela luz serena”, confessava em uma carta a Santa Isabel de Schönau. Contudo, essas afirmações não a livravam das críticas e ela estava sempre em dificuldades com alguém, inclusive com suas próprias monjas, que eram, em geral, jovens da nobreza alemã, nas quais ainda conservavam sua força o orgulho e a vaidade. “Muitas delas”, admitia a santa, “persistem em olhar-me com maus olhos e, às minhas costas, despedaçam-me com suas línguas malignas: dizem que não podem tolerar minha insistência na disciplina que procuro impor-lhes e que jamais permitirão que eu as governe”.


Santa Hildegarda de Bingen recebendo inspiração divina e escrevendo Liber Divinorum Operum
Santa Hildegarda de Bingen recebendo inspiração divina e escrevendo Liber Divinorum Operum

Apesar de seu muito trabalho e de suas contínuas enfermidades, as atividades de Santa Hildegarda não se limitavam ao seu convento e, entre os anos de 1152 e 1162, realizou numerosas viagens por toda a região da Renânia. Fundou uma segunda casa em Eibingen, perto de Rüdesheim, e, em suas frequentes visitas aos conventos, não se calava ao repreender duramente monges ou monjas, caso tivesse descoberto algum relaxamento na disciplina de seus mosteiros. Na realidade, suas viagens pelas terras do Reno foram um antecedente das que posteriormente seriam realizadas pelas “abadessas inspetoras”. Em Colônia, Tréveris e outras cidades, dirigia-se às personalidades mais eminentes e representativas do clero para transmitir-lhes as advertências divinas que houvesse recebido e para exortar, com o mesmo rigor e firmeza, bispos e leigos. É possível que a primeira dessas viagens tenha sido a que realizou a Ingelheim para encontrar-se com Frederico Barbarossa. A entrevista aconteceu, mas, infelizmente, nunca se soube o que foi tratado nela. Também visitou Metz, Würzburg, Ulm, Werden e Bamberg e, entre uma e outra de suas incontáveis viagens que a levaram, apesar de suas enfermidades e fraqueza, a lugares remotos e inacessíveis onde houvesse um mosteiro, encontrava tempo para escrever. Entre suas numerosas obras figuram dois livros de medicina e história natural. Um deles trata das plantas, dos elementos, das árvores, dos minerais, dos peixes, das aves, dos quadrúpedes, dos répteis e dos metais, distinguindo-se por suas minuciosas observações científicas; o segundo aborda o corpo humano e as causas, os sintomas e os tratamentos de suas enfermidades. O extraordinário é que a santa, em seus tratados, chega a insinuar, pelo menos, alguns dos modernos métodos de diagnóstico e se aproxima de várias das grandes descobertas posteriores ao seu tempo, como a circulação do sangue, por exemplo. Também trata da psicologia normal e patológica; refere-se ao frenesi, à loucura, aos temores, às obsessões e à idiotia, e diz que


“se a dor de cabeça, os vapores e as tonturas atacam o paciente simultaneamente, fazem-no disparatar e perturbam sua razão. Por isso, muitas pessoas acreditam que o paciente está possuído por um espírito maligno, mas não é verdade”.


Gravura de Santa Hildegarda de Bingen, por W. Marshall
Gravura de Santa Hildegarda de Bingen, por W. Marshall

Durante os últimos anos de sua vida, Santa Hildegarda viu-se envolvida em grandes complicações e dificuldades relacionadas a um jovem que havia sido excomungado e que, ao morrer, recebeu sepultura cristã no cemitério da abadia de São Ruperto. O vigário-geral de Mainz ordenou que o cadáver fosse exumado para ser trasladado para outro lugar. Santa Hildegarda opôs-se, alegando que o jovem havia recebido os últimos sacramentos e, além disso, que tivera uma visão que lhe revelara que sua ação havia sido justificada. Por causa desse conflito, a abadia foi colocada sob interdito. Naquela época, Hildegarda dirigiu ao capítulo de Mainz uma extensa carta sobre música sacra que é, segundo diz,


“a única lembrança, quase esquecida, daquele estado primitivo que perdemos ao perder o Paraíso. É o símbolo da harmonia que Satanás rompeu, a harmonia que ajuda o homem a construir uma ponte de santidade entre este mundo e o Mundo de plena Beleza. Portanto, aqueles que, sem uma razão válida, impõem silêncio às igrejas onde deveria ouvir-se sem cessar o canto em honra de Deus, não serão dignos de escutar os gloriosos coros dos anjos que louvam o Senhor nos céus”.


Imagem de Santa Hildegarda de Bingen na capela de S. Rochus (São Roque)
Imagem de Santa Hildegarda de Bingen na capela de S. Rochus (São Roque)

Ao que parece, a santa tinha dúvidas sobre o efeito que sua comovente eloquência produziria entre os cônegos de Mainz, pois, ao mesmo tempo, escreveu uma carta em tom muito mais enérgico ao arcebispo, que então se encontrava na Itália. Em consequência daquela missiva, o arcebispo suspendeu a proibição da música sacra nas igrejas de Mainz, mas, em contrapartida, não atendeu a outro pedido de Hildegarda, apesar de tê-lo prometido, no sentido de abandonar as lutas e intrigas em Roma para voltar e governar sua própria diocese. Já então Hildegarda estava debilitada pelas enfermidades e mortificações; não conseguia manter-se de pé e precisava ser carregada de um lugar para outro. Mas “aquele instrumento desgastado e quebrado”, segundo a frase de seu amigo e capelão, Martinho Guibert, ainda produzia belos sons; até o último momento esteve à disposição de quem quer que precisasse dela, deu conselhos aos que os solicitavam, respondeu a complicadas perguntas, escreveu, instruiu suas monjas, encorajou os pecadores e não teve um instante de descanso. Pouco tempo depois de sua controvérsia com o capítulo de Mainz, em 17 de setembro de 1179, morreu pacificamente. Os numerosos milagres que realizou em vida multiplicaram-se em seu túmulo, segundo consta no processo de beatificação que, por duas vezes, foi iniciado perante a Santa Sé e nunca chegou a ser concluído. Contudo, o Martirológio Romano a nomeia como santa e sua festa é celebrada até hoje em várias dioceses da Alemanha.


As visões e revelações que Santa Hildegarda afirmou ter recebido ou que lhe são atribuídas encontram-se entre os mais famosos desses fenômenos, e seu dom de expressar ideias por meio de símbolos e imagens permitiu que fosse comparada a Dante e a William Blake. Por exemplo, descreve assim a queda dos anjos:


“Vi uma grande estrela, de muito esplendor e beleza, da qual caía uma multidão enorme de faíscas incandescentes que a seguiam em seu curso para o sul. E todos olhavam para Ele em seu trono, com um ar de hostilidade, até que, de repente, deram-Lhe as costas e se dirigiram para o norte. Repentinamente, todos foram aniquilados e transformaram-se em carvões negros... E assim caíram no abismo, onde os perdi de vista”.


Queda dos Anjos — Scivias, de Santa Hildegarda de Bingen, fólio 123r (III.1), Códice de Rupertsberg.
Queda dos Anjos — Scivias, de Santa Hildegarda de Bingen, fólio 123r (III.1), Códice de Rupertsberg.

Nos desenhos que ilustram algumas folhas do manuscrito, os anjos caídos são representados por estrelas negras que ostentam um ponto luminoso no centro e são cercadas por um halo dourado que emite pequenos pontos brancos. Acima das estrelas negras, longe no horizonte, ainda brilham algumas pequenas estrelas de luz dourada que se agrupam em caudas ondulantes e que, segundo os intérpretes dos símbolos, representam olhos flamejantes que vigiam... Frequentemente, as representações das estrelas luminosas mostram-nas como se estivessem em movimento ou efervescência, tal como foram descritas por muitos visionários, desde Ezequiel em diante.


“Essas visões eu tive”, escreve Santa Hildegarda, “não dormindo nem em sonhos, nem em momentos de loucura, nem com os olhos do corpo, nem com os ouvidos da minha cabeça, nem em lugares escondidos; mas eu as vi plenamente, de acordo com a vontade de Deus, quando estava desperta e vigilante, com os olhos do espírito e os ouvidos interiores. E a pobre carne humana deve ter muitas dificuldades para investigar e explicar como aconteceu aquilo que digo”.


As visões relatadas na Scivias obtiveram a aprovação cautelosa do Papa Eugênio III, mas deve-se ter em conta que nem estas nem outras aprovações de revelações particulares impõem a obrigação de acreditar nelas. A Igreja as recebe como prováveis e nunca como certas; por isso, os indivíduos devem recorrer à prudência e rejeitar a veracidade até mesmo das mais dignas de fé.


Grande parte de nossas informações relativas à vida e aos feitos de Santa Hildegarda provém de sua própria correspondência e de seus escritos, mas também existem duas ou três biografias, de acordo com o conceito que se tinha sobre as biografias na Idade Média. A mais notável é a que escreveram os dois monges Godofredo e Teodorico, que se encontra impressa na Acta Sanctorum, sept., vol. V. Há outra, a de Guiberto de Gembloux, editada pelo cardeal Pitra em sua Analecta Sacra, vol. VI. Também existem dados de uma investigação realizada em 1233 com vistas à sua canonização, que foram publicados pelos bolandistas. Além disso, nos tempos atuais surgiu uma abundante literatura em torno da eminente mística alemã. Veja-se, em particular, J. May em Die hl. Hildegard von Bingen (1911), assim como a muito completa bibliografia do DTC., vol. VI, cols. 2468-2480. Por outro lado, atualmente foram estudados quase todos os aspectos das atividades de Hildegarda. Seus avanços na investigação científica chamaram a atenção na Inglaterra, como demonstra a obra de C. Singer, Studies in the History and Methods of Science (1917). Na Alemanha e na França surgiram numerosas monografias que tratam não apenas de suas especulações médicas, mas também de suas composições musicais e artísticas. Por exemplo, as ilustrações que adornam o codex minor da Scivias foram reproduzidas por L. Baillet em Monuments et Mémoires publiés par l'Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, vol. XIX (1911). Há um breve relato de caráter popular sobre Santa Hildegarda escrito por F. M. Steel, com o título Life and Visions of St. Hildegarde (1914). Veja também J. P. Schmelzeis, em Das Leben und Wirken der hl. Hildegarda (1879); e J. Christophe, em St. Hildegarde (1942).2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, pp. 595-596.

2. Ibid. pp. 597-603.



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a degradar,

a sociedade

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de Ligório

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