Vida de Santa Eugênia de Roma e Os 20.000 Mártires de Nicomédia (25 de dezembro)
- Sacra Traditio

- 25 de dez. de 2025
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A Lenda de Santa Eugênia, assim como a de Santa Marina, Santa Reparata e outras, consiste na fábula de uma mulher que vive disfarçada de monge e é acusada de um delito que lhe era impossível cometer. Para variar, relataremos aqui o conto com as palavras da Legenda Áurea.
Eugênia, a nobre virgem, era filha de Filipe, duque de Alexandria, que governava toda a terra do Egito em nome do imperador de Roma. Certo dia, Eugênia saiu ocultamente do palácio de seu pai, acompanhada por dois servidores (Santos Proto e Jacinto) e, com os trajes, o porte e os hábitos de um homem, refugiou-se em uma abadia, onde levou uma existência tão santa e exemplar que não demorou para que lhe fosse confiado o cargo de abade. E aconteceu que nenhum dos monges sob sua autoridade sabia que o abade era uma mulher e, no entanto, uma dama o acusou formalmente de adultério perante o juiz, que era o pai da acusada. Eugênia foi imediatamente lançada na prisão, à espera do julgamento que a condenaria à morte. Mas a nobre virgem conseguiu falar longamente com o juiz, seu pai, até convertê-lo à fé de Jesus Cristo. Só então lhe revelou que era uma mulher, deu-se a conhecer como sua filha e lhe recriminou por tê-la mantido encarcerada por um crime que não podia ter cometido. Assim que as coisas se esclareceram, a dama que havia formulado a falsa acusação ardeu com o fogo do inferno juntamente com todos os seus cúmplices. O juiz, pai de Eugênia, tornou-se um santo bispo e, enquanto celebrava a Missa, foi degolado pela fé em Jesus Cristo. Além disso, a dama Cláudia (mãe de Eugênia) e todos os seus filhos transferiram-se para Roma para ensinar a doutrina. Muitos homens do povo foram por eles convertidos, enquanto Eugênia conquistava inúmeras donzelas para o serviço de Deus. A bem-aventurada Eugênia foi atormentada de muitas maneiras e, por fim, a espada consumou o seu martírio. Assim ofereceu o seu próprio corpo a Nosso Senhor Jesus Cristo, qui est benedictus in saecula saeculorum. Amém.
Em primeira instância, foi o bispo Heleno, de Heliópolis, quem enviou Eugênia ao convento dos monges, depois de tê-la acolhido, instruído e batizado, após a jovem ter fugido de sua casa vestida com roupas de homem. A falsa acusação ocorreu porque Eugênia rejeitou as proposições amorosas de uma mulher agradecida, a quem havia curado milagrosamente de uma enfermidade.
Os detalhes romanescos da donzela que se disfarçou de homem foram arbitrariamente atribuídos a outra Santa Eugênia, uma mártir romana que foi sepultada no cemitério de Aproniano, na Via Latina, onde posteriormente foi edificada uma basílica em sua honra, igreja esta que foi restaurada no século oitavo.

Há dois textos latinos dessa lenda que chamaram a atenção dos eruditos. O mais antigo é o que se encontra impresso no Sanctuarium de Mombritius. Em data anterior, contudo, foi feita com base nesse manuscrito uma versão que alcançou grande difusão. É esta que se encontra impressa no Vitae Patrum de Rosweyde, pp. 340-349, e que também aparece, por duas vezes, na PL. de Migne, vol. XXI e LXXII. Também se conhecem duas ou três adaptações gregas diferentes em manuscritos, e a de Metafrasto foi impressa na PG. de Migne, vol. CXVI, pp. 609-652. Além de tudo isso, há uma versão siríaca publicada com sua correspondente tradução para o inglês por A. Smith-Lewis em Studia Sinaitica, vols. IX e X; há outra armênia que foi traduzida e editada por F. C. Conybeare em The Armenian Apology of Apollonius, onde a cronologia é muito duvidosa. Por fim, a primeira parte da história encontra-se em um texto etíope que foi impresso e traduzido para o inglês por E. J. Goodspeed. Em sua Étude sur légendier romain (1936), pp. 171-186, Delehaye comenta minuciosamente a lenda e, tanto ali quanto em seu CMH., demonstra que há razões para crer que Santa Eugênia existiu e que foi uma mártir autêntica em Roma.1

O massacre de 20.000 cristãos em Nicomédia, que, segundo os gregos, ocorreu no dia do Natal do ano 303, está registrado assim no Martirológio Romano:
“Em Nicomédia, a paixão de muitos milhares de mártires que se haviam reunido para prestar culto ao Senhor no dia do nascimento de Cristo. O imperador Diocleciano ordenou que as portas da igreja onde se encontravam os cristãos fossem trancadas, que se acendesse uma fogueira em torno do edifício e que, diante da porta principal, fosse colocado um trípode com brasas e incenso. Ordenou também que a fogueira fosse acesa enquanto um arauto proclamava, de modo que pudesse ser ouvido do interior, que todo aquele que quisesse livrar-se do fogo saísse pela porta principal para oferecer incenso a Júpiter. E, quando todos, como um só, os que estavam dentro da igreja declararam que estavam prontos a morrer por Cristo, alimentou-se a imensa fogueira com ramos secos, avivaram-se as chamas e todos pereceram no fogo. Dessa maneira, puderam nascer para o céu naquele mesmo dia em que aprouve a Cristo nascer na terra para a salvação do mundo”.
Há um documento histórico no qual se registra a informação de que a igreja de Nicomédia foi derrubada, e não incendiada, no dia 23 de fevereiro do ano 303, por ordens de Diocleciano, mas nada se diz acerca das pessoas que morreram.
A nota do Martirológio Romano foi tomada de informações gregas. O Sinaxário de Constantinopla, tal como está editado no Acta Sanctorum, comemora no dia 28 de dezembro (cc. 349-352) os 20.000 mártires queimados em Nicomédia, com alguns detalhes adicionais. Naturalmente, o número é muito exagerado, mas há provas suficientes, tanto em Eusébio (liv. VIII, caps. 5-8) como no breviário siríaco, de que Nicomédia era o centro onde a perseguição alcançou maior intensidade no ano de 303.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 612-613.
2. Ibid. p. 613.


























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